sexta-feira, 7 de janeiro de 2011



Berço, chão e túmulo das palavras

Dizem que a gente só vai morrer de verdade depois que ninguém mais nos lembrar. Acho que acontece mais ou menos a mesma coisa com as palavras.

Elas só ficam enterradas em definitivo em algum vetusto dicionário encoberto pela pátina do tempo depois que ninguém mais as fala, escreve ou pesquisa, tipo assim, por exemplo, convescote, que morreu cedo, ainda bebê, ao tentar substituir piquenique (do ingl. picnic).

Hoje em dia, aliás, não se fala muito em piquenique, né, meu chapa? Nem sempre as palavras morrem quando o objeto, a profissão ou alguma outra coisa desaparece.

Carro de praça virou táxi. Carro de praça era palavra mais lenta, elegante, espaçosa, com motorista de quepe, sapato lustrado, paciência e até gravata. Táxi é palavra mais rápida, mais urbana, vapt-vupt, Nova Iorque, por aí. Pederasta é vocábulo politicamente incorreto, eivado de preconceito, que é preferível deixar estertorando no léxico, que, diga-se, diz que pederastia era vício, imagine só!

Mulher da vida e mulher de vida fácil ficaram nos anais, sem trocadilhos infames, por obséquio. Flor da idade e tenra infância são palavras que envelheceram, encarquilharam, junto, aliás, com macróbio, nosocômio, manicômio e encômio, que eram do tempo das rimas pobres e de poetas mais bem aquinhoados.

Te lembra de Pinel, o nome do médico e o apelido dos pacientes tipo assim amentais, oligofrênicos, oligões e que hoje são apenas fora da casinha, portadores de deficiências, malucos-beleza ou meio diferentes?

Solteirona, solteirão e, principalmente, solteirão empedernido ficaram, literalmente, petrificados, para titios, e terminaram seus dias em alguma casa de cômodos perdida no beco de algum arrabalde, diga-se de passagem, nas cercanias das casas sem eira nem beira de algum rábula de fim de linha, de um oloroso cubeiro ou de um modesto amanuense, que, depois de sete lustros de labor na repartição pública, solicitou seu direito ao ócio com dignidade, para jubilar-se no recesso de seus aposentos.

Depois dos prolegômenos e do mérito, sem maiores delongas, vou tentando encerrar esta modesta mas percuciente crônica com chave de ouro, lamentando se não consegui ser supimpa e, se porventura, deixei meus preclaros e conspícuos sete leitores a ver navios. À guisa de defesa, refiro que total apedeuta procuro não ser. Passar bem, bons dias! Queridos leitores, venturoso 2011!
A melhor biografia do homem mais complexo de seu tempo
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA - DIVULGAÇÃO/JC

O jornalista e escritor João do Rio, cujo nome de batismo era Paulo Alberto Coelho Barreto, nasceu no Rio de Janeiro em 1881 e lá faleceu em 1921.

Cem mil pessoas acompanharam o féretro daquele que todos os contemporâneos consideraram o homem mais complexo de seu tempo. João do Rio nasceu quase pobre e ascendeu socialmente, conquistando a fama e o ódio que ela desperta nos menos talentosos.

João do Rio - vida, paixão e obra do jornalista e pesquisador carioca João Carlos Rodrigues é, sem dúvida, a melhor biografia de uma das figuras mais originais, independentes, brilhantes, fecundas e pioneiras que nosso jornalismo e nossa literatura já produziram. João do Rio com seu talento e sua criatividade reuniu crônica e reportagem num mesmo gênero que esbanjava originalidade e mudou a forma de escrever em jornais.

Mestre da sátira política e do humor, João do Rio era negro e assumia sua ambígua sexualidade no Rio ainda preconceituoso das primeiras décadas do século XX. João Carlos Rodrigues, com seu texto, acertou em cheio ao unir vida e obra do biografado e sua narrativa, com graça e talento, mais ritmo cinematográfico e romanesco, de quebra, reteve o fascínio da belle époque tardia que o País conheceu, mostrando cenários e personagens inesquecíveis do Rio do início do século. João do Rio não era cronista de redação ou de gabinete.

Gostava de flanar, vagabundear dia e noite e depois refletir sobre o que chamava de “as almas das ruas”. Achava que o cronista tinha de ser também repórter e andar por aí, nas rodas da população, portando o vírus da observação ligado ao da vadiagem.

O escritor e jornalista João Antônio, na orelha, escreveu que João do Rio, enfiado no jornalismo desde a adolescência, irrequieto e atento à vida em todas as camadas da sociedade de seu tempo, e mercê de seu talento, natural que aos vinte e poucos anos tivesse a evidência e a consideração entre os maiores.

João do Rio não teve medo de lançar farpas no poderoso senador Pinheiro Machado e em outros figurões da República Velha e retratou, como poucos, a cidade em transformação, com seus tipos, seus hábitos e sua elite já muito malandra.

Em 1910, aos vinte e nove anos, João do Rio, que conviveu com Isadora Duncan no Rio em 1916, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Como se vê, uma vida, um tempo, uma obra e um livro imperdíveis. Civilização Brasileira, 308 páginas, mdireto@record.com.br.


07 de janeiro de 2011 | N° 16573
PAULO SANT’ANA


Entrevista que só confundiu

Acompanhei com vivo interesse a entrevista coletiva, ontem, concedida pelo Assis, pelo Ronaldinho e pelo dirigente do Milan.

Pela entrevista, ficou decidido que o Milan liberou Ronaldinho e que o Milan não liberou Ronaldinho, tanto que Assis afirmou que o Milan ajudará os dois irmãos a encontrar um clube para Ronaldinho no Brasil.

O Milan ajudando a encontrar um clube para o jogador no Brasil?

Isto é uma patacoada. E a entrevista foi uma pantomima.

Vai ser muito difícil para a família do Ronaldinho permanecer em Porto Alegre se ele não vier para o Grêmio. Mais do que difícil, impossível.

Um fato espantoso é que Assis declarou na entrevista que, agora que o Milan liberou seu irmão, ele estudará as melhores propostas dos clubes brasileiros e só então decidirá sobre o futuro próximo de seu irmão.

Mas como? Já não teve propostas? Tanto que o Grêmio está declarando que está certo de que Ronaldinho virá para o Olímpico.

Eu fico só imaginando a tensão de que ficou tomada a torcida do Grêmio e o presidente Odone depois da estrambótica entrevista de ontem.

Não há quem tenha entendido qualquer coisa, foi de uma excentricidade a entrevista, que ela acabou confundindo até os gênios.

Só uma pessoa sabe agora, entre milhões, o que vai acontecer: Assis. Estranho poder adquiriu esse rapaz, será que capaz de enganar pela segunda vez a torcida do Grêmio?

Milhões podem ser enganados por um só. Eu tenho certeza de que, fosse Ronaldinho quem decidisse, ele decidiria pelo Grêmio. Mas quem decide não é ele, é Assis.

Isso que Ronaldinho é maior de idade. Por que necessita ainda de um preceptor?

Vamos ver no que dará esta comédia, esta enganação. Multidões estão sendo enganadas? A palavra está sendo quebrada? A tradição gaúcha de que a palavra é honrada pelo fio de bigode será estraçalhada?

Alguém precisa fazer um levantamento sobre esse intrigante personagem chamado Assis e, com a ajuda de psiquiatras, traçar o perfil psicológico desse rapaz sobre quem recaiu o sinistro encargo de frustrar o Grêmio uma vez e ameaçar frustrá-lo pela segunda vez.

O pior de tudo é que o Grêmio estreia na Libertadores daqui a 18 dias e está sendo sedado por esta encrenca de Ronaldinho, deixando de reforçar o seu time para dar a Renato uma equipe consistente para a responsabilidade de um torneio continental.

Só o que faltava era o Assis recambiar o Ronaldinho para o Flamengo e de quebra ainda perturbar e embromar os dirigentes gremistas a ponto de não fazê-los contratar outros grandes valores.

Maldita encrenca! Olha, Assis...


07 de janeiro de 2011 | N° 16573
MOISÉS MENDES


O Rio ou a alma

Sofri por duas semanas ao imaginar o Ronaldinho se lambuzando com o hambúrguer da Célia. Em outubro, eu me divertia com um hambúrguer da barraca da Célia às três da madrugada e olhava a cobertura de Ronaldinho na Barra da Tijuca. Uma roda de samba fazia zoeira na barraca. O Rio fica acordado até tarde porque é um desperdício ir dormir e deixar aquele mar murmurando sozinho.

A barraca, no calçadão, fica bem diante da cobertura de Ronaldinho. Uma cobertura modesta, um JK perto do convés que o Romário tinha a algumas quadras dali. Quando disseram que Ronaldinho viria para o Grêmio, uns ficaram sonhando com o dia em que o encontrariam comprando Fruki e tijolinho com dona Miguelina no Súper Sul da Eduardo Prado, perto da casa dele. A contragosto, eu o imaginei na cobertura da Barra.

Dia desses, quando Grêmio, Flamengo e Palmeiras duelavam por Ronaldinho, falei com a recepcionista do hotel que fica ao lado da cobertura. Me contou que ele foi visto no terraço sem camisa. Abatido, imaginei Ronaldinho às quatro da madruga erguendo os braços e dividindo uma preguiça bem carioca com aquele marzão. Que dureza seria a vida de Ronaldinho naquela laje de luxo da Barra.

Na barraca da Célia, está escrito: carioca como você. Se fosse jogar no Flamengo, Ronaldinho poderia sair do Maracanã, atravessar a Avenida Lúcio Costa de havaianas e comer o hambúrguer da Célia com uma Heineken, como eu fiz aquela noite.

E se enfiar numa roda de samba que não se dissolve nunca. No Rio, o mais carioca dos jogadores gaúchos, mais do que Renato, e sem nem nunca ter morado no Rio, não precisaria correr atrás de rodas de samba, nem de gurias.

Da sacada do hotel onde parei, aquele ao lado da cobertura, eu vi gurias no mar às nove da manhã, às três da tarde, às duas da madruga. Era outubro, dia de semana. Na esquina, à noite, vi as sombras de moças enormes abordadas por ocupantes de carrões pretos.

Fui alertado pelo guardinha da rua: não são moças. Naquela esquina, há dois anos Ronaldo Nazário recolheu Andréia Albertine. No motel (será?), notou que apalpava um zagueiro. O guardinha me contou e disse: cuidado. Cuidadoso, fui dormir.

A uma quadra dali, fica o point da lendária barraca do Pepê. E tem o trailer Viajandão, frequentado por Romário e seus peixes. Ronaldinho poderia virar um surubi do deputado. Poderia meter seis gols num clássico Flamengo x Bangu e ser convocado de novo para a Seleção.

Ronaldinho poderia tanto no Rio. Ficaria ao lado do filho, João. Cantaria Lupicínio na barraca da Célia. Iria dormir ao lado da piscina e acordaria encharcado da mais doce maresia do mundo. Se sobrasse tempo, poderia até jogar bola.

Mas não daria certo. O lugar do guri é o Grêmio. Estão erguendo um prédio imenso bem ao lado da cobertura na Barra. Vão tirar parte do sol de Ronaldinho no Rio. O Maracanã em reforma e a praia que esperem. Antes, Ronaldinho precisa juntar o corpo à alma que um dia deixou na Azenha.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011


Macaco Simão

Ueba! Dilma vai pro Jaburu!

E a mulher do Temer? Diz que ela falou: "Vocês podem não Credicard, mas foi amor à primeira Visa"

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

E a manchete do Sensacionalista: "Psicóloga do porta-malas fará ensaio sensual para a revista "Quatro Rodas'". Rarará! A mulher some, mobiliza o Rio de Janeiro inteiro e depois descobrem que ela se enfiou num porta-malas. Passou o fim de semana no porta-malas dum Fiat Palio WEEKEND! Rarará!

Tão dizendo que ela não queria passar o Ano-Novo com os malas da família. "Ai, que namorado mala, prefiro um porta-malas!".

E sabe por que o Lula negou a extradição do italiano Battisti? Porque o italiano era membro do grupo de ultraesquerda Proletários Armados pelo Comunismo: PAC! Com o PAC ninguém mexe! E o que o Lula vai fazer agora? Diz que o Lula fica brincando de reunião ministerial com os netos! Rarará!

E o chargista Pelicano conta que o Lula tava num boteco tomando umas quando toca o celular. "Deve ser a Dilma." Que nada. Era a voz da dona Marisa: "Quer fazer o favor de vir jantar?". Rarará! É a tal da vida normal!

E a mulher do Temer? A Paquita do Temer. Diz que ela falou pra imprensa: "Vocês podem não Credicard, mas foi amor à primeira Visa". O problema não é a idade do Temer. É a cara do Temer. Cara de mordomo de filme de terror! Eu acho que antes de ser vice ele fazia papel de mordomo em peça da Agatha Christie! Rarará!

E como é que aquela gata vai morar no Palácio do Jaburu? Não combina! Diz que ela ligou pra Dilma: "Vamos trocar de palácio?". Rarará. "Eu fico no Alvorada e você vem pro Jaburu!" E nunca se esqueça que PMDB quer dizer Pomos a Mão no Dinheiro do Brasil! Partido das Mutreta do Brasil! Rarará!

E um amigo meu foi passar o fim de ano em Fortaleza e disse que teve uma vida sexual superagitada: comeu três caranguejos. E eu que passei o Ano-Novo na Bahia perto de um rio chamado SONRISAL! Rarará. É verdade!

O Brasileiro é Cordial! Olha a placa que eu vi numa escola infantil: "Não vale jogar pedra nos colegas". Rarará. Brasileiro é cordial desde criancinha.

E um amigo me disse que a mulher dele é tão feia, mas tão feia, que quando ela descasca cebola quem chora é a cebola.

Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! Vou passar o resto do ano num porta-malas!

simao@uol.com.br

PASQUALE CIPRO NETO

Ano novo...

Terminada a operação, o produto da liquefação foi despejado numa tigela, digo, numa legenda de foto...

...BOBAGENS VELHAS. Mais uma vez, caro leitor, vou falar de preciosidades presentes em títulos jornalísticos. Os vestibulares estão aí. Como sempre, muitos deles vão apresentar questões baseadas em títulos e textos dos diversos meios de comunicação, com o objetivo de avaliar a capacidade do candidato de "descobrir" a ambiguidade de determinadas construções, a contradição que muitas delas encerram etc.

Normalmente, as bancas não se limitam a pedir ao candidato a identificação do problema; pedem também que os trechos sejam reescritos, com clareza, coesão, correção etc.

O leitor habitual deste espaço sabe que volta e meia analiso textos jornalísticos típicos dessas questões. Faço-o sempre com a preocupação de evitar a repetição dos temas, ou seja, ora analiso um caso em que o problema está na pontuação, ora outro caso em que o problema está ordem -e assim por diante. A ordem, aliás, é, de longe, a pedra-mor desse tipo de texto ou título.

Como tenho demonstrado aqui ao longo dos anos, a criatividade não tem limite. Para ilustrar o ponto a que se chega, relembro um texto abordado pela Unicamp há algum tempo: "Ao chegar ao ancoradouro, recebeu Alzira Alves Filha um colar indígena, feito de escamas de pirarucu e frutos do mar, que estava acompanhada de um grupo de adeptos do Movimento Evangélico Unido". Acredite, caro leitor: o texto não é invenção da Unicamp, não.

Desfeitos os contorcionismos a que nos obriga a incrível ordem dada aos termos, chega-se ao óbvio, que é isto: "Ao chegar ao ancoradouro, Alzira Alves Filha, que estava acompanhada de um grupo de adeptos do Movimento Evangélico Unido, recebeu um colar indígena, feito de escamas de pirarucu...".

Pois essas coisas fazem escola. Na quarta-feira da semana passada, um site estampou uma foto em que se via um congestionamento. Eram veículos que desciam a serra do Mar, na rodovia dos Tamoios. Sabe qual era a legenda da foto?

Lá vai: "Trânsito congestionado na rodovia dos Tamoios, na descida da serra do Mar, na noite desta quarta-feira, estrada que leva à Caraguatatuba". Pois é, caro leitor, a noite desta quarta-feira é uma estrada. E essa estrada leva "à" Caraguatatuba.

Como se já não bastasse a bizarríssima ordem dada aos termos, a coisa termina com uma cerejaça no bolo: "à" Caraguatatuba. Será que os habitantes da Caraguatatuba sabem que moram na Caraguatatuba?

Pois é, como ninguém nasce na Caraguatatuba (nem mora na Caraguatatuba, nem leva horas e horas para ir da Caraguatatuba aonde quer que seja), não há estrada que leve alguém "à" Caraguatatuba.

Como se sabe, "à" resulta de "a" + "a". Como o leitor acabou de ver, não existe artigo feminino antes de Caraguatatuba (as pessoas nascem/vivem/moram em Caraguatatuba, vão/partem/saem de Caraguatatuba), portanto a estrada leva a (e não à) Caraguatatuba. Mas isso era só a cereja (cerejaça!) do bolo.

E o bolo em si? Uma parte dele já foi vista (o trecho "na noite desta quarta-feira, estrada que leva..."). O fato é que os termos que compõem a frase foram jogados no liquidificador. Terminada a operação, o produto da liquefação foi despejado (ou "deitado", como se diz deliciosamente em Portugal) numa tigela, digo, numa legenda de foto...

Vamos reescrever a frase? Que tal algo como "Trânsito congestionado na descida da Serra do Mar pela (ou "na') rodovia dos Tamoios, estrada que leva a (e não "à", santo Deus!) Caraguatatuba, na noite desta quarta-feira".

Simples, não? O assunto talvez comporte outro capítulo (que deve passar por uma conversa sobre o papel do aposto). É isso.

inculta@uol.com.br

Folha

Tablets serão destaque na maior feira de eletrônicos do mundo

Começa hoje em Las Vegas (EUA) a maior feira de eletrônicos do mundo, a CES (Consumer Electronics Show). A edição será protagonizada pelos tablets, afirmaram especialistas à Folha.

Eles acreditam que serão apresentados pelo menos 17 desses dispositivos eletrônicos no evento, entre os quais os da Toshiba, da Asus, da Dell, da RIM (Research In Motion) e da Motorola. Especula-se que a Microsoft também apresentará um modelo.

A organizadora da feira, a CEA (Consumer Electronic Association), vai mais longe e estima em cerca de cem os modelos de tablets que serão mostrados, segundo a agência Efe.

Os aparelhos serão destaque na feira porque vão atingir em massa o mercado em 2011, afirma a revista "Wired".

À Folha os especialistas afirmaram que a expectativa de vendas desses aparelhos, que se popularizaram em 2010, é de 30 milhões de unidades neste ano.

Já a Forrester prevê que um terço dos consumidores on-line americanos (82 milhões) terão um tablet até 2015, divulgou anteontem o blog de tecnologia TechCrunch.

Segundo a companhia de pesquisa, 10,3 milhões de tablets foram vendidos nos EUA em 2010. Para 2011, a expectativa é de venda de 24,1 milhões, e, em 2015, 44 milhões.

Outra onda do evento serão os televisores com conexão à rede. Fabricantes como Vizio, LG e Samsung apresentarão seus modelos, relata a Efe.

A agência levanta a possibilidade de a Microsoft apresentar seu próprio aparelho, que foi apelidado na imprensa de Windows TV. Espera-se ainda que a empresa lance no evento o videogame Xbox 360 com o Kinect, controle com sensores de movimento, já embutido.

A CES contará com 2.700 expositores. A expectativa é que 120 mil pessoas visitem a feira, que acaba no domingo.

ELIANE CANTANHÊDE

Sobrou para Dilma

BRASÍLIA - Enquanto Lula descansa no Guarujá, Dilma Rousseff vai tentando resolver problemas que ele jogou no colo dela.

A decisão do STF de extraditar o ex-guerrilheiro Cesare Battisti para a Itália, delegando ao presidente a palavra final, foi publicada em abril de 2010. Lula teve, portanto, oito meses para estudar a questão e decidir.

Mas enrolou, enrolou, enrolou e só anunciou que manteria Battisti no Brasil como imigrante no último momento. E o pior é que, durante todo o tempo, todo mundo sabia que o desfecho seria esse.

Se a decisão já estava tomada, por que Lula só a anunciou ao apagar das luzes? Porque ele não gosta de decidir, foge de confrontos, faz o que pode para preservar sua altíssima popularidade. Sobrou para Dilma, na estreia de seu mandato, não só negociar as pazes com o governo e as instituições italianas como também suportar as manifestações populares contra o Brasil.

Algo parecido ocorreu com o programa de renovação dos caças da Aeronáutica. O relatório técnico, com milhares de páginas, ficou pronto em dezembro de 2009. Lula, portanto, teve um ano inteiro para estudar a questão e decidir. Mas enrolou, enrolou, enrolou e só anunciou nos últimos dias de seu governo que não iria decidir coisa nenhuma. Aliás, quem acabou assumindo o adiamento foi Dilma.

A bomba Battisti e a bomba dos caças são exemplos contundentes da incapacidade de Lula de enfrentar o que tem de ser enfrentado, mas há outros, como o caos aéreo de quase um ano. Possivelmente, isso não teria acontecido se fosse Dilma a presidente. (A conferir...)

Com o país extasiado pelo presidente falante e pelo governo bem avaliado, a essas e outras se somam as reformas política, tributária e trabalhista, que se arrastaram durante oito anos até caírem no limbo e ninguém mais falar nisso.

Dilma, coitada, vai ter que resolver tudo isso. E sem poder reclamar da "herança maldita".

elianec@uol.com.br


06 de janeiro de 2011 | N° 16572
LETICIA WIERZCHOWSKI


Mar, não leva eu!

Sou uma gaúcha assim com alma de carioca – nada me deixa mais feliz do que um dia inteiro com os pés na areia, marzão, sol e calor. De bom grado, ofereço aos meus meninos longas manhãs e pacatas tardes praianas, com banhos de mar, castelos e buracos na areia.

Minhas melhores memórias de infância provêm de uma casa azul em meio às dunas de Cidreira, uma praia que, há trinta e cinco anos, era muito tranquila, e em cuja larguíssima faixa de areia gastei deliciosas tardes da minha vida.

No ano passado, enquanto meu filho mais velho se aventurava pelas águas com uma coragem quase temerária (ainda me vejo à beira da água, chamando-o para mais perto, por favor), o meu caçula, para meu desespero, imitava-lhe loucamente o exemplo.

Tal qual um desses bonecos de corda, eu punha o pequeno na areia, e ele corria para o mar. Adentrava as ondas bravias com uma empáfia que fazia os adultos rirem na areia. As ondas estouravam-lhe na cara, e o Tobias nem aí. Era preciso segurá-lo, aos berros, trazendo-o para a segurança do guarda-sol, quando então ele começava tudo de novo.

Nesse ano, vim preparada para a peleja. Comprei até um colete inflável para o meu pequeno amante do mar, e qual não foi o meu susto quando, no primeiro dia de praia, o Tobias se pôs a berrar por uma hora inteirinha, com medo de que o mar, quieto lá no seu canto, viesse roubar-lhe os brinquedos. Foi uma tal gritaria que a areia esvaziou-se ao nosso redor.

Por fim, o menino se conscientizou de que o mar não queria mesmo nada com o seu balde e as pás de plástico; mas, desde então, passa na areia, ora brincando animadamente, ora derramando lastimosos olhares para aquela enorme massa de água salobra, enquanto diz, numa súplica: “Mar, não leva eu… Ai, mar, não leva eu”.

Já faz muitos dias, e a cantilena segue. Praia sim, areia sim, mas mar? Enquanto o mais velho toma homéricos banhos, meu pequeno Tobias passa a manhã inteira barganhando com o oceano: “Mar, não leva eu!”. Ah, por que estranhos caminhos segue o amadurecimento infantil…

Sei bem que, se não nesse, em algum outro verão verei meu filho se refestelando nas ondas como qualquer outro menino da sua idade. Porém, não deixo de sentir que ele guarda alguma sabedoria, quando mira a imensidão de água e começa a sua curiosa pregação. Como é mesmo aquela música do Paulinho da Viola? O mar não tem cabelos que a gente possa agarrar...


06 de janeiro de 2011 | N° 16572
PAULO SANT’ANA


Os que me cuidam

Como são importantes para mim esses senhores que cuidam da minha saúde!

Com que desvelo se atira essa dezena de médicos a desvendar os defeitos por uso de meu corpo!

Assim como os psiquiatras que sucessivamente se arremessaram à afanosa tarefa de solucionar os meus desvios da mente e a proceder ao rescaldo dos escombros da minha alma.

Como poderei retribuí-los, a não ser com o reconhecimento pelas centenas de horas na busca de minhas curas?

Assim como quando irei resgatar a dedicação dos amigos que suportaram as minhas impertinências?

Eu tinha de erguer uma estátua para cada um de todos os meus amigos.

Eles foram e têm sido a razão da minha resistência.

Passo nas ruas e ouço as vozes dos que se surpreendem com a minha aparição: “Oi, seu Sant’Ana, vai voltar o Ronaldinho?”. O outro: “Seu Sant’Ana, o senhor está com bom aspecto. Melhorou a saúde, não é?”.

Gente anônima que ou quer ver minha felicidade, ou se compraz que eu lhe diga que estou espantando as minhas doenças.

Que bom haver pessoas que, gratuitamente, nos becos, nos elevadores, querem saber da minha sorte: “Magoaram-no, seu Sant’Ana, quem teria sido capaz de ter-lhe feito isso? Não foi a vida, que a vida é boa e justa e, sendo boa e justa a vida, ela não haveria de magoá-lo assim, a ponto de tisnar de tristeza os seus olhos. Tenha fé, seu Sant’Ana. E vá em frente”.

Médicos, psiquiatras, enfermeiras, atendentes, amigos, uma constelação de luzes que ainda me animam.

E são eles que me levam em frente e não estão permitindo que eu aderne.

Ainda há pouco, a Mega Sena da Virada teve quatro acertadores.

A diferença entre a vida e a Mega Sena é que esta tem muitos acertadores e eu nunca vi acertadores na vida.

E eu continuo a apostar na Mega Sena e na vida.

Quero parabenizar o governador Tarso Genro por duas designações no primeiro e no segundo escalão: o delegado Ranolfo Vieira Junior, como chefe da Polícia Civil, e Afonso Motta, como secretário do Gabinete dos Prefeitos e Relações Federativas.

O delegado Ranolfo era um anseio para o cargo por parte dos melhores quadros da Polícia Civil, que querem ver a corporação modernizada e ágil.

E o Afonso Motta é talhado para a secretaria que vai ocupar, seu tino político, sua cultura jurídica e sua paciência exemplar são virtudes exatas para o posto.

Por aí, vai começando bem o governo Tarso Genro.


06 de janeiro de 2011 | N° 16572
SOB O GUARDA SOL | Por DAVID COIMBRA


O amor para todos

Observe os argentinos na praia. Eles são gregários, eles estão sempre em turma, brincando, jogando. No fim da tarde, reúnem-se em rodas na areia, tomam chimarrão, conversam, lançam o olhar para a África, além do horizonte, e sonham. As mulheres usam aquelas batas e gargantilhas de conchas, os homens conservam os cabelos compridos e se abraçam e fumam.

Sabem com quem se parecem os argentinos na praia?

Com você. Com os brasileiros dos anos 70. Ou, vá lá, do começo dos anos 80.

O amor é que importava, naquela época, sabia? Amor para todos e talicoisa.

Lembro de uma vez em que fomos acampar em Cidreira. Nós, que digo, é o pessoal da faculdade, eu, o Sérgio Lüdtke, o Chico Trago, a Rosane, a Roseli e a Dulce. Eu era apaixonado pela Rosane, mas a Rosane vivia a repetir para mim o pior que uma mulher pode dizer a um homem:

– Tu é o meu melhor amigo...

Horrível. Como queria ser inimigo da Rosane.

Mas naquele fim de semana senti que tudo podia dar certo. Nós nas barraquinhas, com pouca roupa e menos espaço, clima de festa, oba, a vida é boa. E além do mais vivíamos num tempo de amor para todos, lembra?

De fato, durante o dia nossa sintonia foi se afinando. Ríamos, brincávamos e bebíamos com alegria, feito argentinos do século 21. À noite fazia um friozinho. O Sérgio preparou um risoto de camarão histórico, coisa muito séria. Eu ali, cercando a Rosane, não dando espaço para a concorrência, um Paulão na nuca do centroavante.

A noite avançou. Os eflúvios do vinho deixaram o ambiente brumoso. Rolou um Geraldo Azevedo (a Rosane a-do-ra-va Geraldo Azevedo). Pena que pena que coisa bonita, diga: qual a palavra que nunca foi dita?, diga, qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá.

Então, a Rosane saltou, dentro da sua blusinha colorida de hippie, e propôs:

– Vamos todos nos beijar???

Pensei: é agora. Gol do Brasil.

– Vamos! Vamos! – topei.

E preparei o biquinho, piscando para a Rosane. Aí ela acrescentou:

– Mas tem de ser TODOS. Todo mundo aqui se beija na boca.

Arregalei os olhos:

– Como assim?

– Todos – confirmou ela. – Homem com homem, mulher com mulher, mulher com homem. Na boca. De língua.

Olhei para o Sérgio. Olhei para o Chico Trago. O Chico Trago usava barba. Suspirei:

– Não vai dar, Rosane...

O amor, afinal, não pode ser para TODOS. Melhor deixar essas coisas para os argentinos.

Vida praiana

Acordei. Abri as janelas de par em par. Olhei para a quarta-feira azul e amarela. Respirei fundo o ar marinho. E pensei: hoje quero provar pastelzinho de siri em frente ao Atlântico marulhante, sim senhor. Cheguei à praia. Pedi pastelzinho de siri. Só tinha de camarão. Que chato.

Cena espetacular

Passava das 14h de ontem quando o helicóptero branco da Brigada fez um movimento decidido de aproximação da faixa de mar em frente à guarita 89, em Xangri-lá.

Alguém estava se afogando.

De longe, via-se duas cabecinhas escuras em meio às ondas. O helicóptero pairou sobre elas como um grande beija-flor. Um dos salva-vidas saltou no mar. Outro ficou pendurado periclitantemente, manejando uma corda que tinha, na ponta, uma rede parecida com essas de caçar borboleta, só que em tamanho gigante.

Em dois ou três minutos, com grande habilidade, o salva-vidas resgatou um afogado. Em mais dois minutos, o helicóptero estava subindo, levando o salva-vidas e um gordinho de sunga azul-clara e costas peludas, estilo Toni Ramos. Os dois foram depositados gentilmente na areia, após o que o helicóptero voltou para pescar outro incauto. Um quarto de hora, não mais do que isso, e os PMs salvaram duas vidas.

Ninguém aplaudiu.



- Nome: Indianara Gonçalves

- Idade: 20 anos

- Cidade: Arroio do Meio

- Praia: Tramandaí

- Time: Inter

- Hobby: Jogar vôlei


06 de janeiro de 2011 | N° 16572
L. F. VERISSIMO


Detalhes

Não quero fazer intriga, mas, na hora de ser cumprimentada pelos representantes estrangeiros depois da posse, a Dilma recebeu a Hillary e o Hugo Chávez com a mesma efusão – mas deu um passo à frente para receber a Hillary. Não sei o que isso possa sinalizar sobre novas diretrizes para nossa política externa, mas deu na vista.

A posse esteve cheia de detalhes assim. Da sua entrada na Câmara até chegar à mesa onde seria diplomada, a Dilma foi distribuindo beijos, e aí também se notou uma variação com possíveis conotações políticas. Em alguns, ela dava um beijo, em outros dois beijos.

É verdade que alguns (do PMDB), depois de receberem um beijo da Dilma, se apressavam a ficar na frente dela de novo para receber outro, mas assim mesmo a quantidade de beijos deve ter significado algo. Estabeleceu-se uma hierarquia instantânea, os beijados e os bi-beijados, que pode muito bem se refletir em futuras votações no Congresso.

O tempo gasto com beijos também marcou a primeira grande diferença de se ter uma mulher na Presidência. Eu não me lembro de nenhum presidente ter custado tanto a chegar à mesa por ter ficado distribuindo beijos no caminho. Nem o Itamar, nas mulheres.

O detalhe mais simpático da festa foi a Dilma na base da rampa do palácio e o Lula no topo, os dois se enxergando pela primeira vez naquele dia, e ela abrindo os braços como quem diz “olha nós aqui: dá pra acreditar?”. E ele fazendo o mesmo gesto lá de cima.

A incredulidade com o que estava acontecendo deve ter acometido muita gente, a começar pela Dilma e o Lula. E o detalhe mais bonito do dia, claro, foi a Marcela Temer.

Já contei mais de uma vez que um dia vi o Millôr arrancar aplausos entusiasmados de uma plateia, durante a Jornada Literária de Passo Fundo, com a leitura de um magnífico discurso em defesa das liberdades democráticas.

Quando terminaram os aplausos, o Millôr revelou que acabara de ler o discurso de posse do general Garrastazu Médici, que inauguraria o período mais duro do arbítrio militar no governo. Só para lembrar que se deve dar importância relativa a discursos de posse.

No seu, Dilma disse o previsível, mas disse bem. E tocou de forma sucinta mas emocionada no detalhe mais importante do momento, o contraste entre o seu passado na clandestinidade e na prisão, no tempo da luta contra o arbítrio, e a sua investidura como presidente do Brasil. Ela poderia muito bem ter terminado o discurso abrindo os braços e dizendo “Olha eu aqui: dá pra acreditar?”.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011


ANTONIO PRATA

Meias

A gente acha que difícil são as grandes decisões. Às vezes, são as pequenas escolhas que dilaceram o coração

A GENTE SEMPRE acha que a mudança virá de grandes resoluções: parar de fumar, pedir demissão, declarar-se à Regininha do RH. Às vezes, contudo, são as pequenas atitudes que alteram definitivamente a rota de nossas vidas. Nessa segunda-feira, por exemplo, pela primeira vez em 33 anos, saí para comprar meias. Sou um novo homem.

Talvez o leitor ache que estou exagerando. É que não teve o desprazer de conhecer minha gaveta de meias até 48 horas atrás. Mais parecia "saloon" de velho oeste: poucos pares, estropiados, cada um vindo de um canto -tenazes sobreviventes de diferentes etapas da minha vida.

As três brancas, de algodão, haviam sido ganhas na compra de um tênis de corrida, lá por 98. A marca da loja já quase não se lia, escrita no elástico esgarçado. Pior que as brancas estavam as azuis, da Varig, do tempo em que a ponte aérea era feita pelos Electras, e as aeromoças davam brindes, não broncas.

O pé da meia azul não tinha curva no calcanhar nem na canela: assemelhava-se a um coador de café dos Smurfs. Ou dos Na'vi. O elástico era frouxo, mas o laço afetivo não, de modo que as seguia usando, ano após ano, mesmo diante dos encarecidos apelos de minha mulher.

Em bom estado mesmo só as cinza, com losangos, que peguei para completar o valor na troca de uma jaqueta, presente de natal em, sei lá, 2002. Era a minha "meia de sábado", aquela que vestia para jantares, casamentos e entrevistas de emprego. Além dessas, havia mais três ou quatro, que de tão ordinárias nem merecem meu comentário.

Ah, caro leitor, eu era infeliz e não sabia! Uma vida com poucas meias é uma vida de expectativa e ansiedade. Toda manhã aquele suspense ao abrir a gaveta: quais estariam ali, quais andariam na longa peregrinação que passa pelo cesto, pela máquina, pelo varal?

Cheguei ao fundo do poço na sexta, 31, dez da noite. Minha mulher batia na porta do banheiro, apressando-me para a ceia, enquanto eu, sentado no chão de azulejos, encaixava as meias cinza na boca do secador de cabelos. Não queria virar o ano com os pés úmidos nem gostaria que todos me vissem, quando tirasse os sapatos para pular sete ondinhas, com as velhas meias da Varig.

Naquele momento de angústia, por trás do ruído aeronáutico do secador, dos meus gritos e dos gritos de minha mulher, pude ouvir uma voz grave, que vinha de toda parte e de parte alguma: "Antonio: tu és homem feito. Pagas as contas e impostos em dia. És casado, asseado, vacinado: por que vives nesta penúria?"

Se eu soubesse como era fácil, tinha feito antes: nem cem reais, caro leitor, custou minha alforria. Hoje, se quiser, posso ir a três entrevistas de emprego, dois jantares, seis casamentos e jogar futebol, no mesmo dia, sem repetir as meias. Não terei mais que pensar no assunto até 2019, no mínimo.

Quer dizer, mais ou menos: pois enquanto contemplo a gaveta multicolorida -de "saloon" do velho oeste, transformou-se em baile da corte- minha mulher aparece no quarto, segurando as meias da Varig com as pontas dos dedos, como se fossem camisinhas usadas: "Posso jogar no lixo?"

A gente sempre acha que difícil é tomar as grandes decisões: parar de fumar, pedir demissão, declarar-se à Regininha do RH. Às vezes, contudo, são as pequenas escolhas que mais dilaceram o coração.

antonioprata@uol.com.br

RUY CASTRO

Salto alto

RIO DE JANEIRO - Comecei a reparar na coisa nos anos 90, quando FHC, no Brasil, e Bill Clinton, nos EUA, tomaram posse como presidentes. Apesar de maduros, os dois assumiram suas cadeiras com um frescor, uma determinação e um brilho nos olhos que os fariam parecer invencíveis pelos quatro anos seguintes -que, no caso de FHC, por um fenômeno de aritmética, também se tornaram oito. Mas o poder, pela responsabilidade que envolve, sempre apresenta a conta.

Já ao fim do primeiro mandato, FHC e Clinton exibiam suspeitos vincos, rugas e pés de galinha; ao fim do segundo, as olheiras caligarescas, os cantos caídos da boca, o grisalho à prova de tinta e uma tendência facial ao papiro eram a prova eloquente do desgaste do poder.

Dorian Gray ao contrário: nas paredes das repartições, a foto oficial do recém-empossado, sorridente, faixa ao peito e jovem para sempre; na vida real, às vezes bem debaixo da foto, o próprio, curvado e abatido pelo cargo. (Fora do palácio, Clinton e FHC rejuvenesceram.)

Nem Lula, o presidente mais feliz em 121 anos de República, escapou desse desgaste. Nas retrospectivas que os jornais fizeram de seus oito anos na cadeira, era nítida a diferença entre o homem que entrou e o homem que saía.

A presidente Dilma estava muito bem no dia de sua posse. Os dois meses de intervalo entre sua vitória nas eleições e o ato de ser enfaixada presidente lhe foram benignos. Ela parece hoje mais bonita, mais leve e mais simpática do que no ano e meio de tiroteio da campanha. Mas a Presidência não é um piquenique em Paquetá.

Pelos próximos quatro ou oito anos, sua rotina exigirá tremendos e incontáveis deslocamentos, trocar de tailleur duas ou três vezes por dia e refazer a maquiagem o tempo todo. Sobretudo, passar horas seguidas de pé. E não é só a responsabilidade. Dilma terá de fazer tudo isso de salto alto.

MELCHIADES FILHO

Rosa-choque

BRASÍLIA - Dilma Rousseff não se conformava com os elogios que recebia na Casa Civil, de que era uma boa ministra porque se dedicava exclusivamente à gerência do governo. Considerava a avaliação demeritória, senão machista. E equivocada. Dizia que subestimavam a natureza política de seu trabalho -a vitória eleitoral lhe deu razão.
O alerta talvez caiba de novo.

Por causa dos discursos algo enfadonhos da cerimônia de posse, muita gente já projeta uma Presidência "técnica", focada em melhorias de gestão e exercida sobretudo nos gabinetes de Brasília.

Dilma de fato tem uma vocação intramuros. Para permitir o show solo de Lula, não hesitou em se recolher nos dois meses seguintes à eleição -período de lua de mel com o eleitorado, geralmente útil para galvanizar apoio a projetos.

Há, porém, vários motivos para esperar o contrário de um governo discreto, acanhado, impessoal.

Um dos trunfos de Lula foi a estratégia de comunicação, programada para, todo dia, vender a imagem do presidente e destruir a dos rivais. Dilma atuou com empenho nessas blitze como ministra. Por que faria diferente na Presidência?

Até porque fechar-se no Planalto e guardar distância do eleitor seria minar, de saída, as chances de reeleição. A identidade pública de Dilma ainda está em construção. Ela precisa do máximo de exposição.
Há ainda a questão de gênero. Se quer servir de inspiração e romper tabus, a primeira presidente mulher não pode se ater a "afazeres domésticos". Tem de rodar o país.

Dilma não é Lula, claro. Mas não existe somente um modo de diálogo com a massa. O Brasil tem políticos com 80% de aprovação que não sofrem de incontinência verbal nem procuram se fazer de vítima.

A afirmação política e feminista de Dilma terá forçosamente de acontecer em público e diante de públicos. Nesse sentido, aplausos e incentivos ao recato da presidente podem ter um quê de sabotagem.

melchiades.filho@grupofolha.com.br


05 de janeiro de 2011 | N° 16571
MARTHA MEDEIROS


A vida é curta

Amanhã é Dia de Reis. Segundo a tradição, é quando se deve desmontar a árvore de Natal, mas fico pensando se a trabalheira não será à toa. O próximo Natal já se aproxima, não seria mais conveniente deixar a árvore onde está, como um enfeite vitalício da casa? O espaço entre dois Natais nunca foi tão curto.

Constatado o milagre da redução dos anos (antigamente eles possuíam 365 dias, mas desconfio de que somem hoje no máximo uns 274), o melhor a fazer é desfrutar o tempo que nos resta.

Pra começar, chega de seguir ao pé da letra as regras de bem viver estabelecidas pela intelectualidade. Claro que cultura é importante, que não se deve desdenhar da sabedoria transmitida pelos filósofos, que a inteligência é o valor maior. Mas basta desse monopólio: é chegada a hora de valorizar também os instintos.

Se a palavra de ordem é produzir, produzir, produzir, responda com uma boa soneca: durma depois do almoço. Assuma o espanhol que há em você: siesta! Se não puder sair do escritório, tire um cochilo onde estiver, estique-se em algum canto, durma no carro, dentro do banheiro, sentado numa cadeira. Feche os olhos e desapareça por 20 minutos, mesmo que todos continuem vendo.

Você está indo bem na terapia, quase acredita que está se curando, ainda que não tenha entendido exatamente do que deve se curar. Mas, sem que seu digníssimo analista suspeite, reprise alguns de seus erros de vez em quando. Recaia. Sucumba. Vai atrasar o tratamento? Vai. Mas logo, logo, é Natal, jingle bell, paz na terra, estarão todos perdoados por terem reincidido em seus pequenos e deliciosos crimes contra si mesmo.

Se dirigir, não beba. Se costuma ficar violento, não beba.Se é do tipo que dá vexame, não beba. Se tem um histórico de alcoolismo, não beba. Mas se não for colocar ninguém em risco, muito menos a si próprio, celebre. Tim-tim!

E se é verdade que dentro do mais chique dos mortais há um brega enrustido que não vê a hora de se manifestar, eis o momento. Abuse do Roberto Carlos, cante no chuveiro, leia um best-seller daqueles que fazem seus amigos torcerem o nariz e enfeite seu drinque colocando nele uma sombrinha de papel colorido.

A sombrinha de coquetel é o símbolo máximo do “estou nem aí para o que irão pensar, sempre quis me sentir num luau havaiano”. Pode ser uma sombrinha metafórica, desde que simbolize seu estado de espírito, que faça parte do plano de desestressar e curtir a seu modo o restinho de ano que sobra. Estamos em janeiro, o inverno é amanhã e o Natal não demora. Contra-ataque com a sombrinha.


05 de janeiro de 2011 | N° 16571
PAULO SANT’ANA


Memorizar emburrece

Era de se ver, ontem, a multidão de músicos, cantores, cineastas, escritores, jornalistas que desfilaram diante do caixão do pianista Geraldo Flach. Um velório concorrido e afirmativo do prestígio que ele gozava no meio artístico e cultural.

Flach era leitor diário desta coluna há mais de 30 anos. Lia-me e me telefonava para comentar. Eu sempre prometia a ele que um dia faríamos, os dois, um show no Theatro São Pedro. Fica pra outra, irmão.

Mas não pude assistir, quatro dias antes, ao velório do professor e matemático Túlio Santos, que era meu amigo e a quem eu considerava um gênio.

Morreu de mal comigo o Túlio Santos, sabem como são estas brigas de amores...

Já é o segundo amigo que morre brigado comigo. O primeiro foi o Hugo Amorim. Eles eram muito orgulhosos e não atendiam a meus pedidos suplicantes para que fizéssemos as pazes. O delegado Roberto Pimentel é testemunha dos meus rogos, mas eles ficaram de mal comigo até morrerem.

É uma pena. Eu adorava o Amorim, o Túlio e o Flach. A morte, esta carnívora assassina, teima em devorar os meus amigos.

E como vou ficar, cada vez em maior solidão?

Quis chamar meu neto pelo nome na semana passada e não me lembrava do nome de meu neto.

Não me envergonho disso. Albert Einstein passou duas horas procurando seus óculos no pátio da Universidade de Princeton, até que se lembrou de que seus óculos estavam empoleirados em cima de sua testa.

O que eu quero dizer é que quem vive memorizando as coisas torna-se pouco inteligente.

Explico melhor: quem vive arquivando os fatos na memória, os flagrantes, os números, as palavras, tudo, acaba enchendo a sua cabeça de dados, não deixando lugar em seu cérebro para as ideias e os raciocínios.

Memorizar, assim, afirmo ineditamente, emburrece.

A cabeça não tem que guardar, isso é tarefa do computador, a cabeça só tem de pensar, o que, afirmo, o computador não sabe fazer.

A esse respeito, me contaram uma história estupenda: 20 casais foram excursionar em Gramado por uma semana.

Passados três dias, 19 homens procuraram o 20º e se reuniram com ele:

– Dize-nos uma coisa, Carvalho, nós, os 19, chamamos nossa mulher pelo nome aqui no convívio do hotel. Só tu é que não chama tua mulher pelo nome, chamas ela por qualificativos: “Vida”, “Pérola”, “Docinho”, “Mamão”, “Ternura”. Por que afinal fazes isso? – perguntaram os 19.

E o Carvalho respondeu: “É que eu me esqueci do nome dela”.


05 de janeiro de 2011 | N° 16571
DIANA CORSO


Os adesivos da família

Divirto-me no trânsito imaginando como poderiam ficar as famílias de bonequinhos, desses adesivos na traseira dos carros, caso representassem a pluralidade da realidade. Em cada veículo elas são montadas conforme o caso: bonequinhos para os pais, para os filhos, conforme sexo e idade, os animais de estimação.

Na minha infância o enfeite de carro mais comum era um imã para fixar no painel no qual uma fotinho do filho era colocada ao lado da frase “Não corra, papai!”. Não que fosse possível correr muito na época. Os atuais adesivos também tentam lembrar as vidas que devem ser preservadas neste trânsito selvagem. Esses bonequinhos tentam humanizar a lata que conduzimos.

Na realidade, frequentemente os pais têm mais de um casamento, os filhos podem ser de um ou outro ou de ambos, há os meio-irmãos, assim como os que compartilham a casa sem terem nenhum dos pais em comum. As separações às vezes produzem o distanciamento de um dos pais – avós, tios, padrinhos e amigos atuam na suplência. Também acontece que as funções materna e paterna sejam desempenhadas pelo atual namorado ou namorada de um dos pais.

Explicaram-me que há modos de tentar representar isso tudo: os filhos em comum ficam no meio do casal e os de um ou outro são colocados do lado de fora, ao lado do pai ou da mãe a quem pertencem. Já os animais sempre ficam nas laterais, depois dos enteados, suponho.

Quanto aos avós, tios, padrinhos e namorados dos pais, não há lugar para eles, são eminências pardas das novas famílias. Também casais gays com filhos deveriam ter coragem de colocar seus adesivos, assim como os solteiros e separados que criam filhos sozinhos.

O fato é que os adesivos pouco representam a realidade, já que tentam padronizar o que já fugiu ao clichê papai-mamãe-filhinhos-cachorro-papagaio. Porém, não estão errados em um aspecto: a família mudou, ampliou-se o que compreendemos por ela, mas ela continua teimando em ser uma família, composta por todos aqueles que se empenharem em pertencer a ela. Digamos que a família vai sofrendo mutações, para se adaptar aos novos tempos.

Hoje, a inquietude do coração dos pais impõe revoluções aos filhos, parentes e amigos do casal. Por isso, mesmo que seu Natal tenha reunido um grupo que não cabe na traseira de um carro, fique tranquilo, a família contemporânea não é mais aquela. Mas, a seu modo, segue existindo para tentar aquecer os corações de seus membros.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Cale-se e medite, recomenda monge aos tagarelas em "O Poder do Silêncio"
da Livraria da Folha

Monge resgata qualidades do silêncio e ensina a aproveitá-lo

Cale-se para seu bem, recomenda o monge beneditino Anselmo Grün, autor de "O Poder do Silêncio" (Vozes). O conselho serviria a tagarelas compulsivos, como a secretária Lurdinha (Simone Gutierrez), da novela "Passione" (Globo, 21h). São 11 capítulos em que o monge prega a necessidade de se fechar a boca como caminho para a paz de espírito.

Não só isso: quem economiza palavras pode evitar aborrecimentos desnecessários causados geralmente pela mania de falar pelos cotovelos. Assim, observando mais do que colocando o bedelho em tudo, dá para diminuir ruídos de comunicação.

A meditação ajuda a acalmar nossos diabinhos, e o monge conta seus segredos para sossegar uma mente desgovernada. Ele defende que o silêncio é o ambiente ideal para brecar as angústias provocadas pela velocidade e pelo excesso de informações, de estímulos e demandas do cotidiano. É por isso que muitos se isolam em florestas, desertos e praias para conseguir um pouco de tranquilidade e organizar os pensamentos e as emoções.

O monge explica os diferentes técnicas de meditação, dependendo do credo (católicos, budistas e judeus, por exemplo). Em comum, há o forte desejo de dar um significado mais elevado para a vida, permitindo a convivência sadia com os outros e o desenvolvimento de nossas potencialidades.

São rituais que podem ser adaptados pelo seu ritmo de atividades, aquele momento em que, sem palavras, sua mente reavaliará os últimos capítulos de sua vida, captando aquilo que escapou ao seu primeiro crivo.

Com uma linguagem acessível, o livro do monge Grün pinça ensinamentos de simplicidade presentes na tradição do catolicismo, inspirando a cada página uma repentina vontade de ficar em silêncio apenas contemplando a beleza e o privilégio de estar vivo.

O monge beneditino, da abadia de Münsterschwarzach (Alemanha), tem livros publicados em mais de 28 línguas. Procurado como palestrante e conselheiro na Alemanha e no exterior, tornou-se mestre do autoconhecimento.

Leia um trecho de "O Poder do Silêncio".

É bom manter uma regularidade no exercício da meditação. O melhor horário é de manhã cedo, quando está tudo calmo. Quando medito de manhã, o dia começa bem, tenho a sensação de que eu mesmo estou dando forma ao dia; começo o dia como se ele fosse feito para mim.

Em cursos de meditação, mutias pessoas se animam a adotar o horário da manhã para meditar, mas, quando são principiantes, não lhes convém, pois costumam sentir cansaço, ou têm a atenção distraída por alguma coisa, nesse horário. Não é fácil manter diariamente essa disciplina em meio a todos os imprevistos com que lidamos, além do que não se deve tomar a prática da meditação como uma tirania. Graf Dürckheim, a quem muito devo, costumava dizer:

Devemos abrir exceção com seriedade num dia em que não nos sintamos em condições de meditar. Isto é melhor do que querermos meditar todo dia e ficarmos constantemente atormentados por uma obrigação autoimposta. A função da regra é facilitar, de modo que não precisemos sempre decidir se vamos meditar ou não.

Em todo o caminho espiritual, sempre há fases em que não temos prazer algum em meditar, portanto não devemos nos forçar a meditar a todo custo, mas, pelo contrário, devemos nos perguntar o que essa resistência tem a nos dizer. Devo reduzir minhas expectativas referentes à meditação? Meditação é coisa do dia a dia. Nem sempre eu consigo perceber se algo falhou durante a prática, e isso não tem importância alguma. Eu pratico sem grandes expectativas.

Pode ser, também, que a resistência que experimento queira me dizer: "Você se autoimpôs algo que não se ajusta. Talvez seja melhor você seguir outro caminho para encontrar o silêncio.

Talvez você só queira ficar imitando este ou aquele mestre de meditação, mas você precisa encontrar seu próprio caminho. Se o seu caminho é este, siga-o com prazer". É claro que também a disciplina é necessária, mas o fundamental é a alegria da prática.

Muitos autores espirituais recomendam combinar a postura correta com a respiração consciente. Posso associar a expiração ao ato de escoar os pensamentos incessantes. Entre expiração e inspiração, há uma fração de segundo na qual não estou expirando nem inspirando. Graf Dürckheim comentou certa vez que esse é o momento mais importante: é como algo entre a vida e a morte, entre estar prendendo a prática a mim mesmo, ou estar entregue a Deus.
Em 8 semanas, dá para decorar sua residência como sempre sonhou
ARIADNE ARAÚJO - colaboração para a Livraria da Folha

Aprenda com sugestões a deixar a casa bonita e com seu estilo

Os sintomas são claros. Você dorme mal no seu quarto, não tem vontade de preparar um jantarzinho na sua cozinha, vive estressado com a quantidade de consertos a fazer e, sobretudo, nem tem coragem de receber amigos naquela sua sala feia e sem graça. Então, bem-vindo ao clube dos que padecem de um mal comum nos dias de hoje: o dos problemas de relacionamento com o lar. E, nesse caso, nem dá para discutir a relação.

De tanto ouvir as mesmas queixas, o especialista de design de interiores norte-americano Maxwell Gillingham-Ryan resolveu ajudar a por ordem na casa dos outros. Em "Terapia do Apartamento - transforme seu lar em oito semanas" (Pensamento), ele traz um passo a passo de como montar ambientes aconchegantes, organizados e inspiradores, que tragam bem-estar emocional e espiritual aos moradores. "Quando você muda sua casa, você também muda a si mesmo", garante.

Para esse especialista, se a casa não está saudável, o dono também não está. Pois, ao entrar em um ambiente, você vivencia o efeito esponja seca, absorvendo toda a água. "O que você toca e sente, assim como o que vê, invade você e o afeta", diz. Dessa forma, um ambiente pode fazê-lo sentir-se distraído e pouco à vontade ou, ao contrário, bem-vindo e confortável. Dentro dessa linha, a dica é transformar sua casa "doente" em um lar saudável, para onde você quer voltar correndo depois do trabalho.

Mas, antes de começar o passo a passo, prepare-se para o que virá. Afinal, há uma boa razão para que sua casa ou apartamento esteja do jeito que está: sua energia do passado está bloqueada pelos cômodos. Ao sair espanando e redecorando tudo, você vai revirar lembranças e emoções antigas. Isso pode ser bem desagradável. Aviso de quem sabe sobre isso: não dê ouvidos à aquela vontade de parar tudo ou de fugir, alegando que vai sair caro ou dá trabalho demais, diz ele. Grandes mudanças exigem paciência.

Você não sabe, mas sua casa é um corpo composto de ossos, respiração, coração e cabeça. Assim, quando os ossos - o esqueleto da casa - não estão bem, a pia vaza, as paredes racham, os azulejos da cozinha se desprendem da parede. Já a respiração tem a ver com a maneira como você dispõe os móveis pela casa. Problemas típicos são estantes cheias de livros, correspondência que se acumula sobre a mesa de jantar, certas partes do apartamento nunca são usadas. Para arrumar a casa é preciso cuidar de cada uma dessas partes.

Para não se desmotivar ou perder o rumo, só comece o tratamento intensivo quando realmente tiver 8 semanas livres para o trabalho. Pois, segundo Maxwell, essa é uma tarefa e tanto. E, para não deixar nada ao azar, ao final de cada semana, ele traz dicas de receitas. Assim, enquanto reaprende a usar a cozinha, você se prepara para la grande finale. Se tudo der certo, ao fim do tratamento, sua casa estará pronta para a reinauguração e você para dar sua primeira festa para os amigos.

Leia um trecho do capítulo 4 do livro.

Solução para um cômodo. Se você concluiu que só tem tempo e condições de mudar um cômodo de cada vez, escolha aquele em que vai trabalhar esta semana. Você pode optar por um cômodo grande ou por um pequeno, mas o importante é que sua escolhe lhe possibilite resolveu pelo menos um dos três principais problemas que você identificou durante o autodiagnóstico.

Por exemplo, se você não anda dormindo muito bem, escolha o dormitório. Se você quer cozinhar com mais frequência, opte pela cozinha. Escolha um projeto que o ajude a atingir um dos objetivos que você mencionou durante a entrevista.

Recorte fotos de ambientes de que você goste muito. Depois que escolheu o ambiente, o primeiro passo é divagar um pouco e sonhar com o que você quer. Esqueça o espaço em que você vive e visualize o que você quer. Quer morar num apartamento clean e moderno ou prefere um refúgio aconchegante em estilo country?

Você quer que a sua casa seja colorida e contemporânea ou austera e quase sem móveis? Deixe sua imaginação ir além do que você já tem. Isso não vai apenas inspirar você, mas também motivá-lo a resolver problemas e lhe dar uma meta pela qual almejar.

Comece com fotos. As fotos traduzem o que está em voga em termos de design e você precisará delas para expressar o que quer, caso contrate um profissional. Enquanto você não tiver uma foto do que quer nas mãos, será impossível definir qualquer coisa que seja.

Particularmente em matéria de armários, eu acho as fotos muito úteis. As revistas com fotos de prateleiras de livros, armários de cozinha e estantes muitas vezes fazem você mudar de ideia com relação ao que queria fazer na sua casa e transmitem uma imagem clara ao profissional que executará o serviço. Assim como você pode levar uma foto de um corte de cabelo ao cabeleireiro para que ele o reproduza, a maioria dos carpinteiros e marceneiros também se baseia em fotos que os seus clientes lhes trazem.

Revistas de decoração

O primeiro recurso que você pode usar para ter inspiração é consultar revistas de decoração, ou seja, revistas relacionadas com casas em geral. Você não vai simplesmente procurar fotos de ambientes para copiar, mas que lhe inspirem ideias e sensações que você possa imitar. Se você gosta da iluminação de um ambiente, mas da cor das paredes do outro, recorte as fotos dos dois. Folheie várias revistas e recorte as fotos de todos os ambientes ou ideias de que você gostou, até conseguir ter em mãos tudo o que combina com a ideia que você tem na cabeça.

Entre as revistas que eu costumo usar com os meus clientes estão Architectural Digest, Elle Décor, Metropolitan Home, Martha Stewart Living, Dwell e Oprah - At Home, mas você também pode usar outras, que mais o agradem.

Se você nunca comprou nenhuma revista de decoração, verá que elas são bem diferentes umas das outras, portanto, não deixe de folheá-las antes de comprar.

Catálogos de artigos de decoração.

Os catálogos são outra boa fonte de inspiração. As ideias sugeridas pelos especialistas em estilo também podem ser úteis. Nos Estados Unidos, são várias as lojas que têm catálogos - Crate & Barrel, Pottery Barn, Williams-Sonoma Home, Hold Everything, Design Within Reach, Restoration Hardware e Ikea -, mas no Brasil você também encontra algumas, como a Tock&Stock.

Livros de decoração de interiores.

Se você sonha alto, dê uma olhada nos maravilhosos livros de decoração de interiores. Eles podem ser encontrados nas livrarias e geralmente são caros livros de arte, com muitas fotos coloridas e temas específicos como decoração country ou estilos variados, como o Morocco, o Loft Living ou The Green House. Como você não vai querer recortar as folhas de livros como esses, é melhor comprar o que mais lhe agrade e marcar as páginas que o interessam.

Os seus vizinhos.

Os seus vizinhos são outro excelente recurso que você pode usar. Dê uma volta por aí e veja o que os seus vizinhos estão fazendo na casa deles. Nos prédios, muitas pessoas têm apartamentos com plantas iguais e algumas das maiores inspirações dos meus clientes que queriam remodelar a casa foram os vizinhos dos outros andares ou da porta ao lado. Para registrar essas ideias, tire fotos.

Enquanto estiver procurando as fotos, tenha em mente que você está em busca de três coisas:

Cabeça: ambientes em que você possa realizar atividades que lhe agradem

Coração: um estilo definido ou uma combinação de cores que atraiam você

Respiração: tipos de distribuição de espaço ou de armazenamento de coisas que lhe agradem

Não se preocupe se os ambientes não forem perfeitos. Circule as partes de que você gosta e combine duas ou mais fotos para conseguir a imagem de um tema geral.

Comece a criar uma "Bandeja de Estilo". Os designers profissionais gostam de reunir num mesmo lugar tudo o que estão trabalhando, e você deveria fazer o mesmo. Crie a sua Bandeja de Estilos, não só para manter seu projeto organizado, mas também para não perder de vista seu objetivo, quando estiver em dúvida. Providencie uma bandeja preta ou branca. Você vai usá-la para guardar todas as ideias do seu projeto.

Se quiser, você também pode usar uma pasta ou um quadro magnético, o importante é que mantenha num só lugar todas as imagens que inspiram você, para que possa ver todas ao mesmo tempo.

A sua bandeja pode conter algumas fotos de ambientes bonitos, fotos de poltronas que você tenha recortado de um catálogo, ideias de iluminação, além de algumas lâminas de um mostruário de tinta. Nem todas as ideias precisam fazer parte de seu projeto final.

Você pode por o que quiser na sua Bandeja de Estilo. Experimente combinações diferentes, brinque com as cores, estilos e texturas, até chegar na combinação certa. Não tenha pressa. Rumine um pouco as suas ideias. Deixe a imaginação solta e permita-se sonhar.

Coloque a sua Bandeja de Estilo em ação - mude os elementos de lugar e coloque-os lado a lado. Se estiver indeciso entre suas ideias, deixe ambas na bandeja, uma de cada lado, até decidir. Se você estiver planejando mais de um ambiente, tenha uma bandeja para cada um deles.

"Terapia do Apartamento"
Autora: Gillingham Ryan Maxwell
Editora: Pensamento
Páginas: 292
Quanto: R$ 27,12
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha