17 de Agosto de 2026
CLÁUDIA LAITANO
Tudo bem no ano que vem
O ano mal virou a esquina para o segundo semestre, e eu já elegi o melhor programa de TV da temporada 2026. A série franco-espanhola Os Anos Novos (2024) estreou discretamente na plataforma Mubi, mas vem ganhando tração graças ao entusiasmo de quem assiste e recomenda muito - como estou fazendo aqui e agora.
O ponto de partida é uma história de amor mais ou menos convencional: Ana (Iria del Rio) e Óscar (Francesco Carril) se encontram, se apaixonam e não vivem felizes para sempre - pela boa razão de que nem as samambaias são tão felizes quanto os casais de mentirinha do Instagram e dos contos de fada. O que a série faz é acompanhar essa história comum pelo período de uma década.
Entre 2015 e 2025, encontramos Ana e Óscar sempre na época do Réveillon, quando os dois "cumprem anos". A cada novo episódio, experimentamos aquele tipo de incerteza que nos leva a imaginar se no nosso próximo aniversário vamos estar na mesma ou se algo muito bom ou muito ruim terá cruzado nosso caminho.
O que nos captura, desde os primeiros minutos, é o registro hiper-realista da narrativa, seja nos momentos em que quase nada acontece (muitas vezes acompanhamos conversas que parecem não chegar a lugar nenhum, é verdade, mas, vamos ser honestos, esse é o caso na maioria das interações que ocupam nosso tempo na vida real também), seja nos picos de excitação das cenas de sexo (beeem realistas) ou nos momentos mais intensos de uma discussão.
As melhores séries feitas para a TV aproveitam a metragem estendida para aprofundar temas que um filme de duas horas muitas vezes apenas sugere. No caso de Os Anos Novos, observamos como um pequeno gesto ou uma palavra dita no início do relacionamento apontam para um traço de personalidade ou uma neura oculta que podem se transformar, ou não, em problema no futuro.
Não como uma "red flag" (gíria para aquelas pistas precoces de que estamos entrando numa fria), mas como uma bandeira cor de flicts que nos lembra como cada pessoa é insuportável e/ou maravilhosa a sua maneira.
Nesse período de 10 anos em 10 episódios, a vida segue seu cortejo de dores e delícias em torno do casal - e talvez resida nessas discretas tramas paralelas boa parte do encanto da série. Crianças nascem, pessoas morrem, outros casais se formam e se separam, amigos se encontram e se perdem, luto e alegria se alternam. Ao final, percebemos que Ana e Óscar formam um triângulo amoroso com o verdadeiro protagonista desta e de todas as histórias: a insuportável e maravilhosa passagem do tempo. _

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