sábado, 15 de junho de 2019


15 DE JUNHO DE 2019
MÁRIO CORSO

Convidando mortos



Esses dias, no Twitter, houve uma brincadeira: se você pudesse escolher três pessoas vivas ou mortas para uma mesa de bar, quem seriam? A brincadeira é variação de uma antiga. É comum, em entrevistas rápidas a escritores e artistas, perguntar com quem gostariam de trocar uma ideia. Geralmente invocam um morto ilustre para aconselhar-se. Isso cria um ancestral que imaginariamente inspirou a obra do artista.

O jogo serve para descobrir heróis, referências políticas e artísticas. Você, caro leitor, se um gênio da lâmpada oferecesse essa mágica, que inclui buscar alguém no além-túmulo: quem escolheria para partilhar cervejas e pastéis em um boteco em frente ao mar?

Observei as preferências dos usuários. Havia muita gente boa e mais mortos do que vivos. Numa visada superficial, encontrei uma repetição: Winston Churchill, o ex-primeiro-ministro inglês, peça-chave da vitória na Segunda Guerra. Devemos muito a ele, recentemente dois filmes contaram partes cruciais de sua vida. Dá para entender a escolha.

Por segundos me imaginei com Churchill. Provavelmente ele iria reclamar dos charutos, do scotch e do bolinho de bacalhau que providenciei para nosso breve colóquio. Creio que meu inglês tampouco estaria à altura da ocasião.

Então me dei conta de que não queria famoso algum. Por duas razões, as escolhas das pessoas revelavam mais como elas queriam ser vistas do que uma real interação. Parecia mais um pedido para tirar selfie e postar no Instagram do que um genuíno encontro. E mais, esses ilustres não estariam interessados em minha insignificante companhia. Não se traz alguém do além-túmulo por pouca coisa. O que eu teria a lhes dizer? É muita responsabilidade. Se Churchill me perguntasse em que divisão o West Ham United está jogando e como se saiu na última temporada, eu não saberia responder.

Quando perguntei para meu coração com quem eu queria estar, vieram à mente meu avô materno e meu pai. Tenho imensa saudade de ambos, muitas coisas para perguntar e contar. Esta, sim, seria uma conversa verdadeira. Teria tantas notícias da família para lhes dizer. Meu avô nem sabe das bisnetas.

E mais, os dois se foram antes de o Internacional ser campeão do mundo. Imagine a festa de nós três. Deixaria a questão da nossa recente visita à segunda divisão para um outro momento. Vocês entendem e concordam, suponho.

Mas até aqui temos dois, falta um. Escolhi um amigo falecido. Pela saudade, é claro, mas porque quando ele se foi não estávamos bem e a culpa foi minha. Queria aproveitar para pedir desculpas.

A morte é conversa interrompida. Comentários e opiniões que nos importam e que nunca escutaremos. A morte é silêncio, resta-nos a fantasia para tagarelar.

MÁRIO CORSO

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