quarta-feira, 25 de novembro de 2009



25 de novembro de 2009 | N° 16166
MARTHA MEDEIROS


Vidas de plástico

Assisti no DVD a um filme que me sensibilizou, ainda que não tenha feito muito barulho quando esteve em cartaz, ao menos não que eu lembre. É uma produção norte-americana chamada A Garota Ideal.

É a história de Lars, um homem tímido e fechado em si mesmo. Ele mora nos fundos da casa do irmão e da cunhada, que tentam atraí-lo para uma vida mais social, só que ele não quer saber de fazer amigos, não tem namorada, vive da casa pro trabalho, do trabalho pra casa, sem nem mesmo apertar a mão de ninguém – é refratário a qualquer toque. Sua solidão não é bem aceita, e tanto pegam no seu pé, que ele encontra uma solução para que o deixem em paz: compra uma boneca sexual pela internet.

O que poderia não passar de uma piada vira um constrangimento, porque Lars trata Bianca, a boneca, como uma mulher real. Conversa com ela, a leva à mesa na hora das refeições, apresenta aos amigos, deixando a todos perplexos com esse delírio.

Uma psicóloga acaba sendo convocada e, pra surpresa geral, recomenda que todos entrem no jogo de Lars, tratando a boneca como uma mulher de verdade – é o único meio de ajudá-lo. E mais não conto, mas acreditem, esse roteiro aparentemente estapafúrdio rendeu um filme terno e inteligente.

Mostra um homem se refugiando na fantasia para vencer seus traumas e mobilizando todo um vilarejo a fazer o mesmo: a população, solidária, trata a boneca como se ela tivesse pensamentos e vida própria.

Em determinado momento do filme, Lars está saindo da igreja com a sua “namorada” (que se locomove numa cadeira de rodas: seria demais exigir que ela caminhasse) quando uma moradora da cidade deixa no colo da boneca um buquê de flores artificiais. Lars agradece, se afasta com a cadeira e sussurra à namorada: “Não são de verdade, por isso vão durar para sempre”. É a frase que, a meu ver, resume não só o filme, mas um comportamento que está se tornando epidêmico.

A melhor maneira de fugir dos problemas é inventar uma vida em que tudo dê certo. Não por acaso, as relações virtuais andam com um ótimo cartaz, já que, em vez de serem realizadas, elas são controladas à distância.

Você se relaciona com fotos, com palavras tecladas, com alguém que está amenizando a sua carência sem que haja interação pra valer – é a legítima “proteção de tela” para ambos. Assim, fica fácil alcançar o romance ideal: como não há um envolvimento de fato, também não haverá decepções de fato.

Flores artificiais não perdem a cor e não precisam ser regadas, por isso se assemelham às relações dos nossos sonhos: são imortais. No entanto, não têm beleza, cheiro, não exigem dedicação, há apenas tédio, e acabam esquecidas num canto.

Não são de verdade, já que a verdade pressupõe mais instabilidade e emoção. Um amor de plástico, assim como flores de plástico, apenas servem para não dar trabalho, mas seu valor é nenhum. Onde não existe a possibilidade de morte, a vida não acontece.

Aproveite o dia. Uma ótima quarta-feira para vc


25 de novembro de 2009 | N° 16166
DIANA CORSO


Em nome do filho

Passei por um homem jovem e vi em seu braço forte, como o dos marinheiros de cartoon, uma tatuagem: era um nome de mulher, mas no outro braço havia um nome de homem. Não era um bissexual proclamando sua condição na pele, era um pai. Hoje em dia, numa celebração ao único amor certamente eterno, muitos tatuam o nome de seus filhos.

Tatuados ou não, filhos são indeléveis, seu nascimento é uma marca inesquecível. Mesmo que um pai ou uma mãe acabem não criando seus filhos, afastando-se deles, sentirão para sempre sua existência, da mesma forma como se sente um membro fantasma, um membro amputado que ainda dói. Por vezes até os não nascidos, gestações perdidas ou interrompidas, também deixam marcas e fazem aniversários.

Apesar disso, é difícil acreditar que os filhos recém-nascidos são uma realidade. Podemos ficar horas olhando a criatura adormecida, como se ela fosse um sonho do qual vamos acordar. Quando crescem, ainda parece incrível que “mamãe” e “papai” sejamos nós.

Em certos momentos da infância das minhas filhas esperava que um adulto de verdade aparecesse para assumir a função. Ocorre que as tarefas maternas e paternas sempre transcendem os que se ocupam delas, pois, mais do que práticos, são atos simbólicos, que assumem contornos míticos, ninguém está à altura.

Os pais que tatuam o nome dos seus filhos talvez saibam disso e querem a garantia da perenidade do vínculo no seu corpo. Tatuar-se o nome da pessoa amada é como impor uma certeza de fora para dentro, pode também ser uma declaração pública de pertença, como uma aliança que não sai do dedo. Os filhos sempre nos tatuam, nos possuem, queiramos ou não.

Dizer que os filhos são um amor que se impõe de fora para dentro não significa que falte em nós o júbilo de esperá-los, a felicidade de tê-los, apenas, inicialmente, o que amamos é a ideia de um filho que é sonhado. Já aquele nasce, é alguém que ainda teremos que trabalhar muito para conhecer e aprender a amar.

Seu modo de ser, de se parecer e os desafios que seu crescimento nos impõe, nos transformarão pelo resto da nossa parca existência: de fora para dentro.

Nunca estamos realmente preparados para os choros, as doenças, os conflitos com amigos, os namoros, as dificuldades na escola, os dilemas vocacionais, as separações das viagens, a saída de casa.

Vamos tocando e improvisando. Frente a tanta incerteza, não se estranha que se recorra à tatuagem para firmar um vínculo mutante, denso, pleno de ambivalências e mal-entendidos


25 de novembro de 2009 | N° 16166
PAULO SANT’ANA


O lixo nas praias

É fácil suportar a dor dos outros, difícil é suportar a própria dor. Não existe ditado mais verdadeiro do que “cada um sabe onde lhe aperta o calo”.

Medito, assim, que o homem verdadeiramente santo ou verdadeiramente sábio é o que chora pela dor alheia, o que sente na própria carne o sofrimento dos outros: eis um homem superior.

Se só sofrendo se consegue ser uma pessoa, então estou formado para a vida depois destas tonturas.

O pior da tontura é que na nossa volta ninguém mais a está sentindo.

E essa inveja que se sente dos que não estão tontos é uma dor ainda mais aguda do que a própria tontura.

A tontura priva o tonto de todos os prazeres, o de achar graça, o de rir, o de comer, até mesmo o de conversar.

Olho para os meus circunstantes e não entendo como eles podem não estar alegres, eufóricos, delirantes de alegria por não estarem tontos.

Comparo-me a eles e calculo que a nenhum deles sucede o acicate da dor permanente, da dor contínua, sem quartel.

Não há manifestação mais genuína de felicidade do que se estar apto para cantar ou para ouvir música. Um ser que canta ou ouve música é um ser feliz ou propício a ser feliz.

Isso me ocorre porque nesses longos dias de tontura nunca me sucedeu ousar cantar qualquer verso de tango ou de samba.

Adivinho que se for cantar ou ouvir qualquer melodia não usufruirei da música na essência do que ela é: a alegria do espírito.

Pode-se avaliar a felicidade das pessoas ouvindo-as cantar ou dançando.

Quem canta ou dança seus males espanta. O canto e a dança são o habeas corpus para a felicidade.

Não me ocorre beber, não me ocorre ler, não me tenta ser espirituoso em quaisquer conversas, a grande arma que sempre tive para cativar pessoas e cultivar amigos.

E o pior é que ninguém viu a minha dor chorando. O meu sofrimento não se mostra, ele é só meu, terrivelmente só meu, não consigo justificá-lo, sua invisibilidade ainda mais me amassa por não atrair de ninguém a compaixão.

Não tem jantar, não tem almoço, não tem bate-papo, esta tontura é uma dor que não tem programa, a dor da solidão.

Tento driblar a tontura com o trabalho. Pois ela me será muito mais dolorosa se eu me entregar ao ócio. Pelo menos o trabalho me distrai e atenua a náusea.

E, enquanto cismo absorto em dor, leio que o prefeito do Rio de Janeiro critica violentamente os seus munícipes.

O usual é os munícipes criticando o prefeito. Lá, não. O prefeito chama os habitantes do Rio de Janeiro de “porcos” por sujarem a cidade: mais de sete toneladas de lixo são retiradas diariamente só das praias do Rio.

Ninguém se aplica em colocar o lixo nas lixeiras, o trabalho de recolhimento dos detritos é gigantesco, as verbas gastas com isso são monumentais, parece que os banhistas se comprazem em ir largando o lixo onde ficam e por onde passam.

Isto de jogar o lixo fora sem colocá-lo na lixeira é um vandalismo, por ele se pode aferir o caráter de um povo.

Não é só nas praias, onde o lixo fica mais visível, mas qualquer detrito que jogarmos fora em qualquer parte das ruas passa a ser algo que se volta contra nós. Essa despesa com o recolhimento do lixo recairá em nossos próprios bolsos.

Nisso e em outros mil detalhes, o Brasil demonstra estar muito longe ainda de um patamar razoável de civilização.


25 de novembro de 2009 | N° 16166
DAVID COIMBRA


Velhas noites de sexta

Havia um bar bem ao lado do Teatro Presidente, teatro que, aliás, também havia, não há mais, foi-se o teatro, foi-se o bar, muito se foi naquela região da cidade. Edelweiss chamava-se o bar, nome de uma flor e de uma música da Noviça Rebelde.

Bem.

Todas as sextas-feiras íamos ao Edelweiss. Não precisava marcar, era certo: sexta, a partir da última esquina das 11, Edelweiss. O pedido não variava: uma pizza à xadrez que o dono do bar, o Tio Beto, fazia na manteiga, ficava crocante e macia, e não grudava no fundo da forma, uma delícia.

E cerveja, claro. Lembro que um dia cheguei por volta da meia-noite, cansado, sedento, precisando tirar a poeira da garganta, como diria o Tex Willer, e o Tio Beto fez aterrissar aquela garrafa branquinha de tão gelada na minha frente, declarando:

– Esta é melhor maneira de dizer boa noite a um amigo.

Lágrimas de emoção subiram-me aos olhos.

O Chico Trago levava o violão para o Edelweiss e cantávamos madrugada adentro. Mão, violão, canção, estrada e viola enluaradaaaaa...

O pessoal do Taranatiriça também ia tocar lá, e às vezes juntávamos as mesas.

Na hora de ir embora, abríamos a porta da rua e, Cristo!, a luz do sol nos cegava por instantes. Como a luz do sol é deprimente no fim da festa.

De qualquer maneira, era um belo bar, o Edelweiss, desses que não há mais na cidade.

Uma noite, cheguei antes da turma, sentei-me, eu com minha cerveja, e vi três moças que ainda não conhecia, na mesa ali adiante. Estavam entretidas numa conversa audível, não tive como não prestar atenção.

Mas não lembro de nenhum dos assuntos que tratavam, lembro apenas de uma única frase dita pela mais magrinha, a mais sequinha, a mais murchinha, quando a mais exuberante delas levantou-se para ir ao banheiro. Tratava-se, a exuberante, de uma morena magra, porém curvilínea, de cabelo reluzente e olhos d’água. Deslizou cheia de graça para o extremo sul do bar, enquanto as duas amigas a observavam. Aí a tal magrinha, a sequinha, a murchinha falou para a outra, num suspiro:

– Queria saber como é ser bonita como ela...

Foi como se me tivessem sacudido na cadeira. A singeleza triste da observação me enterneceu. Ela dizia, a murchinha, que queria saber como é ser bonita. Ou seja: sabia que não era. Que nunca seria. Mas desejava experimentar a sensação de ser.

Sua vida de feia de nascença decerto ensinara-lhe que, ao contrário do que a literatura e o cinema pregam com tanta generosidade, a beleza faz, sim, diferença. Mais: que alguns simplesmente vêm ao mundo privilegiados. São mais belos, mais inteligentes, mais ricos, têm mais sorte, e isso não significa que sejam menos bondosos, menos decentes, menos dignos.

O que a murchinha certamente sabia é que o mundo não é justo. Às vezes é até cruel. Cabe ao ser humano atenuar essas injustiças, corrigir as distorções da Natureza e dar mais a quem tem menos. Se a vida é torta, o homem tem de lutar pela retidão. Portanto, nada deste injusto e desigual campeonato de pontos corridos. Em nome da justiça e da suspirante murchinha do Edelweiss, que o campeonato volte a ter uma final.

A imoralidade da fórmula

Minha candente desaprovação à fórmula de pontos corridos no Brasileiro não tem a ver com a emoção na competição – qualquer campeonato de futebol, com qualquer fórmula, acaba sendo emocionante. Tenho ojeriza a essa fórmula precisamente pelo motivo alegado para implantá-la: diziam que era justa; é profundamente injusta e desigual. Pior: é imoral.

A prova provada são os jogos que decidirão o precário campeonato deste ano:

São Paulo x Sport

Inter x Santo André

Flamengo x Grêmio

Sport e Santo André já rebaixados e Grêmio cristalizado no meio da tabela. Onde fica a igualdade desses confrontos? São Paulo, Inter e Flamengo enfrentam a pressão de uma decisão contra adversários que jogarão bocejando.

Pode ser bom para o adversário, que não tem razão para nervosismo. Mas também existe a possibilidade de o adversário, por estar bocejando, distrair-se, levar gol e pouco se importar em virar o resultado.

Melhor seria uma fórmula mista, com pontos corridos e uma final com três jogos entre os dois melhores colocados, mas, se tivesse que escolher entre o sistema atual e o antigo, ficaria com o antigo, que exigia do campeão a prova definitiva de ter que passar por uma decisão, com todas as suas solicitações emocionais. Era mais lógico. E mais justo.

terça-feira, 24 de novembro de 2009


JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Saiu a Barbie Geisy!

Chegou o pentelho bomba! O coisa-ruim! O impronunciável: Ahmadinejad!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! É que um amigo foi fazer um exame em Natal e sabe como se chama o laboratório de análises clínicas? CACA! Rarará!

E o blog Criativo de Galochas criou a Barbie Geisy, uma "fashion doll"! Na facul ou na balada, ela veio pra causar. E eu já falei do terrorismo musical da Volks: "Fuscão Preto", "No Meu Crossfox" e agora "Kombi Branca".

Então, vou lançar mais duas: "Dei pro Meu Rei no Delrey!", um axé, e "Boquete no Chevette", um funk! Pra bombar no YouTube!

E socuerro! Me mate um bode! Todos para o abrigo. Salve-se quem puder! Chegou o pentelho bomba! O coisa-ruim! O impronunciável: Mahmoud Ahmadinejad! Como é que o Lula vai conseguir falar esse nome? Ah, vai chamar de companheiro mamute!

Eu tenho pena de âncora de telejornal. Todos treinando em frente ao espelho: "Ahmadinejad". Ele é o Bush do islã! Ele tem cara de tapado! QI de minhoca!

Diz que no Irã não tem biba. Ah, tá boa, burca amiga?! Deve tá tudo embaixo do tapete! Ele devia se casar com o Bin Laden! E imagine o discurso: "O Holocausto é um mito, e a Terra é quadrada". Todas as piadas do Bush, transfere pra esse doido.

Todo mundo bota a vassoura atrás da porta. Pra ele ir embora logo! Ô, visita inconveniente. Sabe aquelas visitas que chegam na hora do almoço? E você tem que abrir mais uma lata de atum pra jogar no macarrão! E o Rafinha Bastos do "CQC" revela a agenda do presidente do Irã: churras de criancinha no haras do Sarney e bate-bola na casa do Obina.

Tudo bem light! E o meu São Paulo continua na liderança! E olha o e-mail provocação que eu recebi: "Sabe qual a semelhança entre o Campeonato Brasileiro e um pingolim? É que os dois rodam, rodam, rodam e sempre caem na mão do São Paulo!". Rarará! Que sacanagem! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão! Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. Em João Pedro, Paraíba, tem uma boate gay chamada Anel do Brejo! Ueba!

Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Sopetão": congresso de companheiras siliconadas. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

simao@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Já vimos este filme

RIO DE JANEIRO - Tal como na televisão, as novelas da vida real são recorrentes, repetem-se com frequência mudando apenas alguns pormenores irrelevantes. O chassi é sempre o mesmo.

O pedido de extradição do italiano Cesare Battisti transformou-se num novelão que ainda não chegou a seu final. A mais alta corte de Justiça do país passou o abacaxi para o presidente Lula decidir e até agora sua excelência não decidiu.

Sabe-se que Lula é amigo do peito de todos os chefes de governo em exercício, inclusive de Berlusconi, com quem recentemente trocou afagos e palmadinhas nas costas.

Isso não chega a ser uma suspeição, a relação pessoal entre os dois presidentes pode ser boa, mas sem influir na decisão final.

Contudo, gostaria de lembrar um caso parecido, quando, nos anos 70, três países, Alemanha, Polônia e Israel, pediram a extradição do criminoso de guerra Gustav Wagner, que havia anos morava no Brasil.

A folha corrida do criminoso era horripilante. Em Sobibor, campo de concentração do qual era diretor, ele apanhava as criancinhas no colo das mães e as espatifava num poste da estação ferroviária. Era um monstro, com mãos enormes e disformes. Romeu Tuma, que o prendera, deixou que eu o entrevistasse, fiquei sem dormir algumas noites.

Pois o governo brasileiro, pressionado pelos países árabes que dominavam então o preço do petróleo, por meio da Opep, negou a extradição e Wagner veio a morrer, anos depois, na santa paz dos justos, aqui mesmo no Brasil, onde nunca foi molestado.

Isso mostra que os casos policiais em nível internacional transformam-se em casos políticos, que são resolvidos em termos políticos, a Justiça, o bom-senso sendo substituídos por interesses momentâneos e até mesmo pessoais das autoridades envolvidas.

ELIANE CANTANHÊDE

Antes perto do que inacessível

BRASÍLIA - Mahmoud Ahmadinejad vem aumentando sua presença na América do Sul, que fica logo abaixo e sofre influência direta do arqui-inimigo do Irã, os EUA. Não deve ser por acaso.

Primeiro, Ahmadinejad passou a visitar a Venezuela com uma frequência curiosa. Depois, aproximou-se do Equador e da Bolívia. Agora, botou literalmente os pés no Brasil, trazendo mais de 200 empresários de vários ramos, de agricultura a energia.

Diplomacia se faz muito pelos interesses bilaterais, um pouco pelos regionais e às vezes pelos multilaterais. Na vinda de Ahmadinejad, esses três ingredientes estiveram fortemente presentes, enquanto gays, feministas, bahá'ís e judeus gritavam do lado de fora dos palácios.

Para o mundo ouvir. A visita é mais um marco da polêmica política externa brasileira, que já criou "frisson" com uma cúpula Mercosul-países árabes em Brasília e atraiu ao país num só mês os presidentes de Israel, da Autoridade Palestina e agora do Irã.

A intenção não é assumir um lado da questão, nem apoiar o regime iraniano, muito menos compactuar com as barbaridades de Ahmadinejad, que nega o Holocausto e já pregou "varrer Israel do mapa".

É, ao contrário, fazer como o Brasil faz inclusive com a Venezuela de Chávez: perto o suficiente para ter penetração e diálogo, longe o necessário para não se comprometer com regimes, governos ou decisões pontuais. Ao contrário, tendo força moral para criticá-los.

É melhor ter o Irã por perto e submetido a alguns compromissos do que tê-lo isolado para fazer o que bem entender. Aliás, o simples fato de haver uma crescente oposição interna é bom sinal. Ahmadinejad sabe que ela não está sozinha e que o mundo está de olho. Não deixa de ser uma forma de proteção.

Engana-se quem acha que é uma ação do Brasil veladamente contra os EUA. Ao contrário, trata-se de um jogo bem combinado.

elianec@uol.com.br


24 de novembro de 2009 | N° 16165
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Entre dois mundos

Num entardecer de novembro de 1989, precisamente há 20 anos, Lauro Schirmer, então diretor de Zero Hora, me chamou à sua sala para mostrar o que foi um dos acontecimentos mais importantes do século 20. Na tela da televisão, uma multidão, na noite de Berlim, se apropriava do Muro e o punha abaixo, desafiando a bipolarização do mundo entre duas superpotências e acabando com a cisão de um país dividido contra si mesmo.

Contemplei emocionado aquele capítulo vivo da História e disse a Lauro que não me faltava ver mais nada.

Eu era sincero. Conheci Berlim em 1980, ainda dilacerada, e não esqueço a primeira vez que transpus suas fronteiras. O ônibus cruzou o Checkpoint Charlie, e logo um impressionante aparato da polícia oriental nos cercou. Meus companheiros de travessia e eu fomos cuidadosamente revistados e meu passaporte examinado como se fosse uma arma letal. Depois de uma excursão por entre ruínas da II Guerra e a monumental arquitetura socialista – imensos pombais de mínimos apartamentos – retornamos ao ponto original.

Aí aconteceu o ápice da vigilância. Guardas fardados nos cercaram, aparatos com espelhos escrutinaram a parte inferior do ônibus, cães enormes farejaram cada recanto do veículo. Nunca me esqueci dessa cena.

Tornei a Berlim em 1982. A rigidez do lado leste era a mesma. Ainda assim, em algum fim de semana – eu tirava um curso de Jornalismo Avançado que durava três meses – volvia a cruzar a fronteira, dessa vez por Friederichstrasse. O roteiro incluía a fantasmagórica visão de uma estação de metrô mantida exatamente como era no dia em que o Muro foi erguido, aí incluídos anúncios de artigos havia muito esquecidos e arquivados. Era como se o tempo tivesse parado.

Regressei em 1987 para outros três meses também assombrados pela divisão entre dois universos.

Houve 1989. Voltei em 1991, mas então os espectros se tinham dissipado. Onde antes resistia o Muro, já não se via sinal de sua existência.

Era como se eu caminhasse por um pedaço de calendário olvidado pela evolução da humanidade.

Melhor assim.

A liberdade é algo que não tem preço.


24 de novembro de 2009 | N° 16165
LUÍS AUGUSTO FISCHER


Monstrumentos

O assunto marcado no trocadilho do título, levantado pelo historiador Voltaire Schilling e debatido por várias figuras interessantes, ainda está vivo, me parece.

Para quem está por acaso aterrisando neste momento, cabe dizer, em súmula atropelada, que o Voltaire escreveu um texto destratando vários monumentos de arte pública fixados na geografia de Porto Alegre; a superfície do argumento denunciava o mau gosto das obras focadas, mas no fundo havia todo um questionamento sobre o papel das artes de nosso tempo, em especial as ditas artes visuais, que para Voltaire teriam por assim dizer se aproveitado de sua alegada condição de vanguarda – que ao mesmo tempo produz a arte e a justifica, como costuma ocorrer com toda vanguarda – para se imporem na cidade por sobre o gosto dos cidadãos cultos.

Entre todas as reações, das mais corporativas e desconfortáveis com a arguição pública (que simplesmente sugeriam ao Voltaire estudar) às mais sutis, me pareceu faltar outra dimensão, que foi tangenciada pelo artigo de sábado da Cláudia Laitano, quando comentou a conferência de Tom Wolfe – por um breve momento, eu paro e meço as palavras, e me dou conta de que, eba, estamos fazendo um debate escrito sobre matéria cultural! Parabéns para nós; não se assustem, crianças, debate pode existir.

A tal dimensão: está claro que o nosso tempo, este aqui, posterior à Guerra Fria, encerrada faz redondos 20 anos, já pode tomar distância bastante serena em relação ao fenômenos das vanguardas que caracterizaram o século 20, o curto século de Hobsbawn, que durou entre 1914, começo da I Guerra, à Derrubada do Muro de Berlim e ao Fim da URSS. Distância não apenas em relação às vanguardas estéticas, mas também às suas irmãs-gêmeas, as vanguardas políticas.

Que ainda haja gente fazendo gestos de vanguarda aqui e ali, na arte como na política, parece agora muito mais uma recordação do que uma proposta; estamos vendo o começo da campanha política do ano que vem e visitando os cenários da Bienal, portanto habilitados a dimensionar a fragilidade da saúde das vanguardas.

Não quer dizer que estamos no melhor dos mundos, pelo menos para meu gosto; mas sim quer dizer que o momento histórico é outro, posterior. Ontem mesmo saiu notícia dando conta de que foi eleito presidente do DCE da UFRGS um jovem ligado ao PP, partido herdeiro do PDS e da Arena, que nos dava nos nervos por seu inacreditável apoio à ditadura, à eleição indireta, à censura.

Consigo imaginar pouca coisa mais representativa da mudança que está, perdão pelo trocadilho, instalada. Mas não, calma, os “monstrumentos” não são necessariamente de direita, nem o rapaz esse será um monstro... Acabou o espaço, e nem consegui dizer bem o que queria.


24 de novembro de 2009 | N° 16165
MOACYR SCLIAR


O jogo do fanatismo, o jogo da paz

A entrevista que o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, deu a Tulio Milman (o brilhante editor da página 3) é um modelo de sobriedade e de bom senso, e contrasta com as declarações de Ahmadinejad negando o Holocausto.

Uma cantilena que o líder iraniano provavelmente não repetirá no Brasil. Sabe que aqui esta retórica, à qual não falta inclusive uma conotação neonazista, será muito mal recebida. Na verdade, até já está modificando a linguagem; numa entrevista recente admitiu que o Holocausto “talvez” tenha acontecido. Absurdo e má-fé.

Não pode haver qualquer dúvida quanto ao genocídio nazista: o assassinato de milhões de pessoas foi exaustivamente comprovado. No Brasil, não faltam inclusive testemunhos pessoais de sobreviventes. Além disso, é importante assinalar que o Holocausto matou principalmente judeus, mas não só judeus. Etnias como os ciganos, adversários do nazismo, minorias sexuais, membros de várias religiões e doentes mentais tiveram o mesmo fim. Será que o mandatário iraniano nega isso também?

O raciocínio de Ahmadinejad é muito simples – simplório, até. Parte da ideia de que o Estado de Israel foi criado por causa do Holocausto. Ora, como não houve Holocausto (sic), não deveria haver Estado de Israel, que portanto precisa ser “varrido do mapa”.

Tola como é, esta retórica tem, contudo, uma finalidade concreta: Ahmadinejad quer mostrar aos aitaolás que é um fundamentalista convicto, daqueles que não hesitam em negar a realidade em nome do fanatismo. É uma jogada, sinistra jogada mas jogada, um discurso para fins internos, e por isso creio que não será recitado no Brasil.

Lula tem um passado de luta pela justiça social, e isto sempre incluiu a rejeição de ideias nazistas e neonazistas. Bem que ele podia dar um discreto puxão de orelhas no líder iraniano. Talvez isso melhore a audição desse senhor. E sua lucidez.

Quando comecei a trabalhar em saúde pública, um de nossos maiores problemas era a desnutrição, que se manifestava em déficit de peso, sobretudo nas crianças, e em déficit de altura (por isso os nordestinos eram baixinhos). Agora, a pesquisa Saúde Brasil 2008 mostra a mudança verdadeiramente dramática que ocorreu nesta área. Em 1996, a desnutrição afetava 13,4% das crianças com menos de cinco anos. Dez anos depois, esta porcentagem caiu a menos da metade (6,7%).

O déficit de altura reduziu-se em 75% neste grupo. Claro, desnutrição ainda existe e afeta muita gente, mas 43,3% dos adultos nas capitais brasileiras estão acima do peso. O que também traz problemas: aumenta a prevalência de diabete e de óbitos ligados a essa doença.

Conclusão: o Brasil mudou. Mudou para melhor, mas, como sempre acontece nessas situações, tal mudança não se fez sem um preço.

Contudo, nada impede que os programas de saúde agora coloquem ênfase na dieta racional e no exercício físico. Obesidade Zero, deve ser agora o nosso lema. Frutas e verduras em vez de salgadinhos e alimentos gordurosos, calóricos. Dá para chegar lá.

Ainda falando em Oriente Médio: Lula está propondo, para março de 2010, uma partida de futebol entre o Brasil e uma seleção israelense-palestina.

Em termos de esporte, certamente o jogo não será o bicho, mas em matéria de caminho da paz é uma boa proposta. Não esqueçam que a briga entre os Estados Unidos e a China praticamente terminou com uma partida de tênis de mesa entre jogadores dos dois países.

Ótima terça-feira ainda que com chuva. Que haja muto sol dentro de você.


24 de novembro de 2009 | N° 16165
PAULO SANT’ANA


A gravata e a bomba

Quem já viu o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, de gravata?

Eu nunca o vi de gravata, mas é possível que ele alguma vez ceda à tentação dos costumes ocidentais tradicionais e vista esse apêndice da moda.

Por sinal, eu sempre admirei secretamente as pessoas que comparecem a solenidades e festas onde se recomenda a gravata nos convites e não vestem aquele adereço.

A pessoa enfrenta sem gravata o ambiente com a maior naturalidade, é única, entre todos, sem gravata e desembaraça-se com desenvoltura, parecendo não importar-lhe que esteja trajada diferente de todos e contra a recomendação da etiqueta.

Mas eu queria mesmo é falar do anãozinho Ahmadinejad. Vi-o ontem discursando no Itamaraty, o único sem gravata.

E fico a pensar no que deseja mais a autossuficiência de Ahmadinejad que não seja somente a destruição de Israel.

Quando ele nega tenha havido o Holocausto judeu, parece insinuar que ainda não houve o Holocausto. Ele próprio o cometerá dentro em breve, usando de armas nucleares que o Ocidente acusa que ele está elaborando. Quer atrair para si a primazia de destruir Israel.

Para ele, não tem meio-termo nem negociação, ele pretende “varrer Israel do mapa”.

E quem expõe assim seu ideal sem nenhum constrangimento, torna-se perigoso, daí por que as Nações Unidas e os Estados Unidos olham com desconfiança o programa nuclear iraniano, considerando o risco que será o Irã cultivar um artefato atômico.

Israel, por exemplo, possui a bomba nuclear. Consta que a Índia e o Paquistão já possuem artefatos nucleares.

Mas Israel não declara por nenhum dos seus governantes que quer varrer o Irã do mapa.

A Índia e o Paquistão têm conflitos, nenhum até agora que possa acarretar um ataque nuclear unilateral ou recíproco.

Com o Irã, se dá o contrário, e é por isso que o mundo se preocupa: suspeita-se de que seu plano nuclear esteja se desviando da finalidade pacífica, justamente para “varrer Israel do mapa”.

Por isso é que é naquele lugar do Oriente Médio que se concentram todas as preocupações mundiais.

No dia em que os serviços de informações de Israel detectarem que o Irã está avançando num programa nuclear não pacífico, é certo que o país dos aiatolás será bombardeado. Pronto, eis a guerra e todas as suas consequências desastrosas.

O que se nota, pois, é que só uma força pode romper o equilíbrio de poder militar no mundo: o ódio.

Nenhum dos detentores de energia nuclear bélica pode ter governantes fanáticos. Esse é justamente o temor que Ahmadinejad e o Irã inspiram.

Em cerimônia em que constava a entrega dos espadins aos novos capitães da Brigada Militar, fui agraciado sábado passado, entre outros homenageados, com a Medalha dos Serviços Distintos, outorga tradicional da Polícia Militar gaúcha.

Sinto-me honrado e agradecido com o galardão.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009


RUY CASTRO

Dilemas

RIO DE JANEIRO - A mão de Thierry Henry conduzindo a bola, a resultar no gol que classificou a França para a Copa do Mundo de 2010, tem permitido aos franceses praticar seu esporte favorito: a discussão ética, moral, filosófica. No caso, discute-se em Paris se a lisura, a verdade e o direito não seriam mais importantes do que a vibração nacional pelo resultado do jogo, aliás, imerecido.

Na França, toda discussão contrapõe teoria e prática, pensamento e ação, ideal e realidade. Já era assim na Revolução de 1789, em que o dístico "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" foi esculachado de saída e, mais ainda, durante o Terror (1792-1794). As poucas cabeças que escaparam da guilhotina se perguntavam se não havia ali uma contradição em termos. Sem falar na discussão mais profunda, sobre se liberdade e igualdade seriam politicamente compatíveis.

Na Segunda Guerra, a mesma coisa: como a Alemanha poderia ter ocupado o país com uns poucos soldados e agentes sem um alto colaboracionismo do povo francês? Estabelecido tal colaboracionismo, os pensadores, entre eles Jean-Paul Sartre, extrapolaram para perguntar o que seriam a covardia, o oportunismo e, no geral, a natureza humana.

O mesmo Sartre, em 1947, foi convidado pela Gallimard a escrever um pequeno prefácio para uma edição da poesia de Baudelaire. Sartre aceitou e sentou-se para escrever.

Mas se empolgou e, quando se levantou da cadeira, tinha produzido mil páginas sobre a "alteridade" do poeta. O jeito foi a Gallimard publicar seu texto como um ensaio gigante e incluir no fim a obra de Baudelaire -como apêndice.

Isso explica um habitual dilema dos franceses a respeito de alguma novidade que lhes caia às mãos, seja um conceito, seja um objeto: "Na prática, funciona. Mas funcionará na teoria?".

MOACYR SCLIAR

Vida dupla

Os números e as tabelas estudadas simplesmente sumiam de sua mente, e ela só tinha olhos para o parceiro

Uma ex-prostituta que divulgava suas memórias em um famoso blog -transformado em série de TV- causou furor no Reino Unido ao revelar sua identidade, mantida em segredo por seis anos. A autora do blog "The Intimate Adventures of a Call Girl" ("As Aventuras Íntimas de uma Garota de Programa") é uma médica de 34 anos da cidade de Bristol.

Brooke Magnanti, que diz ter trabalhado como prostituta de luxo para bancar seus estudos de doutorado (é PhD em epidemiologia), resolveu revelar sua identidade ao jornal "Sunday Times" porque não queria mais suportar "esse pesado segredo".

Com o dinheiro levantado com as adaptações de seu blog para um livro e a série de TV, Magnanti largou a carreira de prostituta. Hoje ela trabalha em um programa de pesquisa em um hospital da Universidade de Bristol.

Um porta-voz da universidade disse: "Esse aspecto do passado da dra. Magnanti não é relevante para o seu atual papel na universidade" e que as revelações não afetariam as suas futuras chances de contratação.

A DECISÃO não foi fácil, mas sua determinação de fazer o doutorado era grande, e assim ela recorreu ao meio mais imediato para ganhar o dinheiro necessário para pagar os estudos: aderiu àquilo que é eufemisticamente chamado de "a profissão mais antiga do mundo".

Para ela, contudo, uma coisa estava bem clara: entregar o corpo não significava entregar-se como pessoa. Usava sempre uma máscara, que aliás para muitos homens funcionava como algo excitante, e durante as relações procurava manter a mente ocupada; recordava, por exemplo, os estudos epidemiológicos que tinha lido naquele dia, examinava-os à luz da lógica científica, tirava suas próprias conclusões, discutia com imaginários interlocutores. Coisa que os clientes aparentemente nunca notavam; ao contrário, eram unânimes em dizer que ela era uma grande mulher.

Mas houve um cliente que, desde a primeira vez, deixou-a abalada. Era um homem jovem, bonito, gentil, de fala macia; pior, era médico, trabalhava num grande hospital e adorava sua profissão, sobre a qual falava com muito entusiasmo.

Ela nada disse, claro, sobre sua própria formação profissional, nem sobre seus planos de fazer o doutorado; mas a verdade é que o belo doutor perturbava-a e era em vão que ela tentava concentrar sua mente em complexos estudos epidemiológicos. Os números e as tabelas estudadas simplesmente sumiam de sua mente, e ela só tinha olhos para o ardente parceiro.

Foi com enorme alívio que, um dia, constatou que já não precisava da prostituição para viver. Concluiu o doutorado e foi contratada para o programa de pesquisa epidemiológica de um grande hospital universitário. Trabalharia com um parceiro médico. Quando foi apresentada a ele, quase desmaiou: era o jovem doutor que tanto a fascinara.

Se ele a reconheceu ela não sabe dizer. Mas de uma coisa tem certeza: em algum momento farão amor novamente. E aí os estudos epidemiológicos irremediavelmente irão para o espaço. MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha.


Bananão desbanca vampiro

Divertido livro infantil que já vende mais do que "Crepúsculo" pode lhe ensinar algo sobre seu próprio filho

E squeça a vampiromania. A saga Crepúsculo perdeu o primeiro lugar na lista de best-sellers do jornal The New York Times. O mais surpreendente é que isso ocorreu na mesma semana em que estreava, mundialmente, cercado de alvoroço e marketing, o filme Lua Nova, adaptação para o cinema do segundo título da série Crepúsculo (Twilight, no original).

O novo número 1 da pesquisa do Times é o divertido Diary of a Wimpy Kid. No Brasil, Diário de um Banana.

São apenas três volumes: Diário de um Banana, Rodrick É o Cara e Dias de Cão – este último (Days Dog, no original) ainda não saiu no Brasil. Juntos, os três livros desbancaram os quatro que compõem a série vampiresca concebida por Stephenie Meyer.

Diário reproduz o cotidiano de Greg Heffley, um garoto magrelo e tímido que precisa lidar (fazendo o mínimo de esforço) com os incômodos da puberdade, os desmandos domésticos e os valentões da escola. Os volumes são escritos no formato de um diário, com linhas feito as de um caderno e desenhos bem toscos.

Dog Days, lançado na semana passada nos Estados Unidos, já é o livro mais vendido no site Amazon.com, ultrapassando inclusive o recente Dan Brown, O Símbolo Perdido. A procura foi tanta que a editora aumentou a tiragem inicial – de 3 para 4 milhões de cópias.

Alguns pais se mostraram preocupados. Nas primeiras cinco páginas do livro, aparecem palavras como “idiota”, “imbecil”, “babaca” e “meninas gostosas”. Especialistas advertem que aí não haveria problema. Sugerem, inclusive, que os pais leiam os livros. Joshua Sparrow, psiquiatra da Faculdade de Medicina de Harvard, leu o primeiro volume depois de ouvir comentários de um paciente e ficou entusiasmado:

– O livro capta o que a criança é capaz de conseguir e o que está além do alcance delas.

Lawrence Rosen, pediatra e fundadora do Whole Child Center, de Nova Jersey, diz que já conversou sobre os livros com a sua filha pequena. O que ela mais gosta no texto é que o personagem principal não é perfeito.

– O poder do livro está no banana, uma criança comum com problemas comuns, lidando com o que a vida oferece – diz Rosen. – Para os pais, acredito que ler os livros, ou pelo menos discuti-los com seus filhos, dá uma ideia mais real de como eles enfrentam o dia a dia.

O autor, Jeff Kinney, um designer de games de 38 anos, com um filho de seis e outro de quatro anos, diz que, em vez de oferecer lições de moral, preferiu focar no humor natural que aparece nas decisões erradas que as crianças geralmente tomam. Em um episódio do terceiro livro, Greg deixa seu melhor amigo ser castigado por uma diabrura que ele, Greg, havia aprontado.

– Decidi que a coisa certa, desta vez, era deixar o Rowley encrencado – comenta o garoto.

Kinney sublinha:

– Greg realmente pensa que ele fez a coisa certa e acha que aprendeu a lição. Você espera que em algum momento um adulto vá esclarecer tudo, mas isso nunca acontece. Se há uma lição no livro, é que façam o oposto do protagonista. Até o meu filho, que está no jardim da infância, entende que Greg está sendo malcriado e que não deve agir como ele.

Joshua Sparrow diz que parte do apelo do livro é que ele não moraliza.

– Se você tivesse uma voz onisciente dizendo para "fazer a coisa certa", os jovens não dariam a mínima. Isso dá espaço para a criança ser desafiada a decidir o que ela pensa.

Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana


23 de novembro de 2009 | N° 16164
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Vulgaridades

O que é banal, o que é sórdido ou obsceno; o que é rasteiro, o que constrange pela falta de gosto: eis os itens que compõem o gabinete das curiosidades de nosso tempo.

A julgar pelo som dos carros ou pelas fotos das capas das revistas, as pessoas não têm o menor pudor em declarar sua própria vulgaridade.

De um tempo para cá, as comemorações, mesmo as domésticas e outrora íntimas, tornaram-se espetáculos de mau gosto.

Veja-se, por exemplo, o casamento, que, de uma instituição religiosa, legal ou moral, acaba sendo motivo de manifestações da mais deslavada ostentação: em geral ao ar livre [para invocar os “elementais da natureza”(, seja isso o que for)]; em geral com um amigo servindo de oficiante “ad hoc”, gaguejando aforismos de Buda ou de Paulo Coelho; em geral com dezenas de padrinhos, para amealhar presentes; em geral apresentando, no que toca ao figurino dos convidados, uma verdadeira catástrofe.

Quanto às formaturas: promoters tomaram conta de suas encenações, [porque em encenações se transformaram] quase sempre sem o menor conhecimento do que estão falando. Foi possível escutar de um destes, ao se dirigir a seus clientes [porque em clientes se transformaram]: “Na hora em que o diretor põe aquele chapéu na cabeça de vocês, vocês ...”. Chapéu. Sim: chapéu.

No que se refere às leituras que andam por aí, o quadro é assustador. A lista dos best-sellers é vergonhosa. Salvo as clássicas exceções, avultam os livros de interesse prático ou que apresentem soluções milagrosas para a gestão de empresas ou para amestrar papagaios. Mas se falarem sobre cachorros sentimentais, melhor ainda.

A vulgaridade, em si, não é um mal - cada qual tem a biblioteca que merece - mas é sintoma da incapacidade de abstração e de reflexão. O lazer, que poderia representar um tempo dedicado a pensar na vida, é logo preenchido por intoxicantes entregas às compras ou ao entretenimento mais discutível.

Esse quadro não surgiu do nada.

As causas são muitas, mas é inegável que destacam-se, como dominantes, a ausência de uma convicção ideológica ou de uma fé em algo transcendente.

Ou as duas ao mesmo tempo. Mas aí já estamos operando num plano de difícil solução, a não ser que intervenha a passagem do tempo. Espera-se muito do tempo. A Humanidade aprendeu a confiar nele. Mas que não demore.


23 de novembro de 2009 | N° 16164
PAULO SANT’ANA


A guerra é aqui!

A guerra contra o tráfico de drogas se intensifica até mesmo em táticas de contraguerrilha para conter os métodos dos traficantes cariocas.

A PM do Rio de Janeiro está enviando para a Colômbia oficiais que se especializarão em combate contra o terror nas favelas e entornos do Rio de Janeiro.

Os traficantes do Rio de Janeiro estão usando barricadas e casamatas de concreto para não permitir a passagem de carros blindados da polícia, a nova arma contra o traficantes.

Os policiais que vão aprender táticas modernas na Colômbia foram até lá levados pelas bombas, minas terrestres e outras armadilhas engendradas pelo tráfico, o que transforma definitivamente o Rio de Janeiro em um palco de guerra, com todas as tintas de uma guerra civil, já enfrentada pela Colômbia e agora instalada no Brasil.

Para evitar a entrada nos pontos de depósito e distribuição de drogas, os traficantes utilizam trilhos na pista e muretas de concreto com aberturas por onde os criminosos atiram, além de uma nova tática com método nitidamente militar: a abertura de fossos para impedir os carros blindados de avançar e se instalar no centro vital de ação dos traficantes.

Acostumados a usar mão de obra de ex-militares, os traficantes passaram a utilizar armadilhas ensinadas pelos manuais das Forças Armadas, abrindo fossos de 1m50cm de extensão por 1m de largura. Essas crateras são implantadas nas entradas das favelas e visam a não permitir a passagem dos carros blindados policiais, que estavam se tornando eficiente estratégia da PM para atingir o âmago da atividade do tráfico.

E os bandidos estão jogando óleo nos fossos para impedir sua concretagem.

A possibilidade de que os bandidos venham a colocar explosivos nessas crateras é já admitida pela polícia.

Como se vê, a guerra entre polícia e traficantes no Rio de Janeiro se torna um combate militar a que foi levada a polícia pelos sofisticados métodos de estrutura bélica montada pelos traficantes.

É guerra de guerrilha pura, guerrilha urbana genuína, com instrutores de batalha utilizados em ambos os lados.

Chegamos ao ponto em que o tráfico não se especializa só em transportar, depositar e comercializar as drogas, mas também em adotar estratégia militar para protegê-las e impedir o acesso das forças policiais a seus bunkers.

A tática de guerrilha dos traficantes chegou ao ponto de arremessos de coquetel molotov contra os caveirões (carros blindados) da polícia, além de bombas de tinta para atrapalhar a visão dos policiais dentro dos veículos.

Esses combates não se verificam nas selvas, longe dos centros civilizados, é ali mesmo, junto à Zona Sul carioca, encravada entre os morros e sujeita assim aos ataques criminosos, enchendo a sociedade de medo e terror.

Assim como a Polícia Militar está enviando oficiais para aprender táticas antiguerrilha na Colômbia, os traficantes também se apoderam de táticas militares que lhes são transmitidas por ex-militares contratados para instruí-los.

Estas notícias são as mais apavorantes de que se tem notícia. Porque revelam nitidamente que esta guerra urbana sem quartel não tem fim, está marcada para se desenvolver nos próximos anos e décadas, sujando a paisagem humana do Rio de Janeiro e ameaçando contagiar as favelas de São Paulo e das grandes cidades provincianas.

Deus salve-nos desta tragédia.


23 de novembro de 2009 | N° 16164
L. F. VERISSIMO


Avô em playground

Uma das eventuais missões de avô, Zuenir, é acompanhar a neta a playgrounds e ficar de olho enquanto ela se mistura com outras crianças, sobe e desce de brinquedos, corre, cai, chora, se levanta – enfim, interage com o mundo e com os outros.

Pode ser uma experiência desconcertante, para o avô. Um playground cheio de crianças é um microcosmo em que todos os impulsos e calhordices da humanidade são reproduzidos em estado puro, sem dissimulação.

Alianças são feitas e desfeitas em minutos, os mais fortes ou mais ativos impõem sua vontade, e, como no mundo dos adultos, os piores conflitos parecem sempre passar pela questão da propriedade. Desconfio que John Locke desenvolveu sua teoria sobre o instinto da propriedade acompanhando uma disputa sobre baldes e pazinhas em algum playground inglês do século 17.

Corta o coração de um avô ver o primeiro encontro da neta com a realidade de que o que é do outro é do outro, e só será compartilhado por um raro ato de altruísmo. Isto vale tanto para baldes e pazinhas quanto para bolas, bonecos, lugares na fila do escorregador e latifúndios improdutivos.

Avô em playground precisa ter, antes de mais nada, autocontrole. Deve resistir à tentação de socorrer a neta cada vez que ela cai, abraçá-la e tentar convencê-la a não sair mais do colo do vô, que é o lugar mais seguro da Terra.

Também deve resistir à tentação de dar um sutil empurrão no garoto que insiste em não desocupar o balanço, ou interferir quando a menina maior não deixa a sua neta colaborar nos seus bolinhos de areia. Inclusive indo lá e, disfarçadamente, pisando nos bolinhos.

O correto, claro, é deixar a neta descobrir sozinha como se defender e como se impor. Mas aí entra outra consideração: sua neta só aprenderá a sobreviver à truculência e à prepotência dos outros se também se tornar um pouco truculenta e prepotente.

E você jamais aceitará que sua neta não tenha o melhor caráter do playground, além de um inato senso de justiça.

Outra coisa: avô em playground deve tentar evitar o ridículo. Ele é um estanho no meio, e estará sob constante observação crítica de mães e babás.

Em hipótese alguma deve se oferecer para descer junto com a neta no escorregador, temendo que ela caia, e arriscando o vexame. E nunca fazer um discurso contra o egoísmo e a falta de solidariedade no mundo antes de confiscar um balde e uma pazinha para sua neta.

domingo, 22 de novembro de 2009


DANUZA LEÃO

Como é difícil ser feliz

É hora de inventar alguma coisa para sofrer; afinal, não há nada mais difícil do que viver a felicidade

POR MAIS louco que pareça, é difícil suportar a felicidade. Você conhece alguém feliz? Nem eu, e os poucos que têm tudo para serem felizes ficam inventando modas para complicar a vida.

Ter uma vida familiar satisfatória, sem nenhum daqueles problemas graves que existem em quase todas as famílias, já é raro. Além desse aspecto, ainda existem as relações entre os parentes, que na maioria das vezes costumam ser explosivas, para dizer o mínimo.

Sogras odeiam noras -e vice-versa-, irmãs querem esfaquear as cunhadas, e levante as mãos para os céus se na sua família nunca existiu quem se engraçasse com quem não devia.

Se do lado familiar está tudo bem, o que já é raro, vamos ao profissional. Suponhamos que você, depois de muita luta, tenha conseguido chegar ao ponto que queria: bem de grana e prestígio na praça, o que não é pouco. Mas ainda falta o lado sentimental; como vai ele?

Por incrível que pareça, esse também vai bem. Encontrou a pessoa certa -quase certa, a bem dizer-, com quem os filhos se dão bem, a quem os amigos não torcem o nariz e até a família, que não deixa passar nada, aceita.

Além disso, está morando numa casa legal, tem o carro do ano, pode viajar mais ou menos para onde quer mais ou menos quando quer, e o resultado do último check up não poderia ter sido melhor. E mais: modéstia à parte, o visual não deixa a desejar, muito pelo contrário, e as mulheres estão chovendo na sua horta.

Não são razões de sobra para estar feliz? São, e até demais. Então é hora de inventar alguma coisa, qualquer coisa, para sofrer; afinal, não há nada mais difícil do que viver a felicidade.

Um dos recursos mais usados é o medo. Ah, se ela me deixar; ah, se eu ficar doente; ah, se minha mãe morrer; ah, se eu perder o emprego; ah, se um incêndio queimar a minha casa; ah, se eu perder a inteligência e não puder mais trabalhar; ah, se a inflação voltar e não der para pagar as prestações do apartamento; ah, se o avião que vai me levar para fazer a mais maravilhosa de todas as viagens cair -e por aí vai.

As poucas pessoa felizes -e por isso são felizes- não têm medo de nada e nunca acham que a vida vai piorar, muito pelo contrário. Mas os que estão com a vida boa encontram sempre uma maneira de achar um drama em tudo.

As mulheres são especialistas nisso: se está tudo bem, elas lembram daquele dia, oito anos atrás, em que o marido bebeu demais e ficou fazendo charme para uma mulher. Daí para uma grande cena de ciúmes é um passo -ah, como nós podemos ser insuportáveis às vezes. E o pior: essa crise pode durar dias.

Se não é por aí, então quem sabe no trabalho? Como está tudo meio burocrático demais, fica pensando em como seria bom que fosse mandado para longe por uns tempos; até Brasília seria uma boa, só para mudar de ares e de função. Mas pensa na praia, na maravilha que é morar no Rio, e abandona a ideia antes que seja tarde.

Mas, como não há nada mais monótono do que a felicidade, é preciso arranjar pelo menos um problema, um pequeno problema, para que a vida fique mais interessante, e isso é simples.

Basta pensar: e se sua felicidade acabar?

danuza.leao@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Lula, o filho do Shrek!

"Shrek 4": o mocinho é ogro, não tem um dedinho e no final fica com a Fiona

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Ops, do Planeta da Piada Pronta: tribunal chinês proíbe venda dos programas da Microsoft POR PLÁGIO.

Em matéria de plágio, a China quer exclusividade! Lolex, Plada e Miclosoft. E cheque Bladesco. E um amigo foi num desses stand centers e perguntou pra chinesa: "O aparelho de som vem com as caixinhas surround?". "Caxinha sulound paga sepalado." "Então, enfia na peleleca." Rarará!

O PGN, o meu Partido da Genitália Nacional vai criar a faculdade para as rejeitadas da Uniban: UNIBUNDAS! Não tem matrícula nem mensalidade. Cada uma dá o que pode!

E o babado da semana: "Lula, o Filho do Brasil". Um amigo me disse que só vai assistir ao filme do Lula se ele morrer no final! E um outro disse que o filme acaba mal: no final, ele vira presidente. Rarará! Mas o Lula não foi à estreia.

Dizem que ele foi assistir a "2012". Pra ver se a Dilma conseguiu ser eleita! Dona Marisa foi representar o Lula na estreia. Será que o filme é mudo? E sabe por que o ator aceitou fazer o papel do Lula? Porque disseram que ele não precisava beijar a Marisa no final!

E o site Comentando lançou uma nova versão: ""Lula, o Filho do Barril". Em breve em todas as biroscas do Brasil. Um filme de Fábio Velho Barreiro". Mas nos EUA vai passar como "Shrek 4": o mocinho é ogro, não tem um dedinho e no final fica com a Fiona. E adorei a charge do Pelicano com dois convidados do filme do Lula: "Ué, tá tudo escuro, o filme não vai começar?". "Já começou, é a cena do apagão." Rarará!

E diz que a Geisy da Uniban vai posar pra "Playboy". Logo depois da Fernanda Young? O véio dono da "Playboy" vai se atirar da cobertura. De desgosto.
E olha o e-mail que me mandaram. Campeonato Brasileiro: o Palmeiras quer ser penta, o Flamengo quer ser hexa e o São Paulo quer ser hétero. Detestei. Porque sou bambi com muito orgulho.

O Kassab tomou umas PITU pra aumentar o IPTU. Diz que vai aumentar 40%. Não é IPTU, é HIPERTU! IPTU de Itu! IPTU quer dizer Impossível Pagar Tudo Isso!
E a novela do Maneco? Continua a campanha Reage, Helena. E uma outra do contra: Tapa na Helena. Rarará. É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Sine qua non": cinema que tá passando o filme do companheiro Lula. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Tecnologia de ponta

RIO DE JANEIRO - Nem tudo está perdido para nós, os brasileiros que desejam chegar ao ranking das grandes potências do século 21. Tivemos há pouco um apagão no abastecimento de energia elétrica, colapso que acontece nas melhores famílias da comunidade internacional. E, aspirando a ter uma tecnologia de ponta, capaz de explicar o acidente, temos recursos avançadíssimos para saber o que aconteceu.

Um senador amazonense, por gozação ou por influência das lendas e superstições de seu Estado, lembrou uma consulta à cobra coral, não sei se uma instituição ou entidade esotérica capaz de explicar as causas e prever os efeitos de qualquer incidente pessoal ou coletivo.

Afinal, a ex-ministra de Minas e Energia, douta no assunto, já deu o caso por encerrado, em contradição com o presidente da República, que até agora não compreendeu o problema e exige explicações dos responsáveis, sem que estes responsáveis possam ser liminarmente culpados.

Apelando para um tipo de pajelança, é capaz de ser encontrada uma solução que substituirá a tecnologia de ponta que nos falta. Tudo é possível -dizia constantemente Machado de Assis.

Cultivo um mistério que já foi também mistério nacional. Onde estão os ossos de Dana de Teffé? Para quem não sabe, a ossada da milionária assassinada pelo amante nunca foi encontrada, apesar de o país inteiro levar anos procurando a prova que condenaria o assassino.

Foi um problema nacional, não houve osso de galinha ou de cachorro que não fosse levado aos laboratórios. Tenho para mim que enquanto não forem localizados, nada dará muito certo para o Brasil. Com a ajuda da cobra coral lembrada pelo senador amazonense, é possível que esse mistério -como o do apagão- seja resolvido.