quinta-feira, 23 de novembro de 2017


23 DE NOVEMBRO DE 2017
DAVID COIMBRA

Não faça isso com seu passado



Há quem goste de escrever na banheira. Vinicius de Moraes concebia poemas de amor e dor na banheira, dava entrevistas na banheira, recebia amigos na banheira, bebia uísque na banheira e foi na banheira que se sentiu mal pela primeira vez no dia em que ia morrer.

Marat, "o amigo do povo", também morreu na banheira, mas não de doença; de morte matada - uma moça chamada Charlotte Corday enfiou-lhe uma faca no peito e trespassou-lhe o coração.

Como catzo Charlotte entrou no banheiro de Marat? Isso era comum. Quando jovem, Marat imiscuiu-se nos esgotos de Paris para fugir da polícia. Lá, entre ratazanas gordas, contraiu uma terrível doença de pele, que lhe provocava ardores o dia inteiro. Para se aliviar da coceira, Marat passava o maior tempo possível dentro de uma banheira cheia d?água morna. Então, assim como Vinicius, ele fazia tudo na banheira, e, da banheira, já nas vascas da morte, implorou para a assassina:

- Ajude-me, cara amiga!

Isso sempre me intrigou. Por que ela o ajudaria, se o havia apunhalado? Será que Marat queria lhe despertar compaixão? Será que esperava mesmo salvar-se, ou pretendia fazer com que Charlotte sentisse remorso pelo que cometeu? Seria, aquela frase, uma covardia ou um último lampejo de inteligência?

De qualquer forma, não era de Marat nem de Vinicius que queria falar, e sim de Agatha Christie. Era na banheira, imersa em água quente, que ela planejava e produzia seus romances. Enquanto pensava no que ia escrever, Agatha tomava banho e comia maçãs. Muitas maçãs. Uma para cada capítulo do futuro livro, e alguns se elevavam a mais de 40 capítulos.

Li dezenas de livros da Agatha Christie nos tempos de guri. Ela escreveu mais de 90, e até os meus 15 anos de idade devo ter traçado no mínimo 50. Do seu principal personagem, o detetive Hercule Poirot, li todos. E, dias atrás, assisti ao filme que o inglês Kenneth Branagh fez baseado em um de seus romances, Assassinato no Expresso do Oriente.

O filme é bom. No elenco estão Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Willem Dafoe, Penélope Cruz e o próprio Branagh. As cenas são belíssimas. A trama é bem conduzida. Para quem leu o livro, é uma diversão nostálgica.

Pois, embalado pela nostalgia, depois de sair do cinema, tomei de um volume da velha Agatha que tenho aqui e resolvi recuperar aquela experiência infantojuvenil. Não devia ter feito isso. Passadas algumas páginas, senti-me amassado pela puerilidade. Fechei rapidamente o romance. Decidi não ir em frente, para não ficar ainda mais decepcionado.

Lembrei-me do Jorge Barnabé. Quando soube que um amigo nosso preparava-se para reencontrar uma antiga namorada, que ele não via há uns 20 anos, o Jorge Barnabé pegou-o pelos ombros e pediu, com a solenidade da concordância verbal:

- Não vá a esse encontro! Não faça isso com o seu passado!

Está certíssimo, o Jorge Barnabé. O passado fica bem quando fica no passado.

DAVID COIMBRA

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