DORIVAL, O BAIANO CARIOCA
Andava preocupado com os volantes do Inter, com as provocações do ministro Tarso Genro, com as bravatas do presidente da República e com a vida em prosa. Ouvia música automaticamente.
Escolhia, às vezes, um CD e nem chegava a parar para sentir as vibrações emanadas do aparelho. A morte de Caymmi me deu um tranco. Não que seja uma surpresa. Era um homem de 94 anos. Todo mundo esperava a notícia do seu falecimento a qualquer momento.
Em breve, seguiremos como se nada tivesse acontecido. Essa é a força e a fraqueza da existência. É assim que conseguimos seguir em frente sem nos atolarmos na depressão. Mas é assim também que deixamos de lembrar, freqüentemente, quem merece culto e aplausos eternos. Dorival Caymmi não será esquecido.
Ele e Jorge Amado são a Bahia mítica do século XX. Os dois criaram a Bahia que existe no imaginário de cada brasileiro. Fizeram isso sem mentir, somente recolhendo fragmentos da vida cotidiana.
É impossível esquecer um sujeito que fez 'É Doce Morrer no Mar', 'Marina', 'Samba da Minha Terra', etc. Assim como é impossível esquecer o escritor que pariu Gabriela.
Apesar disso, certo esquecimento é inevitável. Será que as novas gerações lêem Jorge Amado e escutam Caymmi? A força de um construtor de imaginários como Caymmi consiste em ir além de si mesmo. Mesmo que, por acaso, alguém o desconheça por completo, acaba, cedo ou tarde, por cantar algo seu. Afinal, o que é que a Bahia tem?
Tem Jorge Amado, tem Dorival Caymmi, tem vatapá, tem candomblé e tudo mais que Amado e Caymmi mostraram. A poesia de Caymmi ganhou vida própria como os personagens de Amado. Gabriela anda por aí feito Dom Quixote, uma filha que cresceu e foi embora de casa.
Virou imortal. Tem mais vida do que qualquer um de nós. Esse é o paradoxo da arte: não é o artista que se torna imortal, mas a sua obra, os seus personagens, as suas invenções. Capitu e Gabriela não deixarão Machado de Assis e Jorge Amado morrerem.
As canções de Caymmi serão a cada vez um sopro de vida para que o baiano balance numa jangada ao sabor das ondas. Não há obra sem autor. A imortalidade da obra recompensa a mortalidade de quem a criou. É um pacto que cobra os melhores anos da vida em nome da perenidade.
Baiano saudoso, Caymmi morreu no Rio de Janeiro, onde morava desde 1938 e de onde seu corpo não mais sairá. Jorge se foi há mais tempo. Zélia se foi neste ano.
Dorival também partiu. A Bahia está, ao mesmo tempo, mais pobre e mais rica. Perdeu gente de carne e osso. Ganhou novas entidades. A Bahia de Caymmi não é um estado de espírito, mas um espírito estadual que se universaliza. Passei o final de semana ouvindo Caymmi.
A chuva deu mais melancolia ao ritual. Hoje é segunda-feira. A prosa, aos poucos, tomará o lugar da poesia. A falta de tempo, esse truque da engrenagem sistêmica para nos afastar do essencial, acabará por nos engolfar com suas racionalizações.
Mesmo assim, como meninos travessos, podemos cantar baixinho enquanto lemos e assinamos ofícios, 'Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia/ Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia/ ‘Bem, não vá deixar a sua mãe aflita/ A gente faz o que o coração dita/ Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão’'. Não só, que mamãe também se engana, também é feito de Caymmi.
juremir@correiodopovo.com.br
Ainda que com chuva, que possamos ter uma ótima semana
Nenhum comentário:
Postar um comentário