quinta-feira, 20 de agosto de 2026

MEU PAI

Meu pai cursou apenas a escola primária, mas tornou-se um homem de negócios dotado de uma visão privilegiada. Compreendia as relações comerciais, percebia os movimentos do mercado e cuidava da situação financeira com uma prudência que parecia natural. Econômico em tudo, jamais dava um passo maior do que as garantias lhe permitiam.

Começou como empregado de um pequeno armazém no interior, próximo da casa de seus pais - meus avós paternos. Depois de algum tempo, decidiu abrir o próprio negócio. Começou modestamente, com os poucos recursos que recebeu ao deixar o emprego, mas foi crescendo aos poucos, sem precipitação e sem aventuras.

Embora houvesse poucos concorrentes naquela localidade, seus preços estavam sempre entre os menores. Ele compreendia uma regra fundamental do comércio: para vender por menos, era preciso saber comprar melhor.

Conhecia os fornecedores, comparava preços e escolhia cuidadosamente as mercadorias. Não havia grandes estudos por trás de suas decisões, mas experiência, observação e um raro instinto para os negócios.

Com o passar dos anos, ampliou os estoques e aumentou a variedade de produtos. Adquiriu também os próprios veículos: primeiro, pequenas camionetes; depois, veículos maiores, utilizados para transportar até a cooperativa mais próxima os produtos recebidos dos agricultores. Mais tarde, tornou-se sócio daquela cooperativa.

Depois de aproximadamente dez anos administrando o primeiro armazém, decidiu adquirir um segundo estabelecimento, em outra localidade que também apresentava boas possibilidades comerciais. Foi então que me vi diretamente envolvido em seus negócios. Ele pediu que eu permanecesse administrando o primeiro armazém.

Eu já conhecia a atividade, conhecia os moradores e residia na própria localidade. Como as despesas eram reduzidas, não encontrei maiores dificuldades. Procurei ampliar ainda mais o negócio, aumentando os estoques e oferecendo uma variedade maior de mercadorias.

Em janeiro de 1973, porém, decidi que não permaneceria ali. Meu pai precisou desfazer-se do segundo armazém e retornar ao primeiro, onde ainda trabalhou por aproximadamente três anos.

Naquele período, começou a perceber que muitas pessoas procuravam novos horizontes. Seus outros filhos, meus irmãos menores, também desejavam estudar e necessitavam de oportunidades que a pequena localidade não oferecia. Por isso, resolveu transferir os negócios e a família para Cruz Alta, cidade situada a pouco mais de cem quilômetros dali.

Mais uma vez, revelou-se o seu tino de negociante.

Embora possuísse recursos para comprar um imóvel pronto, não comprometeu imediatamente o dinheiro da família. Preferiu alugar um armazém de bairro que já funcionava na entrada da cidade. Permaneceu ali durante dois anos, conhecendo a clientela, observando o movimento e avaliando as possibilidades daquele novo lugar.

Sem pressa, comprou terrenos e começou a construir o próprio estabelecimento. O prédio teria dois pavimentos: no térreo funcionaria o mercado; no andar superior ficaria a residência da família.

Na nova fase, ampliou consideravelmente as atividades. Além do mercado, instalou depósito de gás, açougue e padaria. Durante o dia, e muitas vezes até tarde da noite, entregava os chamados “ranchos” nas casas dos clientes.

Também fazia pagamentos, cuidava dos depósitos bancários, atendia os viajantes e vendedores que chegavam durante o dia e recebia, logo cedo, os granjeiros que passavam pelo mercado antes de seguir para suas propriedades.

Sua rotina começava cedo e quase nunca tinha hora para terminar.

Dez anos depois de chegar a Cruz Alta, em 1986, já havia adquirido uma chácara formada por vários terrenos. Foi então que decidiu realizar um sonho antigo: construir uma casa ampla, com um quarto para cada filho, para que todos tivessem onde ficar quando fossem visitá-lo.

Como sempre fazia, começou a preparar tudo com cautela. Aos poucos, comprava os materiais, mas preferia deixá-los guardados nas próprias lojas até o momento da utilização. Apenas os tijolos já estavam sendo armazenados no terreno onde a casa seria construída.

No domingo, dia 19 de janeiro, almoçamos juntos. No dia seguinte, segunda-feira, 20 de janeiro, ele cumpriu sua rotina como sempre: atendeu clientes, entregou ranchos, resolveu os compromissos bancários e cuidou do mercado. À noite, foi dormir como fazia todos os dias.

Na manhã de terça-feira, 21 de janeiro, estranhando a demora para que ele se levantasse, minha mãe foi chamá-lo: - Homem, não vai levantar hoje? Somente então percebeu que ele não se levantaria.

Meu pai havia esquecido de acordar.

Chamaram o médico, realizaram os exames necessários e constataram que ele havia falecido menos de uma hora antes. Não dera um gemido, não fizera qualquer movimento que pudesse despertar minha mãe. Simplesmente partiu, aos 55 anos, silenciosamente, deixando inacabado o sonho da casa que teria um quarto para cada filho.

Como ninguém sabia exatamente onde os materiais haviam sido comprados, nem quais quantidades já estavam pagas, quase tudo se perdeu. Os tijolos armazenados no terreno ainda foram vendidos. A casa, porém, jamais chegou a ser construída.

Um de meus irmãos assumiu o mercado e permanece lá até hoje. O prédio é o mesmo. As antigas prateleiras também continuam ali. Mas nada mais é como antes.

Os clientes mudaram. O bairro mudou. Grandes mercados se estabeleceram nas proximidades, e as vendas diminuíram consideravelmente. O tempo transformou o comércio, os costumes e a própria cidade.

Entretanto, algumas coisas permaneceram.

Ficaram o exemplo de trabalho, a prudência, a persistência e aquele extraordinário faro para os negócios. Ficou também a lembrança de um homem que, tendo frequentado apenas a escola primária, soube construir uma trajetória respeitável com inteligência, coragem e responsabilidade. Essas foram as heranças que ele nos deixou - e que jamais serão esquecidas.

Minha mãe ainda vive ali perto. Hoje, aos 95 anos, tem a companhia de uma Alexa, por meio da qual ouve suas músicas. De vez em quando, irrita-se e até xinga a pequena máquina quando ela não toca aquilo que lhe foi pedido.

Talvez seja também uma imagem do tempo: no mesmo lugar onde meu pai fazia contas à mão, negociava mercadorias, atendia viajantes e preparava o futuro dos filhos, minha mãe conversa agora com uma voz que vem de um aparelho.

Quase tudo mudou.

Mas, entre o antigo mercado, as mesmas prateleiras e as lembranças que ainda habitam aquela casa, a presença de meu pai permanece - silenciosa, firme e indispensável, como sempre foi.


 

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