sábado, 8 de agosto de 2026

Um ponto de equilíbrio no máximo de tensão

O que estimula pessoas ditas "normais" a escolher profissões eletrizantes e se tornarem viciadas em adrenalina? "Aprenda com os erros dos outros. Você não consegue viver tempo suficiente para cometer todos por si mesmo." (Eleanor Roosevelt)

Falando aos mais jovens sobre as barreiras que desafiam nosso progresso profissional, foi inevitável falar do medo de errar. Não daquele receio prudente que nos faz olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, mas do medo que amordaça o projeto de ambição. Aquele que sussurra ao ouvido que é melhor nem tentar, porque a queda é pública e o julgamento é implacável. 

No entanto, quando olhamos para trás, percebemos que as médias e grandes conquistas que eventualmente acumulamos não representaram a ausência do medo, mas a nossa capacidade de administrá-lo.

Viver, afinal, é um exercício de observação. E claro que identificar o que significa a profilaxia do erro, a partir da experiência de quem só pretendia acertar, é um exercício de inteligência e principalmente de humildade, e há uma sabedoria serena nisso. Olhar o tombo alheio não para julgar, mas para ajustar a própria rota, é o que nos permite avançar sem pesadelos na madrugada.

Ainda assim, não importa a atividade ou a exigência de treinamento para exercê-la com competência, a nuvem negra do erro sempre nos perseguirá. Ela é a nossa sombra mais fiel e uma régua implacável na identificação de perfis humanos.

Há os que erram e, assumindo o erro, se diferenciam; os que não se dão conta que erraram e se candidatam a repetir indefinidamente; e os que anunciam que nunca erraram, e todos entendem a mensagem: eles nunca fizeram nada.

O preço assustador desta sina, evidentemente, se multiplica em atividades de risco. Submete o piloto, o motociclista e o cirurgião a níveis de concentração e estresse que o bibliotecário, o alfaiate ou o jardineiro nem imaginam. Enquanto uns buscam o silêncio das páginas ou a precisão mansa da tesoura, outros precisam domar o caos em frações de segundo. 

O que estimula pessoas ditas "normais" a escolher profissões eletrizantes e se tornarem viciados em adrenalina - o thrill seeking, como lembrou o professor Nardi - ainda carece de entendimento da psicologia e da neurobiologia. Mas a verdade é que os protagonistas desse estilo de vida preferem não polemizar. Para eles, e talvez só para eles, isso - e apenas isso - significa VIVER.

Eles buscam para chamar de felicidade, algum tempo de sossego para calibrar a gana de fazer e juram que pode existir alguma calmaria no olho do furacão. Não se incomodam com aqueles, também considerados normais, que se sentem genuinamente realizados na inércia que abomina sobressaltos. Claro que há espaço no mundo para o lago calmo e o mar revolto.

Entretanto, a grande tragédia pessoal não é escolher a segurança do lago, mas desejar o oceano e deixar-se amordaçar pelo medo de naufragar. O erro não é o oposto do sucesso: é o pedágio inevitável para quem se recusa a passar pela vida como um mero espectador e define a felicidade como um ponto de equilíbrio no máximo de tensão. 

Quem convive com a alta tensão sabe que o erro está espreitando, mas sabe também que a paralisia dói muito mais do que a queda. No final das contas, a audácia não é a falta de medo; é a certeza de que a ambição de se sentir vivo é maior do que o temor de errar, e nesse desassossego saem de casa todos os dias, cedo da manhã, cantarolando. 

J.J. CAMARGO 

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