segunda-feira, 17 de agosto de 2026

17 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Um não-lugar

Está em cartaz o filme Backrooms: Um Não-Lugar, que acompanha o dono de uma loja de móveis que descobre um acesso secreto em seu estabelecimento, levando a um labirinto infinito e perturbador além da realidade. O local não consta na planta do prédio. É um terror psicológico com a total ausência de monstros. 

O medo surge de cenários familiares distorcidos, ilógicos, sem saída. A ideia partiu de uma creepypasta (lenda urbana digital), e o jovem cineasta Kane Parsons popularizou essa estética de "estranho íntimo" com vídeos virais no YouTube.

O longa vem atraindo especialmente os adolescentes. A produção custou cerca de US$ 10 milhões e angariou mais de US$ 356 milhões na bilheteria. Eu me lembrei de um não-lugar misterioso nas antigas casas de família, que ocupava um triplex no imaginário da minha geração.

Havia um cômodo que ninguém usava. Eu não entendia a sua preservação inviolável. Refiro-me à imponente sala das visitas. Arrumada, impecável, sem a agitação cotidiana. Não se entrava nela: correspondia a um museu dentro do lar, um altar, um aposento fechado mentalmente. Não contava com porta, mas funcionava como se estivesse sempre trancada. Até os cachorros a evitavam.

Precisávamos fazer os temas da escola na mesinha da cozinha. Não era permitido profanar os segredos daquele espaço. Nem podíamos receber os colegas nele, com mais folga.

Sequer sei se o ambiente admitia faxina, ou se ficava de fora dos desígnios da vassoura. A janela se mantinha coberta pelas cortinas. A luz não penetrava seu caixão de vampiro. Não dava para sentar nas poltronas, como se fossem peças raras de um mostruário.

Atravessar a sala equivalia a invadir o quarto dos pais. Se uma bola caísse ali, começava uma operação de resgate. O sofá não conhecia corpos. Não tinha afundamentos, marcas, migalhas, almofadas tortas. Envelhecia virgem.

Os objetos decorativos permaneciam intocados: cinzeiro de cristal sem cinzas, bibelôs, porcelanas, vasos e porta-retratos eternamente na mesma posição de esfinges. Talvez houvesse plástico protegendo os estofados. Talvez o plástico seja dos meus olhos proibidos.

A sala exalava um cheiro diferente, de guardado, de cera, de tecido parado, sem gente, similar ao do endereço de praia quando chegávamos para o veraneio.

A diversão, a conversa, a comida e a bagunça aconteciam no mundo paralelo. Contornava-se a sua inércia, negava-se a sua existência.

Lá estavam os nossos móveis mais caros, e os únicos intangíveis. Reservávamos o melhor da casa para os outros. Outros que nunca vinham. Outros que nunca apareciam. Convidados iam para a sala de estar, jamais ganhavam a credencial para descerrar o território previamente cancelado.

Nenhuma autoridade alcançava o patamar para cruzar as fronteiras. Nem padre, nem bispo conseguiam o visto no passaporte. Não duvido que os pais estivessem esperando o papa. _

CARPINEJAR

Nenhum comentário: