De acordo com o levantamento mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deverá semear 22,7 milhões de hectares de milho na safra atual, acima dos 21,8 milhões do ciclo 2024/2025. Apesar do crescimento de área, a produção nacional é estimada em 138,8 milhões de toneladas, ligeiramente abaixo das 139,6 milhões colhidas no ciclo anterior, o que indica redução da produtividade média.
No Rio Grande do Sul, a estimativa da Emater/RS-Ascar aponta aumento de cerca de 9% na área plantada, que deve alcançar aproximadamente 785 mil hectares, ante 718 mil hectares no ciclo passado. Na safra anterior, o Estado colheu cerca de 5,2 milhões de toneladas; para este ciclo, a projeção inicial indica produção próxima de 5,7 milhões de toneladas, condicionada ao comportamento climático ao longo do desenvolvimento das lavouras.
Segundo o assistente técnico estadual da Emater/RS-Ascar Alencar Rugeri, a decisão de ampliar a área está associada a fatores técnicos e econômicos observados no Estado. “O milho oferece vantagens agronômicas importantes dentro do sistema produtivo, especialmente na rotação de culturas, e a diferença de preços em relação à soja diminuiu, o que tornou o cereal uma alternativa mais atrativa para o produtor”, explica.
A leitura do agrônomo da Emater converge com a análise da StoneX sobre o mercado brasileiro de grãos. Em seu relatório mais recente, a consultoria destaca que a queda nas cotações da soja reduziu a distância histórica entre os preços das duas culturas, alterando a lógica econômica da escolha do plantio em diversas regiões do País.
Rugeri explica que, embora o milho também opere em patamares de preços considerados baixos, a relação de troca com a soja se tornou menos desfavorável ao cereal. Em linha com essa leitura, a StoneX avalia que esse movimento, combinado aos benefícios agronômicos do milho, contribuiu para a ampliação de área observada no Brasil, especialmente em sistemas produtivos que buscam diversificação e mitigação de riscos.
Embora o relatório não faça recortes estaduais, a análise sobre o mercado brasileiro ajuda a contextualizar a decisão dos produtores gaúchos, em um cenário no qual o milho passa a ocupar espaço estratégico no planejamento das propriedades, mesmo sem perspectiva imediata de valorização expressiva de preços.
Apesar do avanço da área plantada no País, esse crescimento não se traduz em aumento proporcional da produção. A consultoria aponta que a produtividade média nacional tende a recuar, reflexo de desafios climáticos, sobretudo em áreas de segunda safra, e de limitações no potencial produtivo em algumas regiões.
Esse cenário reforça a leitura de que o Brasil, embora siga como um dos principais players globais, não deve provocar um choque adicional de oferta no mercado internacional. Ainda assim, o volume produzido permanece elevado o suficiente para manter os preços sob pressão, especialmente em um contexto de estoques globais confortáveis.
No mercado internacional, a StoneX destaca que os Estados Unidos continuam sendo o principal fator de formação de preços. A expectativa de uma safra volumosa, aliada a estoques elevados e exportações em ritmo consistente, mantém as cotações em Chicago limitadas, mesmo diante de sinais de possível redução de área no próximo ciclo norte-americano.
A consultoria avalia que, apesar das discussões sobre excesso de oferta e da possibilidade de ajustes futuros, o mercado ainda convive com volume suficiente para impedir reações mais expressivas nos preços no curto prazo. Esse contexto limita o potencial de valorização do milho brasileiro, inclusive para exportação.
Produtividade define o resultado da safra gaúcha
No Rio Grande do Sul, o desempenho econômico da safra dependerá fundamentalmente da produtividade. Conforme a Emater/RS-Ascar, grande parte das lavouras apresenta desenvolvimento considerado satisfatório até o momento, embora ainda haja áreas em fase mais vulnerável, especialmente sob influência de variações climáticas.
Rugeri observa que o histórico recente de produtividade elevada no Estado sustenta a decisão de ampliar a área, mesmo em um ambiente de preços mais estreitos. “O produtor aposta na consistência de rendimento para diluir custos e equilibrar o resultado, mesmo sem contar com uma reação significativa de preços”, afirma.
Nesse contexto, a safra de milho 2025/2026 deve ser marcada por um mercado ajustado, no qual o equilíbrio entre oferta e demanda dependerá mais da eficiência produtiva do que de movimentos de preços. Com o mercado global amplamente abastecido e os Estados Unidos exercendo forte influência sobre as cotações, o milho brasileiro enfrenta um ambiente de margens apertadas. No RS, a ampliação da área sinaliza uma estratégia de diversificação e de busca por estabilidade produtiva, mas o resultado final estará diretamente ligado ao desempenho das lavouras e à gestão dos riscos agronômicos e de mercado.