Gente grande
Não importa a idade que temos, há sempre um momento em que é preciso chamar um adulto. Publiquei essa frase em alguma crônica do passado, inspirada por uma conversa que tive, há muito tempo, com uma amiga.
Ela me contou que estava no quarto do hospital onde o pai estava internado. De repente, o quadro dele piorou. Ela tinha cerca de 35 anos, na época. Virou-se para a prima que a acompanhava e disse: "precisamos chamar um adulto". O episódio havia transcorrido meses antes e, ao me descrever a cena, rimos como se fosse um esquete de comédia.
Comédia é coisa séria.
Quando é que nos tornamos um adulto? Convenções etárias determinam a idade em que se pode votar, dirigir um carro, concorrer a um cargo público, mas não há uma idade que indique que ficamos aptos a arcar com as consequências de viver em um mundo onde tudo é impermanente. Hoje você está segura em um casamento, amanhã descobre que seu marido se envolveu com outra.
Hoje você está planejando uma viagem com as amigas, amanhã cai em um golpe que raspa as suas economias. Hoje você está em Paraty, celebrando a literatura com colegas escritores, na noite seguinte está dentro de uma ambulância acompanhando sua mãe que está sendo levada ao hospital com urgência.
Diante do desespero, dá mesmo vontade de chamar um adulto, que em nossa imaginação é alguém com sangue frio para tomar as decisões certas, aquelas que reverterão o pesadelo. O medo nos devolve a um estado infantil, em que só queremos segurar a mão de alguém que cuidará de tudo.
Etarismo contra nós mesmos: acreditar que não somos capazes de lidar sozinhos com as rasteiras que a vida nos dá. E de rasteira a vida entende.
Quando você chama alguém para dividir um problema, não está sendo fraco, e sim, adulto: não precisamos decidir tudo pela nossa cabeça ou sofrer sem um ombro por perto. Pedir ajuda revela saúde mental. Bem diferente de quando se "chama um adulto" a fim de passar adiante o impasse, declarando-se inábil para assumir a responsabilidade das próprias ações.
Quando não há maturidade emocional, você pode ter 35, 52, 64, 88: não cresceu. A infantilidade vitalícia é um local confortável e ilusoriamente seguro, onde todos atendem suas necessidades sem que você precise arriscar seu pescoço, mas é uma existência de muletas, que nunca conhecerá o prazer de andar com as próprias pernas e evoluir através de seus erros e acertos.
Nos últimos meses, foram incontáveis as vezes em que eu gostaria de ter chamado um adulto para resolver questões de gente grande. Nas horas mais difíceis, chamei. E, para meu secreto orgulho, veio eu mesma em meu socorro. Que vitória histórica é descobrir que sempre se pode crescer um pouco mais.
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