Infraestrutura e maior representatividade são desafios para o desenvolvimento

Luciane MedeirosEditoraDe Santana do Livramento
Aumentar a representatividade dos produtores rurais, minimizar os problemas de infraestrutura, de mão de obra e avançar em inovação foram alguns dos destaques do terceiro encontro do projeto Mapa Econômico do RS, realizado na tarde desta terça-feira (12) em Santana do Livramento, no Sest Senat. Lideranças políticas e empresariais da Fronteira Oeste, regiões Sul, Centro-Sul e Campanha participaram do evento, uma iniciativa do Jornal do Comércio que debate os desafios e oportunidades para o desenvolvimento do Estado.
Os painelistas foram o presidente do Sindilojas Livramento, Sérgio Oliveira; a presidente da Associação de Produtores Rurais da APA do Ibirapuitã (Aprai) e da Mesa Brasileira de Pecuária Sustentável (MBPS), Ana Doralina; e o presidente do Sindicato Rural de Santana do Livramento, Lourenço Acauan. O editor-chefe do Jornal do Comércio, Guilherme Kolling, foi o mediador do painel.
Na abertura do encontro, o diretor-presidente do JC Giovanni Jarros Tumelero explicou que o projeto Mapa Econômico possibilita comparar as regiões do Estado a partir dos dados levantados. "Espero que a gente possa dar a luz ao que precisa ser feito aqui para o desenvolvimento econômico da região", afirmou Tumelero.
Em mensagem gravada, o governador Eduardo Leite (PSD) lembrou os dados coletados no Anuário de Investimentos no Estado, outro projeto do JC, e o aumento no número de investimentos no Estado nos últimos anos.
O prefeito de Santana do Livramento, Evandro Gutebier, destacou a importância do encontro por se tratar de um painel regional, que debate o desenvolvimento da região. Gutebier, que é produtor rural, citou a pujança do setor primário do município e a importância de parceria com o setor privado. “O público não fica de pé sem o privado, é o privado que desenvolve a economia pujante. Estamos nos desenvolvendo nos últimos anos com os free shops, somos um dos maiores produtores de uvas do Estado no Rio Grande do Sul, mas agradecemos sempre ao setor privado”, afirmou. O prefeito disse que o setor público precisa ser um facilitador para o desenvolvimento. “O Trem do Pampa levou 14 anos para sair”, lembrou.
O editor-chefe do JC, Guilherme Kolling, explicou que o propósito do Mapa Econômico é mapear os desafios e oportunidades a partir de dados. Ao longo dos quatro anos do projeto, a infraestrutura é o principal desafio, seguido por mão de obra e os eventos climáticos.
Kolling explicou a relação entre clima e o Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul nos últimos seis anos, período em que o Estado enfrentou estiagens e enchentes. "O Rio Grande do Sul representa hoje 5,9% do PIB do Brasil e a relação entre clima e PIB é clara. Em 2019, o RS era 6,5% do PIB do Brasil e agora 5,9%. Quando o PIB sobe significa que choveu adequadamente no RS e o agro vai bem. Quando cai, é o contrário", ressaltou.
Outro desafio é a população. A partir de 2027, o Estado vai começar a perder população. Nos indicadores de oportunidades, o Mapa Econômico identificou mais de 90 oportunidades para o desenvolvimento, uma vez que o Estado tem uma economia. "Na região Norte, o beneficiamento de grãos e o biocombustível é uma oportunidade. Na Serra, pequenas e médias indústrias e a expansão do enoturismo que agrega no agro, na indústria e nos serviços e na hotelaria", exemplificou, entre outros projetos em desenvolvimento.
O primeiro painelista a falar foi Ana Doralina, presidente da Aprai e da Mesa Brasileira de Pecuária Sustentável. Ana, que é produtora rural, lembrou o trabalho para aumentar a representatividade do setor da região, inserido em uma Área de Proteção Ambiental (APA). Muitas vezes não existe localmente um reconhecimento do que é uma APA, o que é possível produzir e quais as regras para os produtores. Ela pontuou que Santana do Livramento é muito importante dentro da produção pecuária gaúcha: dos mais de 11 milhões de bovinos, 4,6% estão dentro de Livramento e a cidade tem quase 10% de toda produção de ovinos do Rio Grande do Sul.
"Temos que gerar esse reconhecimento e contar nossa história, o quanto nos dedicamos e temos de desafio para conseguir produzir e encontrar o caminho. Precisamos de uma marca coletiva, uma Indicação Geográfica, falar sobre turismo dentro da APA para mostrar o que é uma área de proteção ambiental. Mas não vamos fazer nada sozinhos, temos que construir com a comunidade para que a gente possa se fortalecer", afirmou.
Lourenço Acauan, presidente do Sindicato Rural de Santana do Livramento, também defendeu a importância da representatividade para os produtores rurais da região. A cidade tem em torno de seis mil produtores rurais, mas o número de associados ao sindicato ainda é pequeno, o que dificulta o trabalho
"Temos muitas oportunidades, desde que implementemos, não só em Livramento como em toda a região, alguma indústria de transformação. Somos produtores de matéria-prima e não temos uma indústria de transformação. Todos os nossos produtos saem do município para outros municípios e não aproveitamos esse plus de rendimento aqui. Esse dinheiro deixa de estar aqui e vai para outra região, até fora do País", afirmou
Um exemplo da falta da indústria de transformação é no setor do enoturismo. Apesar do crescimento, Acauan disse que falta a indústria para terminar o processo de engarrafamento do vinho, entre outros pontos que proporcionam valor agregado aos produtos do segmento. A instalação de indústrias também seria uma forma de manter os jovens na região, já que criaria outras oportunidades de trabalho além das propriedades rurais. "Temos que buscar oportunidades e agregar mais valor aos nossos produtos. Temos o maior rebanho ovino e não temos uma indústria de transformação", salientou.
Ainda no agronegócio, são destaque a produção de azeite, mel e plantio de soja e arroz. Outro setor que vem se destacando em Santana do Livramento é a energia eólica.
Sérgio Oliveira, do Sindilojas, lembrou a questão dos desafios da inovação que atinge o varejo e outros setores, como o agronegócio. "Se não nos preocuparmos com a IA e com que o nosso cliente saiba a experiência positiva que está tendo dentro das nossas lojas, nossos supermercados, se não tivermos essa preocupação com esse viés, estaremos sucumbindo", afirmou.
O dirigente lembrou que Santana do Livramento tem 67 free shops do lado uruguaio e três do lado de Livramento. "Para o nosso comércio local, há uma concorrência muito forte. Não vendemos mais ar-condicionado porque os free shops vendem com preço R$ 1 mil inferior, e outros produtos da linha branca podem sofrer o mesmo", ressaltou.
Em relação à IA, Oliveira disse que ela não deve ser vista como um fator que vai eliminar o emprego, mas deve estar associada ao negócio para melhorar a produtividade, proporcionando excelência no atendimento.
Desafios para a economia
Na segunda etapa do evento, os painelistas abordaram os desafios ao desenvolvimento econômico da região. A infraestrutura é um ponto de consenso. Segundo Ana Doralina, a melhora da produtividade esbarra nos problemas de infraestrutura das estradas. "Se nos mobilizarmos todos juntamente com governo, prefeitura, associações, todos juntos, nós vamos avançar. Os problemas existem, mas temos que encontrar soluções."
"Todos os municípios da Metade Sul são prejudicados pela falta de duplicação da BR-290. Com certeza a infraestrutura é um grande ponto. Não temos ferrovias. Se houvesse uma ligação até o Porto de Rio Grande, desafogaria as estradas. Houve uma reunião sobre isso, mas temos avanço?", questionou.
Outro desafio, na visão do presidente do Sindicato Rural, é a mão de obra e a atração de jovens da nova geração. "Não existe renovação, será que não está faltando alguém para mostrar para os jovens o que fazemos lá no campo? Será que não temos que contar uma história diferente para essa geração, que ele pode usar IA, que terá internet, infraestrutura e vai poder aplicar os novos conhecimentos no campo", propôs Acauan.
Oliveira também discorreu sobre a questão da mão de obra, a geração Z e a importância de entender a mente dos jovens. "Essa geração está disposta a enfrentar desafios. Precisamos mudar nosso estilo de pensar", disse.
Dois pontos foram citados por ele sobre as dificuldades do mercado de trabalho. A proximidade com o Uruguai, onde os salários são melhores, é outro fator que leva muitos jovens da região a buscarem emprego no país vizinho.
A proposta de mudança na jornada de trabalho com o fim da escala 6x1 foi criticada pelo presidente do Sindilojas. "Se formos ver a produtividade do brasileiro e dos norte-americanos, a diferença é de quatro semanas. O que o brasileiro produz em quatro semanas, os norte-americanos produzem em uma. Será que vamos conseguir conciliar essa situação? O funcionário não quer ter essa folga, ele quer ter uma situação financeira melhor, um salário melhor e os governantes querem que o empresariado sofra mais um revés, assim como a reforma tributária será para o setor a partir do ano que vem", comparou.




