quinta-feira, 25 de dezembro de 2025


24 de Dezembro de 2025
MÁRIO CORSO

Aproveite o Natal

A literatura revela nossos dramas. O autor infantil Dr. Seuss criou um personagem que odeia o Natal. Grinch, esse é o seu nome, é uma criatura verde e peluda que tentou roubar o Natal. Ele não suportava a alegria de quem conseguia se divertir esperando Papai Noel.

Se você não gosta de Natal, faz parte do arco das possibilidades existenciais, sem drama. O problema só começa se teu Grinch interior esverdear tua alma e deixar peludo teu estado de ânimo.

O Grinchismo geralmente apela à razão objetiva. Renas, neve, trenó, nada combina com o Brasil. Certo, e daí? Trata-se de um espaço mágico, pertence à gramática da fantasia, tanto faz o cenário. O gelo contrasta com o quente aconchego do lar. Talvez por ter amadurecido, alguém não recorde o simbolismo, mas todas as crianças do planeta entendem esse dentro e fora do amor/calor familiar da qual a chaminé é testemunha.

Convenhamos, o Natal não é uma data fácil. Ele entra na seara do ranking dos afetos - aquele onde as contas nunca fecham. Ou ainda, o desafio de saber onde cada um está situado na foto da família. O filho que é considerado preferido, mas a que custo? Os que já chegam emburrados, para quem é essa cara? O parente esquecido, que peso alheio ele carrega? Presenteamos por obrigação, culpa ou amor?

A dinâmica de dar e receber presentes - que segundo os antropólogos começou milênios antes do capitalismo -, não é de uma contabilidade simples. Em outras palavras, Natal não é para espíritos fracos, ele exige muito. Entendo quem tem seu pé atrás quando escuta Jingle Bells, entendo a exasperação da pressão por felicidade coletiva.

Mas o Natal funciona como um verbo ativo. "Aproveitar" não é um estado de graça que nos alcança, mas uma decisão que tomamos, um convite que aceitamos apesar de tudo. É atravessar o deserto do desânimo e encontrar, um lampejo do aconchego que a festa promete. Nem que seja vendo a parentada ou os amigos sendo, como sempre, quem são. É o rito, a repetição, que conforta.

Se você é daqueles que não tolera o Natal, tente desafiar suas certezas. Tente roubar de volta uma festa que um dia foi sua. Os instantes de calor compartilhados valem a complexidade do esforço. Feliz Natal a todos! 

MÁRIO CORSO

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