quarta-feira, 5 de agosto de 2026

05 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Spectreman e Ultraman

Quando pequeno, fui muito mais ingênuo do que as crianças das gerações de hoje. Recentemente, recebi a prova cabal do quanto era pueril. Meu melhor amigo Zé, companheiro das peraltices, mandou um episódio do Spectreman, série japonesa que impactou a minha infância no fim dos anos 1970.

Na história, Kenji, um homem pacato, transformava-se num androide, num super-herói robotizado sobrevoando os céus para promover justiça.

Mas ele não era humano. Usava essa aparência como disfarce. Havia sido enviado à Terra para proteger a humanidade da destruição causada pela poluição.

Uma criança atual não ficaria um minuto assistindo àquelas aventuras apocalípticas, nem as levaria a sério, nem cogitaria que pudessem ser verdadeiras. No máximo, iria rir do orçamento baixo, da produção amadora, das luzinhas piscando na carcaça de sucata como árvore de Natal. Sequer uma maquete no trabalho de artes do primário seria tão malfeita. As cidades se desmanchavam como papelão com o surgimento de um monstro gigante, pois realmente se tratava de papelão.

Já eu confiava piamente. Eu me assustava com uma versão tosca e primitiva dos Mutantes. Arregalava os olhos ao ouvir o chamado de urgência dos habitantes de Nebula 71, asteroide que vagava livremente pelo espaço e fiscalizava conflitos no universo.

"Spectreman, essa é a voz dos Dominantes. Prevemos uma catástrofe ecológica em plena Baía de Tóquio. Horário terrestre: 19h. Sua missão é investigar imediatamente. Lembre-se de que não deve revelar sua identidade a nenhum nativo deste planeta. Está preparado, Spectreman?"

Minha fantasia perdoava a precariedade dos efeitos especiais. Eu não entendo como, porém dava um desconto, uma licença poética. Não me mostrava exigente. Talvez porque meus brinquedos se resumiam a uma bola, um pião, uma pandorga, uma corda e um carrinho de rolimã, e eu estava acostumado a enxergar bem mais do que acontecia na vida real. Eu inflacionava os fatos com a narração dos pensamentos, com o faz de conta.

Havia, também, entre os meus seriados de predileção, o antecessor de Spectreman: o Ultraman, um dos maiores ícones da cultura pop japonesa e um marco do gênero tokusatsu, que completava a minha galeria de exemplos sobrenaturais.

Quando os colegas debochavam de mim ou queriam me humilhar, eu imitava na escola os golpes básicos de defesa: Spacium Ray (braços em um sinal de +, com o braço direito vertical e o esquerdo horizontal, para disparar um poderoso raio capaz de demolir tudo pela frente), Lâmina (um disco semelhante a uma serra circular, jogado dos cotovelos em direção aos inimigos), Raio de Ataque-Ultra (uma onda de anéis de energia verde desferidos do punho fechado), Rajada (em forma de flecha, com uma mão acima da outra), Ultra Corrente de Água (um jato para apagar incêndios), Raio de Fluoroscopia (feixe de luz que tornava os objetos invisíveis), Ultra-Separação (criava duplicatas exatas de si, permitindo que cada uma lutasse com autonomia, inclusive em longas distâncias).

Nunca funcionou contra o bullying, apenas apanhei mais. Mas jamais deixei de tentar, de me concentrar, de executar as coreografias. Vá que, um dia, uma galáxia longínqua reparasse no meu sofrimento crédulo, esperançoso de um milagre.

Eu acreditava na minha salvação. Dependia mesmo de um super-herói. Ainda que fosse eu. _

CARPINEJAR

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