sexta-feira, 16 de janeiro de 2015


EDITORIAIS
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O MPL e sua sina

Voltam a ocorrer protestos contra aumento das tarifas de ônibus, trem e metrô; organizadores precisam condenar a tática da violência

As passagens de ônibus, congeladas desde 2011 em São Paulo, subiram menos que a inflação no período. O bilhete único, nas modalidades mensal, semanal e diário, não sofreu correção. Anunciou-se ainda que estudantes da rede pública ou de baixa renda terão até 50 viagens gratuitas por mês no transporte coletivo da capital.

Nada adiantou. Os paulistanos assistiram, na última sexta-feira (9), ao primeiro protesto do ano contra a alta das tarifas de ônibus, trem e metrô. Cerca de 5.000 pessoas, segundo a Polícia Militar --ou 30 mil, nas contas dos organizadores--, foram às ruas para criticar o aumento de R$ 3 para R$ 3,50.

Reeditam-se agora, guardadas as devidas proporções, as manifestações de junho de 2013, que tiveram o efeito não só de impedir o reajuste das passagens mas também de revelar um saudável inconformismo com a precariedade dos serviços públicos no país.

Também se repete, contudo, uma parte lamentável desse roteiro: depois de terem participado de uma caminhada pacífica, alguns manifestantes se desgarram dos demais para protagonizar cenas de vandalismo e violência, às quais se segue a reação truculenta e desastrada da polícia.

São os adeptos da tática "black bloc", em geral jovens encapuzados vestidos de preto que veem na depredação do patrimônio público e privado uma forma legítima de protesto. Sua presença nos atos demorou a ser destrinchada um ano e meio atrás, mas hoje já não representa nenhuma surpresa.

Não é aceitável, assim, que as tropas de segurança ainda se mostrem incapazes de conter esses grupos sem ameaçar, ao mesmo tempo, os diversos princípios democráticos em jogo. Seria de esperar que estivessem mais bem preparadas para assegurar o respeito à lei.

Tampouco é aceitável, entretanto, a atitude do Movimento Passe Livre (MPL). Responsável pela convocação das manifestações, a organização se recusa a condenar o "modus operandi" dos vândalos.

Tem sido sempre assim; foi na semana passada e dificilmente deixará de ser hoje (16), quando deve ocorrer mais um ato em São Paulo contra o aumento das tarifas.

Na superfície, o MPL alega não poder escolher quem participa dos protestos, mas por baixo do verniz democrático se esconde a verdadeira razão: o tumulto e o confronto integram uma fórmula eficaz para ampliar a repercussão dos eventos, embora nem sempre com o foco nas legítimas demandas.

Não há de ser por acaso que tantas outras entidades consigam terminar suas passeatas sem que se registrem episódios de descontrole. Nem todos os movimentos escolhem o caminho da violência porque a violência isola os movimentos que escolhem esse caminho.


O MPL tem mais uma oportunidade de mostrar de que lado está. Se insistir na omissão diante do quebra-quebra, será mais honesto abandonar o papel de vítima e assumir o de cúmplice.

LUIZ FERNANDO VIANNA

E se os pobres...

RIO DE JANEIRO - Os relativistas do massacre de 17 seres humanos em Paris usam, paradoxalmente, expressões totalizantes: "os muçulmanos" (todos eles oprimidos) reagiram a "os franceses" ou a "os europeus" (todos eles opressores). Como tergiversar com os miolos estourados dos outros é refresco, convém pensar numa situação brasileira.

Nesta semana, duas jornalistas investiram em seus blogs contra "os pobres". Hildegard Angel sugeriu que, para se combater os assaltos nas praias do Rio, passem a ser cobrados ingressos dos banhistas e que se reduza o fluxo de ônibus rumo à orla.

Silvia Pilz escreveu que pobre adora ficar doente por causa das "facilidades que os planos de saúde oferecem". Algumas passagens: "O pobre quer ter uma doença. Problema na tireoide, por exemplo, está na moda"; "a grande preocupação do pobre é procriar"; "eu acho que o sonho de muitos pobres é ter nódulos". Ela alegou depois que fazia humor.

Imaginemos que "os pobres", já amuados pelo calor e pelos planos de Joaquim Levy, resolvessem dar uns tiros nas duas madames. Afinal, eles foram duramente ofendidos por elas. E, neste país, faz 500 anos que "os pobres" são discriminados, massacrados.

Será que os relativistas ficariam consternados pelos assassinatos e reconheceriam que a liberdade de expressão protege até a estupidez? Ou diriam "mas... vejam só... essas jornalistas da elite, representantes de uma imprensa preconceituosa, mexeram com uma ferida social profunda, é uma opressão histórica..."?

Bem, foi apenas um exercício de imaginação.


O ministro da Cultura, Juca Ferreira, disse que sua pasta perdeu consistência quando Dilma assumiu. Se ele é assim deselegante com a presidente que o nomeou, imaginem o que fará com os inimigos.

BERNARDO MELLO FRANCO

A carteira de Gabrielli

BRASÍLIA - Se José Sérgio Gabrielli fosse uma empresa, seria possível dizer que suas ações despencaram tanto quanto as da Petrobras.

Durante sete anos, o economista filiado ao PT pontificou como presidente da estatal e um dos homens mais influentes da era Lula. Conduziu a "maior capitalização da história". Anunciou a descoberta do pré-sal. Proclamou a autossuficiência do país na produção de petróleo.

Ao deixar o cargo, em fevereiro de 2012, era visto como o futuro governador da Bahia. Instalou-se no secretariado do petista Jaques Wagner e começou a monitorar o relógio. Sua eleição seria apenas questão de tempo: dois anos e oito meses.

O plano foi implodido pela Operação Lava Jato, que encontrou desvios bilionários na Petrobras sob sua gestão. Gabrielli foi responsabilizado por um dos maiores prejuízos em seis décadas de empresa. Três de seu diretores foram presos. O Ministério Público o processou por improbidade administrativa e pediu o bloqueio de seus bens.

A cotação do petista entrou em queda livre. Ele foi afastado da eleição baiana. Parou de dar entrevistas. Por fim, faltou à diplomação do governador Rui Costa, que tomou seu lugar como candidato do PT.

Na quarta (14), o nome de Gabrielli voltou a aparecer em letras miúdas no "Diário Oficial" da Bahia. Por exigência da lei, ele entregou uma declaração atualizada de bens ao sair da administração estadual.

O documento revela que o economista é dono de uma carteira respeitável na Bolsa. Tem ações de 17 empresas, das Lojas Americanas ao Itaú. Os papéis somam R$ 1,4 milhão. O dado curioso: mantém apenas R$ 120 aplicados na Petrobras.


Embora tenha dito à Justiça Federal que nada sabia sobre o esquema de corrupção na estatal, Gabrielli é um homem bem informado. Deve ter motivos para deixar menos de 0,01% de seus investimentos na empresa que comandou. Questionado pela coluna, ele preferiu o silêncio.

16 de janeiro de 2015 | N° 18044
ARTIGOS ZH

VERGONHA E ESPERANÇA

A vergonha, obviamente, justificada pelos crimes cometidos por agentes do governo e empresários. A esperança, esboçada na capacidade que hoje demonstra a nação de apurar os ilícitos e punir os culpados.

Mas, “por mais que roubem” – escreveu – “nunca poderão subornar a morte”, pois que “ela está logo ali em frente, aguardando seres humanos de todos os escalões, tanto os donos de jatinhos quanto os que puxam carroça”.

A inexorabilidade da morte seria, por si só, um estímulo à vida digna. Viver dignamente, atesta a experiência, conduz à morte igualmente digna. Para quem, no entanto, admite a sobrevivência do espírito e da consciência após o decesso físico, os males aqui praticados geram consequências que seguem sendo enfrentadas pelo agente.

Embora condutora de nossa cultura, a religião, com sua pregação de recompensas e castigos eternos, revelou-se incapaz de gerar uma ética apta à formação de uma sociedade livre da corrupção. Esta, infelizmente, impregna o Estado, os organismo sociais, suas mais caras instituições, inclusive a Igreja.

A filosofia espírita propõe uma visão mais ampla do tema. Acrescendo à questão da sobrevivência individual do espírito a sua condição evolutiva, admite que a busca dos valores imperecíveis é meta de todo ser consciente. Erros e acertos fazem parte desse processo. Mas o erro, em qualquer circunstância, gera sofrimento. Deste só se libera o espírito à medida que a experiência e o aprendizado lhe inspirarem mudanças efetivas de conduta em direção do bem.

Mais do que temer castigos prescritos pelos organismos estatais e as religiões, é preciso aprender a ler as leis da natureza e agir em sua conformidade. Quando convicto de que o mal praticado contra outros é a causa primordial do sofrimento, se é, inexoravelmente, conduzido a mudanças. O progresso, este é, sim, inexorável. E a morte, como elemento intrínseco da vida, torna-se, nessa visão, um degrau a mais no campo da responsabilidade individual e do equilíbrio social.

Vida após vida, morte após morte, vamos, assim, aprendendo a administrar nossas vergonhas e a ampliar nossa esperança em prol de tempos melhores.

Advogado e jornalista, presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre - MILTON R. MEDRAN MOREIRA



16 de janeiro de 2015 | N° 18044
EDITORIAL

PRIORIDADE AO SALGADO FILHO

O que o Estado precisa assumir como objetivo imediato é a união em torno do aeroporto já existente, para concluí-lo logo, sem prejuízo do debate sobre o projeto de um novo complexo, num prazo maior.

Na polêmica em torno da ampliação do Aeroporto Internacional Salgado Filho ou da construção de outro o 20 de Setembro, em Nova Santa Rita ou Portão , é importante deixar claro que as duas intenções não se chocam, mesmo levando em conta a dificuldade de reunir recursos para bancar ambas, simultaneamente. No prazo imediato, porém, a prioridade absoluta tem que ser a conclusão das obras de modernização do aeroporto Salgado Filho, incluindo as ampliações necessárias e o terminal de cargas.

Desde já, é preciso trabalhar com um plano e um cronograma detalhados para levar adiante o projeto do novo aeroporto, que é imprescindível a médio e longo prazos. O retrospecto, porém, indica que nada vai andar se lideranças políticas e empresariais não se unirem em torno dessa causa, vital para os usuários e para a economia gaúcha.

Em qualquer país, mas particularmente no Brasil, obras de infraestrutura costumam demandar um tempo elevado tanto na fase de projeto quanto na de execução, além de exigirem um volume considerável de recursos financeiros. Ainda assim, o maior custo é sempre o do imobilismo, que no caso do aeroporto vem resultando mais na construção de empecilhos do que na de saídas viáveis. O que o Estado precisa assumir como objetivo imediato é a união em torno do aeroporto já existente, para concluí-lo logo, sem prejuízo do debate sobre o projeto de um novo complexo, num prazo maior.

O inadmissível é que a situa- ção se mantenha como hoje, quando a maior parte da produção exportável das empresas estabelecidas no Estado precisa se deslocar via rodoviária para o centro do país e, de lá, voar para o destino final. O inaceitável seria fazer com que usuá- rios da Capital, por exemplo, precisassem se deslocar dezenas de quilômetros para chegar ao aeroporto. A perspectiva incomoda ainda mais com a banalização dos congestionamentos de trânsito e com a precariedade das rodovias e do sistema de transporte público.


O preocupante é que, até agora, são tantas as divergências entre representantes das diferentes instâncias da federação, que a situação beira o impasse. O que o Estado precisa é de união de propósitos para concluir seus complexos aeroviários, além de dar continuidade aos planos relacionados a aeroportos regionais.

16 de janeiro de 2015 | N° 18044
DAVID COIMBRA

Pobre precisa de polícia?

Polícia para quem precisa. Quem precisa de polícia? Pobre precisa de polícia?

Ontem, o New York Times publicou uma alentada reportagem sobre o que chamou de a “Bullet Caucus” do Brasil, a “Bancada da Bala”: novos parlamentares eleitos graças à pauta da Segurança Pública. Segundo o jornal, esse é um sinal de que a política brasileira está fazendo uma virada à direita.

Tenho lido também artigos de jornalistas brasileiros sobre a atuação da polícia na repressão às depredações cometidas nos protestos contra o aumento das passagens de ônibus em São Paulo, dias atrás. Nesses artigos, a polícia paulista é chamada de “polícia de Alckmin”.

Virada à direita. Polícia de Alckmin.

Para resumir, se é que uma palavra tão pedregosa resume algo, trata-se da “ideologização” da Segurança Pública. Aí está uma das infâmias geradas pelos arroubos juvenis da democracia brasileira: a ideia de que a polícia é “de direita”, o que a tornaria inimiga do pobre.

Quem é mais afetado pela falta de segurança? Quem anda de ônibus ou quem roda no carro blindado? Quem passa as tardes de domingo nas praças ou quem vai a Punta? Quem vive no subúrbio ou quem vive no condomínio fechado?

Por fim: quem elegeu a Bullet Caucus? Pobres ou ricos?

Por que se falou tão pouco em Segurança Pública durante a campanha à Presidência, se o eleitor estava disposto a votar na Bancada da Bala? Resposta: porque os candidatos temiam parecer que eram “contra o pobre”.

Não vou cair na tentação de comparar a polícia brasileira com a americana. Um policial americano ganha cerca de R$ 14 mil por mês, é altamente treinado e muito bem aparelhado. Além disso, a polícia é municipal, o que, acredite, muda tudo. Mais: as questões hoje debatidas acerca da polícia americana são absolutamente diferentes das brasileiras. Mas o que interessa, no caso, é que a polícia americana têm problemas, embora haja segurança nos Estados Unidos. A polícia brasileira também tem os seus problemas, o Brasil todo tem os seus problemas.

Problemas, problemas, o caminho mais fácil para NÃO resolvê-los é analisá-los à direita ou à esquerda.

Segurança Pública é tão fundamental quanto Educação e Saúde. Se o Brasil tivesse segurança, diminuiria suas dores pela metade. E tudo ficaria mais leve e tudo ficaria mais fácil. Segurança Pública não é questão ideológica. Mais do que ninguém, pobre precisa de polícia.

Quem é bom?

Quem é, por suas próprias palavras:

“Bondoso, justo, pessoa que enfrenta o preconceito de cabeça erguida, generoso, altruísta, politizado, determinado, militante, guerreiro, bravo, perseverante, otimista, humilde, virtuoso, opinativo, altivo, honrado, digno, confiante, crível”?

Quem diz ser tudo isso? Quem? Pista: não é Jesus Cristo, nem Gandhi, nem madre Teresa de Calcutá, nem Buda.

Quem pode ser? Quem???


Resposta amanhã!

16 de janeiro de 2015 | N° 18044
MOISÉS MENDES

Bueiros

Nestor Cerveró deve ter bem guardados os milhões que ganhou de propina das empreiteiras da Petrobras. Andava solto, passeou, fez compras em Roma. Mas tentou sacar uns trocados no banco, coisa de menos de R$ 600 mil, e foi preso pela Polícia Federal.

Pilantras de qualquer porte, mafiosos e tiranos muitas vezes são pegos por coisas insignificantes ou por gestos desastrados. Al Capone caiu porque sonegava impostos. Collor foi mandado embora com a descoberta do rolo da compra de uma Fiat Elba.

Saddam foi enforcado porque se escondeu num buraco muito ralo. Kadafi acabou degolado por tentar se refugiar num bueiro de estrada.

Imagina-se que gente desse calibre tenha esquemas perfeitos de fuga e exílio. Que disponha de uma vasta rede de proteção, com planejamento impecável e o suporte de comparsas profissionais. E você acha que um grandão nunca estará envolvido na compra de um Chevette. Não é bem assim. Eles tropeçam na própria chinelagem.

Cerveró, por exemplo, só queria pegar um dinheirinho e transferir imóveis para os parentes. Foi flagrado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf. Tem fortunas bem guardadas, mas inventou de raspar contas miúdas para os gastos do dia a dia.

Será que um desses empreiteiros corruptores também será pego, na hora da verdade, por causa de uma bobagem ou porque não tem um buraco para se enfiar? O que poderia vir a ser a Fiat Elba desses caras? E quem, se tiver que fugir, pode contar com um bom bueiro?

Quantos desses empreiteiros não devem estar com o mesmo sentimento do Ricardo III de Shakespeare à procura de um cavalo, apenas um cavalo, para continuar lutando ou para poder fugir.

Eles sabem que, dependendo da situação, fogem os cavalos, as mulas, os ratos. Ou será que os empreiteiros escaparão de novo, nessa rede de labirintos, chicanas e bueiros da Justiça a que uns poucos têm acesso? Empreiteiro é quem mais entende de bueiro.

Hique Gomez abre hoje, pela 29ª vez, a temporada do ano do Theatro São Pedro. Pela primeira vez sem o Nico Nicolaiewsky.


Tãn Tãngo terá Letícia Sabatella cantando. O show (hoje, às 21h, e amanhã e domingo, às 20h) é bonito demais. E isso que, quando vi, não teve a Letícia.

16 de janeiro de 2015 | N° 18044
MARCOS PIANGERS

Cabelo ao vento, gente jovem reunida

Não sei se a Janis Joplin agora é professora do Ensino Fundamental, mas minha filha e todos os amigos dela, aparentemente, viraram hippies. Passam horas reunidos em rodinhas, todos eles com seus equipamentos, cada um produzindo sua variedade de pulseirinhas de elástico colorido. Passam horas na confecção e depois tentam vender o artesanato para pobres adultos, que, desavisados, pagam dois, até três reais por uma pulseira que muitas vezes aperta o pulso. A minha já pedi na cor roxa pra minha filha, que é pra combinar com a gangrena que vai causar.

Não quero ser saudosista, mas na minha época se brincava de estilingue, zarabatana, brincadeiras saudáveis a todos, menos ao Otávio, que uma vez quase ficou cego. Mas subíamos em árvores, explorávamos construções abandonadas, tudo muito divertido, menos pro Otávio, que pisou num prego uma vez e teve que levar a antitetânica. Bons tempos aqueles em que jogávamos futebol o dia todo, menos o Otávio, que sempre torcia o pé.

E não vamos muito longe. Até bem pouco tempo, as crianças jogavam jogos saudáveis, como o Banco Imobiliário, que ensinava valores como a necessidade de poupar o dinheiro, comprar imóveis quando tiver oportunidade e humilhar os amigos mais pobres. Ou mesmo esses jogos de videogame, onde aprendíamos a dar tiros em pessoas no meio da rua e a roubar carros e destruí-los batendo no carro da polícia. Aquilo é que era um passatempo saudável.

Mas essa nova geração está mesmo perdida, fazendo pulseirinha o dia todo e vendendo para pobres adultos desavisados. Em cada residência agora temos um H. Stern da bijuteria infantil, uma Tiffany & Co das borrachas coloridas. E onde estão os carrinhos de rolimã? Onde estão as pipas com cerol? Onde estão as brincadeiras com ovos que sempre acertavam aquela senhora do 502, para a explosão de risadas de toda a criançada?


Menos do Otávio, que sempre era pego e ficava de castigo.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015


15 de janeiro de 2015 | N° 18043
POLÍTICA INFORMAÇÕES DOS MUNICÍPIOS

TRANSPARÊNCIA EMBAÇADA

SÓ 20% DAS PREFEITURAS e 5% das Câmaras de Vereadores cumprem a Lei de Acesso à Informação, segundo o TCE. Omissão dos contracheques é um problema recorrente

Prestes a completar três anos, a legislação que prometia atropelar a cultura do sigilo conseguiu superar obstáculos, mas ainda tropeça no Rio Grande do Sul. De acordo com levantamento do Tribunal de Contas do Estado (TCE), apenas 20% das prefeituras e 5% das Câmaras de Vereadores cumprem as principais exigências da Lei de Acesso à Informação em suas páginas na internet.

Um dos problemas é a persistência do tabu em torno da divulgação dos contracheques dos servidores públicos, embora Porto Alegre tenha sido uma das primeiras capitais do país a dar o exemplo – ao contrário do governo estadual, que segue omisso mesmo com a troca de gestão.

Para se ter uma ideia do tamanho da resistência, até o ano passado, somente 36% das administrações municipais e 17% das casas legislativas divulgavam nomes e salários de seus funcionários. Isso não significa que inexistam motivos para comemorar.

No final de 2014, depois de concluir o mais completo estudo já feito sobre o tema no Estado, o TCE decidiu premiar as boas práticas em transparência. Ao todo, 99 prefeituras e 24 Câmaras atingiram as metas estabelecidas pelos técnicos e agora ostentam um selo de qualidade. A intenção é repetir a avaliação anualmente.

– O objetivo, com isso, é estimular a administração pública a disponibilizar cada vez mais informações em seus portais – diz o presidente do tribunal, Cezar Miola.

LEGISLATIVOS TÊM RESULTADOS PIORES

Apesar de tímido, o resultado também é visto com otimismo pelo cientista político Gregory Michener, especialista no assunto. Professor de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV), o canadense elogia a atuação do TCE na busca por mudanças e acredita que o Rio Grande do Sul “está no rumo certo”.

– O mais importante para garantir que os avanços continuem é seguir promovendo o uso da legislação. Uma lei que não é utilizada é como uma língua não falada. Acaba esquecida – resume o pesquisador.

O estudo do TCE identificou um desequilíbrio entre os poderes Executivo e Legislativo no tratamento dado à Lei de Acesso. Em comparação com as prefeituras, as Câmaras de Vereadores estão atrás em transparência.

Todas as 497 gestões municipais têm sites, mas o mesmo não se aplica às casas legislativas. Conforme o levantamento, 93 Câmaras (18,7% do total) não contam com páginas na web.

– Como as Câmaras têm atribuições diferentes do Poder Executivo, decidimos avaliar aspectos específicos. Verificamos, por exemplo, que apenas 24 delas disponibilizam os votos dos seus vereadores – explica o auditor Renato Pedroso Lauris.

Entre as explicações para o resultado negativo estão a falta de recursos e de estrutura. Além disso, na opinião do cientista político Gregory Michener, as Câmaras são menos pressionadas a oferecer dados porque muita gente sequer sabe para que elas servem.
Apesar disso, tanto as Câmaras quanto as prefeituras que desobedecem a legislação podem ser punidas. Desde o ano passado, ao avaliar a prestação de contas dos gestores, os auditores do TCE observam a atenção dada à Lei de Acesso à Informação. O descumprimento pode contribuir para a desaprovação das contas e resultar em multa ao responsável.

juliana.bublitz@zerohora.com.br



15 de janeiro de 2015 | N° 18043
ARTIGO -  MARIA CELESTE LEITZKE*

ENEM: UM FIASCO!

Em 14 de março de 2000, ao escrever sobre educação, na opinião de ZH, eu afirmava que... “a continuarmos com esta despreocupação quanto ao ensino básico, vamos, daqui a alguns anos, considerar alfabetizados aqueles indivíduos, que, mal e parcamente assinem os seus nomes”. Quinze anos se passaram e o quadro se revela muitas vezes pior do que o que imaginei! No último Enem, quase 6,2 milhões de alunos prestaram exame para tentar, no futuro, uma vaga nas universidades. Pasmem... 530 mil tiraram zero na redação, apenas 250 tiraram 10! O desempenho vem caindo a cada ano, tendo, de 2013 para 2014, despencado 9,7%!

O senhor ministro da Educação alegou no Jornal Nacional que “o aluno tem muitas matérias, muitas vezes desnecessárias à sua área de interesse e isso o desanima, daí o mau desempenho”.

Que desculpa absurda! Estudei latim no ginásio. Não sabia para que, mas isso nunca foi desculpa para um mau desempenho em qualquer disciplina.

Por favor, senhor ministro e secretários estaduais e municipais da Educação. Despertem! Aceitem e tenham coragem de encarar o problema simples, mas absolutamente básico e indispensável à melhoria do ensino do Brasil! Os alunos não podem sair do ensino básico sem saber ler, escrever e interpretar! É simples assim! Não existe mágica!

Programa de alfabetização na idade certa (até aos oito anos). Absurdo! Há décadas, se não séculos, os alunos entravam na escola aos seis anos; eram alfabetizados; aos sete, estavam no 2º ano e aos oito no 3º, completamente alfabetizados. Será que as crianças “emburreceram” e por isso têm que ser alfabetizadas mais tarde ou esta proposta interessa às estatísticas do governo? Não. As crianças não “emburreceram”.

Muito pelo contrário! Hoje, estão muito mais prontas e capazes de absorver tudo o que lhes ensinamos. Onde ficou a aula de leitura e escrita, orientada, como atividade diária em sala de aula? Neste assunto, precisamos voltar ao passado!

Não permitam que os alunos deixem o ensino básico sem saber ler, escrever pensar e interpretar e o Ensino Médio, com certeza, passará a apresentar resultados surpreendentes.


PROFESSORA, ALFABETIZADORA E PSICOPEDAGOGA*

15 de janeiro de 2015 | N° 18043
ARTIGO - FÁBIO LUIZ GOMES*

A MARCHA DA INSENSATEZ E O 20 DE SETEMBRO

Nosso aeroporto é de fácil acesso. Poupam-se muito tempo e custos. Sua ampliação vai adiantada. Localização insuperável, com espaços aéreos de aproximação e decolagem sobre o delta do Guaíba e construções apropriadas.

Incompreensíveis as razões do ministro da Aviação Civil para o congelamento das obras e construção de um novo aeroporto no município de Nova Santa Rita ou em Portão, cujos acessos passam obrigatoriamente pela BR-116 e/ou BR-386. É notória a deficiência dessas estradas, e a BR-448 não resolveu. Para chegar ao “20 de Setembro” sem perder um voo internacional às 19h, imperioso iniciar o deslocamento às 14h; com chuva, um caos.

As justificativas não se sustentam: (a) A de que o novo aeroporto seria imposto ao concessionário do Salgado Filho sem ônus aos “cofres públicos” é um sofisma, pois tais cofres são nutridos pelos contribuintes, que pagarão os respectivos custos! (b) Já as “dificuldades do solo” na região fazem supor desconhecer o ministro tecnologias aptas a construir aeroportos até sobre o mar. Foi cômica sua resposta à Rádio Gaúcha, ao observar que a pista atual estava construída antes de ele nascer (a tecnologia seria mais avançada há 69 anos...). (c) Quanto à preponderância da carga sobre os passageiros, há evidente subversão de valores. (d) As mais de mil famílias para serem retiradas do local do acréscimo na pista atual já saíram.

Como explicar defesa tão enfática a interesses contrários aos da maioria absoluta dos cidadãos destinatários da responsabilidade de um governo pelo menos razoável? Quem quiser se consolar ante a perspectiva do sofrimento no inferno das BRs 116 e 386 em direção ao “20 de Setembro”, sugiro que leia o best-seller A Marcha da Insensatez, de Barbara Tuchman, considerada a maior historiadora americana, para quem a insensatez “é filha do poder”.

A inteligência do ministro é notória. Tal qual Talleyrand, mantém-se no poder em governos com ideologias antagônicas, o que nos deixa com poucas esperanças de mudança de rumo, até porque, e ainda na esteira de Tuchman, no terreno do poder “o processo mental de inteligência frequentemente parece não funcionar”.


*DOUTOR EM DIREITO

15 de janeiro de 2015 | N° 18043
L. F. VERISSIMO

Blasfêmia

Vamos combinar que não existe nada mais ofensivo do que um tiro na cabeça. Não posso imaginar uma blasfêmia maior do que espalhar os miolos de alguém com um AK-47. Porque tem gente dizendo que os cartunistas do Charlie Hebdo foram longe demais, o que equivale dizer que mereceram o que lhes aconteceu. É o mesmo raciocínio de quem diz que mulher estuprada geralmente estava pedindo.

“Blasfêmia” quer dizer uma afronta ao sagrado. Assim, a verdadeira discussão não é sobre o que as pessoas consideram blasfêmia, mas sobre o que consideram sagrado. A descrença em qualquer divindade é uma blasfêmia perene – ou, visto de outra forma, quem não crê em nenhum deus não pode, por definição, ser um blasfemo.

Muitas vezes, o que se faz em nome de uma crença ou de uma divindade é que é blasfêmia: uma ofensa a quem acha que sagrados devem ser a vida humana, o direito de pensar livremente e o direito de descrer. Não se está falando só do islamismo radical. Já houve tempo em que não acreditar no deus da igreja romana era razão suficiente para ser queimado vivo. Levava mais tempo do que um tiro de AK-47.

Mudando de assunto, mas não muito. A reação do George W. Bush aos ataques ao World Trade Center foi da catatonia, quando recebeu a notícia, à hiperatividade impensada que resultou na transformação da base americana de Guantánamo em campo de concentração para “terroristas” que, na sua maioria, não tinham nada a ver com o atentado e, mais tarde, na invasão do Iraque para pegar o Saddam, que também não tinha nada a ver com o 11/9, e as suas armas de destruição em massa, que não existiam.

Mas faça-se justiça: num dos seus primeiros pronunciamentos depois dos ataques, quando já se sabia quem eram os responsáveis, Bush fez questão de alertar contra perseguições aos muçulmanos no país, que não tinham culpa da ação radical de uma minoria.


Na França pós-7/1, com sua imensa população muçulmana, vítima do ressentimento de boa parte da maioria francesa e da crescente reação a imigrantes em toda a Europa, vai ser difícil seguir um conselho como o do Bush. A direita inchou do 7/1 para cá, na França. Se sua pregação racista vai prevalecer contra a tradição libertária da terra dos direitos humanos, é o que se verá nas próximas eleições. Os AK-47 podem ter matado muito mais do que 17 pessoas.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015


14 de janeiro de 2015 | N° 18042
ECONOMIA

SEM SUBSÍDIOS, LUZ SUBIRÁ MAIS

SETOR DE ENERGIA não deverá contar com aportes do governo, e despesa tende a ser repassada em maior parte para o consumidor. No Estado, tarifaço pode chegar a 55% neste ano
É bom o consumidor gaúcho calçar sapato com solado de borracha a partir de agora para receber a conta de luz: a chance de levar um choque é grande. Não bastasse o início da cobrança da bandeira tarifária a partir de janeiro, que já representará peso extra na fatura, os usuários devem encarar outros dois aumentos em 2015.

A dimensão exata do reajuste ainda não é conhecida, mas especialistas fazem projeções. Se São Pedro continuar não ajudando e a seca na Região Sudeste persistir, o tarifaço total pode chegar a 55% para parte dos consumidores gaúchos, conforme cálculos de Paulo Steele, analista que atuou por cerca de cinco anos na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), no desenvolvimento do cálculo dos custos para concessionárias e hoje está na consultoria TR Soluções.

Na próxima terça-feira, a Aneel abrirá consulta sobre os critérios para a revisão extraordinária das tarifas, que deve ocorrer em fevereiro. O presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Nelson Leite, disse que o consumidor brasileiro deve sentir no bolso as novas e mais pesadas tarifas de eletricidade a partir das contas de março.

Conforme Leite, o ajuste adicional, que também deve ser aprovado em fevereiro, servirá para que as companhias comecem a recolher dinheiro suficiente para pagar o aumento no preço da energia de Itaipu – de 46% em razão da alta do dólar.

O tarifaço, ao que tudo indica, será recorde. É resultado de uma série de fatores. A falta de chuva tem obrigado as empresas de distribuição a comprar energia gerada nas termelétricas – muito mais cara – desde 2013 e a conta para o consumidor continuará a ser repassada agora.

A entrada em vigor das bandeiras tarifárias, neste mês, já no vermelho, também pesa. Isso já era esperado por especialistas. A surpresa veio com o anúncio do Planalto que iria reduzir o tamanho da ajuda para as distribuidoras. Isso abriu a possibilidade de um tarifaço extra no primeiro semestre, uma maneira de garantir mais dinheiro para as companhias e evitar uma quebradeira do setor.

– De modo bastante grosseiro, cada R$ 1 bilhão de aumento de custo das empresas representa de 0,8% a 1% de aumento na conta para o usuário. Mas isso varia bastante de região para região. Empresas do Norte e Nordeste recebem mais ajuda, então pode haver impacto ainda maior – explica o presidente da Abradee.

No ano passado, o governo federal socorreu as empresas de energia em duas frentes: aportes do Tesouro Nacional e facilitação para a tomada de empréstimos com os bancos. A ajuda foi suficiente para equilibrar o caixa das companhias até outubro, mas faltaram cerca de R$ 2,5 bilhões para cobrir as despesas.

LEVY DIZ QUE CUSTO DEVE SER PAGO PELO USUÁRIO

O Planalto vai dar aval para um último empréstimo, mas sinalizou que para 2015 vai suspender o apoio oferecido e que qualquer aumento de custo da energia deve ser dividido com o consumidor. É o chamado “realismo tarifário”.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, indicou ontem que o custo é muito pesado para o governo dentro do atual contexto de ajuste fiscal e que o gasto para sanar a crise das distribuidoras será bancado pelos consumidores nas contas de luz.

– Essa despesa pode, pela previsão legal, ser passada para o contribuinte ou para o consumidor. É menos eficiente que seja suportada pelo contribuinte – afirmou Levy.

Na previsão orçamentária do governo, era estimada ajuda de R$ 9 bilhões para as empresas. O ministro adiantou ontem que o Tesouro não fará mais o aporte na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), fundo setorial que bancou a política de redução da energia elétrica implementada pela presidente Dilma Rousseff em janeiro de 2013. Faz dois anos que a CDE, que reúne as receitas e despesas do setor, vinha recebendo auxílio do Tesouro para bancar os gastos.

Antes da afirmação do ministro, especialistas entendiam que dificilmente a ajuda seria retirada integralmente. O mais provável seria que o governo optasse por emprestar parte dos recursos com a intenção de garantir que não ocorressem perdas em programas sociais, como o Luz Para Todos.

cadu.caldas@zerohora.com.br



14 de janeiro de 2015 | N° 18042
ARTIGO - PLÍNIO MELGARÉ*

CHARLIE HEBDO ERROU?

Independentemente de aspectos históricos mais remotos, a liberdade de expressão consagra-se como uma conquista da modernidade, constituindo singularmente a cultura ocidental. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada em 1948, afirma a liberdade de expressão. Antes ainda, fruto da Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão expressamente reconheceu essa liberdade. Nada obstante, ao mesmo tempo em que a considerava um dos direitos mais preciosos do homem, sustentava que este deveria responder diante do abuso dessa liberdade. Nesse ponto um problema presente até os dias atuais: em que circunstâncias há o exercício abusivo da liberdade de expressão?

E no caso da sátira? Em razão de sua excepcional força discursiva, o uso da sátira e do humor como elemento de crítica social ocorre desde os tempos mais remotos. Mas e os seus limites? Em causa está definir até que ponto é aceitável a difamação ou o caráter ofensivo do humor. Na França, no final dos anos 80, uma publicação satírica foi condenada em razão de uma caricatura que atribuía ao conservador Le Pen a prática de tortura na guerra da Argélia.

Pretender respostas apriorísticas não é o melhor caminho. Contudo, alguns tópicos podem ser traçados como balizadores do discurso satírico e da liberdade de expressão. Aponta-se, nesse sentido, ser lícita a sátira quando veicula situações faticamente impossíveis – ou ao menos manifestamente insólitas ou implausíveis. De outra parte, há de se considerar razoável que o conteúdo discursivo da sátira ultrapasse o que o senso comum tem por decente ou de bom gosto: é também uma de suas características. Em contrapartida, abusiva seria a sátira que insulta gratuitamente, versando sobre temas alheios ao contexto social, distanciando-se, pois, de um sentido público e comunitário.

Como pano de fundo, cenário de todo o debate proveniente da liberdade de expressão e do seu exercício, está a composição da tessitura social que construímos – ou que queremos construir. E compreender que a plasticidade do ambiente discursivo presente na esfera pública e o consequente alargamento das liberdades de expressão são aspectos constitutivos das democracias contemporâneas. Ao fim e ao cabo, deve-se reconhecer a liberdade de expressão como essencial ao desenvolvimento autônomo da pessoa humana – além de um canal efetivo que dinamiza a vida política, prevenindo a sociedade de ameaças arbitrárias.


*Advogado e professor da Faculdade de Direito da PUCRS e FMP

14 de janeiro de 2015 | N° 18042
FÁBIO PRIKLADNICKI

GRANDES EXPECTATIVAS

Em uma das cenas mais intrigantes do documentário Nelson Freire (2003), o grande pianista mineiro confessa: “Olha, eu tenho uma inveja de quem sabe tocar jazz incrível”. Então, o cineasta João Moreira Salles enquadra a gargalhada de satisfação de Nelson ao assistir, em sua televisão de tubo, a uma apresentação em preto e branco do famoso jazzista Erroll Garner, improvisando ao piano com um sorriso maroto.

“A alegria!”, exclama Nelson, “a alegria de tocar!” E completa: “Os pianistas clássicos de antigamente tinham essa alegria. Rubinstein tinha isso, Horowitz tinha isso também. Guiomar Novaes tinha isso. Martha Argerich tem isso”. Nesse momento, o entrevistador interrompe: “E você?” Nelson responde com uma expressão facial vaga.

Assistir a esse trecho do documentário é uma lição de vida porque nos acostumamos a pensar que um artista do porte de Nelson Freire jamais teria uma frustração musical na vida. Mas eis o fato: um dos maiores pianistas clássicos de todos os tempos gostaria de ter a alegria de tocar de um pianista de jazz ou mesmo de alguns de seus ídolos na música de concerto.

Costumamos utilizar nossas pequenas ou grandes frustrações como medida daquilo que se convencionou chamar de felicidade. O mesmo ocorre com nossas expectativas em relação às pessoas com as quais vivemos. O empresário bem-sucedido que queria ter escrito um grande romance, a profissional liberal que gostaria que o marido falasse francês ou o garoto que tem muitos brinquedos mas deseja mesmo aquele que seus pais não compraram. Estamos sempre querendo mais, talvez por causa da ideia (vinda sabe-se lá de onde) de que chegaria um dia na vida em que nos sentiríamos completos e que nossos parceiros partilhariam dessa plenitude conosco.

Mas o que chega mesmo é o momento em que precisamos admitir que as coisas não funcionam assim. Temos mais desejos do que conseguimos realizar e mais expectativas do que os outros são capazes de corresponder. E isso é ótimo, porque nos mantém em movimento.


O psicanalista britânico Adam Phillips defende a tese de que as vidas que não vivemos – aquelas com as quais apenas sonhamos – fazem parte de nós tanto quanto aquela que realizamos. Entender essas frustrações em relação a nós mesmos e em relação às pessoas que amamos como parte integrante da experiência na Terra é um exercício sofisticado que só a maturidade permite. Todos têm seu Erroll Garner, mas apenas alguns desenvolvem a capacidade de admirá-lo.

14 de janeiro de 2015 | N° 18042
MOISÉS MENDES

O Vale de Michel

Michel Boabaid foi, na minha adolescência no Alegrete, a figura definitiva do que seria um comerciante árabe. O libanês tinha uma lojinha na Barão do Amazonas, perto da praça, e concorria com os palestinos da Andradas no marketing da abordagem a quem passava.

– Entrrra, frrregueeesa – dizia Michel, sentado numa cadeira na calçada.

E as freguesas compravam chitão, lençóis, guardanapos. A loja era apertada, com prateleiras dos dois lados e um balcão ao fundo.

Ontem, almocei no Mercado Público com meus amigos do Alegrete José Roberto Ramos e Élvio Vargas, falamos de Paris, porque agora só se fala de Paris, e nos lembramos de Michel.

Um dia, quando voltei a Alegrete, passei na loja de Michel, que não tinha nome, e ele estava sentado ali na frente. Olhei para dentro e vi prateleiras vazias, com meia dúzia de bobinas de panos coloridos. Era como se ele estivesse se desfazendo dos últimos chitões para poder dizer: pronto, vendi tudo o que tinha.

Michel morreu em 2002, aos 90 anos. Fiquei sabendo mais de Michel porque, depois do almoço, telefonei para o jornalista Alair Almeida, também do Alegrete, que ainda está por lá. Alair me falou dos Boabaid e me disse: liga para o Luiz Felipe, que ele te fala mais do Michel.

E de repente eu queria saber mais de Michel. Liguei para Luiz Felipe, que herdou do pai, Jorge Boabaid, a Casa Paulista, a última loja libanesa do Alegrete, que vende tecidos desde 1927.

E o Luiz Felipe me disse que Michel Boabaid era irmão de seu pai. Os irmãos Jorge, Felipe e Michel vieram adolescentes da cidade de Zahle, no Vale do Bekaa.

Michel tinha uns 19 anos. Veio analfabeto e continuou analfabeto. Falava mal o português, mas sabia fazer contas. Nunca o encontrei na rua, no cinema, na praça ou em outro lugar que não fosse a frente da loja.

Solteirão, viveu da lojinha até o último chitão. O Zeca, o Élvio, o Paulo Renato Rodrigues e o Alair nunca entraram na loja de Michel porque homem não comprava tecido. Naqueles tempos, lá pelos anos 70, o máximo da discriminação contra um árabe, na ingenuidade da adolescência interiorana, era identificá-lo genericamente como turco.


Eu nunca falei com Michel, e o que lembro bem é de seu olhar espichado de solidão e melancolia. Agora, quero saber mais sobre o Vale do Bekaa.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015


13 de janeiro de 2015 | N° 18041
LUÍS AUGUSTO FISCHER

COM AS ARMAS DISPONÍVEIS

Uma experiência ruim que tive, poucos anos atrás, foi a de precisar justificar ao meu filho, então com uns quatro anos, as grades que cercam, meio delirantemente, o edifício em que moramos, em Porto Alegre. Como explicar aquela excrescência estética? Quem consegue gostar daquilo como parte da paisagem diária?

Tentei falar de modo ameno sobre riscos, assaltos que acontecem, bandidos, isso tudo. Claro que havia, na pequena vida dele, alguns dados sobre isso – outras cercas, gente do mal, personagens maus. É bem isso, meu filho, é disso que se trata. Existe gente má, gente que faz mal, que é preciso manter longe. Sabe quando aquele teu coleguinha te enche a paciência? Tu não tem que ficar sofrendo nada por isso: se ele te incomodar, diz para ele parar, e se ele continuar tu sai de perto, em último caso chama a professora.

Tudo certo. Numas.

Agora estamos cá em Paris e não há como escapar de ver cenas na TV acerca do atentado e do sequestro, assim como do desfecho duro. Pessoalmente, nada de muito novo se impôs ao nosso cotidiano, mas é claro que há algo no ar além dos aviões do Barão de Itararé.

Na escola, meus dois filhos, de oito e quatro anos, fizeram minuto de silêncio no dia seguinte ao bárbaro, inaceitável crime contra o semanário. Foi em todo o país que isso aconteceu. Pergunto qual foi a explicação, e me dizem que a profe falou que era pelos mortos de uma ação de bandidos.


Bandidos. Terá sido essa a palavra utilizada pela cautelosa professora? Ou foi a tradução, a conversão cultural feita pelo menino brasileiro, que precisa entender o mundo com suas escassas armas? Não há modo simples de abordar o caso.

13 de janeiro de 2015 | N° 18041
DAVID COIMBRA

Boas ideias e maus sentimentos

“Eu sou um deus ciumento” é a advertência que Jeová faz a Moisés no Deuteronômio.

Eis a base de todas as religiões monoteístas. E a razão de inúmeros crimes cometidos em nome dessas religiões.

Os romanos acreditavam em muitos deuses e, por isso, tinham extrema tolerância com os deuses dos povos que conquistavam. Cada um podia ter sua religião, desde que pagasse impostos religiosamente. A César o que era de César.

A secular guerra que envolve muçulmanos, cristãos e judeus só existe porque o deus de cada uma dessas religiões é ciumento, embora todos tenham se originado do mesmo e devessem ainda ser o mesmo: aquele Jeová de Moisés.

Muita gente morreu por causa da intolerância do monoteísmo, portanto. Só que mais gente morreu por causa da intolerância ideológica. Por causa de Hitler e do nazismo, morreram dezenas de milhões; por causa de Stálin, Mao, Pol Pot, Enver Hoxha e do comunismo, morreram centenas de milhões.

O melhor que as mortes de Paris e o terrorismo islâmico têm a nos ensinar, hoje, é, precisamente, a tolerância.

Pessoas do nosso convívio têm exercitado diariamente a intolerância, não em nome de seus deuses, mas em nome de suas ideias. Você desenvolve certeza religiosa de que determinada ideia é boa e de que tudo que vagamente se opõe a ela é ruim, e passa a combater com intolerância essa oposição.

Vou tomar, de propósito, a causa mais nobre e talvez mais delicada de todas: a luta contra o racismo. Não existe preconceito mais repugnante do que o preconceito contra os negros. Não me refiro a qualquer preconceito racial, refiro-me ao contra os negros porque eles foram escravizados pelos europeus durante quatro séculos, sobretudo nas Américas, por serem negros. Não por serem africanos, até porque outros africanos, de origem árabe, também escravizavam os negros. Logo, os negros sofreram e sofrem apenas pela cor da sua pele.

Os crimes horrendos cometidos contra os negros são hoje universalmente condenados e combatidos. Bem. Quais foram os maiores líderes dessa causa? Quem obteve maior sucesso na luta pela igualdade? Os homens tolerantes: o pastor Martin Luther King, que estudou aqui, na Boston University, e o maior gênio político da história da Humanidade, o sul-africano Nelson Rolihlahla Mandela.

Luther King e Mandela aprenderam que não se chega a lugar algum sendo excludente. A maioria das pessoas quer viver em harmonia e morrer em paz. Só. Às vezes essas pessoas têm sentimentos contraditórios, às vezes elas ficam furiosas, às vezes cometem erros, às vezes elas têm interpretações equivocadas das outras pessoas, da vida e do mundo, mas isso não quer dizer que elas sejam más pessoas. Voltando ao caso do racismo e tomando um exemplo prosaico, responda: quem são as “melhores pessoas”: os que cometeram injúria racial naquele jogo do Grêmio, no ano passado, ou os que atearam fogo à casa de quem cometeu injúria racial?

Um sistema inteiro de boas ideias pode ser implodido por um único mau sentimento.


Tolerância. O ser humano substantivo só se torna humano como adjetivo se houver tolerância.
13 de janeiro de 2015 | N° 18041

ELEIÇÕES 2014 QUEM FICOU COM A CONTA

1% DOS DOADORES PAGARAM 56% DOS GASTOS NO RS

Empresas de alimentação e de construção responderam pela maior fatia do dinheiro arrecadado pelos candidatos

A campanha eleitoral de 2014 contou com 10,8 mil doadores que se dispuseram a financiar algum candidato a deputado estadual ou federal, senador ou governador no Rio Grande do Sul. Mas um seleto grupo de apenas cem contribuintes respondeu por nada menos do que 56% de todo o valor repassado aos concorrentes durante a disputa.

A análise das prestações de contas divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revela a grande concentração do sistema de custeio eleitoral no Estado. A elite dos financiadores – que representa menos de 1% dos mecenas da política regional – desembolsou R$ 80,5 milhões de um total de R$ 144 milhões arrecadados por candidatos, partidos e comitês.

Esse cálculo desconta os valores recebidos por partidos, comitês ou candidatos e repassados para outros partidos, comitês ou candidatos dentro do próprio Estado durante a eleição – o que muitas vezes ocorre –, já que levaria a somar um mesmo recurso mais de uma vez e superestimar a arrecadação eleitoral. A conta inclui, porém, repasses vindos de comitês e candidatos de outros Estados – ou seja, doações que foram feitas em outro local do país, mas acabaram no Rio Grande do Sul. Nesse caso, não há superposição na contabilidade feita com auxílio do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e do advogado, técnico em contabilidade e especialista em contas eleitorais Carlos Souto Júnior.

A lista dos maiores doadores reúne principalmente empresas de grande porte. Quem lidera o ranking dos maiores gastadores é a JBS – gigante do setor de alimentação que alcançou em 2013 a terceira maior receita líquida do país, com R$ 92,9 bilhões, atrás da Petrobras e da Vale. A JBS, que controla a Friboi, repassou pouco mais de R$ 12 milhões (somando R$ 772 mil da JBS Aves) aos candidatos no Estado. A maior parte desse recurso, assim como a de outras grandes companhias, foi doada para diretórios nacionais e transferida pelos partidos para seus correligionários gaúchos.

Em casos como esse, em que a verba muda de mãos, é preciso seguir o caminho do dinheiro até encontrar o doador originário – que deve ser identificado na prestação de contas de todos os candidatos. Porém, a complexidade do sistema de registro e eventuais falhas na identificação dos doadores dificulta esse trabalho.

– Embora os dados sejam públicos, é praticamente inviável para o cidadão saber quanto uma empresa investiu na campanha em um determinado Estado – afirma Souto.

CONCENTRAÇÃO FINANCEIRA OFERECE RISCO, DIZ ANALISTA

O topo da lista é ocupado ainda por Gerdau, com R$ 4 milhões desembolsados, Braskem (R$ 3,9 milhões) e Zaffari (R$ 2,8 milhões). Mas, graças ao montante da JBS, o setor de alimentação é o de maior peso no top 100 das finanças eleitorais no Rio Grande do Sul, com R$ 16,2 milhões investidos. Em seguida, vem a construção, com R$ 9 milhões aplicados, e depois os repasses da indústria em geral, com R$ 7,2 milhões. Chama a atenção, ainda, a presença de empresas ligadas ao fumo e a bebidas alcoólicas no rol de grandes apoiadores, os quais entregaram R$ 4,9 milhões, somados, aos políticos rio-grandenses.

Considerando-se todas as doações feitas, e não apenas a dos cem principais contribuintes, o PT foi o partido com maior arrecadação no Estado – R$ 35,5 milhões. Foi seguido pelo PP, com R$ 33,5 milhões, e pelo PMDB, com R$ 24,2 milhões.

A concentração do financiamento oferece um risco, conforme o cientista político e coordenador do curso de Ciências Sociais da Ulbra, Paulo Moura: que o apoio seja oferecido pelas empresas com a expectativa de receber vantagens depois da eleição.

– Esse fenômeno (da concentração de doações), que se repete em âmbito nacional, certamente exerce influência no processo eleitoral. Empresas que contribuem e têm negócios com o Estado, como as empreiteiras, ou concessão de créditos de bancos públicos acabam criando uma zona cinza em que não fica claro se o sistema político é moralmente correto, ainda que seja legalmene correto – diz Moura.


marcelo.gonzatto@zerohora.com.br