sexta-feira, 27 de maio de 2016

j. p. cuenca

Ministério da Educação e da Cultura do Estupro
26/05/2016  16h00


No dia em que virou notícia o caso de uma menor de idade dopada e estuprada por 30 homens, crime exposto em vídeo com risadas e piadas na internet, foi recebido pelo ministro Golpista da Educação e pelo ministro Biônico da Cultura um ator conhecido, entre outras coisas, por ter confessado o estupro de uma mãe de santo na TV –depois disse que aquilo era parte do seu show de stand up, apenas uma piada. Kkkkk.

Ficcional ou não, o relato de estupro foi recebido com aplausos e gargalhadas no programa do mesmo comediante que comentou a gravidez de uma cantora dizendo que "comeria ela e o bebê". O apresentador também disse, num show de stand up, que mulher feia deveria ver estupro como "oportunidade" e não "crime": "Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço". Defendeu-se dizendo que, claro, aquilo era apenas uma piada. Kkkkk.

Os homens que participaram desse estupro coletivo no Rio de Janeiro foram os que violaram a menina, os que a filmaram, os que compartilharam esse vídeo e os que fizeram comentários e piadas na internet sobre as imagens publicadas. Nenhum deles foi capaz de questionar o crime hediondo. Nenhum deles sentiu raiva, nojo, repulsa. Nenhum deles brigou para salvar a garota. Não saiu porrada. Nenhum deles foi a exceção: eles são a regra. No vídeo há gargalhadas. Em redes sociais, riram da mulher desacordada e sangrando assim: Kkkkk.

Todos eles também devem achar as piadas de Alexandre Frota e Rafinha Bastos sobre estupro muito engraçadas. Kkkkk.

Os números oficiais afirmam que uma mulher é estuprada no Brasil a cada 11 minutos. Como o crime é o mais subnotificado de todos, acredita-se que apenas entre 10% a 35% registrem queixa à polícia. Conhecendo nossa polícia, faz sentido. Estudos do Ipea apontam justamente para o pior cenário: 476 mil casos de estupro em 2014 no Brasil, cerca de um estupro por minuto. Segundo pesquisa Datafolha, 90% das brasileiras têm medo de ser vítima de agressão sexual. Faz sentido. Enquanto você leu os parágrafos acima, duas brasileiras devem ter sido estupradas.

O apelido do criminoso que divulgou o vídeo desse estupro é Michel Brasil. Faz sentido. Nesse país machista, autoritário, patriarcal e violento, onde culpar a vítima é regra e a impunidade de gente como ele está garantida, ele está em casa.

Não só ele. Nós. Todos os homens somos responsáveis pela manutenção da violência contra a mulher.

Não precisamos atacá-las fisicamente ou fazer piadas misóginas naturalizando violência para isso. Ao negar sua voz, ao tratá-la como nossa propriedade, ao objetificar sua existência, ao sermos os prepotentes narcisistas perversos e opressores que costumamos ser: o problema é nosso, a culpa também.

Só ficar consternado e escrever textinho oportunista pra ficar bem na fita não adianta. Existe um abismo de empatia que precisa ser atravessado –e isso é uma batalha diária que precisamos travar contra nós mesmos, contra nossa própria covardia e privilégios de gênero. Do contrário, nossas atitudes e palavras em momentos como esse terão a mesma substância de um livro de mesa de centro.

Autocrítica ou desconstrução é pouco: precisamos de uma autodemolição. 

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