segunda-feira, 4 de maio de 2020


04 DE MAIO DE 2020
EM DIA

A VOLTA A UMA NOVA REALIDADE


A pandemia do coronavírus marcará o fim deste século, juntamente com o admirável avanço da tecnologia como aliada da ciência e da sociedade - período que o mundo praticamente parou por uma causa comum: a vida.

Porém, o planeta pós-crise não será o mesmo. Não haverá volta àquela normalidade que conhecíamos. O retorno será a uma nova realidade, que exigirá maior conscientização, maior responsabilidade, muito espírito de cidadania e a certeza de que o sistema de saúde é um direito fundamental do ser humano. Esse é um dos legados do vírus.

A dinâmica do trabalho já vem mudando. A doença funciona como um acelerador de futuros, antecipando mudanças que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação a distância, a busca por sustentabilidade e a cobrança, ainda maior, da sociedade, para que as empresas sejam mais responsáveis do ponto de vista social. Em vários casos, o home office se evidenciou como uma alternativa viável e até mais produtiva. Há quem anteveja o fim da era industrial nos moldes atuais, diante da lógica digital e por conta da potencialização dos escassos recursos disponíveis. As empresas terão que repensar onde e como produzem e comercializam seus produtos, pois a psicologia do consumo e do investidor mudarão, transformando também os negócios.

O fato, entretanto, vai requerer profissionais arrojados, reinventados a partir de uma enorme e bem-vinda onda de inovação e de renovação de hábitos e costumes. Portanto, não será o mais forte nem o mais inteligente que sobreviverá, e sim o mais bem adaptado a esta que se apresenta como a era do Darwinismo profissional, na qual o próprio mercado mostra seu poder estabelecendo a seleção natural.

Estamos diante de uma profunda reflexão, difícil mas própria para o momento em que acabamos de "comemorar" o Dia do Trabalho reclusos em casa.

Que o medo não nos tire a esperança de viver e de nos adaptar a este novo ambiente e superar a crise com responsabilidade política e econômica. Com uma sólida corrente de solidariedade, mesmo que virtual, podemos nos fortalecer como seres humanos e sociais. A pandemia é temporária, mas a transformação, não. Ela vem para impactar o nosso DNA social e profissional.

DANIEL R. RANDON, PRESIDENTE E CEO DAS EMPRESAS RANDON

04 DE MAIO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

O EXAME DE BOLSONARO



É intrigante a postura do presidente Jair Bolsonaro ao resistir, de todas as formas, aos apelos para mostrar os seus testes de covid-19. Se os resultados foram negativos, bastaria exibir os laudos dos laboratórios e a polêmica se extinguiria. Ao se negar, no entanto, Bolsonaro apenas alimenta a suspeita de que se contaminou com o vírus, mas preferiu esconder. Se o presidente estiver omitindo a verdade, porém, a situação se torna mais grave, já que ficariam configurados crimes previstos no Código Penal, ao concorrer para a transmissão de germes patogênicos, uma vez que, infectado, participou de uma série de aglomerações e tocou em pessoas durante atos em seu apoio, assumindo o risco de espalhar a enfermidade.

Bolsonaro alega direito à intimidade para rechaçar a possibilidade de mostrar os exames. Mas esquece que não teve a mesma preocupação em outro episódio que envolveu a sua saúde. Após ser esfaqueado durante a campanha eleitoral de 2018, jamais pensou duas vezes antes de exibir o ferimento, a sua bolsa de colostomia e depois a cicatriz, o que está presente em vários registros fotográficos e em vídeos. O presidente, em outras oportunidades, sustentou que a sua palavra valia mais do que um pedaço de papel. O problema, sabe-se, é o histórico errático do presidente em vários temas atinentes à vida da nação. Em entrevista à Folha de S. Paulo, no final de março, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que era preciso confiar em Bolsonaro, mas alertou que se um dia aparecesse um exame positivo "seria o pior dos mundos".

Escudeiro do presidente, o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, testou positivo e mostrou o seu exame, sem qualquer receio. O mesmo fizeram outras autoridades, inclusive as que tiveram resultado negativo, como o governador de São Paulo, João Doria. Heleno foi uma das mais de 20 pessoas próximas a Bolsonaro que acabaram contaminadas pelo novo coronavírus em março, sendo que grande parte participou da missão aos EUA, onde teria ocorrido contaminação.

Bolsonaro nem sempre é peremptório ao afirmar que não contraiu a doença. Ainda em março, disse: "talvez eu tenha sido infectado lá atrás e nem fiquei sabendo". Na quinta-feira, voltou a falar que "talvez tenha pegado esse vírus no passado". Como a disseminação do novo coronavírus nos EUA e no Brasil ocorreu em 2020, este passado não seria tão distante.

O imbróglio tem ainda o capítulo da notícia de que Jair Bolsonaro teria testado positivo divulgada pela rede de TV norte-americana Fox News, depois desmentida. A fonte da informação, sustentou a emissora, era o deputado Eduardo Bolsonaro. O episódio, de qualquer forma, também ajuda a nutrir desconfianças quanto ao que foi verdadeiramente apurado pelo laboratório.

O presidente, agora, é pressionado pela Justiça para exibir o exame, após uma decisão favorável para o jornal O Estado de S. Paulo. Mas Bolsonaro não deveria precisar de uma decisão judicial para revelar o resultado de teste, que é de interesse público pelo cargo que ocupa. Apresentando por livre e espontânea vontade, mostraria claramente que não agiu de forma irresponsável, sujeitando cidadãos à contaminação em manifestações ou passeios e, principalmente, provaria que não mentiu.

04 DE MAIO DE 2020
CRISE EM BRASÍLIA


Presidente volta a apoiar ato contra o STF e o Congresso

Chefe do Executivo diz que Forças Armadas estão "ao lado do povo", que não admite interferência e que "acabou a paciência"

O presidente Jair Bolsonaro voltou a prestigiar pessoalmente manifestação, em Brasília, de seus apoiadores com críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Congresso. No ato, havia faixas pela intervenção militar. Diversos ministros do STF, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), outros políticos e entidades reagiram ao protesto, que teve agressão a profissionais da imprensa.

No dia 19 de abril, Bolsonaro participou de ato, em frente ao Quartel-General do Exército, que defendia a intervenção militar. Ontem, em transmissão em rede social, disse que "queremos a independência verdadeira dos três poderes, e não apenas uma letra da Constituição. (...) Chega de interferência. Não vamos admitir mais interferência. Acabou a paciência". Ele afirmou que se tratava de "manifestação espontânea, pela democracia".

Desta vez, o ex-ministro Sergio Moro também foi alvo do protesto. O ex-juiz federal saiu do governo acusando o presidente de querer interferir na Polícia Federal e depôs no sábado. No fim de semana, ambos trocaram farpas por rede social (leia mais na página 11).

Na live, Bolsonaro também disse: 

- Nós temos o povo ao nosso lado, nós temos as Forças Armadas ao lado do povo, pela lei, pela ordem, pela democracia e pela liberdade. E o mais importante, temos Deus conosco.

Ao final, acrescentou:

- Peço a Deus que não tenhamos problemas essa semana. Chegamos no limite, não tem mais conversa, daqui pra frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição, ela será cumprida a qualquer preço, e ela tem dupla mão.

Bolsonaro deixou o Palácio da Alvorada e foi até a rampa do Palácio do Planalto, com a filha Laura, para acenar aos apoiadores, aglomerados. Uma carreata começou por volta das 10h30min, descendo a Esplanada dos Ministérios em direção à Praça dos Três Poderes.

No ato, o presidente voltou a atacar governadores por medidas de distanciamento social e criticou o que chamou de "interferência" em seu governo, numa alusão às recentes medidas do STF. Nos últimos dias, Bolsonaro demonstrou irritação com a decisão do ministro Alexandre de Moraes de barrar a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção-geral da PF.

Agressão

No protesto, manifestantes pró- governo agrediram, ameaçaram e expulsaram jornalistas que cobriam o ato na rampa do Planalto. Enquanto o presidente acenava para apoiadores, o grupo passou a dirigir ofensas ao repórter fotográfico Dida Sampaio, de O Estado de S. Paulo, que registrava o momento.

Um grupo se formou ao redor do fotógrafo, que foi derrubado duas vezes, chutado pelas costas e tomou um soco no estômago. Além dele, Marcos Pereira, motorista do jornal, foi agredido. Outros profissionais de imprensa foram empurrados e ofendidos verbalmente. Ao ser alertado, Bolsonaro comentou:

- Pessoal da Globo vem aqui falar besteira. Essa TV foi longe demais.

Em nota, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) condenou as agressões e cobrou resposta das autoridades. Em Porto Alegre, também houve ato a favor do presidente em frente ao Comando Militar do Sul. Em seguida, um segundo grupo contrário a Bolsonaro chegou ao local. Conforme o 9º Batalhão da Polícia Militar, a corporação formou uma espécie de cordão para evitar conflitos.

04 DE MAIO DE 2020
CRISE EM BRASÍLIA

Escalada de tensão entre o Planalto e o Supremo


A presença do presidente Jair Bolsonaro em mais um ato de apelo antidemocrático ocorre em meio a uma nova escalada nas tensões entre o Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF). Embora o novo ministro da Justiça, André Mendonça, e o presidente do STF, Dias Toffoli, estejam agindo para apaziguar os ânimos, Bolsonaro mais uma vez fez provocações veladas à Corte.

As declarações tumultuam ainda mais o ambiente institucional. Nos últimos dias, o governo tem sofrido sucessivas derrotas na Corte.

Aposta

Bolsonaro não desistiu da indicação de Alexandre Ramagem e está disposto a dobrar a aposta no enfrentamento com o STF. Enquanto espera o julgamento do recurso da Advocacia-Geral da União, pretende nomear um preposto do amigo para a PF. O nome mais cotado é Rolando Alexandre de Souza, atual secretário de Planejamento e Gestão da Agência Brasileira de Investigação (Abin) e tido como braço direito de Ramagem.

Nos bastidores do Supremo, contudo, não há nenhuma garantia de que não haja um novo impedimento. Os ministros não estão dispostos a tolerar ataques e provocações, tampouco eventuais tentativas de dribles às decisões, sejam monocráticas ou coletivas.

Quem transita pelos corredores do tribunal comenta que Bolsonaro escolheu o método errado de brigar com o STF. Na Corte, é preciso dividir para vencer. Ao insuflar os apoiadores contra os ministros e atacá-los pessoalmente, como fez contra Moraes, e não a decisão em si, o presidente conseguiu um rechaço unânime, atiçando o espírito de corpo dos magistrados.

A turbulência aumenta em meio à certeza no Planalto e no próprio STF de que é iminente o vazamento do conteúdo do depoimento de Sergio Moro. As supostas provas que o ex-ministro teria entregue à PF, como mensagens de áudio, texto e e-mails com tentativa de interferência na instituição, podem fragilizar a situação jurídica e política do presidente.

Além desse inquérito, há duas outras apurações que podem respingar em Bolsonaro: a investigação de fake news e do ato em apoio a uma intervenção militar. Ambas são conduzidas por Moraes, cuja casa foi alvo de protestos de bolsonaristas no sábado, em Brasília.

FÁBIO SCHAFFNER

04 DE MAIO DE 2020
CLÁUDIA LAITANO

Chama o síndico


Moro em um edifício pequeno, sem elevador nem porteiro, em uma esquina silenciosa de Porto Alegre. Comparado a outros edifícios em que eu já morei, este aqui é relativamente tranquilo, sem vizinhos barulhentos ou mal-humorados. Mas sendo feito de tijolos e povoado por seres humanos, dois materiais que tendem ao desgaste, nunca considerei a sério a ideia de ser síndica.

Meus vizinhos, claro, não tinham como saber. Na primeira ou segunda reunião de condomínio, moradores mais antigos sugeriram que eu assumisse o comando já na gestão seguinte. Não que eu parecesse especialmente talhada para a tarefa, longe disso, mas todo mundo ali já havia assumido aquela bronca e tinha chegado a hora de eu me sacrificar um pouco pela coletividade. Na época, eu trabalhava 10 horas por dia e tinha uma filha pequena. Estava em paz com a minha cota de sacrifícios. A ideia de chegar em casa à noite e ter que lidar com o cano entupido de um vizinho me parecia tão excruciante quanto assistir a uma live de sertanejos durante toda a madrugada.

Felizmente já tinham inventado uma solução para o problema e não era a institucionalização da anarquia. Sugeri, com uma ênfase talvez um pouco desesperada, que se contratasse um síndico externo. Nada melhor do que alguém de fora para atender todo mundo e não sobrecarregar ninguém. Certo? O pessoal se olhou, olhou para mim, e eu já estava quase fugindo da sala e do país quando alguém fez uma cara de "essa não é do basquete mesmo" e uma outra vítima à mesa foi nomeada. Anos depois, minha ideia de um síndico profissional acabou vingando. (Preguiçosa, não: visionária.)

Moral da história? Imaginem que, sem vocação ou competência, eu decidisse aceitar o cargo, seduzida pela ideia de não pagar condomínio e de mandar e desmandar no edifício como se fosse um pequeno feudo herdado da família. Gato? Só a Xibe. Cachorro? Só se o vizinho for meu amigo. Festa no salão? Só se eu for convidada. Som alto? Só o da minha filha. Seria ruim, seria péssimo, mas se tornaria completamente infame no dia em que aparecesse uma falha na estrutura, estilo assim Palace II, e eu tirasse o corpo fora: "E daí? O que eu posso fazer? Cai edifício toda hora". Um síndico que exige todos os poderes ("eu que mando", "eu que escolho", "a caneta é minha"), mas não assume nenhuma das responsabilidades ("não faço milagres") deveria ser um episódio raríssimo no cosmos político universal. Mais raro do que, digamos, uma pandemia.

Mas foi exatamente esse raio que caiu sobre nossas cabeças.

CLÁUDIA LAITANO

04 DE MAIO DE 2020
INFORME ESPECIAL

A UFRGS e os sonhos na pandemia



Nem na hora do sono a pandemia sai da nossa cabeça. Ela só aparece de um jeito diferente. É isso que um grupo de pesquisadores do Instituto de Psicologia da UFRGS e de outras duas universidades brasileiras, USP e UFMG, estão estudando. Mais de 130 sonhos já foram coletados em depoimentos de voluntários. Mesmo sem ter ainda organizado os resultados, as coordenadoras do estudo aqui no RS, as professoras Rose Gurski e Claudia Perrone, sugerem que a pesquisa abre um espaço para que a angústia deste momento seja sentida de maneira menos aniquiladora pelos sonhadores. O grupo também vê a possibilidade de tratar o momento histórico, provocando a imaginação coletiva em busca de outras interpretações para as vivências e experiências traumáticas do momento.

As pesquisadoras endossam ainda a noção de que temas como morte e destruição estão aparecendo mais enquanto os brasileiros dormem. O trecho do sonho de uma profissional de saúde, já incorporado ao material da pesquisa, serve de ilustração da realidade: "Tenho acordado diariamente no fim da madrugada, lá pelas quatro horas, bem apreensiva, após um sonho - ou pesadelo? - com a enfermaria do gripário, que alguns profissionais chamam também de covidário, local onde se encontram os pacientes internados com síndrome gripal aguda ou pneumonia viral, que inclui casos fortemente sugestivos de Covid-19. Ansiosa, desperto e sou dominada pela insônia. No último sonho, estava nos corredores da enfermaria e via que os pacientes estavam deitados nos leitos, frágeis e sem movimento, e eu caminhava para falar sobre o boletim médico com as famílias desses pacientes internados. Algo triste e cheio de sentimentos de tensão".

A pesquisa não parte de uma hipótese rígida. Serão as falas dos sonhadores que mostrarão a função do sonho e os efeitos do estudo. Este é o caminho da pesquisa psicanalítica, conforme explicam: "Um modo de não nos anteciparmos à experiência dos sujeitos, deixando que as narrativas apontem uma direção".

O projeto, que começou antes da pandemia com o nome "A oniropolitica em construção", coloca agora os "Sonhos em tempos de pandemia" como um dos focos do trabalho. A inspiração maior é o livro "Sonhos do Terceiro Reich", da jornalista alemã Charlotte Beradt. Entre 1933 e 1939, ela recolheu cerca de trezentos sonhos de alemães. A obra, que só veio à luz em 1966, mostra como a narrativa onírica dos entrevistados antecipou os horrores do nazismo, que chegariam ao ápice depois, com a eclosão da II Guerra Mundial.

O objetivo é concluir a pesquisa ainda esse ano. De acordo com Rose Gurski, essa é uma das dimensões mais importantes do projeto - abrir pontes e aproximar a pesquisa acadêmica da sociedade.

TULIO MILMAN

sábado, 2 de maio de 2020



02 DE MAIO DE 2020
LYA LUFT

Lou Borghetti

Estas são as frases que eu jamais quereria escrever. Pois vou falar de uma amiga muito especial, um ser humano singular, que personalizava alegria, vitalidade, seriedade na sua arte, melancolia, profundos pensamentos, fraternidade e solidão. Eu a conheci há talvez 10 anos, quando Lisette Guerra perguntou se eu gostaria que Lou retocasse um retrato meu, para uma exposição. Eu não conhecia Lou pessoalmente, mas, muito, de algumas de suas belas obras, e fotos ou entrevistas de jornal, e através de amigos e admiradores.

Ela apareceu em minha casa, trocamos ideias, e imediatamente alguns fios luminosos estabeleceram entre nós uma amizade daquelas da vida para a vida. Uns dois anos depois, sentada em minha sala, contemplando um vaso de vidro azul, barrigudinho, com ramos de buganvílias vermelhas, solferinas, amarelas e brancas colhidas no meu terraço, me veio um daqueles impulsos - minha vida foi em boa parte feita de impulsos. Telefonei para Lou: "Estou olhando umas buganvílias incríveis aqui na minha sala, e me deu vontade de pintar. Podes me ajudar?". Ela, com sua alegria generosa, logo me acolheu, "claro, vem pro atelier, não traz nada, eu te empresto tudo e depois a gente vê".

Minha primeira ida ao atelier foi inesquecível. Ali respirava algo totalmente novo, o belo, o sofisticado, o simplésimo, a vida. Logo deparei com uma grande tela numa parede, em tons de preto, branco, cinza, uns vagos azuis, e espontaneamente exclamei: "Mas este é o mar de todo os naufrágios!". Lou me deu a tela de presente, e eu a contemplo o dia todo na minha sala. Depois disso passei a frequentar o atelier todas as quartas-feiras, aula particular, em que não sei se mais falávamos ou pintávamos: dependia do dia, da hora. Conversas filosóficas ou fúteis, trágicas ou hilárias, cimentando uma amizade irredutível entre uma já velha e outra no esplendor da sua maturidade.

Quando ela adoeceu, e entrou numa luta feroz contra uma doença diabólica, e não se entregou apesar das dores e dificuldades: sempre elegante, maquilada, com seus colares e anéis, cada dia mais debilitada e, parecia, mais corajosa. Difícil acreditar que estava, realmente, nos sendo roubada por uma doença muito agressiva. Nunca se queixou diretamente, apenas lamentava estar mais fraca dia a dia. Teve uma alegria extraordinária, o nascimento de sua neta Helena, que ainda pôde segurar, embalar, curtir, cujo quartinho decorou, e que me dizia ser a maior alegria de sua vida, junto com a filha, Fernanda.

Quando Lou morreu, "a mãe se foi", me escreveu a filha numa dor que eu mal imagino, não acreditei direito, e mesmo hoje, dias depois, ainda parece pesadelo. Seu currículo invejável - aulas com os maiores artistas brasileiros, além de Iberê, de quem foi assistente, e que por um breve tempo usou o atelier dela para pintar, sua obra maravilhosa, sua personalidade ímpar, continuarão a preencher nossas vidas. A gente preferia ela viva, com seu perfume Narciso Rodriguez que adotei, com sua voz especial, sua risada linda, sua fraternidade com alunas e amizades, com todo o seu natural esplendor.

Vai ser anjo no céu, Lou Borghetti: cada coloração especial nas nuvens será uma pincelada tua para nos dizer: "Oi, gente, estou aqui".

LYA LUFT

02 DE MAIO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Levemente pirados


Continuamos dentro de nossas casas, vivendo entre quatro paredes - espaço que costuma ser amplo para alguns afortunados, porém exíguo para a maioria dos brasileiros e suas novas rotinas.

Os que moram só fazem abdominais sobre o tapete da sala, dançam com parceiros invisíveis, almoçam na companhia de um pet e jantam na companhia do William Bonner. Dormem mais tempo do que o habitual ou têm insônias intermináveis. Endireitam quadros que não estão tortos, encharcam as plantas cinco vezes ao dia e às 19h abrem um vinho a fim de tomar um moderado cálice. Pegam o celular para dar uma olhada rápida no Facebook e só o largam quando o pescoço ganhou uma contração e a segunda garrafa de vinho já está vazia, por volta de duas da manhã. Sofrem por não estar ao lado de seus entes queridos, sem imaginar que as coisas não andam nem um pouco melhores com eles.

A convivência em família não tem sido tarefa para amadores. As brigas começam por uma banalidade qualquer, como o ponto de cozimento de um ovo, e desandam para traumas retroativos, como o de ter sido um bebê que nunca foi amamentado no peito. A mãe reclama do filho que ainda não arrumou a cama, e ele revida lembrando-a do dia em que ela esqueceu de buscá-lo no jardim de infância. O marido comenta que a camisa não está bem passada, e a mulher surta: quando ele dá por si, está explicando pela centésima vez que não foi ele que beijou a morena com vestido de lurex na festa de Réveillon de 1983. O adolescente sai do banheiro, depois de 15 minutos embaixo do chuveiro, e depara com um pai raivoso que segura a conta de luz, aos berros, e logo a coloca na boca, mastigando-a como se fosse um crepe.

Não me parece uma boa hora para testar a sanidade mental de nossos parceiros de cela.

Então, quando a atmosfera pesar, não discuta. Arraste a cortina para o lado, abra os vidros e espie o pedaço de mundo que lhe coube. Você há de ter uma janela. Talvez consiga enxergar uma árvore ou duas. Talvez possa se distrair contando quantos pedestres caminham pela calçada usando máscara. Talvez enxergue um naco do céu. Ou um naco do apartamento do vizinho: xeretar, a essa altura, não é crime, eu acho. Janela é a saída - só não leve ao pé da letra. Outro dia, mandei um WhatsApp para uma amiga que está confinada sozinha em um apê de 15 metros quadrados, a milhas de distância. Perguntei se ela tinha uma janela. Respondeu que tinha, mas morava no primeiro piso, de nada adiantaria saltar.

A obrigatoriedade de reclusão mexe com os nervos, mas o jeito é rir um pouco e lembrar que ao menos algo nos une: estamos sendo testemunhas históricas deste desconcertante mundo novo. E, se mantivermos a cabeça no lugar, seremos devolvidos pra rua assim que possível.

MARTHA MEDEIROS


02 DE MAIO DE 2020
LEANDRO KARNAL

A REVOLUÇÃO DO CORPO

No dia 29 de abril, segundo determinação da Unesco, celebra-se o Dia Internacional da Dança. Foi escolhida a data por ser aniversário do professor, coreógrafo e bailarino francês Jean-Georges Noverre (1727-1810). Noverre representou a passagem do balé formal de corte e de teatro para o estudo da gestualidade das ruas para uma "dança em ação". Assim, o ato de dançar seria mais natural e expressivo. Era admirado pela elite londrina, por Maria Antonieta e por Frederico da Prússia. Foi amigo de Voltaire e de Mozart. Era uma celebridade em toda a Europa.

Leio com admiração biografias como a de Noverre. Vim ao mundo sem habilidades de desenho e de dança. Na minha família, o mal é coletivo e corre, entre nós, o adágio que, "se um Karnal souber desenhar ou dançar, é bastardo". Mais de uma vez, disse que só dançava para acasalamento, ou seja, na fase da conquista e, depois, revelava minha inaptidão absoluta para o bailado.

Das musas que presidem ao ato artístico, Terpsícore (da dança) foi a que se recusou a assistir ao meu nascimento. Admiro o corpo falando pela dança, admiro a técnica e a expressividade daquelas mulheres e homens que exibem um ato árduo de trabalho prévio parecer leve. No aniversário de 80 anos da minha mãe, fiz o último e debalde esforço: treinei uma valsa. Felizmente, não foi filmada a pantomima. Os mais generosos diziam que eu parecia aqueles bonecos de posto de gasolina com vento que os ergue e, imediatamente, os derruba. Existe certa honra em reconhecer limites. Dançar e desenhar são limites pétreos meus.

Um dia, usei a imagem de um pé de bailarina em uma palestra. Estava machucado, com entorses e hematomas. Era o fruto de horas pesadas de treino e de muita dor, choro e sacrifício.

Quando vemos a graciosa bailarina voando, delicada e ágil, poucos imaginam que a estrada até ali seja tão complicada. A dança é de uma exigência enorme. É verdade, sei, como músico amador, que o estudo prolongado de piano causa dor nas costas, cansaço visual e até exaustão das mãos. A dança demanda a dor nas costas, nas mãos, nos pés, no pescoço e na alma. O ato de se entregar a um público é sublime e... exaustivo.

Falei de dança clássica, porém, admiro todas as formas de movimento de corpo. Os passos desconstruídos da street dance, o gingado do samba, os maracatus ritmados, a sensualidade do tango e a coreografia da valsa (não dançada por mim, claro). Nas cortes antigas, saber dançar um minueto e outras formas coreografadas era tão importante quanto a boa conversação e o uso dos talheres. Dançar, para homens e mulheres, era parte da educação formal que se exigia para o convívio.

Admirei imagens ou vídeos de Márcia Haydée e de Mikhail Baryshnikov. Assisti ao vivo à força cigana da dança de Joaquin Cortés. Vi balés tradicionais (O Lago dos Cisnes, O Quebra-Nozes, Dom Quixote etc.) no Alla Scala de Milão, em Nova York e em São Paulo. Minha incapacidade pessoal aumenta minha admiração pela sincronia e pelo domínio de cada fibra do corpo com elegância e arte.

Vou ultrapassar algumas fronteiras e chocar os mais pudicos. Admiro, também, as dançarinas de funk em trios elétricos. Sim, sei que muitos colegas intelectuais dirão que é uma coisificação do corpo feminino. Discordo. Acho um empoderamento expressivo uma mulher como Anitta dirigir um cortejo com centenas de milhares de pessoas mesmerizando com um gesto de se abaixar e balançar o quadril. Podem existir excessos em bailes funk? Tenho certeza que sim, como podem existir em sofisticados apartamentos que ouvem jazz melódico e se locupletam de drogas.

Há um traço de demofobia no julgamento do funk. O corpo livre vira um manifesto político, e o corpo é a área por excelência para o exercício da repressão. Isso vai da barriga gestante de Leila Diniz à minissaia de Mary Quant; da liberdade da primeira-dama Nair de Tefé dançando o Corta-Jaca no palácio presidencial ao ritmo empreendedor de Larissa, mais conhecida como Anitta. O corpo livre incomoda as mentes acorrentadas. O corpo livre da mulher é ainda mais escandaloso. Faz milênios que se ouve o mesmo brado: "As mulheres de hoje em dia estão cada vez mais peladas e mais fáceis. No meu tempo, elas sabiam ter decoro". Essa é uma frase encontrável no Baixo Império Romano, no Renascimento, ao longo do século passado e no Carnaval de 2020.

Dançar pode ser libertador. Escrevo e imagino se me inscreverei na desconfiança da bastardia da família. Aprenderei a dançar tão próximo à data em que poderei utilizar fila especial de melhor idade nos aeroportos? Talvez sim. No meu caso, trata-se de questão pessoal de relevância discutível. No caso da sociedade em geral, enquanto houver um corpo voando no Lago dos Cisnes ou agitando um trio elétrico, haverá esperança de que ainda exista vida, disciplina da liberdade e projetos vitoriosos. Viva Isadora Duncan! Viva Anitta! Viva todo ser que diz que o corpo pode expressar, protestar e ser sem depender do azedume alheio. Esperança sempre! A esperança faz dançar.



02 DE MAIO DE 2020
COM A PALAVRA

MORO PODE RACHAR O APOIO MILITAR A BOLSONARO.

DENIS ROSENFIELD, filósofo e escritor, 69 anos Cofundador do Instituto Millenium e defensor do liberalismo, foi conselheiro do ex-presidente Michel Temer e é um crítico tanto do PT quanto de Jair Bolsonaro

Denis Rosenfield é um privilegiado espectador dos bastidores do poder. O filósofo e escritor porto-alegrense estava no Palácio do Jaburu quando o então presidente Michel Temer esteve prestes a renunciar, durante o escândalo da JBS, em 2017, circula com desenvoltura na cúpula empresarial, jurídica e de mídia do país e frequenta a casa do general Villas Bôas, o mais influente conselheiro do presidente Jair Bolsonaro na caserna. Crítico ferrenho do PT e radical defensor do ideário liberal, Rosenfield votou com convicção em Bolsonaro no primeiro e segundo turno das eleições de 2018. Não se arrepende da escolha, mas considera-se estupefato pela forma como o ex-capitão conduz os destinos do país. Como solução, advoga uma espécie de interdição do presidente, a ser conduzida pelos generais de terno que despacham no Planalto:

- Ele pode até continuar, desde que abra mão dos seus atos e arbítrios. Ficaria sem nenhum poder.

Confira a entrevista concedida por telefone a Zero Hora.

EM ARTIGO RECENTE, O SENHOR AFIRMOU QUE UMA CONFUSÃO ATUAL É ATRIBUIR UM EVENTUAL FRACASSO DO GOVERNO BOLSONARO A UM FRACASSO DA DIREITA. BOLSONARO NÃO REPRESENTA MAIS A DIREITA?

Muito antes da eleição ficou claro que havia acabado a polarização PT versus PSDB e que a disputa se daria entre Bolsonaro e Lula ou seu preposto (Fernando) Haddad. Então houve uma aglutinação da direita em torno de Bolsonaro, cujo vetor era bater o PT. Bolsonaro não ganhou por ser de direita, ganhou porque o PT tinha de ir embora. Várias pessoas me disseram: votei no Bolsonaro contra o PT. Esse era o inimigo. Era questão de viabilidade eleitoral.

E AGORA, BOLSONARO REPRESENTA O QUÊ?

A extrema-direita. Bolsonaro fez uma campanha muito bem feita, com uso intenso das redes sociais, embora hoje a gente veja a perversidade disso aí. Aliaram-se a Bolsonaro a direita liberal, a conservadora, incluindo os militares e os evangélicos. Hoje, a polarização mudou. É entre Bolsonaro e outro setor da direita, representada pelo (João) Doria. Pode ser também entre Bolsonaro e (Henrique) Mandetta ou entre Bolsonaro e (Sergio) Moro. Ou seja, há três candidatos da direita para 2022. E o PT desapareceu. Não soube se mostrar como protagonista, tem uma ausência completa de discurso. Acho isso bom, porque, quanto mais o PT silenciar, melhor para a democracia.

Por quê?

Porque os militares se uniram a Bolsonaro contra o PT. Fecharam com ele por não considerarem o PT uma alternativa séria, e sim uma esquerda atrasada. Tão atrasada que àquela época só se preocupava com seu líder político preso.

O senhor acredita que um PT fortalecido pode acabar levando os militares a dar respaldo aos espasmos autoritários de Bolsonaro?

Exatamente. E são mais do que espasmos: há uma tendência autoritária no presidente. Os militares hoje são democratas e constitucionalistas, mas essa tendência autoritária poderia obter respaldo militar por medo do PT. Desaparecendo o medo do PT, essa aliança se desfaz naturalmente. Pode demorar uns meses, um ano, mas se desfaz.

O senhor tem boa interlocução nas Forças Armadas. Os militares estão constrangidos no governo?

Falo em nome próprio, não como interlocutor. Não quero confundir nada. Os militares representam uma visão conservadora da sociedade. Prezam a família e sobretudo defendem a ordem pública e constitucional. O problema é que Bolsonaro não representa nem a ordem pública, nem a constitucional. O (vice, Hamilton) Mourão é um democrata com boa formação. Me surpreendeu uma fala do presidente dizendo que ele é tosco. Tosco é o Bolsonaro, que não leu nada.

Por que Bolsonaro recorre a essa retórica beligerante?

Bolsonaro segue um conceito de Carl Schmitt, teórico do nazismo, que distingue a política entre amigos e inimigos. É por estar baseado na eliminação do inimigo que vai continuar governando desse jeito. Quem são seus inimigos? Primeiro há os objetivos: Lula e o PT. Depois, os ficcionais: os comunistas em geral, até Moro virou comunista. Em seguida ele passa a atacar as instituições: o Supremo, o Congresso, a imprensa. Depois, devora os aliados. Inclusive os mais próximos, que são os generais, como Santos Cruz, Floriano Peixoto e Maynard Santa Rosa. Ele segue uma pulsão de morte, ele segue Tânatos, no sentido psicanalítico do termo.

Agindo assim, ele não pode estar provocando a própria ruína?

Claro. É só alguém subir na estima popular que ele demite. Veja o Mandetta. Não passa uma semana, ele destrói o Moro. E já está sinalizando que vai pegar o (Paulo) Guedes daqui a pouco. Com a demissão do Moro, ele destruiu sua própria narrativa de combate à corrupção para favorecer os filhos numa investigação da Polícia Federal. Não vai colar dizer nas redes sociais que Moro é comunista. Moro tem uma credibilidade própria junto à opinião pública. E os militares têm um apreço muito grande pelo Moro. Já testemunhei em várias ocasiões, tanto que há poucos dias o general Villas Bôas apoiou Bolsonaro na demissão de Mandetta, e agora (pós-demissão de Moro) disse: "Vamos esperar os desdobramentos". Ao dividir a base bolsonarista, Moro se torna alternativa de poder e pode rachar o apoio militar a Bolsonaro. Esse processo está começando.

Há uma grave crise institucional no horizonte?

O país está num grave processo de instabilidade política e institucional, mas as instituições democráticas têm se preservado. O Supremo está fazendo uma investigação das fake news e do suporte de Bolsonaro ao ato de apoio à intervenção militar realizado em frente ao quartel-general do Exército. Aquele é um lugar simbólico. Ao fazê-lo, ele quis suscitar apoio dos militares, algo que não tinha e que pegou muito mal.

Muito se fala que Bolsonaro já teria cometido vários crimes de responsabilidade. Há uma passividade nas instituições?

Não vejo assim. O Supremo está conseguindo se blindar e já lançou várias advertências a Bolsonaro. O Legislativo tem mostrado sua extrema inconformidade com tudo o que ele vem fazendo. A imprensa em peso é contra a política de Bolsonaro. Ele mantém uma base digital que, hoje sabemos, cerca de 50% é feita de robôs. Sobraram só os militares. E dentro dos militares, só o Exército.

Já se fala abertamente em impeachment. Há ambiente?

É uma solução. O Brasil não aguenta mais dois anos e meio de Bolsonaro. Ele está desmoronando. A não ser que se converta à racionalidade, prendendo os filhos em casa e se livrando dos ministros ideológicos, além dos incompetentes. Assim poderia reconstituir sua base. Pode vir a fazer, à medida que não tem alternativa. Mas não me parece que seu caráter conduza a isso, nem o da sua família.

Nem em renúncia o senhor acredita?

Não, porque essa distinção entre amigo e inimigo é atávica nele. Não sabe negociar, não sabe estabelecer diálogo, parceria.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pediu a renúncia, para poupar o país de um impeachment.

Foi hábil. Ele advogou que o presidente seja renunciado. Quem pode renunciá-lo? O Exército.
Como? Tirando o apoio, saindo do governo?

Basta retirar o apoio, numa saída coletiva do governo. Poderia forçá-lo a renunciar ou a dar uma guinada no governo. Se os militares disserem que maluquice tem limite, o presidente ficaria dependurado na família.

Há disposição para isso?

Não sei, não tenho informação nesse sentido.

De onde vem o saudosismo com os militares? o milagre econômico durou cinco anos dos 21 da ditadura, e esta nos legou gigantismo estatal, crise econômica, hiperinflação, sem falar na restrição das liberdades.

O regime teve fases benéficas e outras nocivas. O governo Castelo Branco foi liberal na economia e nos costumes. A ideia era ficar pouco. Já o governo Geisel foi estatizante, desenvolvimentista. No governo Médici, houve o milagre econômico. Não cabe uma análise em bloco do período militar. O saudosismo vem da desordem pública. O PT também exagerou na dose do politicamente correto. Os evangélicos se fortaleceram e hoje são uma força política porque não aguentavam mais. Por que não fazer em doses homeopáticas, criando consensos, em vez de vir em intervenção estatal?

Essa aproximação com figuras do Centrão de longa ficha policial, como Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson, pode salvar ou enterrar o governo?

Enterra a narrativa de que ele estava empenhado na luta contra a corrupção. Vai pro lixo. Isso atinge a base dele também. Outra narrativa que vai ao brejo é a de que ele é contra os políticos, contra o sistema. E tem mais, esse pessoal é profissional na negociação de toda e qualquer espécie de coisa, por cima e por baixo da mesa. Eles prezam enormemente honrar a palavra. Prometeu, cumpriu. Bolsonaro já mostrou que não cumpre promessa.

Diante de um governo tão tumultuado, o que explica a anomia da oposição de esquerda?

O Brasil precisa de uma esquerda moderna, que pense o mercado, o Estado, a exemplo do que fez Tony Blair na Inglaterra. Lula fez um excelente governo no primeiro mandato, (Antonio) Palocci foi um dos melhores ministros da Fazenda do país. Palocci era um liberal, tinha o (Henrique) Meirelles no Banco Central. Foi substituído por (Guido) Mantega e Nelson Barbosa. Ou seja, passou de posições liberais para desenvolvimentistas que levaram a essa imensa crise econômica e fiscal do país. Depois, o PT hipotecou o partido para tirar o Lula da prisão. Não tem uma bandeira, não se renovou, não fez autocrítica, tampouco valorizou seus inúmeros aspectos positivos de antigamente, como a ampla democracia interna. Você pode não gostar daquele assembleísmo, mas tinha discussão e decisão coletiva. O Lula saiu da prisão e não tem mais o que dizer. É um partido monocrático. É só o que o seu Lula mandar. E, como o seu Lula não tem o que dizer desde que saiu da prisão, o partido não sabe o que fazer. Para o PT, era melhor o Lula preso.

Essa frente ampla anti-Bolsonaro que se cogita agora tem futuro?

Depende de quem participar. Se for liderada pelo PT, estamos perdidos de novo e Bolsonaro será reeleito. O grande ganho dos últimos tempos foi o leque da direita ter se aberto. Se essa frente de esquerda se unir a algum dos líderes da direita, qualquer um, pode ser um avanço. Mas, se a esquerda petista quiser capitanear, estamos perdidos.

Antigamente se falava que a utopia perfeita para o Brasil era unir a direita do PT com a esquerda do PSDB.

Agora ambos estão desacreditados e o PSDB já fez sua derivação para o Doria, que é a direita dos tucanos. Observo o Luciano Huck tentando uma aproximação de centro-esquerda, embora do ponto de vista econômico ele esteja alinhado ao Armínio Fraga, um liberal com sensibilidade social. Poderia dar certo, mas ele desapareceu na pandemia, ficou ganhando dinheiro fazendo propaganda da Magazine Luiza. Ele tem de escolher se quer ser presidente da República ou ganhar dinheiro. Nesse sentido, o Huck perdeu o momento. Pode até reconstruir esse polo de centro-esquerda, mas vai depender dos erros dos demais.

Tem bastante tempo para se reconstruir.

Tem bastante tempo para os outros errarem. Acho que ele ficou sem discurso e sem iniciativa. Huck era uma alternativa boa, mas se omitiu, e tem momentos na história do Brasil que você não pode se omitir. O Doria não se omitiu e não errou nada.

Em 2018 cogitaram-se Huck e o ex-ministro Joaquim Barbosa, que representava o combate à corrupção. Ganhou Bolsonaro. para 2022, se fala em Mandetta, o guardião da saúde, e Moro, o juiz que bota corrupto na cadeia. desse modo, Não poderemos ver o mesmo filme de novo?

Mandetta, (Rodrigo) Maia, Moro e Doria não se encaixam na ideia de salvador da pátria. Nenhum deles é um líder carismático como Lula e Bolsonaro. Huck tampouco. É excelente apresentador de televisão, mas não fez a prova de falar para uma multidão na rua e os caras ficarem gritando "mito, mito". O Brasil tem dois craques, Bolsonaro e Lula. Os dois são demagogos de alta competência. Nenhum do outros tem esse perfil. Não dá para ser salvador da pátria sem carisma. Os outros são políticos normais. Aliás, falam português, coisa que Bolsonaro e Lula não falam.

Depois de um governo tumultuado como o do ex-presidente josé Sarney, Fernando Collor surgiu como "caçador de marajás". Deu no que deu. Depois do impeachment de Dilma Rousseff e das denúncias contra michel Temer, venceu Bolsonaro, o mito. Estamos condenados a sempre buscar o salvador da pátria?

É um problema cíclico desde a redemocratização. Se tivermos mais um impeachment, será o terceiro em menos de 30 anos. É demais. O Brasil estava entrando num processo de reequacionamento das finanças públicas com o presidente Temer. Mas o governo acabou com as denúncias da JBS, o presidente ficou apenas na defensiva. Achávamos que Bolsonaro recuperaria esses ganhos, mas fez apenas a reforma da Previdência. Quando a pandemia chegou, a economia já estava caindo. E agora não se vê com clareza como sair desse processo. Se houver afastamento, por impeachment, por ser "renunciado", por processo do Supremo, assume o Mourão. Aí acho que teríamos um governo de direita conservadora, voltado para uma política liberal.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é alvo constante dos bolsonaristas. No governo Temer, foi tachado de conspirador no episódio da JBS. Como o senhor o avalia?

Na crise do governo Temer, ele fez jogo duplo. Conheço os detalhes, eu estava no palácio naquele dia, fiquei o final de semana lá. Num determinado momento, quis ser real alternativa de poder, caso o presidente renunciasse - e ele esteve mesmo a ponto de renunciar. Depois se recompôs e conseguiu articular a base de apoio. Nesse mesmo momento, Maia mudou progressivamente de opinião. Inclusive por influência familiar, de que deveria ter papel institucional. E depois teve esse papel, agiu muito bem, inclusive na votação das denúncias contra o presidente. Acabou sendo fiel, apesar da dubiedade inicial. Depois desse episódio, ele amadureceu, tanto que foi o artífice da aprovação da reforma da Previdência, decisivo para o único êxito do governo. Manteve atitude profissional e tem sido importante para manter o equilíbrio republicano, mesmo sendo alvo dos ataques mais baixos nessa política do eterno inimigo cultivada por Bolsonaro, que só pensa na reeleição de 2022.

A direita liberal está escanteada do governo?

Não se pode confundir liberalismo com política de equilíbrio fiscal. Isso é ranço brasileiro. O liberalismo não tem nenhuma dificuldade em advogar por uma maior intervenção estatal em períodos de crise. Agora temos uma economia voltada à pandemia. Pega o discurso do Armínio Fraga, a favor de aumento da intervenção estatal nesse momento. O problema é confundir medidas provisórias, com validade de tempo determinada, com política perene. Foi o que o governo Lula fez. Começou com uma política provisória na crise de 2008 e se tornou política desenvolvimentista. Deu no que deu. O problema foi que o Guedes não soube contemplar esse aspecto na sua política liberal. Ele hesitou e ficou alienado no processo. Acabou aceitando relutantemente. Não foi protagonista, e o Brasil exigia um protagonismo. Nesse sentido, a ala liberal do governo está enfraquecida.

Nessa hesitação do Guedes, surgiu o Pró-Brasil. Faz sentido um plano nacional de desenvolvimento nos dias de hoje?

Não faz sentido nenhum. Isso é um PAC 3 da Dilma. Nem tem como fazer, o plano não detalha nada. É mera declaração de intenções. Não tem nenhuma eficácia. Baixou o espírito do governo Geisel num governo Bolsonaro que se pretendia Castelo Branco.

O ministro Guedes falou em atrair investimento privado. Como fazer isso numa pandemia?

Os investidores estrangeiros já não estavam botando dinheiro antes. Como vão botar agora? Investimento vem para um país com estabilidade institucional, marco regulatório, respeito aos contratos, honra à palavra, nada do que está acontecendo hoje. Não dá para contar com investimento privado.

Dá para ser otimista no brasil hoje? 

Eu não estou nem um pouco otimista.

FÁBIO SCHAFFNER


02 DE MAIO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

O CORONAVÍRUS NOS FARÁ PAGAR A CONTA DA DESIGUALDADE SOCIAL

Eu me recrimino por ter compartilhado de um otimismo no início de tudo. É a primeira vez que a doença se dissemina num país continental com tantas diferenças quanto o nosso. Enquanto o coronavírus se espalhava pela China, o mundo avaliou mal a gravidade da epidemia. Hoje, sabemos que os números divulgados pelos chineses subestimaram a magnitude do problema.

Há poucos dias, Peter Doherty, que recebeu o Nobel de Medicina em 1996 por desvendar os mecanismos imunológicos na defesa contra os vírus, declarou ao jornalista Álvaro Pereira Júnior, no Fantástico, ter sido muito otimista no início da epidemia chinesa.

Eu me recrimino por ter compartilhado desse otimismo. Só fomos entender as dimensões da pandemia em meados de fevereiro, quando as UTIs dos hospitais da Itália ficaram abarrotadas de doentes com insuficiência respiratória. O mundo estava tão despreparado, que houve uma passeata com 200 mil pessoas pelas ruas de Madri, no mesmo dia em que os italianos decretavam o isolamento social.

Salvo raras exceções, o restante da Europa desenvolvida demorou a entender o alcance e as consequências da epidemia. Poupados por algumas semanas, os Estados Unidos não agiram melhor. O país mais rico do mundo tem mais mortes do que os outros porque foi surpreendido sem máscaras cirúrgicas, luvas e ventiladores mecânicos nem sequer para as necessidades básicas. Nova York assiste ao drama dos hospitais lotados, com caminhões frigoríficos estacionados à porta.

E o Brasil? Não sabemos exatamente, porque a experiência alheia nos é de pouca valia. É a primeira vez que esse coronavírus se dissemina num país continental, com tantas desigualdades sociais e regionais quanto o nosso.

Quando analiso a evolução da epidemia brasileira, no entanto, não consigo deixar de ser pessimista. Sem testar todos os doentes, dá para confiar nos números oficiais de infectados e mortos? Na verdade, estamos enfrentando no escuro uma tragédia de dimensões imprevisíveis.

Duas semanas atrás, alguém imaginava que Manaus seria a primeira cidade em colapso? Lá, as UTIs estão lotadas, faltam respiradores, equipamentos de proteção individual, médicos, fisioterapeutas e enfermagem com experiência em terapia intensiva. Os pacientes perambulam por unidades de saúde e prontos-socorros sem possibilidade de atendê-los, os enterros acontecem em valas coletivas.

Quando nós, médicos, falamos em colapso do sistema, talvez devêssemos ser mais claros. Colapso é uma situação em que os hospitais e os centros de atendimento ficam completamente lotados, sem condições de receber qualquer pessoa, tenha ela infarto, AVC, apendicite, desidratação ou covid-19. Sem vagas nas UTIs nem ventiladores mecânicos para todos, os médicos são obrigados a decidir quem vai morrer por falta de ar, a mais sofrida das mortes. Os menos afortunados enfrentarão essa realidade em suas casas ou nas portas dos hospitais.

O drama manauara não será exclusivo dos amazonenses. Estão próximos do limite de disponibilidade de leitos e ventiladores Belém, Fortaleza, Recife, Macapá, os hospitais públicos do Rio de Janeiro e até de São Paulo, cidade em que o SUS está mais bem estruturado.

A menos que a epidemia brasileira dê uma reviravolta para seguir trajetória diametralmente oposta à de todos os lugares por onde se alastrou, nosso sofrimento está longe de acabar. Há quanto tempo sofrem italianos, espanhóis, britânicos, americanos e os próprios chineses, povos que viram a pandemia se instalar várias semanas antes de desembarcar aqui? O melhor que conseguiremos fazer a partir de agora será apagar os incêndios que se espalharão pelas cidades brasileiras.

Vamos pagar a conta da ausência de políticas públicas, do absurdo de 13 ministros da Saúde nos últimos 10 anos, dos estádios construídos para a Copa agora transformados em hospitais de campanha, da desídia e do desrespeito com a organização e financiamento do SUS, da naturalidade com que aceitamos viver no meio de tamanha desigualdade social e, ainda, da irresponsabilidade que nos levou a criar um sistema penitenciário com cerca de 800 mil presos, o terceiro mais populoso do mundo.

Nos Estados Unidos, campeões mundiais de aprisionamento, as penitenciárias se tornaram os maiores focos de disseminação do vírus para a sociedade. Aqui, com cadeias em que as celas contêm pelo menos duas a três vezes mais ocupantes do que a capacidade máxima, vai ser melhor?

Não será possível enfrentar a epidemia mais perigosa dos últimos cem anos com a sabedoria dos avestruzes.

DRAUZIO VARELLA


02 DE MAIO DE 2020
BRUNA LOMBARDI

O ENCONTRO QUE MUDOU MINHA VIDA

Lembranças de uma visita aos povos indígenas do Xingu. Desci de um pequeno avião numa pista improvisada no coração da floresta, perto do Posto Leonardo. Os irmãos Villas Boas tinham conseguido a demarcação das terras indígenas e era quase impossível visitar o Xingu.

A razão de eu aceitar esse trabalho foi justamente viver essa aventura, mas eu não podia imaginar que isso mudaria minha vida pra sempre.

Eu era a única mulher de uma pequena equipe e conheci o ator que faria o papel de Aritana, com quem eu ia passar um mês na aldeia Yawalapiti, no Alto Xingu. Era uma época ainda de muito pouco contato com os brancos e eu ia poder vivenciar o cotidiano nas ocas e a cultura da tribo.

Conhecemos o verdadeiro cacique Aritana, um líder de alma nobre, um príncipe no seu comportamento. Eles falavam o Aruak e também entendiam muitas frases nossas. Tinha uma forte curiosidade de troca dos dois lados. Era impressionante a organização serena da aldeia, a calma do tempo e a maneira como convivem com a natureza.

Íamos nadar diariamente no Rio Tuatuari e na Lagoa Ipavu, lugares de beleza indescritível, águas supercristalinas que eles bebem e nunca sujam. Tudo é muito limpo, assim como o interior da oca e o manuseio da comida. Eles plantam principalmente mandioca e pescam o necessário para o consumo. E a gente de canoa ia pescar com eles.

Eu ficava fascinada com a arte, o artesanato criativo colorido. Todos se enfeitavam numa linda mistura de cores. E a gente dançava junto com eles. Eles fizeram para nós todos os rituais, festas, lutas e cerimônias para a filmagem e o Ri, vestido de índio, participou de tudo. Você vê as cenas e quase não o reconhece.

Brincamos muito com as crianças livres, carinhosas e sempre felizes. Elas diziam "vamo banha?" e iam correndo com a gente pra mergulhar. Os índios são pessoas fortes, generosas e extraordinariamente verdadeiras.

Participamos de cerimônias com o xamã com sua absoluta sabedoria de todas as ervas e plantas da floresta. O xamã prepara as substâncias para tudo o que eles precisam. E faz as sessões de cura. Os rituais têm um espírito religioso e muitos cantos e danças.

Conhecer o Ri nesse paraíso terrestre foi um estado de total encantamento, com ele e com tudo o que me cercava. Fomos nos apaixonando na exuberante beleza e magia desse lugar. Não parecia real. Todos os dias a gente andava no meio de milhares de borboletas amarelas e azuis, numa absoluta comunhão com a natureza.

E nas noites adormecia olhando o céu do Xingu. Não encontro palavras pra descrever aquela imensidão silenciosa coberta de estrelas. Momentos de uma emoção tão profunda.

Nunca pensei que uma história de amor pudesse acontecer assim. E nem estava esperando nada disso.

Conviver com povos indígenas foi uma experiência transformadora. Uma vivência que marcou a nossa vida e trouxe à tona nosso lado índio, livre, da terra, da natureza. E foi olhando aquele horizonte que não tinha fim que descobri como podia ser infinita a dimensão do amor.

Penso no Xingu, nos povos indígenas e na nossa história e sinto profundo respeito, admiração e uma gratidão imensa.

BRUNA LOMBARDI


02 DE MAIO DE 2020
J.J. CAMARGO

AS SOBRAS DE TUDO

Aquela insólita declaração de amor salvou meu dia, que se encaminhava para se perder por inanição de afeto. O bicho homem é complicado e, confinado, fica pior. Na desesperança e no inconformismo.

E os queixosos da monotonia do trabalho agora admitem sentir muita falta da rotina, que trocava a angústia por serenidade e ainda dava acesso às pessoas e à possibilidade de ajudá-las, recebendo em troca a gratidão. Semana passada, completamente carente, fazendo compras no supermercado, fui saudado à distância por uma velhinha, que por trás da máscara tinha uma carinha muito fofa. E ela disse:

- Doutor, tenho uma enorme admiração pelo senhor e rezei para que um dia eu lhe encontrasse. Pois hoje lhe encontro e não posso nem lhe abraçar. Isso só faz aumentar o ódio que eu tenho por este vírus. Nem vou falar do adjetivo que ela usou para falar do vírus.

Aquela insólita declaração de amor salvou meu dia, que se encaminhava para se perder por inanição de afeto. De qualquer maneira, quatro semanas sem dar a ninguém uma razão para me agradecer é desesperador.

E esse tempo perdido sem abraçar ninguém, quem vai compensar? E para qual ministério eu posso encaminhar este pedido de reembolso afetivo?

Do ponto de vista da saúde pública, uma enorme dificuldade é estabelecer o limite entre a informação que protege e o exagero que insufla o medo, que, como já escrevi, tantas vezes atropela a razão. Apesar de a mídia mostrar manifestações comoventes da população rendendo homenagens aos profissionais que trabalham na linha de frente, nos bastidores o medo da doença tem substituído a gratidão por crueldade.

Como a médica que recebeu um recado no para-brisas do seu carro: se alguém adoecer neste prédio, você é a culpada. Ou a enfermeira de Barcelona que teve o carro pichado, "Rata contagiosa", e não conseguia parar de chorar.

Ou a nossa amada Lya Luft, que tem casa em Gramado e adora a cidade, e que ao sair do supermercado foi xingada por um casal que, ao ver a placa do carro, disse: "Volte já para Porto Alegre, não venha trazer doença pra nossa cidade!". Uma injustiça com a doçura da Lya, mas ela sabe que o medo embrutece as pessoas, não obrigatoriamente más.

Se a melhor maneira de reduzir a ansiedade é se manter ocupado, temos de reconhecer que só o intelectual pode praticar o chamado ócio produtivo porque saberá empregar melhor o tempo e se dedicar a prazeres protelados, como escrever um livro, ouvir uma ópera inteira sem interrupção, ou reler um clássico (durante tanto tempo fiquei me prometendo reler Crime e Castigo, só não sabia que daria para reler todo o Dostoiévski).

Mas e os trabalhadores braçais, que além de não terem onde descarregar energia ainda ficam matutando como fazer para pagar as contas que a falta do trabalho inviabilizou? Um velho paciente, meu antigo mecânico, ligou para uma consulta online e quando lhe perguntei como estava a quarentena, respondeu:

- Este tempo trancado em casa me fez entender por que quando abro a porta o meu cachorrinho sai naquela disparada!

Quando ele desligou, fiquei pensando: estou precisando muito que alguém abra a porta para mim. E nem temos certeza de que as sobras de tudo representem mais empatia futura. Como um realista esperançoso, estou determinado a crer na utopia, porque ela precisa ser buscada para justificar a nossa vida. Mas sendo realista em relação ao futuro, qualquer projeto que signifique mais do que já tínhamos antes da pandemia vai parecer um exagero. Como era já está de bom tamanho. Dar as mãos, abraçar, beijar as pessoas que correspondem ao nosso afeto, voltar do supermercado sem a preocupação de lavar cada saco plástico das compras, e viajar: não dá pra ser feliz sempre no mesmo lugar.

Da nossa experiência com a interlocução por via remota, em alguns aspectos avançamos, porque sairemos mais treinados nos instrumentos de comunicação digital, mas o triunfo da comunicação remota, se ocorrer, precisará ser assumido como um retundo fracasso da civilização. Toque, calor e cheiro fazem parte da natureza humana. Na área médica, a telemedicina tem se afirmado progressivamente como útil, mas só em determinadas condições especiais. Que não se pretenda generalizá-la, porque a medicina se baseia em compaixão, e a compaixão não é um sentimento que se contente em ser visto, a compaixão precisa ser tocada. Ninguém abraçará um robô diante da ameaça da morte. Então, o afeto da relação médico/paciente jamais será substituído por nenhuma máquina inteligente.

E se isso for considerado uma UTOPIA, então estaremos irreparavelmente perdidos.

J.J. CAMARGO


02 DE MAIO DE 2020
DAVID COIMBRA

O fim do mundo

Pandemia, seca, crise econômica, crise política e agora me aparecem discos voadores. Estou me referindo aos filmes que a Nasa liberou, nesta semana, mostrando objetos voadores não identificados que foram registrados por pilotos de avião. Sei que vai ter um ou outro bidu a argumentar que os objetos voadores que aparecem nos vídeos não foram identificados. Ou seja: podem não ser discos voadores.

Mas também podem ser. Eu, aqui, tenho certeza de que existe vida fora da Terra, simplesmente porque seria ilógico não existir. Pense: os cientistas calculam que só a nossa amada galáxia, a Via Láctea, possua algo entre 100 e 400 bilhões de estrelas. É bastante coisa, não é?

Não. Há muito mais. Empregando dados levantados por 20 anos de uso do telescópio Hubble, cientistas ingleses estimaram que o universo abrigue nada menos do que 2 trilhões de galáxias. Se cada uma delas tiver 100 bilhões de estrelas, calcule o número delas em todo o universo. E depois multiplique por 10 para calcular o número de planetas. Faça esses cálculos, por favor, porque eu não vou fazer, que o confinamento me cansa.

O que importa saber é o seguinte: se existem milhares de quintilhões de planetas, por que só no nosso haveria seres vivos? É claro que há vida em milhões de planetas.

Mas que tipo de vida? Pegue a Terra como exemplo. Por aqui, tudo mudou devido a um acidente: um meteoro caiu bem em cima do México, há 65 milhões de anos, e matou 75% de todos os bichos que andavam felizes pelos campos, inclusive os enormes dinossauros, pterodáctilos e tigres-dente-de-sabre. Esse meteoro nem era tão grande, o problema é que ele atingiu uma imensa reserva de petróleo, que explodiu e ficou queimando e encheu o ar de fuligem. O sol não podia passar por essa espessa nuvem de sujeira e, assim, o mundo entrou numa era do gelo, tornando escasso o alimento. Assim, os pequenos animais, que podiam viver com menos fornecimento de energia, sobreviveram.

Bem.

O meteoro caiu AQUI, mas nem todos os planetas em que há vida tiveram a mesma sorte, óbvio. Então, em alguns lugares talvez não haja pessoas, mas haja um monte de dinossauros e tigres-dente-de-sabre e mamutes e animais gigantescos, como havia antes.

Outra possibilidade: você sabe que nós, Homo sapiens, somos apenas uma das várias espécies humanoides que existiam. Só nós sobramos. Porém, em algum lugar os neandertais, por exemplo, podem ter vencido a concorrência. E os neandertais eram mais fortes fisicamente do que nós e tinham o cérebro maior também. Seus cabelos eram amarelos, a pele clara e os olhos na certa puxavam para o azul. Já as mulheres neandertais suponho que fossem todas como a Maria Sharapova, loiras de um metro e noventa, no mínimo. Há, por aí, um mundo dominado por essa gente, um mundo que é como se fosse uma imensa Suécia.

Talvez alguns planetas tenham sido afetados pela ambição de seus seres humanos, que lhes esgotaram os recursos naturais por inteiro. As pessoas desses lugares foram extintas e agora, se chegarmos lá com nossas naves, veremos cidades vazias, desertos e desolação. Sim, é isso. É provável que muitos mundos tenham acabado por guerras, pela ação deletéria do homem, por quedas de meteoros maiores do que aquele que matou nossos dinossauros ou até, quem sabe, por doenças contagiosas. Por vírus, talvez, por que não? Esse pensamento me ocorreu ao ver os filmes daqueles discos voadores. O mundo pode estar chegando ao fim. E eu nem li todos os clássicos, nem vi todas as séries, nem conheci as Ilhas Maldivas, nem mesmo estou bebendo chope com os amigos numa amena mesa de bar.

DAVID COIMBRA

02 DE MAIO DE 2020
VARIANDO

A bagunça tem seu preço

Quando acordou, a louça ainda estava lá. Havia pratos e copos em todos os cômodos. A falta de visitas fez Antônio afundar na bagunça doméstica. Igual, estava de mau humor. Uns dias antes da pandemia, para sorte de ambos, separou-se da Raquel. Antes de a relação azedar de vez, ela tomou rumo.

Apenas um canto limpo na casa destacava-se. Era o cenário das videochamadas da empresa. Uma camisa branca, sempre a mesma, o esperava na cadeira. No resto do dia, trabalhava de pijama. A alimentação era telentrega de algo engordurado. Mas Antônio não estava mal. Havia uma ponta de felicidade em refestelar-se nesse ninho de rato. Gostava dessa irresponsabilidade temporária. Sabia que era uma fase. Curtia férias da vida adulta regrada.

Toca o celular. É Karen, sua amiga e confidente da vida inteira. Amiga por força alheia. Ele tentou mil vezes algo a mais e era rechaçado. Ela o queria como o irmão que não tinha.

Karen era uma sombra na sua alma e o objeto de ódio de todas as suas ex-namoradas. Algo entre eles era mal resolvido. Atende sem saco para a chorumela da também recente separação dela. Mas a conversa era outra.

Karen confessa estar enlouquecendo na casa dos pais e pedia para fazer a quarentena juntos. Dizia que talvez fosse o momento de tentarem o que nunca se permitiram. Antônio tem um segundo de êxtase antes de se dar conta de que não tinha uma só cueca limpa. Toda sua roupa fedia. O apartamento era uma Disneylândia para baratas, um depósito de caixas de pizza e latas de cerveja vazias. Karen tinha mania de limpeza.

O cérebro de Antônio bolou um plano para ganhar umas horas. Urgia uma blitzkrieg de sabão. Concordou e disse estar muito feliz. Mas pedia que ela dormisse com a ideia, que não fizesse no impulso. Se acordasse com o mesmo pensamento, viesse no outro dia cedo. Ela deu certeza de que iria.

O primeiro problema era conseguir material de limpeza. Mas quem tem latões de Polar em casa tem dólar. Saiu no escambo com os vizinhos e conseguiu de tudo. Começou com as maquinadas de roupas, e as idas ao contêiner de lixo. Deixou para o fim a louça e arrematou com um pano no chão na casa inteira.

Seis horas depois estava no chuveiro recuperando as forças. Faltava passar e secar alguma roupa, mas isso era barbada. Difícil seria dormir. Não dormiu. Talvez um cochilo. Estava muito excitado. Preparou um café e esperou o telefone tocar.

Às sete horas, Karen ligou exultante. Disse que ele era realmente um grande amigo, um tesouro. A prova era que ele não se aproveitou de um momento de fraqueza dela, que poria a perder a maravilhosa amizade deles.

Antônio engoliu a voz. De qualquer forma, Karen tinha que desligar. Ela e Roberto decidiram dar-se mais uma chance. Ela estava chegando lá. Moral da história: mantenha a casa limpa. É o destino que escolhe o dia, não você.

MÁRIO CORSO