14 de abril de 2009
N° 15938 - LUÍS AUGUSTO FISCHER
Ela e uma turma do Rio
Meu amigo Arthur de Faria, sujeito sagaz e culto, dotado de um ótimo senso para o palpite (é o contrário do palpiteiro furado, portanto), tem excelente tese sobre o andamento da cultura brasileira, especialmente no que se refere à música. Em sua forma crua, a tese diz assim: sempre que a coisa está encrencada, vem uma turma de amigos cariocas e resolve a parada.
Foi assim com Chiquinha Gonzaga e o pessoal do choro entre 1880 e 1900 – ninguém sabia o que fazer com aquelas formas musicais que nasciam, que não eram mais música europeia nem eram ainda música brasileira, mas a Chiquinha com sua turma deu um jeito –; foi assim com a turma do Noel Rosa nos anos 1930; foi assim com a Bossa Nova, no final dos 50.
Tese ótima, de enunciado breve e preciso. Ela pode ser matizada historicamente: é uma turma do Rio porque o Rio era a grande cidade brasileira, logo estava no centro dos acontecimentos. Isso não tira o mérito de Chiquinha, de Noel ou de Tom Jobim, mas os coloca em perspectiva.
Para contraste, basta pensar em candidatos a gênio que não estavam no centro cultural do momento e do espaço: o padre Landell de Moura não teve apoio do governo brasileiro para terminar de comprovar sua invenção do rádio, antes de Marconi, e passou para a história como gênio falhado;
Radamés Gnatalli, porto-alegrense, só deu certo quando foi morar no Rio, porque bateu no texto da província muito cedo, como costuma acontecer; pela mesma época, rolou isso com Otávio Dutra, dizem que um dos mais geniais chorões de todos os tempos.
A tese me voltou agora, na leitura da biografia da Leila Diniz. Num texto saboroso, bem humorado e informado, Joaquim Ferreira dos Santos repassa a vida da grande figura humana que foi este atual ícone feminista (mas com balanço de cadeiras), em edição da Cia. das Letras.
Leila estava no epicentro da revolução de costumes que aconteceu privilegiadamente no Rio dos anos 1960 e compartilhava sonhos e ações com gente como Paulo José (por sinal, gaúcho), Domingos Oliveira, Tarso de Castro (não só gaúcho como passo-fundense), Daniel Filho, Marieta Severo, Betty Faria e grande elenco.
Isso sem falar dos engajados, ligados aos Centros de Cultura Popular da UNE, nem nos que deram vida aos festivais de música popular.
Leila teve pouco tempo de vida (1945 – 1972) e parece mesmo ter sido uma figuraça. O fato de ser filha de pai comunista se somou à dura experiência da privação de mãe para moldá-la do jeito que foi; mas estar no Rio, ser de lá, foi mais decisivo ainda.
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