sábado, 25 de dezembro de 2010


CESAR MAIA

Uma mulher presidente

Em 2010, cumpriram-se os 250 anos do nascimento da primeira mulher presidente no Brasil, Bárbara de Alencar.

Ela nasceu em Exu (PE), em 1760. Mudou-se para o Crato (CE) depois do casamento, em 1782, com José Gonçalves dos Santos, comerciante de tecidos naquela vila, com quem teve quatro filhos.
Foi a primeira mulher a se envolver, para valer, em política no Brasil -durante a revolução pernambucana de 1817, com vistas à independência e à República.

O Ceará e outras províncias limítrofes aderiram -no Ceará, especialmente na região do Cariri.

Bárbara de Alencar liderou esse movimento no Crato, ampliando a revolução em Pernambuco. Ela declara a independência e proclama a República do Crato, assumindo a presidência. Com a derrota em Pernambuco, a rebeldia nas demais províncias foi sendo desmontada pelas forças do Conde dos Arcos, governador da Bahia, a mando de dom João 6º.

Bárbara foi presa em Fortaleza. Por quatro anos, foi mantida presa em Fortaleza, Recife e Salvador. Ganha a liberdade no ato de anistia geral de novembro de 1821. Teve quatro filhos, três homens.
Em 1824, outra revolução em Pernambuco: a Confederação do Equador, liderada por Frei Caneca. No âmbito desse movimento, no Ceará, Crato, Icó e Quixeramobim aderiram.

Seus três filhos homens se envolveram. Em 26 de agosto de 1824, foi declarada a República do Ceará e designado presidente Tristão de Alencar, um dos filhos de Bárbara.

A repressão das forças imperiais culminou com a morte de dois de seus filhos: Tristão e Carlos. José Martiniano de Alencar sobreviveu e, mais tarde, terminou se credenciando como deputado às cortes constitucionais de Lisboa.

Foi governador do Ceará e senador. Seu filho José de Alencar foi escritor, poeta e fundador do indianismo com seu "O Guarani".

A força da memória de Bárbara de Alencar ressurgiu em 1869, na escolha de senador em uma lista tríplice. Os conselheiros de dom Pedro 2º sugeriram o veto a José de Alencar, apesar de ele ter sido ministro da Justiça pouco tempo antes. O temor era que as ideias republicanas que começavam a ser reativadas pudessem coincidir com o DNA de José de Alencar.

Neste ano de 2010, em que o Brasil registra e comemora a assunção de uma mulher ao cargo de presidente da República, faltaram as comemorações em memória de Bárbara de Alencar, primeira mulher política brasileira, primeira presidente de República, do Crato, e mãe de outro presidente de República, do Ceará.

E, quem sabe, ancestral de outro cearense Alencar presidente: Humberto. A conferir.

CESAR MAIA escreve aos sábados nesta coluna.

RUY CASTRO

Papai Noel sob mira

RIO DE JANEIRO - A cena se passa em São Luís do Maranhão, por volta de 1890. Ao fim da ceia de Natal, os parentes e convidados de uma família se reúnem na sala para trocar presentes, cantar hinos e dar umas cachimbadas.

Ao longe, bimbalham sinos. De repente, um homem gordo, de barbas brancas, roupa e gorro vermelho com barras também brancas, botas e cinto pretos e um grande saco às costas irrompe sem aviso pela janela.

Pânico, pavor, palpitações. Num átimo, os homens se põem de pé, sacam os trabucos e os apontam para o intruso, rendendo-o num canto da sala. Mas uma das mulheres se põe corajosamente entre ele e as armas, dizendo: "Não o matem! É o Papai Noel! Eu o contratei!".

A mulher é a jovem professora Maria Barbara de Andrade, dona de um colégio local e filha de nada menos que o discutido poeta maranhense Sousândrade -Joaquim de Sousa Andrade-, autor de "O Inferno de Wall Street".

Com o Papai Noel sob mira, Maria Barbara explica que, tendo sido criada em Nova York, quando seu pai foi morar lá, em 1871, habituara-se a ver o velhinho na versão do ilustrador e caricaturista Thomas Nast, no tabloide "Harper's Weekly".

Até 1863, Papai Noel era alto, magro, ranzinza e se vestia de bispo católico. Nast, que era rechonchudo e anticlerical, redesenhou-o à sua imagem e acrescentou-lhe a roupa vermelha e o bom humor. Daquele ano até 1890, inundou "Harper's" e outras publicações com seu simpático Papai Noel e fixou aquela imagem no coração de milhares de crianças dos EUA, inclusive a brasileira Maria Barbara.

Os homens abaixam as armas, abraçam o Papai Noel e lhe servem vinho. Donde Maria Barbara pode ter sido a introdutora do moderno Papai Noel no Brasil. Mas sua façanha nunca ficou estabelecida, e é natural que, 120 anos depois, muita gente acredite sinceramente que quem fez isso foi a Coca-Cola.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010



24/12/2010 e 25/12/2010 | N° 16559
NILSON SOUZA


Vidas presentes

George Lucas, um dos magos do cinema, tem um projeto para ressuscitar atores falecidos, recuperando suas imagens por meio da tecnologia digital e recolocando-as na tela ao lado de personagens atuais. Tudo é possível no admirável mundo novo da computação gráfica. Quem sabe em breve não veremos Marilyn Monroe competindo em charme e beleza com Charlize Theron ou um duelo de capa e espada entre Errol Flynn e Johnny Depp?

Mas, quando se trata de reencarnação, a vida real continua sendo mais fantástica do que a ficção. Eu mesmo tenho uma história dessas para contar. Por muitos anos, olhei com desdém uma foto de meus bisavós, os quais não conheci. No álbum da família, eram apenas dois velhos sentados diante de uma casa de madeira humilde – o homem com uma perna cruzada sobre a outra, barba branca e olhar fixo num futuro que também não conheceria. Pois agora acho que ele olhava para mim.

Quando me tornei adulto e comecei a deixar a barba crescer, modismo dos anos 70, ouvi várias vezes um comentário de minha mãe:

– Estás cada vez mais parecido com o meu avô.

Como só sabia do homem pela foto antiga, nunca levei muito a sério a comparação. Na semana passada, porém, sentei-me distraidamente numa cadeira da casa, cruzei a perna e olhei sem querer para um espelho que refletia a minha imagem. Levei um susto: lá estava o bisa da foto, me olhando serenamente, sem refletir o meu sobressalto. Ao menos na aparência, meu bisavô voltou em mim.

Mas um dos casos mais espantosos de ressurreição por semelhança é o da conterrânea Elis Regina, que saiu do IAPI, transformou-se numa estrela e voltou pela voz afinada de Maria Rita. Elis, na minha adolescência, era uma foto colorida pendurada na parede do meu quarto. Meu amigo Tetelo, que também já virou estrela e ainda não retornou, foi quem me ensinou a amá-la.

Se ainda estivesse por aqui, tenho certeza de que ele choraria de emoção ao ouvir Maria Rita interpretando a canção símbolo da RBS, que coincidentemente enaltece a vida. As pessoas voltam, sim, às vezes num olhar, às vezes num gesto, outras vezes num timbre vocal característico.

Para quem ouviu Elis cantando, é um presente de Natal maravilhoso ouvir Maria Rita reviver a mãe numa canção tão nossa. Basta a gente fechar os olhos e lá está Elis, balançando os braços e encantando multidões com sua voz do mais precioso cristal:

– É mentira, é verdade... E quem sabe a vida é da vida a razão...

Aproveite o dia. FELIZ NATAL...Que o Papai Noel seja generoso com vc e realize, senão todos, a maioria dos seus sonhos.


24/12/2010 e 25/12/2010 | N° 16559
PAULO SANT’ANA | INTERINO - LUIZ ANTÔNIO ARAUJO


No topo do mundo

Em meio à temporada de listas que costuma acompanhar os sinos de Natal, a revista Foreign Policy acaba de badalar sua seleção anual dos Top 100. São cem pensadores globais que contribuíram, no entendimento da publicação, para moldar o ano que se encerra. Espiar a lista e compará-la à do ano passado pode dar pistas curiosas sobre a posição das peças do xadrez mundial.

Para o Brasil, há uma boa notícia: saltamos de um único indicado em 2009, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para dois, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e a candidata verde à Presidência, Marina Silva. A posição também melhorou. Enquanto FH era o 11º colocado, Amorim ocupa o sexto lugar (logo depois de Ben Bernanke, presidente do banco central americano, que encabeçava a lista de 2009), e Marina, o 32º.

Mais interessantes são as explicações dadas pela revista para cada escolha. No ano passado, FH foi destacado por uma razão eminentemente regional: “Chamar a guerra às drogas daquilo que ela realmente é – um desastre”. O ex-presidente tem proposto a descriminalização da maconha como alternativa à política linha-dura contra o tráfico. A Amorim, foi atribuído um feito em escala planetária: “Transformar o Brasil num ator global”.

O texto sustenta que, apesar de lances polêmicos como a aproximação com o Irã terem provocado “ranger de dentes nas capitais ocidentais”, também contribuíram para “colocar o Brasil no mapa”. Marina, que divide o 32º lugar com outras três líderes verdes europeias, é celebrada por ter feito de 2010 “o ano dos Verdes”. Seu feito teria sido levar a eleição presidencial para o segundo turno com “o mais alto percentual de votos já obtido pelo Partido Verde no país”.

Curiosamente, o homem que catapultou Amorim e Marina ao nomeá-los ministros é ignorado pelo segundo ano consecutivo. O máximo que a Foreign Policy se permite é chamar ironicamente Luiz Inácio Lula da Silva de “longevo presidente a caminho da aposentadoria”.

A representação da América Latina também cresceu. No ano passado, foram três os escolhidos: FH, o escritor peruano Mario Vargas Llosa e o historiador mexicano Enrique Krauze. Desta vez, além de Amorim, Marina e de uma nova indicação de Vargas Llosa, turbinado com o Nobel de Literatura, entrou no ranking a ex-presidente do Chile Michele Bachelet.

No topo da tabela, houve um rearranjo discreto, mas significativo. Em 2009, dos 12 ocupantes das 10 primeiras posições, havia oito americanos, um iraniano, um indiano, um chinês e um egípcio.

Este ano, no mesmo arco figuram sete americanos, um francês, um chinês, um brasileiro, um turco e uma alemã. Um dos americanos, Robert Zoellick, que foi chamado por Lula de “sub do sub” quando era secretário de Comércio Exterior dos EUA, entra na lista como presidente do Banco Mundial, em dobradinha com o francês Dominique Strauss-Kahn, diretor do FMI. A mesma dupla estava em 33º lugar em 2009. A melhor ideia de 2010, segundo Zoellick: “A crise vai acabar”. A pior: “A crise acabou”.

Alguns reeleitos tiveram, na visão dos editores, uma importante mudança de papel. Barack Obama estava em segundo lugar no ano passado por “reimaginar o papel dos Estados Unidos no mundo”. Este ano, chegou em terceiro por “manter o curso apesar das críticas”. O presidente do banco central chinês, Chu Xiaochuan, indicado em 2009 (nono lugar) por “lembrar ao mundo que o dólar não está garantido”, ficou em quarto este ano por “segurar o destino da economia mundial em suas mãos”.

Os critérios da Foreign Policy não são imunes a críticas. O listão se dá o luxo de ignorar, por exemplo, representantes da Rússia e de outras nações emergentes. Longe de pretender fazer um levantamento neutro ou imparcial, os editores da revista almejam dar visibilidade a quem promove ideias que consideram válidas. Nesse caso, como em outros, vale a velha máxima: “Quem quiser que conte outra”.

A lista dos Top 100 está disponível em http://www.foreignpolicy.com/2010globalthinkers


24/12/2010 e 25/12/2010 | N° 16559
DAVID COIMBRA


Varig, Varig, Varig

Descobri quando deixei de gostar do Natal. Foi quando pararam de tocar a musiquinha de fim de ano da Varig.

Eram dezembros dourados aqueles do Papai Noel voando a jato pelo céu. A gente ia passear à noite na Rua da Praia, eu, minha mãe, meus irmãos, minha madrinha, meus avós. Passear na Rua da Praia era um acontecimento, sobretudo à noite – crianças não saíam à noite, naquela época. Então, descíamos a Rua da Praia, as crianças correndo na frente dos adultos, os adultos chamando as crianças, os letreiros a colorir as vitrines embaraçando a nossa visão, como diria o Chico.

Um dia minha irmã derrubou um manequim e o quebrou bem no braço. Saímos correndo da loja. Não lembro bem qual loja... Casa Louro, talvez? Alfaiataria Aliança, onde trabalhou Oswaldo Rolla, o grande “Foguinho”? Na certa uma dessas Sloper da alma, como diria o João Bosco.

Aquele grande relógio da Masson, será verdade que era o relógio mais preciso do Estado, do país, quiçá do mundo, um Big Ben caboclo? Tempos depois, eu já crescido, não resistia à urgência de acertar o meu relógio com o da Masson. Tinha a convicção de que a hora da Masson era a hora “mais certa”. Mas, uma tarde, ao caminhar pela Rua da Praia, fui conferir a hora e o relógio estava parado. Quebrado. Foi um choque. Foi como se estivesse cara a cara com a decadência.

Mais ou menos por esses dias, sofri outro golpe, até mais grave: entrei na histórica, na veneranda Livraria do Globo e... cadê os livros??? A Livraria do Globo tinha virado papelaria.

Foram arrancando pedaços da Rua da Praia, foi isso que fizeram. Uma das melhores fatias, os cinemas do Largo dos Medeiros. Num deles assisti a “O Exorcista”. Vi o filme sozinho, na sessão das dez.

Quando saí da sala, batia a meia-noite, “a hora dos espíritos”, e o vento balançava os galhos das árvores da Praça da Alfândega e o roçar de folhas contra folhas produzia um ruído sinistro e eu olhei em volta e senti um arrepio na nuca e pensei nos demônios do filme e não vacilei: corri para a salvação do Bianchi, Linha 20, na ponta da Praça XV.

Um dia alguém fechou os cinemas da Rua da Praia, aqueles cinemas imensos, elegantes, em que se vendiam azedinhas no saguão de entrada. Um dia eles acabam com tudo.

A verdade é que a Rua da Praia, a rua mais importante, mais sofisticada, mais alegre, mais movimentada, mais nobre do Estado, a rua em que as mocinhas faziam trottoir nos anos 50, em que Grêmio e Inter mantinham sedes contíguas nos anos 40, em que Getúlio Vargas e Oswaldo Aranha pisaram com suas botas, em que o Camelinho gritava pelo centroavante Juarez, o “Tanque”, em que o Bataclan gingava todo vestido de branco, em que eu, minha mãe, meus irmãos, minha madrinha e meus avós passeávamos no fim do ano, a verdade é que a Rua da Praia não existe mais.

Sem Rua da Praia e sem a musiquinha de fim de ano da Varig.

É por isso que não gosto mais do Natal.


24/12/2010 e 25/12/2010 | N° 16559
CLÁUDIA LAITANO


A última gargalhada

O humor envelhece mal na televisão. Se o cinema conseguiu produzir clássicos como Chaplin e Buster Keaton, ainda engraçados quase cem anos depois da estreia dos primeiros filmes, na TV são raros os comediantes que conseguem fazer rir dos oito aos 80.

Se o caminho das estrelas de telenovela rumo à aposentadoria vai se desenhando aos poucos – de namoradinha do Brasil à vovó da família, muitos casamentos e capítulos se passam –, o comediante simplesmente sai de cena. Alguns mudam de atividade: viram entrevistadores, atores, redatores de humor.

Outros, depois de perder o horário nobre, vão parar no madrugadão ou são relegados às pequenas participações especiais em programas de humor dos outros – alguns com a fórmula já tão gasta pelo tempo e o mau uso, que parecem sobreviver apenas da falta de alternativas na programação da TV aberta.

Não que a piada ou o bordão, um dia engraçados, repentinamente fiquem anacrônicos – como o hábito de usar chapéu ou fazer coleção de chaveiros. É verdade que a linguagem e a forma de se comunicar com o público se transformam, mas o atributo que o tempo parece corroer mais violentamente é o de estar alguns passos à frente do público, surpreendendo os espectadores não apenas com a inteligência das piadas, mas com algum toque de irreverência e iconoclastia que choque os mais conservadores e aponte para o que ainda parece apenas uma provocação – mas já é o espírito de uma nova época se anunciando.

É como se, lá pelas tantas, os comediantes mais experientes perdessem a “pegada” , esse indecifrável atributo de quem faz algo muito bem sem nem sequer se esforçar tanto para isso.

Esta semana, o programa Casseta e Planeta, Urgente! se despediu da programação da Globo, e não pude evitar certa melancolia. Sou obrigada a reconhecer que o programa estava chato e repetitivo – e que isso se tornou ainda mais evidente diante da talentosa (e bagunceira) nova geração de humoristas que tem chegado à TV nos últimos tempos: Marcelo Adnet, Rafinha Bastos, Bruno Mazzeo e até o pirralho Felipe Neto, fenômeno da internet que estreou este ano no Multishow. Se os melhores humoristas da minha geração já estão se aposentando, é inevitável sentir o cutuco inexorável do tempo batendo na minha porta também.

O programa de despedida teve a participação do veterano Agildo Ribeiro, um dos humoristas que fizeram parte da infância da minha geração e que começaram a ser substituídos, no final dos anos 80, por Bussunda e companhia – na época tão indomáveis, que pareciam não caber na programação da Globo. Foi uma homenagem ao velho comediante, mas talvez também um recado: todos, um dia, saem de cena. Uma geração substitui, supera e incorpora a anterior, e é assim que tudo que é vivo funciona.

Mas fazer parte de uma narrativa, do contínuo histórico que une todos os que vieram antes de nós e os que virão depois não é apenas um consolo, mas uma elegante forma de eternidade.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010


CONTARDO CALLIGARIS

Quem não acredita em Papai Noel?

Papai Noel encarna a esperança básica de que, ao menos uma vez por ano, o mundo nos queira bem

NO SÁBADO, foi o primeiro aniversário de Gabriela, filha de amigos meus. Ela estava radiante, num vestido que, pela cor vermelha, contribuía ao tema da festa: o Natal. Havia um Papai Noel no seu trenó, em tamanho natural, e a casa do Papai Noel no polo Norte, com o elfo a judante diante da porta e muita neve no teto.

Havia também duas renas voadoras, que não reconheci, mas nenhuma delas era Rudolfo (que, como se sabe, tem nariz vermelho).

Concordo com a escolha dos pais de Gabriela: como primeira história na qual acreditar, a de Papai Noel é imbatível -embora ela tenha vários inimigos.

1) Há os que dizem que Papai Noel não passa de um vendedor de shopping center ou de um animador de loja de departamento, inventado para que, nesta época do ano, compremos um monte de futilidades. Penso diferente.

Vi muitas crianças ponderando e escrevendo suas cartas de Natal ou, então, esperando, na fila, para sussurrar seus sonhos no ouvido do próprio Papai Noel. O importante não era que elas conseguissem o que pediam, mas que elas manifestassem suas vontades, tivessem a coragem de querer.

No Natal, aliás, o presente é quase supérfluo. Nestes dias, não há como jantar num restaurante sem assistir à entrega das surpresas de um amigo secreto. Cada um desembrulha, finge encantamento e ergue seu presente para a foto: é um troca-troca de objetos sem uso que acabarão no fundo de uma gaveta ou serão passados adiante, quem sabe no Natal do ano que vem.

O presente pode ser qualquer coisa porque, em muitos casos, seu valor é o mesmo dos ursos de pelúcia que abraçamos no sono, ao longo da infância: ele serve como lembrança saudosa de quem nos presenteou e, ao mesmo tempo, substitui o presenteador de maneira que possamos dispensar sua presença.

Só para ilustrar a complexidade de pedidos e presentes, mais um exemplo. Francisco, aos cinco anos, num dia de novembro, quis ditar sua carta ao Papai Noel; ele não queria presente algum naquele ano, preferia que o Papai Noel pensasse nas crianças que não têm nada.

Francisco selou e mandou seu pedido, com grande contentamento dos pais, orgulhosos da generosidade do filhinho. Poucos dias mais tarde, Francisco estava sendo impossível, explosivo, levado. A mãe: "Se Papai Noel souber como você se comporta, ele não trará nada para você". Francisco, feliz e sardônico: "Eu não pedi nada neste ano".

2) Alguns se indignam porque o culto a Papai Noel, figura mágica ou pagã, desnaturaria o Natal religioso. Acho estranho: o Papai Noel encarna e celebra a esperança básica de que o mundo não nos seja hostil, que, ao menos uma vez por ano, ele possa nos querer bem. Graças ao Papai Noel paira, sobre nós todos, um olhar generoso. Será que essa esperança é muito afastada do sentido cristão do Natal?

3) A objeção mais impiedosa ao Papai Noel vem da crítica racionalista, pela qual é nocivo induzir as crianças a acreditar em coisas cuja existência é duvidosa.

Acho curioso. No fundo, acreditar ou não na existência do velhinho do polo Norte é sem relevância. Mas é crucial acreditar na possível generosidade do mundo para com a gente e com todos.

Anos atrás, passando o Natal em Gstaad, uma estação de esqui nos Alpes do Valais, na Suíça, eu e um amigo decidimos (estupidamente) atormentar o pequeno Mário, seis anos, anunciando, sem parar, a chegada iminente do Papai Noel. Mário, ao mesmo tempo, desejava essa chegada e era literalmente apavorado por sua eventualidade.

No fim, quisemos saber: do que ele tinha tanto medo? Da aparição sobrenatural do trenó voador? Do julgamento de seu comportamento passado, que seria implícito no presente recebido? Mario explicou: "Nada disso. É que, se ele vier, eu terei que ser bom".

Agora, se um jovem leitor tivesse aguentado até aqui e me perguntasse "Afinal, para você, Papai Noel existe ou não?", como responderia?

Primeiro, observaria que é bom não dar ouvidos aos que insinuam que o Papai Noel não existe. Os cínicos são sobretudo invejosos; funciona assim: por medo de que meu irmão receba mais amor do que eu, declaro que a mãe não existe e tento vender essa ideia ao meu irmão.

Logo, seguiria o exemplo de uma mãe que, diante das dúvidas do filho, disse: "Se você acredita nele, no mínimo ele existe dentro de você".
Feliz Natal a todos.

ccalligari@uol.com.br

Editorial Folha

37 ministérios

Primeiro escalão escolhido por Dilma Rousseff preserva traços de Lula, atende ao fisiologismo e se diferencia por presenças femininas

A presidente eleita, Dilma Rousseff, concluiu ontem a composição de seu ministério. Não nasceu um governo que se destaque pelo brilho individual de seus membros. De quem se espera gestão mais técnica e eficaz do que a atual, o primeiro reparo a fazer é à estrutura inchada que a nova mandatária herda de Luiz Inácio Lula da Silva e mantém intacta.

Ninguém imagina que um governo com 37 ministérios seja orientado por critérios de eficiência, tampouco que a totalidade dessas pastas corresponda aos interesses da população. Dilma perdeu a chance de dar um sinal contrário aos tradicionais vícios patrimonialistas e fisiológicos que sobreviveram ao governo petista.

Para que se tenha uma ideia, o número de servidores civis ativos do Executivo passou de 484.741 (2002) para 563.093 (julho deste ano). Só a estrutura da Presidência da República abriga hoje mais de um terço dos ministros (13). Eram 6 no governo de Fernando Henrique Cardoso, que tinha, no seu final, 26 ministérios.

A definição dos nomes aponta para um início de governo com nítida influência de Lula, o que é evidente na opção por Gilberto Carvalho, remanejado para a Secretaria-geral da Presidência, e na designação de Antônio Palocci para a Casa Civil. Além deles, a permanência de Guido Mantega na Fazenda, de Fernando Haddad na Educação e de Nelson Jobim na Defesa também correspondeu à vontade de Lula.

A presidente eleita pode não ter se dobrado a todas as pressões na escolha dos ministros, mas isso não significa que tenha sido menos suscetível ao que há de pior na política brasileira -como atesta o caso patético de Pedro Novais, indicado para o Ministério do Turismo, já envolvido em escândalo.

O PT ficou com 17 dos 37 cargos. Comandará o núcleo político do governo, a área econômica, as principais pastas sociais e a Justiça, que tem o controle hierárquico sobre a PF, além da Ciência e Tecnologia, entre outros.

Dilma tirou as Comunicações e a Saúde das mãos do PMDB, que recebeu em troca o Turismo e a Previdência, com muito menor prestígio, num total de seis pastas. O PSB, que cresceu e elegeu seis governadores no Nordeste, esperava mais, mas foi agraciado com com apenas dois ministérios.

Ao final, como era previsível, os aliados manifestaram uma insatisfação difusa com o resultado. Mesmo o PT, apesar de favorecido, mostrou-se contrariado em razão de suas disputas regionais e de tendências internas. São descontentamentos que fazem parte da dinâmica política e tendem a se acomodar -mesmo porque este parece ser um ministério com caráter provisório, que sofrerá modificações no futuro.

Na condição de primeira mulher presidente, Dilma reforçou a presença feminina na sua equipe, nomeando nove ministras. Nas formações iniciais dos dois mandatos de Lula eram só quatro. Talvez seja essa a marca realmente pessoal do novo ministério -o que é pouco.

CARLOS HEITOR CONY

Saco cheio de Papai Noel

RIO DE JANEIRO - Tempos natalinos provocam mão de obra suplementar em nosso cotidiano. Somos obrigados às confraternizações, aos votos de boas-festas, a dar e a receber presentes, um saco. A mensagem de solidariedade humana fica reduzida a uma mesa de churrascaria, ao chope quente e à picanha fatiada com batatas fritas engorduradas.

Os apelos comerciais, que antes da era eletrônica enchiam a nossa paciência, os jornais e revistas, os agressivos outdoors que poluíam o já poluído cenário urbano, invadem agora a telinha de nossos notebooks, oferecendo-nos em suaves prestações mensais aquilo de que não precisamos.

Em alguns países, a tradição de dar e receber presentes, transferida para 6 de janeiro, Dia de Reis, é mais lógica e tem um exemplo ilustre. Afinal, os magos levaram incenso, ouro e mirra e receberam em troca a oportunidade de seguirem a estrela que brilhou para eles nos céus da Judeia. Haveria algum sentido na atual troca de presentes.

Limparíamos o Natal da febre consumista a que estamos habituados. A grande festa da cristandade paganizou-se com símbolos nem sempre bonitos e sempre aleatórios. Olhar a cara do Bom Velhinho, borrado de Kodacolor, esbarrar em árvores de natal complicadíssimas, ouvir o "jingle bells" e o "Noite Feliz" por toda parte. Novamente, um saco.

Nada disso facilita o mergulho que devemos fazer em nós mesmos, acreditemos ou não na mensagem que se iniciou naquela noite de Belém, em torno de uma manjedoura, com um burro e uma vaca no lugar de todos nós. Eles sabiam o que faziam.

Sempre impliquei com Papai Noel. Gosto de dar e de receber presentes, mas vejo no Bom Velhinho uma edição mercadológica do rei Momo, de quem também não gosto, mas considero mais necessário e autêntico.

CARLOS HEITOR CONY

Saco cheio de Papai Noel

RIO DE JANEIRO - Tempos natalinos provocam mão de obra suplementar em nosso cotidiano. Somos obrigados às confraternizações, aos votos de boas-festas, a dar e a receber presentes, um saco. A mensagem de solidariedade humana fica reduzida a uma mesa de churrascaria, ao chope quente e à picanha fatiada com batatas fritas engorduradas.

Os apelos comerciais, que antes da era eletrônica enchiam a nossa paciência, os jornais e revistas, os agressivos outdoors que poluíam o já poluído cenário urbano, invadem agora a telinha de nossos notebooks, oferecendo-nos em suaves prestações mensais aquilo de que não precisamos.

Em alguns países, a tradição de dar e receber presentes, transferida para 6 de janeiro, Dia de Reis, é mais lógica e tem um exemplo ilustre. Afinal, os magos levaram incenso, ouro e mirra e receberam em troca a oportunidade de seguirem a estrela que brilhou para eles nos céus da Judeia. Haveria algum sentido na atual troca de presentes.

Limparíamos o Natal da febre consumista a que estamos habituados. A grande festa da cristandade paganizou-se com símbolos nem sempre bonitos e sempre aleatórios. Olhar a cara do Bom Velhinho, borrado de Kodacolor, esbarrar em árvores de natal complicadíssimas, ouvir o "jingle bells" e o "Noite Feliz" por toda parte. Novamente, um saco.

Nada disso facilita o mergulho que devemos fazer em nós mesmos, acreditemos ou não na mensagem que se iniciou naquela noite de Belém, em torno de uma manjedoura, com um burro e uma vaca no lugar de todos nós. Eles sabiam o que faziam.

Sempre impliquei com Papai Noel. Gosto de dar e de receber presentes, mas vejo no Bom Velhinho uma edição mercadológica do rei Momo, de quem também não gosto, mas considero mais necessário e autêntico.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010



22 de dezembro de 2010 | N° 16557AlertaVoltar para a edição de hoje
MARTHA MEDEIROS

Crer ou não crer

A campanha publicitária criada pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) foi motivo de algum bafafá semana passada. Cartazes defendendo o ateísmo foram impedidos de circular em ônibus da Capital. Fiquei surpresa não com a polêmica, pois sei que a pura menção da palavra Deus é suficiente para alterar os ânimos, mas surpresa pelo inusitado do “produto”.

Uns acreditam em Deus, outros não acreditam, e ambas as turmas são legítimas. A Atea diz que o propósito da campanha é acabar com o preconceito contra os ateus. Que preconceito? Os ateus são atacados violentamente na rua? Não possuem direitos civis?

São impedidos de entrar em algum ambiente público? Essa campanha me parece um tiro no pé: com a intenção de “acabar com o preconceito”, poderá incrementar o que nem existe. Que me conste, vivemos num país com liberdade de credos – inclusive o de não ter credo nenhum.

Fui batizada, fiz primeira comunhão e estudei em colégio de freiras, mas, à medida que fui crescendo, passei a discordar do posicionamento da Igreja e hoje assumo uma posição crítica. Acho que a religião católica é alienante e o Vaticano não contribui para a valorização dos direitos humanos, ao contrário, mantém um discurso que se opõe às liberdades individuais.

Ao insistir em aceitar o sexo apenas para a procriação, estimula a homofobia e lava as mãos quanto ao futuro da humanidade. Menos mal que a maioria dos católicos também não dá ouvidos a esse contrassenso, ou viveríamos num planeta ainda mais superpovoado e miserável.

Ninguém pode provar que Deus existe. Ninguém pode provar que Deus não existe. A única coisa que comprovadamente existe é a fé, que está (ou não está) dentro de cada um. Isso torna a questão profundamente pessoal, sem certo ou errado.

Religião serve para confortar contra a ideia da morte. Alguns precisam acreditar na transcendência divina, outros canalizam sua espiritualidade para a natureza, e há os materialistas, que acreditam apenas no aqui e agora. Cada um na sua, sem fazer mal a ninguém.

Entendo que a Atea tenha tomado a iniciativa de promover o ateísmo, já que a torcida de Deus é bem mais organizada e numérica. Se a intenção era incrementar o debate, eis aqui minha contribuição, sempre lembrando que nunca seremos coesos quando o assunto for religião, como jamais seremos quando o assunto for futebol, política ou sexualidade.

Estamos na semana do Natal, a mais importante data do catolicismo. Celebra-se o nascimento de Cristo. Não me consta que ateus a ignorem. Podem não assistir à Missa do Galo, mas reúnem a família e festejam a seu modo.

Um bom momento para lembrar que a diversidade que existe não é tão colossal a ponto de nos tornar inimigos, e que sempre teremos o direito de nos posicionar, desde que jamais percamos o respeito pela escolha do outro.


22 de dezembro de 2010 | N° 16557
DAVID COIMBRA


Os tímidos do dia 28

Paulinho da Viola é um tímido. Sua timidez vibra baixo até naquela voz dele de embalar nenê. Natural, pois, que não cantasse nem as próprias músicas no começo da carreira. Tocava, só; cantar, não cantava. Ficava no acompanhamento, cheio de vergonha. Até que um dia Zé Kéti puxou-o pelo braço e o aconselhou:

– Você precisa cantar suas músicas. Esse negócio de só acompanhar não leva a nada...

Foi aí que Paulinho da Viola se tornou Paulinho da Viola.

Esse é o problema da discrição. Uma qualidade tão venerável, tão admirável, mas que às vezes prejudica quem a tem.

Zé Carlos, genial volante do Cruzeiro do tempo em que volante se chamava centromédio, Zé Carlos era discreto, era silencioso. Não reclamava de nada, não gostava de aparecer, ninguém o via. Dele um dia Tostão disse:

– O Zé Carlos nunca deu um drible. E nunca errou um passe.

Craque. Cracaço. Mas que, de tão encaramujado, foi relegado, desprezado pela Seleção Brasileira. Não era dado ao marketing, o grande Zé Carlos.

Tive a sorte de conhecê-lo quando ele treinava o Tigre, tornamo-nos amigos.

Zé Carlos faz aniversário no mesmo dia que eu, 28 de abril.

Paulo César Pinheiro também nasceu num 28 de abril, também é talentoso e também é discreto.

É um dos letristas mais inteligentes da MPB. Suas músicas falam separações e reconciliações, de dores de amor, saudades lancinantes e despeitos pulsantes. Foi gravado por gigantes da música brasileira. Elis Regina cantava gargalhando uma de suas canções: “Quaquaraquaquá, quem riu? Quaquaraquaquá, fui eu”.

“As pedras se cruzam” é o título de um de seus belos e não muito conhecidos sambas. A letra parece ter sido composta para servir de tema ao reencontro entre Grêmio e Ronaldinho:

“Apesar

Da vida nos separar

A gente vai se encontrar

Em qualquer canto de rua

De manhã

Numa esquina de algum lugar

De tardinha num vão de bar

Ou numa noite de lua

Águas passadas não moverão moinho

Acho que a gente até pode se beijar

Mesmo que já não se tenha mais carinho

As pedras se cruzam no caminho

Que a vida foi feita pra rolar

Rolou, vida rolou, rolou a vida

Eu lhe dei casa e comida

Dei-lhe um nome e coração

Pra mim o que rolou na despedida

Foi só lágrima sentida
Mas ainda lhe estendo a mão...”

O primeiro encontro

Na primeira vez que nos encontramos, Vitorio Piffero, se abriu a boca, não foi para falar. Ou, ao menos, não lembro dele ter dito uma única palavra. Fora trazido à Redação de Zero Hora por Fernando Carvalho, que, esse sim, eu já conhecia havia anos.

Sentamo-nos numa salinha de reuniões que existia à entrada da Redação. Piffero ficou me encarando com os olhos arregalados de atenção, muito sério, quase hostil. Parecia prestes a rosnar: “Gremista! Todos vocês são gremistas!”

Depois, nossas relações foram se suavizando. Já partilhamos alguns chopes, já rimos das mesmas piadas, já fisgamos batatinhas fritas do mesmo prato. Hoje posso dizer que reconheço os predicados de Piffero que Fernando Carvalho pretendia expor naquela tarde, na Redação (e não conseguiu!). Trata-se de um homem íntegro, sincero e discreto.

Tão discreto quanto um Paulinho da Viola, um Paulo César Pinheiro. Tão discreto que nunca demonstrou desconforto por estar à sombra de Fernando Carvalho. Outros se incomodariam. Piffero, não. Talvez por saber que sua importância para o Inter é do tamanho da de Carvalho.

Piffero já está inscrito na história do futebol gaúcho. Foi competente ao sanear as finanças, ardiloso ao lidar com o futebol e diplomático ao ocupar a presidência. Nessa trajetória, aprendeu. Soube crescer.

Hoje, se entrasse na Redação, entraria sorrindo e com sorrisos seria recebido. Piffero entrega o Inter maior do que quando o recebeu. E sai do Inter maior do que quando entrou.


22 de dezembro de 2010
| N° 16557 - PAULO SANT’ANA | MÁRIO MARCOS DE SOUZA (INTERINO)


Marionetes

Um dia, ao examinar as informações e documentos reunidos para seu novo livro, o economista e escritor argentino Walter Graziano concluiu que precisava de ajuda. Decidiu então convocar estudantes, especialmente os de História e da área de humanidades para uma série de entrevistas de seleção.

Uma das primeiras pessoas a atender ao chamado foi uma garota recém graduada, bem recomendada. Depois de alguns minutos de conversa, Graziano passou a ela parte das informações que reunira – e esperou pela reação.

Aos poucos, a historiadora ficou vermelha, mexeu-se na cadeira, não conseguiu controlar a inquietação, tentou resistir com a ideia aprendida na academia de que a História precisa de um tempo de maturação antes de ser contada. O autor apresentou então novas informações e, como se fosse mais um golpe preciso, a jovem pesquisadora ficou pálida e resignou-se:

– Se isso é verdade, já não sei o que pensar.

Os documentos examinados em primeira mão por ela naquela conversa deram base para Hitler Ganhou a Guerra, um dos livros mais perturbadores que já li. Qualquer leitor que passar pelas 200 páginas da obra vai se sentir assim. Ao chegar à última página da leitura, o leitor perceberá claramente que há dois mundos bem definidos.

Há o real, este em que vivemos, no qual somos donos do nosso próprio destino. E há o mundo subterrâneo – aquele cujas portas foram escancaradas nos últimos meses pelo site WikiLeaks, de Julian Assange.

É o mundo formado por longos corredores por onde se movem grandes corporações, magnatas donos das chaves dos cofres, multinacionais, agências de espionagem, governos e serviços diplomáticos. No mundo real, temos o chamado livre-arbítrio. No subterrâneo, somos meras marionetes. Nada do que façamos na superfície vai alterar os rumos dos porões – a máquina se move por diferentes colorações de hipocrisia.

Graziano começa a perturbar já pela provocação do título. Hitler ganhou, segundo ele, porque muitos dos que o apoiaram, deram sustentação para suas loucuras e financiaram o regime nazista, trocaram de lado em meio à guerra, quando o amigo de antes virou um incômodo, mas seguiram no controle do mundo subterrâneo.

De um jeito ou de outro, são os que sempre lucram, na paz ou na guerra. Mandam nos dois lados. No fundo, são os mesmos (ou seus representantes) que agora manipulam empresas poderosas para sufocar o WikiLeaks.

Apesar de já ter mais de cinco anos, a obra de Walter Graziano – um livro imperdível – ganhou atualidade com a série de documentos secretos revelados nos últimos meses. É o mesmo mundo, antes e agora.

A diferença é que desta vez, para incredulidade de acadêmicos como os que assessoraram Graziano, a História começa a ser escrita no mesmo momento em que os fatos acontecem. Não é mais necessário o tempo de distanciamento.

Este mundo seria muito mais assustador se nele não houvesse gente como o argentino Graziano e o australiano Assange. Sempre que um deles surge perturbando os poderosos, sinto-me confortável e seguro, como se eles fossem guardiões.

Durmo em paz. São eles que insistem em revelar os mapas dos subterrâneos, desmascarar os que se movem de acordo com sua própria conveniência e romper os cordéis para libertar as marionetes. São os que melhoram o mundo.


22 de dezembro de 2010 | N° 16557
DIANA CORSO


Provas e provações

Para mim já acabou, como criança que fui e até como mãe, mas doeu nas duas pontas. São as incertezas do fim do ano escolar, o medo de não passar, o pânico do vexame de rodar, da opinião do professor, a necessidade de provar o que não temos certeza se sabemos ou se, caso saibamos, conseguiremos demonstrar.

Todas as professoras de matemática que tive foram uma provação, sua matéria continua até hoje insondável para mim. Uma delas, recentemente encontrou minha mãe na rua e, ao ser informada de que eu não havia fracassado na vida, não pôde conter sua surpresa: “Então ela deu em alguma coisa!”.

Como se vê, não fui aluna muito promissora nesse quesito. Assim como ocorreu comigo, creio haver muitos alunos que não são eficientes em todas as áreas, que encontram dificuldades em exatas ou humanas, ou mesmo são atrapalhados para adaptar-se à sala de aula, sendo agitados ou sonhadores. Por vezes, há algum problema com o aluno, mas sem dúvida quando se trata de aprender não cabemos todos na mesma fôrma.

Para que alguém possa aprender, é preciso que haja algum espaço para a curiosidade, que as dúvidas não sejam atestado de ignorância, que o envolvimento do docente seja visível.

Se não for assim, a única coisa que estará sendo testada nas provas é a obediência, a capacidade de disponibilizar o cérebro para ser preenchido pelo pretensamente sábio superior hierárquico. Dar-se bem, neste caso, prova que o aluno não se opõe a ser influenciado e formado/formatado pelo seu mestre.

Com muita frequência, graças à competência dos professores e escolas isso tudo funciona. Porém, por vezes, crianças e jovens se fecham frente aos ensinamentos dos pais ou professores para proteger-se de uma invasão imaginária, ou talvez porque haja outro assunto relevante que precise ser digerido.

Também ocorre que sua natureza possa pender radicalmente para outra forma de aprendizagem, que um campo de saber lhe seja mais permeável, enquanto o outro é hostil e estrangeiro. Cada professor prefere um tipo de aluno e vice-versa, o resto é desencontro.

Ignorando tudo isso, certos mestres se regozijam com a autoridade de que gozam, intimidando seus alunos, principalmente aqueles com maiores dificuldades. Infelizmente conheci alguns desses.

É uma covarde glória do forte sobre o fraco, que no final do ano vive sua apoteose de poder. Felizmente esses são poucos, e graças a isso, no fim das contas, acabei não dando tão errado assim, apesar de nos meus pesadelos os carrascos da SS terem a cara de certas professoras de matemática.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010



21 de dezembro de 2010 | N° 16556AlertaVoltar para a edição de hoje
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

O Caso Kliemann

Sou obrigado a declarar-me meio parceiro do último livro de Celito De Grandi. Acompanhei, aos 17, 18 anos, toda a formidável teia de tragédias que abalou não apenas um homem e sua família, mas toda a sociedade do Rio Grande do Sul.

Nos países do Primeiro Mundo, lá onde fica a Cultura, são naturais as investigações, pesquisas e depoimentos sobre os grandes fatos que atentaram contra a convivência civilizada. Mais do que isso, são correntes as análises a respeito das pessoas que protagonizaram esses acontecimentos. Agora, um autor gaúcho captou ambas as vertentes, para compor uma clara síntese dos dois crimes e sua circunstância.

E o mais relevante: o fez com extraordinária honestidade, com serena precisão e justo equilíbrio, com aquela isenção que é privilégio dos jornalistas que merecem o nome.

Não vou contar aqui a trama da obra, mesmo porque ela se explica por si mesma. Mas como foi um notável best-seller, ouvi diversas versões acerca de quem foi o verdadeiro assassino da bela Margit Kliemann. Isso hoje faz parte da História.

Mas é o próprio escritor que, ao descrever os traços da tragédia do palacete da Rua Barão de Santo Ângelo, desenha o retrato sem retoque do assassino, que está longe de ser o deputado Euclydes Kliemann.

Outros tempos, outros usos. Se não se houvesse formado, em setores da imprensa gaúcha, o circo ao redor do bárbaro assassinato, com a invenção de personagens, a multiplicidade de versões, a alquimia de autores, o crime dos Moinhos de Vento não se sustentaria nas manchetes mais do que umas semanas.

Mas como tudo era permitido, a começar pela Repartição Central de Polícia e as mesas das Redações, formou-se uma fabulosa trama, que arrombou a privacidade de dezenas de pessoas.

Foi exemplar, a esse respeito, a atitude superior e límpida das filhas do deputado Kliemann, respondendo com sensatez e tranquilidade as perguntas que lhes foram dirigidas agora. E modelar a forma com que Celito De Grandi abriu a porta dos guardados, para que, com ética e sensibilidade, fizesse entrar ar puro em um território que há muito clamava por claridade.

Precisamos de outros livros assim. E não apenas por reporem o sentido e o norte do real jornalismo investigativo, mas por comprovarem que o gênero é irmão da boa literatura.

Um lindo dia pra você. Saudades da Primavera, mas a partir de hoje é o verão que está ai a pleno vapor. Um gostoso Verão pra você. Hoje e amanhã estarei na terra do Erico Veríssimo


21 de dezembro de 2010 | N° 16556
LUÍS AUGUSTO FISCHER


Patópolis

Há um território da cultura ocidental moderna que é nosso íntimo conhecido e impossível de conhecer com o corpo: Patópolis. Cidade imaginária da infância, lá vive uma população imprecisa de patos e cachorros, todos falantes, todos humanizados.

Tio Patinhas, por exemplo: é lá que vive, é lá que está o grande cofre onde repousa da famosa moeda número 1, a origem de todos os incontáveis metros cúbicos de moedas e cédulas que abarrotam as caixas-fortes em que o dono mergulha para revigorar-se.

As novas gerações ainda conhecem Patópolis? Não sei responder, mas parece que ela não tem mais a enorme presença que teve para nós, crianças do tempo da Guerra Fria. Para quem cresceu entre os anos 1950 e os 70, as ruas, as casas, as vizinhanças de Patópolis eram familiares.

Para mim, me dou conta agora, era fascinante conhecer o pequeno cotidiano dos personagens que protagonizavam as histórias: ver a mesa e a louça em que comiam Huguinho, Zezinho e Luisinho; ver as janelas floridas da casa da Margarida, a eterna namorada do Pato Donald; ver a entrada da escola e a feição das calçadas.

Tudo isso está entranhado na memória de milhões de nós, agora adultos irremediáveis sem chance de voltar a viver naquele universo que nem mesmo a severa crítica feita por Armand Mattelart e Ariel Dorfman, no livro-bomba setentista Para Ler o Pato Donald (com edição corrente, pela editora Paz & Terra), conseguiu arrancar de nossas entranhas.

Mas um ótimo livro recente repõe em circulação esse discutível mas irrecusável patrimônio da nossa geração: Patópolis, de Marcelo Coelho (editora Iluminuras). Como descrever o jeitão do texto? É uma mistura improvável de memória de geração, relato de leituras, ensaio à moda de Montaigne e exame analítico racionalista.

Uma composição estranha de ler, para a qual não há bússola evidente; um texto que não se acomoda em qualquer dos escaninhos já conhecidos na prosa brasileira; uma viagem que vale a pena acompanhar, com espírito livre e inteligência alerta.

O texto arranca de uma cena lida em um dos tantos livros de histórias em quadrinhos envolvendo o mundo patopolitano: dia de calor, Donald entediado, os sobrinhos enchendo sua paciência, uma mosca completando o cenário; Donald senta em sua poltrona predileta e tem nas mãos um livro, cujo título se deixa ler claramente: Contos Chatos.

Chatos? Mas por que chatos? Era assim no original ou foi uma liberdade do tradutor, para enfatizar o tédio da cena?

Marcelo Coelho perseguirá esta questão e incontáveis outras, com pertinácia em que se confundem certo espírito científico com indagação metafísica e volúpia memorialística, cultura letrada exigente e gosto pelo mundo pop, tudo considerado no horizonte dessa inquietante pertença de nós todos ao mundo da cidade dos patos. Livro estranho e excelente.


21 de dezembro de 2010 | N° 16556AlertaVoltar para a edição de hoje
PAULO SANT’ANA

Até breve

Estou tirando alguns dias de folga. Vou aproveitar para entrar em contato com uma dezena de médicos que tratam de minha saúde.

E também durante esta folga (imaginem, folga!) vou ser paciente de uma cirurgia que vai extirpar dois tumores, um na parótida direita, visível a todos os que me enxergam, outro na parótida esquerda, este meio que oculto embaixo da mandíbula.

O meu cirurgião proverbial é Nédio Steffen. Ás da cabeça e do pescoço, ele já me retirou vários tumores das parótidas e também já me arrancou fidalgamente 70% da minha tireoide.

E lá vou eu para mais uma sala de cirurgia, dormir nos anestésicos e me acordar cheio de esperanças na vida.

Em breves dias, estarei de volta.

Enquanto me preparo para esta folga importante para a manutenção de minha saúde, os mais importantes dirigentes do Grêmio realizaram um mutirão e me cercaram por todos os lados na últimas 48 horas: tentaram me convencer de que para o interesse maior do nosso amado tricolor é preciso que Ronaldinho Gaúcho retorne ao Olímpico.

Os dirigentes não querem deixar nenhuma aresta nesta volta do jogador à sua origem e por isso tratam de botar na cabeça do “Paulo Sant’Ana” que é essencial a volta de Ronaldinho num ano em que o Grêmio volta à Libertadores e às vésperas de ser erguida a Arena gremista.

Não foram baldados os esforços dos dirigentes gremistas para realizar em mim uma lavagem cerebral.

Mas quero dizer a eles e a toda a opinião pública que só uma pessoa pode me convencer de que é ótimo para o Grêmio o seu retorno: o próprio Ronaldinho.

Ele é que há de convencer-me. Quero olhar nos seus olhos e talvez um encontro nosso purgue todos os pecados.

Por sinal, não é só a mim que têm de convencer: ao ex-presidente Luiz Carlos Silveira Martins, o nosso companheiro Cacalo, terão também de convencer.

Leio e ouço o Cacalo, e ele, por mais que tente, não nos engana: tem um pé atrás nesta volta do Ronaldinho.

Mas o Cacalo é um grande gremista e, se for para o bem geral da nação tricolor, hão de convencê-lo de que Ronaldinho deve voltar.

A melhor coisa que aconteceu no sinal da Rádio Gaúcha nos últimos tempos foi a voz firme, deliciosa, clara, da locutora comercial Rita Gastal.

Não entendo como uma fumante inveterada consegue ter tal prodigiosa dicção.

Rita Gastal é a volta da importância da voz no rádio, voz boa e agradável e rádio continuam inseparáveis.

E, no mais, continuem por alguns dias com os meus interinos. Eles saberão honrar este espaço tradicional da imprensa escrita gaúcha.

Se os interinos começarem a brilhar, antecipo meu retorno imediatamente. Melhor para eles, portanto, que sejam modestos em suas pretensões.


21 de dezembro de 2010 | N° 16556
MOACYR SCLIAR


Papai Noel, barba e barriga

O mercado natalino é uma fonte de empregos transitórios. Deles, o mais transitório é representado pelas pessoas que se fantasiam de Papai Noel. Um desempenho que não exige muito talento teatral; tudo o que o Papai Noel tem a fazer é sentar-se na frente de um estabelecimento comercial, receber as crianças, fazer gestos amistosos, sorrir.

Nem mesmo o tradicional “Ho, ho, ho” lhe é exigido. Mas há algumas precondições que ajudam. Em São Paulo, são mais bem pagos homens que exibem dois característicos: longa barba branca (verdadeira, não postiça) e barriga avantajada (idem).

Esta preferência diz muito sobre nossas fantasias. Para começar, a barba. Normalmente, uma barba tipo Papai Noel seria considerada algo inusitado, para dizer o mínimo. De imediato pensaríamos naquele que a usasse como membro de alguma seita religiosa, como alguém esquisito. No entanto, Deus é sistematicamente assim retratado; mais, a barba faz parte da cultura do Oriente Médio, berço das religiões monoteístas. Agora: tem de ser uma barba branca.

Longas barbas negras, como aquelas que exibiam Fidel Castro e seus companheiros quando tomaram o poder em Cuba, evocam mais a contestação e a revolução do que qualquer outra coisa. Barba branca significa uma idade venerável, significa sabedoria; impõe respeito. Mostra que o Papai Noel é confiável, uma figura paterna, protetora e dadivosa.

A barriga tem conotação análoga. Barriga significa prosperidade, abundância de alimento. Hoje, as pessoas querem, através da dieta e do exercício, diminuir a cintura, que, quando exagerada, está efetivamente associada a riscos para a saúde. Quando surgiu a figura do Papai Noel, a situação era outra. A fome e a magreza eram comuns – e temidas. Um homem gordo era aquele que tinha acesso a comida em abundância; era rico, portanto, e podia dar presentes generosos, coisa que também esperamos do Papai Noel.

Magros eram malvistos; na peça de Shakespeare, Júlio César suspeita de Cássio (que viria a assassiná-lo) exatamente porque é um homem magro, de olhar faminto. César quer a seu redor homens gordos, bem-humorados. Agora, a barriga de Papai Noel não impede que ele seja ágil, que viaje de trenó, que se introduza pela chaminé. É uma barriga na medida.

Finalmente, um terceiro característico do velhinho: ele é o Papai, com inicial maiúscula. Ele não é o Vô Noel, ele não é o Tio Noel, ele não é o Padrinho Noel, não, ele é o Papai.

Um Papai de mentira, mas que mexe com pessoas, inclusive adultos, sobretudo adultos, e sobretudo aqueles que perderam os pais, uma carência que se prolonga pelos anos afora, porque orfandade não tem idade. Para essas pessoas, chamar alguém de Papai é um nostálgico conforto. E só ele já valeria o Natal e sua encenação.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010



20 de dezembro de 2010 | N° 16555
FABRÍCIO CARPINEJAR


Do lar

As mulheres caíram numa cilada masculina.

É um suicídio governar o país, o estado, o município. Bronca mais peluda do que as costas de Tony Ramos.

Cansamos. Foi um erro de cálculo. A autoridade desmagnetiza o prazer. É um encalhe de problemas, sempre tem um funcionário que pretende tirar vantagem, um escândalo, uma secretária gostosa no caminho, um relatório a entregar, além do excesso de reuniões que não permitem escapadinhas. Não há como arrumar amantes na posição de chefe, logo vira assédio sexual.

Não deu certo com a gente. O Imposto de Renda nos venceu. O enfarte nos venceu. Não queremos perder cabelos e passar a aposentadoria pagando implante.

Duro demais enfrentar 12 horas no expediente, suportar a fogueira de vaidades, não sobra folga para mais nada. Se eu fosse vocês não pegava essa geringonça.

O que pretendemos é ser do lar. Não conhecemos nenhuma dona de casa que foi processada, é mais seguro. Já temos prática em lavar carro, aprontar o quarto é moleza.

O que nos atrai neste milênio é preparar o jantar consultando um livro de receitas. Testar trituradores de camelôs.

Não nos importamos em receber mesada, podem deixar em cima da mesinha antes de sair. Não esqueçam o dinheiro do gás.

Produziremos três pratos quando vocês chegarem. Prometemos um doce toda semana, um pudim ou ambrosia, como queiram. Mas, por favor, só avisem quando vierem com amigas para jantar, que tudo seja planejado, horrível dar vexame às visitas.

Controlaremos a validade dos produtos na geladeira. Necas de se afligir com o supermercado, não iremos sobrecarregá-las com frivolidades domésticas.

Nossa missão será garantir a tranquilidade de vocês, chefas de família. Vamos encher a banheira com sais e espuma. Quando voltarem do trabalho, pegaremos maleta e bolsa e perguntaremos com a voz descansada:

– Como foi o dia, meu bem?

De noite, estaremos disponíveis ao ato sexual, relaxados. Compraremos óleos e cuecas fetichistas, talvez fantasia de policial ou de torneiro mecânico. Depois de encaminhar as crianças, colocaremos velas pelo corredor, Madona no CD e mostraremos, à meia-luz, os novos passos de pole dance.

Não descuidaremos da aparência. Fugiremos para shoppings à cata de uniformes esportivos. Diariamente, faremos um desfile dos times ingleses, dos italianos, dos espanhóis, dos franceses.

O que nos interessa mesmo é assistir ao futebol na televisão. Sempre há um jogo a qualquer hora, não existia isso antes. Qualquer horário, acreditem.

Agora mesmo, por exemplo, acompanho o Campeonato Alemão, Schalke versus Bayern, enquanto organizo a coleção de sapatos de minha esposa.

Os homens não querem mais o poder. Descobriram que a submissão é a força.


20 de dezembro de 2010 | N° 16555
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Personagens

Escritores, por vezes, escolhem os títulos de seus livros a partir de critérios aleatórios. O verbo é bem esse: escolher; se há escolha é porque há várias opções. A um escritor, ente criativo, não se deve estranhar que tenha essas várias opções.

Há títulos que decorrem naturalmente da trama. O melhor exemplo é Mme. Bovary. A heroí­na tem o domínio da ação desde o início. É ela quem sofre, se exaspera, se desespera e, por fim, se suicida. O título lhe pertence.

Há livros, no entanto, em que o título vai para uma personagem coadjuvante, como é o caso do romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós. Basílio não é nada, nem como personagem, nem como pessoa. É apenas instrumental. Sabe-se lá a razão, acaba por seduzir Luísa. A grande personagem, entretanto, é Juliana, a empregada doméstica. É odiosa, sim, é verdade, mas é inteira. Não podemos aceitar suas chantagens, seu mau caráter, mas é impossível negar sua pulsante existência. É nela que acreditamos, e não na frágil Luísa.

Outro caso de flagrante injustiça está em Don Quixote. Este livro ganha o título de seu protagonista, mas Don Quixote jamais transcende a figura que criou para si próprio. Alucinado, persegue seu sonho de cavaleiro andante, defensor das damas desvalidas, em especial de sua amada imortal, Dulcineia del Toboso. Já Sancho Pança é um ser volúvel, imprevisível. Com sua humanidade intrínseca, é ele que conduz a narrativa, por reconhecermos nela a nossa precária humanidade.

Sancho Pança, tal como Juliana, quer ascender na vida. Mas, enquanto Sancho Pança é a personagem “boa”, Juliana é a “má” – mas ambos não são inteiramente bons nem maus. São apenas humanos. Daí seu fascínio.

É curioso refletir sobre as razões que levaram seus autores a escolherem os títulos de suas consagradas obras. No caso de O Primo Basílio, é mais evidente a inadequação do título, que reduz o romance ao pífio Basílio.

Os leitores em geral não se apercebem dessas coisas, e têm como certo que o título não poderia ser outro. O escritor, porém é levado a escolher, num roteiro quase sempre dramático, mas nunca monótono.

É fácil dar o nome a uma criança.