
As pandorgas sem censura
Em Saquarema, acho que pesquei a minha infância de volta. Estive em Saquarema, no interior do Rio de Janeiro. Antes de entrar na tenda da Feira do Livro para dar uma palestra, bastou-me ver o horizonte cheio de papagaios para sentir saudade da minha meninice.
Eu me impressionei com a quantidade de adereços coloridos serpeando pelo alto. Naquele lugar, o céu não fora ainda cancelado para as crianças. Rivalizava com o mar e empatava em número de frequentadores.
Experimentei essa sensação de liberdade, de flutuação, nos anos 70, quando não havia esse emaranhado feio e triste de cabos telefônicos e de energia elétrica em Porto Alegre. Encontrávamos mais espaço na rua, menos prédios, menos carros, mais largura de calçada para correr e avançar em grandes passadas retilíneas.
No solo, andávamos de carrinho de lomba. No céu, empinávamos pandorgas, sem olhar para o chão, sem tropeçar, em amizade leal com os paralelepípedos. Diferentemente da bola, cara e com potencial de destruição, capaz de quebrar vidraças e derrubar o que aparecesse pela frente, a engenhosidade caseira não custava nada e não ofendia ninguém.
Com papel seda, taquara, linha e cola já tínhamos o que precisávamos. Material simples e barato para tanta aventura e alegria, para testarmos nossas habilidades, para aperfeiçoarmos a coordenação motora e a percepção visual brincando. Aprendíamos aerodinâmica sem saber o nome disso.
A taquara era afinada a ponto de cortar como faca. Preparávamos as varetas e depois amarrávamos o cabresto por entre elas. Aos poucos, grudávamos a folha na madeira, esperávamos quinze minutos para fixar, com o relógio do sopro, impacientes.
O segredo estava na rabiola, uma tira longa feita de papel, fita ou tecido, atada à parte de baixo. Ajudava a estabilizar o invento no ar. Permitia que ele durasse. Vencesse o vento. Suportasse o peso. Desafiasse a chuva.
Lutávamos contra a derrota, que significava o estalo seco da ruptura da linha. Uma pipa perdida era um amor não correspondido. Mas a autoridade do menino que fui vinha justamente da dor, de suas experiências malsucedidas. Quanto mais acidentes, mais sábio ficava. Corrigia os defeitos a cada novo modelo.
Voávamos durante horas, com o radar dos nossos olhos acompanhando o objeto de desejo, que desviava dos telhados vizinhos — esses aeroportos de pousos forçados. Travávamos um dueto mudo, inclinando o pescoço para trás até doer. Pegávamos coragem no tranco, no meio do caminho.
Não havia maior sorriso de satisfação do que quando nosso aeroplano alcançava a brisa, encaixava-se certinho numa corrente e surfava a crista invisível das ondas do firmamento. As mãos restavam queimadas pela fricção do barbante. Retornávamos para o lar com o dedão arameado, vermelho, latejando.
Ganhava quem superava os muros, os postes, as árvores e conseguia ultrapassar os três metros de altura. Ganhava quem ia soltando a corda até o fim, como quem pescava as nuvens. Ganhava quem anoitecia, trocando o sol pela lua.
Em Saquarema, acho que pesquei a minha infância de volta.
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