quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Infância agredida

A informação até aqui extraoficial de exames periciais de que a menina Samylle Valentina Borba Ramiro, de quatro anos, morreu em decorrência de politraumatismos, se insere no contexto demonstrado na mais recente edição do Anuário Brasileiro da Segurança Pública, divulgada em julho, de agravamento de quase todas as práticas de violência contra crianças e adolescentes no Brasil. 

Chamam atenção os crimes vinculados a relações de cuidado e parentalidade. Praticamente dobraram entre 2021 e 2025. Entre esses delitos estão maus-tratos, abandono de incapaz e abandono material. Registros de lesão corporal em violência doméstica subiram 15%. Mesmo em ritmo mais modesto, seguem em alta.

Samylle chegou sem vida a uma UPA na Capital, no domingo, com lesões pelo corpo. A Polícia Civil investiga maus-tratos e agressões. Conforme apurou a repórter Adriana Irion, os indícios apontam que a menina teria apanhado do companheiro de sua tia por uma razão banal. Foi o casal que levou Samylle à UPA, com uma versão pouco crível do que teria acontecido. O homem não tinha paradeiro conhecido até ontem no final da tarde.

A menina vivia com a tia com a anuência do Conselho Tutelar, embora, conforme Justiça, a guarda fosse da mãe. A situação é confusa e ainda requer esclarecimentos. Mas a mãe seria usuária de drogas e teria outros problemas pessoais. Não reuniria condições de zelar pela filha. Circunstâncias que unem dificuldades materiais, desestruturação familiar e vício em entorpecentes e que desembocam em situações de vulnerabilidade para menores não são novidade no Brasil.

A tragédia se completa com a persistência de uma certa naturalização da violência contra crianças no ambiente doméstico. Perdura em parcela da sociedade a ideia de que bater pode ser parte do processo de educação. Ainda está viva na memória a morte do garoto Oliver Grayson, de três anos, em Viamão, no início de julho. Conforme a Polícia Civil, o menino foi espancado pelo pai por não lhe ter dado "bom dia". O homem foi preso em flagrante. Os casos de Samylle e Oliver ilustram o quanto agressões contra crianças perpetradas por quem deveria cuidar delas podem ter desfechos trágicos.

Essa permissividade ainda enraizada apareceu em uma pesquisa do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest, divulgada mês passado. O trabalho mostrou que 56% dos entrevistados consideravam aceitável bater em crianças quando "desobedecem aos pais e passam dos limites".

Mas é preciso reconhecer que, embora a violência contra a infância ainda seja de alguma forma culturalmente tolerada, é crescente a conscientização quanto à importância da proteção dos pequenos e indefesos. O país teve avanços com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e com a rede de proteção formada para amparar menores em risco. 

O próprio anuário cogita que ao menos parte da alta de registros de violência seja reflexo da menor subnotificação e da reação da sociedade e das instituições. Espera-se que essa conjectura mostre-se verdadeira e seja comprovada no futuro, com a queda de casos de maus-tratos e de agressões e, por consequência, dos desenlaces fatais, como os de Samylle e Oliver. 

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