segunda-feira, 29 de dezembro de 2025



28/12/2025 - 17h38min
Opinião da RBS

Mortes no trânsito não são fatalidades: é preciso mudar a cultura de mobilidade urbana

Os pedestres têm que ser o centro da mobilidade urbana, não apenas por serem mais numerosos, mas, principalmente, por configurarem a parte mais frágil do sistema

Contam-se aos milhares os acidentes de trânsito nas estradas do país durante o feriado do Natal e a previsão das autoridades policiais é de que o morticínio se repita na virada do ano, devido aos excessos de sempre: imprudência dos motoristas, alta velocidade, desrespeito à sinalização e ingestão de álcool antes de dirigir. Por mais que a fiscalização seja intensificada, os casos fatais costumam crescer nos períodos de grande movimentação. Isso sem contar ferimentos, mutilações e danos materiais. Será essa tragédia nacional uma fatalidade própria de países com grandes frotas de veículos automotores? A resposta é um NÃO! em letras maiúsculas, como demonstram nações detentoras de baixíssimos índices de mortes no trânsito, notadamente o Japão, a Suécia, a Noruega e a Holanda.

Um exemplo bem-sucedido dessa estratégia é o conceito de “visão zero”, criado na Suécia, pelo qual se popularizou a ideia de que nenhuma morte no trânsito é aceitável

O Brasil já avançou muito em termos de legislação preventiva e punitiva, mas ainda tropeça em aspectos essenciais como gestão pública, cultura da mobilidade, infraestrutura viária, fiscalização e, principalmente, prioridade política. É muito fácil atribuir a responsabilidade pelo descalabro no trânsito unicamente aos condutores de veículos, que realmente precisam ser educados e reciclados permanentemente. Não há fiscalização capaz de impedir um acidente quando os motoristas utilizam seus carros como armas. Mas a aplicação de políticas públicas consistentes acaba chegando aos cidadãos de modo a inibir comportamentos inadequados. 

Um exemplo bem-sucedido dessa estratégia é o conceito de “visão zero”, criado na Suécia, pelo qual se popularizou a ideia de que nenhuma morte no trânsito é aceitável. Assim, em vez de o poder público simplesmente responsabilizar os motoristas, assume o compromisso de projetar um sistema capaz de evitar falhas fatais. Claro, isso inclui planejar uma estrutura de trânsito mais amigável, com ruas, esquinas, cruzamentos e rodovias pensados para evitar riscos. A mudança de óptica sobre a fiscalização também conta. No Brasil, parcela expressiva da população vê os fiscais de trânsito como agentes arrecadadores, e não como servidores públicos preparados para proteger os cidadãos. Nos países referidos, a fiscalização é baseada em dados: locais perigosos são constantemente vigiados e a prioridade dos agentes é a orientação, nunca a armadilha à espera de deslizes.

Mudar a cultura, portanto, é a ação que precede as demais, começando pela educação das crianças, dos pedestres e dos condutores. Os pedestres têm que ser o centro da mobilidade urbana, não apenas por serem mais numerosos, mas, principalmente, por configurarem a parte mais frágil do sistema. Se a direção defensiva é essencial como recurso para evitar acidentes mesmo quando o outro motorista se comporta mal, a direção protetiva pode salvar vidas alheias com o uso dos mesmos recursos: atenção permanente ao redor, limitação da velocidade, observação da sinalização e distância do celular.

Acima de tudo, o enfrentamento das tragédias que se repetem periodicamente nas estradas e nas vias urbanas do país é uma questão de prioridade política, de gestão integrada e de ações continuadas — responsabilidade maior do poder público, dos governantes e dos demais representantes políticos.

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