terça-feira, 14 de abril de 2009



14 de abril de 2009
N° 15938 - MOACYR SCLIAR


Valsa triste

Por uma dessas sombrias coincidências, foi na Sexta-feira da Paixão que vi, no Rio de Janeiro, o filme israelense Valsa com Bashir, do cineasta Avi Folman, recentemente premiado num festival de São Paulo.

É uma obra impactante, para dizer o mínimo. E diferente. Para começar, trata-se (com exceção dos minutos finais) de um filme de animação, aliás de excelente nível artístico.

Mas não pensem que vocês vão ver um divertido desenho animado, ao contrário. Trata-se, rigorosamente, de um impressionante documentário, com vozes de pessoas reais, que nos dão seu depoimento sobre um dos episódios mais controversos da recente e conturbada história do Oriente Médio.

A isto alude o título: o Bashir ali mencionado é Bashir Gemayel, líder político do Líbano, cujo assassinato por terroristas desencadeou uma tremenda convulsão política, culminando com o massacre nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila por partidários de Gemayel, os falangistas. Isto ocorreu à época da primeira invasão do Líbano por tropas israelenses (1982), ponto de partida para a história.

O protagonista do filme é atormentado pela lembrança – melhor dizendo, por aquilo que inexplicavelmente esqueceu – desses acontecimentos. Vai então em busca de pessoas que possam recordar com ele o passado. E seus depoimentos compõem um triste e pungente quadro do que é o conflito do Oriente Médio.

Os israelenses não executaram o massacre. Mas fica claro que muitos dos comandantes (incluindo Ariel Sharon, depois julgado em Israel e condenado por causa disso) optaram por olhar para o lado, com uma atitude do tipo “eles que se entendam”).

Ora, e isso também fica claro, uma atitude mais enérgica do exército de Israel daria à situação outro rumo. O massacre cessa quando um oficial israelense – sozinho – chega ao campo e ordena que os milicianos da falange libanesa se retirem.

A atitude dos israelenses, aliás, não é homogênea: muitos dos soldados e dos oficiais mostram-se inquietos e até revoltados com o que está acontecendo (aliás, notem a ironia do nome de um dos acampamentos: “sabra” é a denominação hebraica para os nascidos em Israel).

O filme é israelense. O diretor é israelense, os personagens são israelenses, o financiamento é em grande parte israelense. Isto é muito importante. A Al-Qaeda nunca faria um filme sobre seus crimes ou erros. O Hamas nunca faria um filme sobre seus crimes ou erros. São movimentos que, por autodefinição, não erram, não cometem crimes.

A operação israelense em Gaza matou muitos civis, Israel foi acusado por isso, e um enorme debate surgiu no país – recentemente, em Londres, ouvi o escritor Amos Oz discordar da maneira como foi feita a invasão.

Mas a Al-Qaeda e o Hamas não se penitenciarão pela morte de civis, porque seu objetivo é exatamente esse, matar os infiéis, civis ou não, homens, mulheres, crianças. Os foguetes do Hamas só não cumprem esse desígnio porque são precários demais para tanto. Mas o objetivo é matar milhares, se possível.

O próximo dia 19 de abril assinala o aniversário do levante do gueto de Varsóvia, em que milhares de judeus foram mortos pelos nazistas. O Holocausto foi uma das bases sobre as quais nasceu o Estado de Israel.

Uma base ética, portanto, que inspira filmes como Valsa com Bashir, e que contém, apesar da lição amarga (ou justamente por causa da lição amarga), uma esperança para os próprios israelenses: seu país sobreviverá porque é uma democracia que permite o debate sobre erros e crimes do passado e a indispensável correção de rumo.

Quem pensa nos artistas como pessoas temperamentais, imprevisíveis, deveria ter conhecido Xico Stockinger. Calmo, reservado, deixava, no entanto, seu talento transbordar nas extraordinárias obras que deixou, e que projetaram o Rio Grande no cenário artístico nacional e internacional. Grande Xico. Guerreiro, sim, mas guerreiro amável.

Este 14 de abril assinala o centenário de um dos eventos mais importantes da história da saúde pública mundial. Há cem anos, Carlos Chagas publicava um trabalho sobre a enfermidade que leva seu nome. Descreveu a doença, descobriu o agente causador e a maneira de transmissão: uma verdadeira façanha, e uma glória para o Brasil.

Nenhum comentário: