
11
de abril de 2013 | N° 17399
L.
F. VERISSIMO
Carrocinha de
pipoca
Eu
sei que a coisa é séria. Se o Kim Jong-un disparar mesmo os foguetes que está
ameaçando disparar contra bases americanas na Ásia, teremos uma guerra nuclear
com dimensões e consequências imprevisíveis.
Mas,
lendo sobre o perigo iminente, não pude deixar de pensar na história do homem
que foi atropelado por uma carrocinha de pipoca. Era um homem cauteloso que
olhava para os dois lados antes de atravessar a rua e só atravessava no sinal,
e que dificilmente um carro pegaria. Mas que um dia não viu que vinha uma
carrocinha de pipoca, e paft. Já no ambulatório do hospital, onde lhe deram uns
pontos no braço, o homem disse que tinha sido atropelado por um motoboy.
Em
casa, contou que tinha sido atropelado por um carro e só por sorte escapara da
morte. Naquela noite, para os amigos que souberam do acidente e foram visitá-lo,
especificou: tinha sido atropelado por um BMW.
No
dia seguinte, disse aos colegas de trabalho que tinha sido atropelado por um
caminhão e não sofrera mais do que um corte no braço por milagre. E quando um
dos colegas de trabalho comentou que tinha visto o acidente e vira o homem ser
atropelado por uma carrocinha de pipoca, gritou: “Calúnia!” .
Por
que me lembrei do homem que tinha vergonha de ter sido atropelado por uma
carrocinha de pipoca? Desde o fim da Guerra Fria, a possibilidade de um confronto
nuclear entre duas potências, os Estados Unidos e a Rússia, diminuiu, mas os
estoques de armas nucleares continuaram e sua proliferação também.
Israel
se segura para não usar seus foguetes para destruir as bombas nucleares que o
Irã está ou não está construindo, Índia e Paquistão vivem comparando seus
respectivos arsenais nucleares como guris comparando seus pipis, a França e a
Inglaterra tem a bomba...
Enfim, ainda se vive num frágil equilíbrio de
terror possível, exigindo de todos os nucleares um cuidado extremo, um cuidado
de atravessar a rua sem serem atropelados pelo imprevisto. E aí aparece o Kim
Jong-un empurrando uma carrocinha de pipoca em alta velocidade...
Thatcher
Margaret
Thatcher, aquela que encantou tantos com sua sentença de que sociedade não
existe, lutou duas grandes guerras: uma contra o sindicato dos mineiros
ingleses e outra contra os argentinos para que as ilhas Malvinas continuassem
Falklands.
Esta
última teve mais mortos, mas foi mais fácil. Sua vitória sobre os mineiros
arrasou com os sindicatos e lhe deu forças para arrasar com o sistema de
bem-estar social da Inglaterra, e sua vitória sobre os generais de opereta da
Argentina lhe rendeu glória e votos. No seu prontuário, além dos mortos para
conservar um cisco do império no Atlântico Sul, estão presos irlandeses em
greve de fome que ela deixou morrer e todas as vítimas do neoliberalismo
triunfante.
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