segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

LUIZ FELIPE PONDÉ

O mercado do narcisismo

Todo mundo muito bonitinho na fita, vendendo a pose de que é uma geração de evoluídos

Uma nova geração de seres humanos parece estar chegando. Alguns arriscam chamar de "novos jovens".

Uma geração que não sofre das fraquezas comuns dos mortais. No terreno dos afetos, ciúmes e inseguranças comuns no mundo romântico, eles parecem ter resolvido um drama muito antigo que é o medo de não ser amado.

Desde a separação da atriz Gwyneth Paltrow e seu ex-marido Coldplay no ano passado e suas declarações no Facebook de que "agora" a família deles estava melhor e que eles não sofreram com o fim do casamento, uma enxurrada de casais bem resolvidos desfilam na passarela. Nós, os miseráveis ultrapassados, que não sabemos o que fazer com nossas inseguranças, babamos de inveja desta geração de bem nascidos sem ciúmes.

Eu, que desconfio de todo mundo bem resolvido, não engulo esse papinho furado típico do marketing de comportamento. Não creio no avanço moral da humanidade, duvido dessas declarações felizes. Mas, se são falsas, de onde elas saem?

Fácil de adivinhar: saem do velho e bom narcisismo contemporâneo. Esta cultura, baseada no fracasso do investimento na prole e em vínculos duradouros, cai bem num mundo de gente bem resolvida. Existem até psicoterapeutas e psicanalistas que começam a abraçar a causa da cultura do narcisismo afirmando que narcisistas são melhor adaptados ao mundo contemporâneo porque não sofrem dos sofrimentos imaginários dos neuróticos que idealizam o amor.

Isso mesmo, um desses dias a psicanálise, que tanto resistiu às baboseiras do século 20, tombará sob o peso do mercado do narcisismo.

O mercado do narcisismo, além de investir em apartamentos singles com um parque de diversão na área social, vende, basicamente, estilos de vida e modas de comportamentos. Essas modas se concentram no cotidiano. Alimentação, lazer, trabalhos sem muito vínculo, relacionamentos solúveis na busca de autoestima.

A simples ideia de que narcisistas resolvem melhor a vida já demonstra a raiz da hipótese: a solução para a insolúvel vida afetiva é não ter muitos afetos afora aqueles que são autorreferenciais. Todo mundo muito bonitinho na fita, se roendo por dentro, mas vendendo a pose de que é uma geração de evoluídos.

A tese segundo a qual esse comportamento seria uma evolução psíquica nasce, ao final, da aceitação de uma certa vertente do pensamento pós-moderno. Esta tese pressupõe que, terapeutas, ao supor que pessoas "blasés" com relação a solidez dos vínculos são, na realidade, pessoas com pouco amadurecimento psíquico, e, portanto, doentes, fere a natureza essencialmente socio-histórica do ser humano. Complicado? Nem tanto.

O pensamento pós-moderno tem uma vertente "otimista" segundo a qual tudo é historicamente construído, e, portanto, muda. Nada é perene. Não existe uma "natureza humana" (ponho entre aspas o termo para que os inteligentinhos não venham com suas críticas de Facebook ao conceito de natureza humana) a nos atormentar desde as trevas da ancestralidade. Tudo muda, basta você mudar sua alimentação ou forma de se locomover na cidade. Um novo estilo de se vestir gera toda um processo de evolução anímica.

Seguindo este raciocínio, supor que o "normal" seria as pessoas buscarem relacionamentos perenes (e que aqueles que não o fazem seriam, portanto, imaturos) é ser anacrônico e fazer demandas atávicas para jovens que superaram a necessidade desses mesmos relacionamentos mais consistentes.

Não é à toa que um comportamento light como esse é, normalmente, acompanhado de baixa fertilidade (por escolha ou mesmo por causas psicossomáticas). Filhos demandam uma certa perenidade e bastante generosidade. Características pouco comuns em narcisistas.

Agora, se você tem um paciente que parece um zumbi alegre na vida afetiva, não assuma que ele deveria ser diferente. Assuma que você é um ultrapassado e que pessoas pós-modernas podem ser bem resolvidas e não precisam de afeto como você. Por isso, elas são tão bonitinhas o tempo todo em eventos culturais por aí. Flanam pelo mundo livremente porque (quase) ninguém depende delas. Fofos e velozes.


POR PAINEL
05/01/15  02:00

PMDB do Senado já planeja troco a Dilma por perda de espaço no governo

A hora da revanche Sob o comando de um indignado Renan Calheiros (AL), o PMDB do Senado já articula meios de dar o troco em Dilma Rousseff pela redução de espaço no segundo governo. Uma das possibilidades é ceder ao PSDB a primeira-vice-presidência da Casa, que deverá caber aos peemedebistas, além da presidência, por terem a maior bancada. Além disso, o partido articula a derrubada do esperado veto de Dilma à correção de 6,5% da tabela do Imposto de Renda, aprovada em dezembro.

Chamego No pacote de ameaças ao governo, o PMDB também admite ceder à oposição o comando de comissões vitais, como a CAE, de Assuntos Econômicos, ou a CCJ, de Constituição e Justiça.

Rebaixado Na sexta-feira, Renan disse a Aloizio Mercadante (Casa Civil), Ricardo Berzoini (Comunicações) e Pepe Vargas (Relações Institucionais) que o PMDB foi reduzido a um “partido de secretarias”, com o comando de Portos, Aviação e Pesca.

Testemunha O presidente do Senado também disse, diante do vice Michel Temer, que se recusa a submeter uma lista de nomes ao crivo do Planalto para os cargos de segundo escalão nas pastas que couberam ao PMDB.

Oferenda Sugeriu, ironicamente, que, se o PMDB não pode preencher as vagas com “porteira fechada”, o governo deveria oferecê-las a aliados mais prestigiados, como Gilberto Kassab (Cidades) e Cid Gomes (Educação).

Isca A irritação de Renan é tanta que ele brigou com Jader Barbalho (PA), aliado histórico, que negociou por fora a minúscula pasta da Pesca para seu filho, Helder.

Tática A ideia de concentrar no ministério e nas secretarias do Esporte a cota do PRB no governo federal e nas gestões estaduais que o partido apoia partiu do presidente da sigla, Marcos Pereira, que também é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus.

Treino O partido já comandava a secretaria de Esporte no Distrito Federal até 2014. Uma das razões é a forte presença do grupo Força Jovem —que, entre outras missões, atua na inclusão de jovens por meio de práticas esportivas— na igreja, que detém o comando do PRB.

Degelo Na conversa com Joe Biden no Itamaraty, Dilma disse ao vice-presidente dos EUA que o embargo a Cuba era o “último resquício da Guerra Fria”. Afirmou que o bloqueio “não fazia mais sentido algum” e que sua suspensão era “uma demanda de todo o continente”.

Hora H No Palácio do Planalto, era certa a indicação de Edinho Silva para o primeiro escalão. Um ministro petista conta que o relatório do TSE que recomendou a rejeição das contas da presidente barrou a nomeação do tesoureiro da campanha.


‌Boca fechada A ministra Eleonora Menecucci (Mulheres) já perdeu 17 kg com a dieta Ravenna, que indicou à presidente. José Eduardo Cardozo (Justiça) também emagreceu 5 kg com o método. “Faltam 22kg”, disse.

Xerox A proposta de incluir trabalhadores da Cultura no Pronatec, feita pelo ministro Juca Ferreira no dia em que foi empossado na pasta, constava do programa de governo de Aécio Neves (PSDB).

Aspas O plano tucano previa “ampliar o Pronatec Cultura com cursos de formação na área da cultura, fortalecendo a ligação com a educação, englobando cursos de profissionalização em habilidades técnicas ou artísticas”.

Rei posto Fernando Haddad estuda convidar o vereador Nabil Bonduki (PT) para o lugar de Ferreira na Secretaria Municipal de Cultura.

TIROTEIO

Dilma é Dilma, ninguém se engane! Anuncia abstinência fiscal, mas tomará um porre de gastança. Barbosa e Levy não duram um ano.

DE MARCUS PESTANA (PSDB-MG), sobre a presidente ter desautorizado o titular do Planejamento, que anunciou mudança na correção do salário mínimo.

CONTRAPONTO

Fora do governo, mas na luta


Ao chegar ao coquetel do Itamaraty após a posse de Dilma Rousseff, na quinta-feira (1), Luiz Trabuco , presidente do Bradesco, cumprimentava convidados quando encontrou o ministro Thomas Traumann, da Secom. Como o ministro estava cercado por jornalistas, Trabuco se aproximou do grupo e brincou: –Thomas, se eles te tratarem mal me chama que também sou bom de briga! Traumann gargalhou e agradeceu a “ajuda” de Trabuco, que foi convidado pela presidente para o Ministério da Fazenda antes de Joaquim Levy, mas recusou.

05 de janeiro de 2015 | N° 18033
EDITORIAL ZH

EDUCAÇÃO CONTRA A CORRUPÇÃO

A prioridade à educação deve ser traduzida em ações concretas imediatas, que representem benefícios pessoais e avanços éticos coletivos.

Ao reafirmar o compromisso de combate à corrupção, para se precaver contra os efeitos de escândalos do porte do que abala a Petrobras, e definir a educação como prioridade de seu segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff acabou aproximando ainda mais duas questões que estão interligadas. Países com menos corrupção conseguem investir mais em programas essenciais, como educação. Ao mesmo tempo, nações com melhor nível de ensino têm menos corrupção e melhores serviços públicos.

A razão é clara: cidadãos mais educados têm mais acesso à informação, praticam e cobram mais ética e mais retorno dos impostos que pagam. Os dados do Pisa avaliação feita a cada três anos pela OCDE em 65 países confirmam uma relação evidente entre essas duas questões, o que reforça a necessidade de o compromisso ir muito além das pretensões de início de novo mandato.

Essa é a ressalva que se faz à manifestação de boas intenções da presidente. Se ficar na retórica, como boa parte de seus planos para o primeiro mandato – incluindo os que não evitaram a estagnação econômica –, o governo terá, ao final de mais quatro anos, frustrado expectativas que não podem ser criadas impunemente. O compromisso com o lema lançado durante seu pronunciamento de posse, “Brasil, pátria educadora”, terá de se traduzir em ações que até agora não fizeram parte das prioridades do Planalto.

Tanto que o Brasil continua nas posições retardatárias do ranking Pisa, com performances vergonhosas. Na lista de 2014, por exemplo, baseada em dados de 2012, nossos estudantes do Ensino Médio ficaram em 38º lugar, entre alunos de 44 países, em exames de matemática. O desempenho também foi pífio em leitura. Ficamos atrás de chilenos, uruguaios, romenos, tailandeses.

A situação ideal, em que avanços sociais andem ao lado de conquistas na educação, já foi desperdiçada pelo Brasil. Precisamos agora compensar o erro de ter dado atenção apenas ao acesso à Universidade, enquanto o Ensino Básico era negligenciado. Nesse sentido, os governos da senhora Dilma Rousseff e de seus antecessores foram descuidados com as oportunidades surgidas, enquanto ocorria a melhoria generalizada na qualidade de vida da população.


Investir em educação é dar solidez a conquistas que não podem se restringir a ganhos representados por emprego e renda. Países asiáticos têm provado, com a cultura da responsabilidade, que cidadãos melhor educados propiciam progressos particulares, que são compartilhados por todos. Uma pátria educadora será também uma nação mais ética.

5 de janeiro de 2015 | N° 18033
CARREIRAS| OPORTUNIDADES À VISTA

Quase 29 mil cargos públicos abertos em 2015

Número é superior ao do ano passado, quando foram oferecidas 20 mil vagas. Economia instável deve aumentar concorrência entre os candidatos
Este ano pode ser promissor para quem deseja conseguir um trabalho no setor público. A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2015 prevê a criação de 28.957 cargos, fora as vagas de reposição, em caso de aposentadoria ou demissão do servidor.

O número é maior do que o do ano passado, quando foram realizados concursos com menores índices de postos oferecidos – o maior teve cerca de 700, em um total de 20 mil criados em 2014.

Das vagas para previstas para 2015, 13.974 são para o Poder Executivo, em órgãos como o Banco Central, a Receita Federal, o Ministério da Fazenda e o INSS. Outros cerca de 15 mil cargos são para a área de Justiça, como tribunais (9.177), Defensoria Pública (3.897) e Ministério Público da União (1.879).

Entretanto, a concorrência também deve aumentar, em razão do quadro de estagnação econômica.

– Quando a economia dá sinais de problemas, é normal que as pessoas se voltem para a carreira pública. Então, 2015 será um ano também com muitos concorrentes – diz o vice-presidente do Damásio Educacional e presidente da Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos (Anpac), Marco Antônio Araújo Jr.

CORTE DE GASTOS NÃO DEVE ALTERAR O QUADRO

Para Araújo, a expectativa de cortes de gastos do governo federal não deve influenciar o quadro.


– É um discurso padrão porque vagas públicas são sempre motivo de discórdia com a população, mas é algo que efetivamente é difícil de ser cortado. No máximo, o número de vagas previstas pode diminuir – opina.

05 de janeiro de 2015 | N° 18033
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

“The Wire” e a grande literatura na televisão

Ano novo é tempo de revisar o passado, eu acho. O novo ainda é novo demais para nos dizer alguma coisa e, portanto, em vez de perder tempo com o que ainda não houve, melhor olhar para o que houve e deixou marcas. A maravilhosa série The Wire, por exemplo.

The Wire não teve grande audiência e não recebeu prêmios, o que não quer dizer coisa alguma. Todo mundo sabe que essa série é uma das melhores coisas jamais feitas na nova TV, e se você já curou a ressaca do final do ano, arrume um jeito de ver. Ela teve cinco temporadas e foi produzida pela HBO, grande HBO.

The Wire é a história de um grupo de policiais que tenta fazer alguma coisa contra o crime organizado na cidade de Baltimore, sabendo, desde o começo, que as chances estão entre mínimas e nenhuma. A série é pessimista, em um país que detesta pessimismo. Ela é realista, em um país que detesta realidades desprovidas de um bom Photoshop.

Ela é implacável nas suas leituras, atenta aos detalhes, recheada de humanidade, como todo grande romance deveria ser. O escritor de The Wire foi repórter policial em Baltimore e resolveu falar do que conhecia, ajudado por um detetive da cidade. Ele explicou a todo mundo, inclusive o prefeito, que a série não ia dar moleza ou querer mostrar o lado bom das coisas. A intenção era produzir arte, poesia, e não um folheto para a secretaria de turismo. Avisados, todos toparam, e a série se fez, indo ao ar entre 2002 e 2008.

Um dos maiores personagens é o antitraficante Omar Little, que tem entre seus fãs de caderninho o presidente Obama. Omar é gay, não leva desaforo para casa e vive de roubar traficantes para vender os seus produtos. A trajetória de Omar na série é um dos maiores momentos da TV de qualquer tempo, assim como a trajetória do suave e perdido drogadito Bubbles, ou dos meninos de escola na quarta temporada.

The Wire é um troço. Ver aqueles episódios e sua elegantíssima construção é entender que a televisão começou a virar tantas coisas que finalmente virou romance, daqueles com muitas páginas, muitos personagens relevantes, muitos significados espalhados por todo lado.


The Wire é um encontro entre Dostoiévsky e Tolstoi, sem os russos. Ganhamos todos e, para isso, basta ver. Portanto, veja.

05 de janeiro de 2015 | N° 18033
DAVID COIMBRA

É bom ser da imprensa burguesa

Eu faço parte da imprensa burguesa. É legal. Todo dia 5 recebo meu salário direitinho e não dependo de financiamento oficial. Quer dizer: não preciso ficar elogiando o governo. Já pensou ter de elogiar, por exemplo, a nomeação de Aldo Rebelo como ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação?

Seria dureza.

Não que ache Aldo Rebelo má pessoa, não o conheço o suficiente para dizer se ele é boa ou má pessoa, mas, por sua atuação como homem público, posso, sim, dizer que o homem é uma espécie de inimigo exatamente da ciência, da tecnologia e da inovação.

Aldo Rebelo, imagine, foi autor de um projeto que propunha proibir a adoção de inovações tecnológicas nos órgãos públicos, com a justificativa de preservar empregos. Não é uma ideia nova. Alguns já a tiveram no começo da Revolução Industrial. Mas, de lá para cá, caiu em desuso, como a sangria como método terapêutico.

O raciocínio do ministro é o seguinte: para assegurar o trabalho das datilógrafas e dos operários das fábricas de máquinas de escrever, não haveria computadores no serviço público brasileiro. Sério! O ministro da Inovação Tecnológica apresentou um projeto contra a inovação tecnológica!

Outro projeto, digamos, original de Aldo Rebelo foi aquele famoso que queria proibir o uso de palavras de raiz estrangeira no Brasil. O YouTube, por exemplo, seria chamado de “Tutubo”. Nessa linha nacionalista há outra proposta de Aldo Rebelo, esta mimosa: a de substituir as festinhas de Halloween pelo Dia Nacional do Saci-Pererê.

Para evitar que você comece a chorar de rir, vou citar só mais um projeto do nobre parlamentar comunista (só podia). É o célebre “Pró-Mandioca”, que obrigaria o acréscimo de 10% de raspa do brasileiríssimo aipim à farinha de trigo da qual se faz o pão.

Mas vá que você não ache importante esse ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Certo. Talvez não seja muito importante mesmo. Mas o da Educação é, não é? Claro que é, inclusive o novo lema do governo é “Brasil, pátria educadora”. Lindo. Só que o flamante ministro da Educação, Cid Gomes, diz que os professores não devem trabalhar por dinheiro. Segundo ele, o presidente, os ministros, os senadores, os governadores, os deputados, os vereadores, os policiais e os professores devem trabalhar só por amor; se quiserem dinheiro, devem procurar a iniciativa privada. Parece que os professores e os policiais concordam com o ministro, eles só trabalham por amor. Agora falta convencer os senadores, governadores, deputados, ministros, vereadores...

Isso ainda é pouco, acredite, porque o novo ministro dos Esportes, um pastor com apropriado nome de lateral-direito, George Hilton, foi expulso do PFL sob acusação de corrupção.

Vou repetir: ele foi expulso do PFL por ser acusado de corrupção. Você entende o que isso significa? O homem foi expulso DO PFL! Do PFL, entendeu? Pê Efe Ele! Por corrupção!

Credo. Aliás, outros dois novíssimos ministros, Gilberto Kassab e Kátia Abreu, também vieram do PFL, e o Garotinho vai para uma vice-presidência do Banco do Brasil, e o ministro dos Transportes enfrenta processos na Justiça e já foi condenado a devolver R$ 70 milhões aos cofres públicos, e a Petrobras...

Deixa assim.


É o que basta para me solidarizar com os jornalistas sustentados pelo governo e que têm de achar meios de elogiá-lo. Vou continuar aqui, na trincheira segura da imprensa burguesa, criticando o governo de vez em quando. Pelo menos até o PT conseguir aprovar seu famoso projeto português de censura. Aí, bom, sempre posso contar para vocês como o marido da Gisele Bündchen se saiu no jogo dos Patriots.

05 de janeiro de 2015 | N° 18033
MOISÉS MENDES

Fala, Daroit

Escrevo este texto para ser lido no smartphone pelo caroneiro de um motorista que trafega agora pela freeway, enquanto o Felipe Daroit avisa pela Gaúcha que passam no pedágio 58 carros por minuto.

Você aí que não larga o celular sabe o que significa voltar na segunda-feira, atucanado e com demandas pesadas na repartição, quando sabia que o melhor era ter voltado na sexta. Muita gente fez isso. Saiu de Porto Alegre na quinta à tarde, chegou em Capão, reuniu a família à noite, comeu pizza, bebeu o champanhe que sobrou da ceia, dormiu e voltou na sexta.

Na sexta pela manhã eram apenas 25 carros por minuto no sentido praia-Capital. Mas, no seu caso, alguém decidiu que o melhor era esperar para voltar na segunda-feira, apesar dos alertas do Felipe Daroit.

Você sabe, porque estuda há anos os fluxos da freeway, que o movimento numa sexta-feira, Capital-litoral, num feriadão, fica entre 65 e 70 carros por minuto. No sábado cai entre 10% e 15%. Na volta, no sábado, o pico chega a 82 carros, aí pelas 21h. Ontem pela manhã, eram 85 carros por minuto. Até uns 15 anos atrás, você só prestava atenção nas previsões do Cléo Kuhn. Agora, a atração é o Felipe Daroit.

Conheço um casal, com mansão em condomínio de Atlântida, que há quatro anos não pisa no mar. Desembarcam no sábado pela manhã e já começam a tomar mate. Até domingo ao meiodia, pouco antes de iniciarem o retorno, tomaram umas oito termos ouvindo o Daroit.

Os dois estão sempre preparando a ida e a volta da praia. Nem dão bola para o Cléo Kuhn. Não importa se o Nordestão está a 134 km/h, se haverá ciclone. Interessa a volta. Ouvem as previsões de fluxo e participam de apostas com casais amigos, para saber quem acerta a hora exata do menor movimento.

Pelas estatísticas deles, chegará o dia em que estarão voltando da praia antes mesmo de terem ido. E também está perto o dia em que todos farão o que vocês aí no carro estão pensando agora: venderão a casa em Capão Novo e comprarão apartamento de um quarto na Serra.

Os filhos não fazem mais companhia mesmo, e essa história de estudar o fluxo dos carros perdeu a graça. Cinco casais por minuto pensam exatamente isso, em trocar o mar pela mata.


Imagine o Felipe Daroit no belvedere: tentam passar neste momento, aqui na tranqueira de Morro Reuter, três carros e meio por minuto...

05 de janeiro de 2015 | N° 18033
L. F. VERISSIMO

O resgate

A palavra mais bonita da língua portuguesa é “sobrancelha”, a mais feia é “seborreia” e a mais esdrúxula é “esdrúxulo”. Fui me informar de onde vinha a palavra “esdrúxulo”, para podermos um dia mandá-la de volta, e descobri que sua origem é o italiano “sdrucciola”, ou “con l´accento sulla terz´ultima sillaba”. Uma “parola sdrucciola” é uma proparoxítona e um “verso sdrucciolo” é um verso que termina numa proparoxítona.

Era esse o sentido da palavra “esdrúxulo” no português também, até se darem conta de que, como acontece com muitas palavras, ela estava sendo mal aproveitada. Seu sentido real não era o seu sentido correto. (Outro exemplo disso é “plúmbeo”, que quer dizer, oficialmente, relacionado com o chumbo, mas é obviamente o som de alguma coisa caindo na água).

E você não pode ter uma palavra como “esdrúxula” no vocabulário sem usá-la para descrever coisas tão, assim, esdrúxulas que nenhuma outra palavra as descreveria melhor. Ainda mais que temos “proparoxítona” (apesar de parecer nome de remédio), um nome perfeitamente adequado para uma palavra com o acento na antepenúltima sílaba. Livre do seu sentido antigo, “esdrúxulo” transformou-se em sinônimo de extrema esquisitice. Mas, mesmo com seu novo significado, a palavra caiu em desuso, pela absoluta falta de oportunidades para empregá-la. Foi sendo cada vez menos usada entre nós. Até surgir o segundo ministério da Dilma.

Se não tiver nenhuma outra consequência na vida nacional, o segundo ministério da Dilma terá servido para recuperar o uso da palavra “esdrúxulo” no Brasil. Seu sentido real foi resgatado.


Só “esdrúxulo” descreve o sorteio de cargos para assegurar alianças inexplicáveis, as escolhas na área econômica feitas especificamente para obedecer aos bancos e alegrar o “mercado” (no momento em que, na Europa martirizada pelos bancos e pelo mercado, “responsabilidade fiscal” é cada vez mais desculpa para irresponsabilidade social e “austeridade” vira palavrão) – sem falar na Kátia Abreu cuidando da Agricultura e no filho do Jader cuidando dos peixes. “Estranho” é um adjetivo inadequado para o segundo ministério da Dilma. “Maluco” é pouco. “Inacreditável” também. “Esdrúxulo” é a palavra. Não tem outra.

sábado, 3 de janeiro de 2015


04 de janeiro de 2015 | N° 18032
MARTHA MEDEIROS

Pensar nunca funcionou

O músico uruguaio Socio compôs uma balada linda que se chama Fan de Faith no More e que escuto com frequência, apesar de uma parte da letra me intrigar. Lá pelo meio da canção ele diz pensar nunca funcionou, e a cada vez que ouço esse verso, penso: não, Socio, não é bem assim.

Logo me ocorrem várias experiências que vivi que só foram compreendidas através do pensamento, e todas as boas conversas que tive com amigos e que resultaram em mudanças de pensamento, e tudo o que escrevi movida pelos meus pensamentos, e todas as noites em que perdi o sono por causa dos meus pensamentos, e todos os filósofos que formataram e deram sentido aos meus pensamentos, e todas as consultas ao psicanalista em que meus pensamentos foram cirurgicamente dissecados, e todas as discussões que brotaram porque meus pensamentos não combinavam com os dos outros, e todas as escolhas que fiz só depois que o meu pensamento autorizou, sem falar na superioridade que o ser humano se outorga por ter o privilégio de pensar e os bichos não.

Com que topete vem alguém dizer que pensar nunca funcionou? A maior prova de que pensar funciona é que depois de muito pensar nesse verso acabei chegando à conclusão de que ele revela uma verdade, só que foi mal transmitida.

Pensar demais nunca funcionou. Faltou o advérbio de intensidade.

Pensar, a gente pensa mesmo que não queira. Estamos condenados à atividade cerebral, cada um fazendo bom uso ou mau uso dos neurônios que têm. Não é a isso que Socio se refere na música, imagino. Ele se refere a pensar demais. O demais ficou subentendido, é o que deduzo.

Pensar demais é uma insanidade, o que explica o fato de nós, mulheres, sermos todas meio dementes. Pensar demais é um autoboicote, pois depois que se atravessa a fronteira do pensamento controlado e se entra no território do pensamento obsessivo a cabeça da criatura começa a fundir e a soltar fumacinha, até a explosão final.

Pensando demais, a gente ultrapassa a sensatez e vai dar numa zona de turbulência que faz alguns parafusos se soltarem da fuselagem. A coerência desaparece e a fantasia assume o manche. Deveria haver uma sinalização de alerta quando a gente começa a pensar demais: desastre a 100 metros, desastre a 50 metros, desastre na próxima curva – pare!

Pensar demais é desperdiçar um tempo em que você poderia estar amando demais, se divertindo demais e levando a vida a sério de menos. É uma corrida em que sempre se passa voando pelo ponto de chegada, perdendo o rumo. É não ter freio para evitar o descarrilamento de ideias que nunca serão recolhidas, ficarão largadas na pista, sem dono. Pensar demais é uma estrada sem limite de velocidade, um convite ao desatino.


É o que penso. Moderadamente, como é recomendável.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Preto ou branco

Novo ano, novos governos, mas sob a sombra de um velho vício no debate público brasileiro – continuar a pensar no mundo como tendo uma divisão nítida, preto e branco, nós e eles. Ano passado, com a eleição, todo mundo viu como e quanto ficamos reféns de uma visão simples, muitas vezes simplória, de oposição pura e simples entre duas posições.

O formato do segundo turno exacerba essa percepção, e tudo ficou ainda mais quente porque estavam em confronto candidatos dos dois partidos que, no fim das contas, são os únicos, depois da redemocratização, que têm programa e se viabilizaram eleitoralmente (outros há com apenas uma das duas características – sem programa mas viáveis, com programa mas inviáveis).

A situação me lembrou bastante o tempo da minha adolescência, anos 1970, quando também havia basicamente duas posições – contra a ditadura e a favor dela. Foi uma das facilidades da experiência de minha geração, ter inimigo nítido, que dava asco mas contribuía com sua visibilidade para a nossa organização mental e afetiva. Quem concordava era nosso inimigo, e logo depois ficou também claro que quem calava estava consentindo, ao passo que nós outros fomos para a rua, ajudamos a fundar partidos, quando pouco boicotamos algum ato oficial, deixamos o cabelo crescer para além dos padrões anteriores, deixamos desbotar as calças.

Tive a sorte congênita de apreciar a ironia e o humor, que encontravam no Pasquim expressão superior – Ivan Lessa acima de todos. Depois vieram Machado de Assis e Nelson Rodrigues. Isso me livrou da ortodoxia para sempre. Bem sei que há momentos-limite em que só há duas posições, e então ou se é isso ou se é aquilo, sem meios-termos. Mas quase sempre há, deve haver, mais de duas possibilidades, sobretudo no reino do pensamento, da reflexão, do comentário, seja ele no bar, no churrasco com os amigos ou na profissão.

Para a criação artística, a existência de apenas dois polos é mortal. A boa arte, pode-se ver ao longo dos tempos, é sempre aquela que escapa das trampas ideológicas, muitas vezes apesar ou além da consciência dos criadores, que até podem ser partidários disso ou daquilo. Arte a serviço do que quer que seja é uma chatice abominável.

Em nossos dias, continuam acesas as diferenças, por motivos antigos, mas também por novos, como a existência da internet e das ditas redes sociais. Isso mudou o modo pelo qual as pessoas, eu ia dizer comuns, vá então “comuns” em aspas, se relacionam com a opinião até há pouco exclusiva – políticos, figuras da imprensa, o padre, o professor, o jogador de futebol.

Desdobramento lateral: agora que todo mundo toma a palavra, o prezado leitor viu que não há mais ironias contra a precariedade de expressão dos boleiros? Antes era uma pegação de pé impressionante, preconceituosa até. Os jogadores de futebol hoje vêm de trajetórias sociais menos marginais, ou então dão um jeito de decorar a fala característica do mundo da bola, aquela algaravia interminável, quase sempre mera espuma, sem consequência ou permanência.


O Rio Grande do Sul está acostumado, há mais de três séculos, a pensar e agir de modo polarizado, também no futebol. E não parece que essa experiência toda nos livre deste mal tão logo.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
ANTONIO PRATA

2014: noves fora, sete

Logo depois da tragédia foi aquele Deus nos acuda. Parecia que ia cair o presidente da CBF, a presidente da república, iam cancelar o Domingão do Faustão, mudar o carnaval pra agosto e transferir a capital brasileira pra Buenos Aires (ou Berlim?). Nos últimos meses, contudo, o choque foi passando e deixamos de tocar no assunto, mas tenho certeza de que lá longe, num futuro distante, quando olharmos pra trás e nos perguntarmos “E em 2014, hein?

Que que aconteceu, mesmo?”, não lembraremos da Dilma nem do Aécio, do início da abertura em Cuba ou da pá de cal no Orkut, do pouso da sonda Rosetta ou da ascensão do pau de selfie: engoliremos em seco e diremos, ainda aflitos diante da recordação; “ah, foi o ano do 7 X 1”.

Naquela terça terçã, 08 de julho, havia no Mineirão cinquenta e oito mil cento e quarenta e um torcedores – e esse um era eu. Quando saí do estádio – perplexo, atordoado –, meu telefone começou a tocar. Eram amigos, primos, tios, meu pai. Perguntavam como tinha sido a experiência, in loco, mas queriam mesmo era conferir, desconfio, se eu estava vivo. A coisa tinha sido tão absurda que não seria fora de lugar se um daqueles chutes da Alemanha, em vez de fazer o oitavo gol, houvesse me acertado a testa.

Absurdo: essa talvez seja a melhor palavra pra descrever o que se passou naquela tarde. Quando, aos 29 minutos do primeiro tempo, Khedira recebeu livre próximo à marca do pênalti e chutou no canto direito do gol brasileiro, marcando o quinto tento teutão, eu senti uma aflição profunda e não inteiramente desconhecida. Fechei os olhos, folheei mentalmente meu caderninho de angústias e descobri o que era: uma bad trip de ácido. Você sabe que está embarcando numa viagem ruim, sabe que vai piorar e sabe que não há nada que possa fazer para alterar o destino. Resta render-se aos entulhos mais fedidos do seu subconsciente e esperar que passe o efeito.

Num estádio, no entanto, não há a alternativa da rendição. Afinal, ali, cada torcedor tem a ilusão delirante de ser capaz de mudar o destino do jogo. Tudo bem, em casa você também acha que pode influenciar no resultado passando do Sportv pra ESPN e da ESPN pra Band e da Band pra Globo e da Globo pro rádio AM, trocando de cueca ou comendo amendoins com a mão esquerda, mas todo ser racional sabe que a mandinga funciona bem melhor de corpo presente do que via cabo ou satélite. E se trocássemos de lugar? E se cantássemos o hino, de novo? (Ou Aquarela do Brasil?) E se vaiássemos?

Durante os 60 lodosos minutos que se seguiram ao quinto gol, cada torcedor fez o que achou necessário, criando uma cacofonia bisonha. O Mineirão parecia um gigantesco formigueiro mijado. O equilíbrio só se restabeleceu nos últimos minutos: a torcida brasileira vaiava em uníssono, enquanto a torcida alemã cantava, a plenos pulmões: “Brasil! Brasil! Brasil!” – e tenho certeza de que eles não estavam sendo irônicos, estavam era com pena, tentando dar uma força.


Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete – e um nosso, no finalzinho, como a azeitona no dry martini (deles). Absurdo.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
PAULO SANT’ANA

O domínio da Terra

Sempre fui um atento leitor sobre tudo que se refere à II Guerra Mundial.

Isso encorajou-me a fazer nesta coluna um despretensioso ensaio sobre como foram possíveis o surgimento e a desenvoltura de Adolf Hitler nas rédeas alemãs.

A pergunta-chave desta questão é se Hitler, com sua índole belicista, se encorajou sozinho a arremessar a Alemanha contra o resto do mundo – ou a vocação tradicionalmente bélica alemã foi que fez surgir das entranhas da pátria nazista um movimento que pretendia conquistar o mundo pelas armas.

Ian Kershaw, sem dúvida o maior biógrafo de Hitler, em seu grosso volume de 1.077 páginas, que li por inteiro, tentou responder a essa pergunta.

Em vão. O que aquela monumental obra acabou por realizar foi semear ainda maiores dúvidas sobre essas indagações.

Muita gente não sabe que Hitler era austríaco. E o menino Adolf, filho de um funcionário público, acabou por sair da Áustria para tentar dominar o mundo, mas via Alemanha.

Como chegou até lá e o seu trágico fim o mundo inteiro o soube: suicidou-se com sua amante Eva Braun em Berlim, pondo fim assim à guerra mundial.

Mas o que me fascina e intriga na história de Hitler é se foi ele que levou a Alemanha à suprema loucura da guerra ou se foi o intrínseco genoma bélico alemão o fator decisivo para Hitler jogar a Alemanha no despenhadeiro.

Lendo a história de Hitler, quase posso afirmar que os dois fatores se combinaram: Hitler precisava de uma Alemanha industrial e bélica para desenvolver seu projeto e, por sua vez, a Alemanha tinha de ter um grande líder que a arremessasse para o sonho alemão de domínio mundial.

Foi assim que do ventre austríaco-alemão brotou o fruto podre de Hitler sem que ninguém jamais o tivesse abortado.

O fato é que sem dúvida nenhum outro homem como Hitler empreendeu tão vastamente a conquista da Terra, nem Átila, nem Gengis Khan, nem César.

Ele foi talvez o maior estrategista militar entre os terrenos. Teve o mesmo fim, talvez mais trágico, que seus antecessores na ambiciosa tarefa de conquistar a Terra com uma campanha, exceção talvez aos Estados Unidos, que dominam o planeta manejando uma simples moeda, o dólar.

MEUS LEITORES
Sobre “O céu de Punta”, publicada em 28/12/2014

Sr. Paulo Sant’Ana

Estou escrevendo esta crítica porque não concordo com o que o senhor falou de Punta del Este. Primeiro acho que as águas de Punta del Este não são nada geladas, e os turistas que mergulham lá mergulham porque gostam, eles não se importam se a água é quente, gelada ou morna. Acho que o senhor é um ignorante por ter falado que não há um negro ou negra em Punta del Este. Posso saber de onde o senhor tirou esse dado? Usualmente não leio suas críticas porque tenho 12 anos, mas, como a minha mãe ficou tão indignada, resolvi ler, e achei uma idiotice atrás da outra. Quando o senhor deixar de se trancar em um cassino e comer pêssegos doces verá que Punta del Este vai além das suas observações. Por último, sugiro-lhe visitar o Museu do Mar, que explica toda a história de Punta del Este.

RODRIGO NOCCHI GUERRA

Resposta:

Rodrigo, você tem apenas 12 anos, ainda tem muito que aprender, como eu aprendi. Mas está no rumo certo, discordando de mim. O maior negócio do mundo, atualmente, é discordar de mim.

O MELHOR DE MIM

(Pensamentos extraídos do meu arquivo de colunas:)

O tédio é irmão gêmeo da rotina. A tristeza é irmã gêmea da mesmice. Para sair deles e não se deixar arrastar para a depressão, na maioria das vezes é preciso a coragem de mudar.

A memória é que mantém o homem preso a sua vida .

É preciso provocar momentos felizes, cavoucar nas circunstâncias da gente.


A felicidade consiste na coletânea e recordação de grandes momentos, de instantes de rara alegria, de passagens de imorredouro encantamento.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
MOISÉS MENDES

O fim do mundo

Stephen Hawking é o personagem do filme A Teoria de Tudo, que estreia neste mês em Porto Alegre. Desde os 21 anos, o físico britânico convive com a doença degenerativa que o imobiliza. Hawking chegou aos 72 anos. Alguns médicos diziam que talvez não passasse dos 50.

Para se expressar, ele movimenta a bochecha e aciona um complexo sistema computadorizado que forma palavras. E assim Hawking circula, naquela cadeira de rodas superequipada, contrariando o que é dito sobre seu futuro.

É dele uma teoria sobre o provável fim do Universo. O mundo pode se evaporar, a qualquer momento, por causa do bóson de Higgs.

Você já ouviu falar das experiências para provar a existência da tal partícula de Deus e sabe que ela tem relação com o início da criação do Universo. Agora, Hawking nos diz que pode também vir a ter alguma culpa pelo seu fim. O Universo desapareceria num vácuo e se extinguiria como uma bolha de sabão.

O bom da teoria de Hawking é que pode não ser levada a sério, como ele mesmo não deve levar muito em conta as previsões sobre o seu próprio fim. E, se o bóson de Higgs é que acabará com o Universo, talvez isso aconteça antes do sumiço da Terra.

Vamos cuidando da nossa vidinha, do jeito que dá, sem preocupações com a sobrevivência do ambiente que nos sustenta, porque o bóson fará o serviço completo.

Não entendo nada do bóson, por mais que me esforce. Não tenho referências que me instrumentalizem a refletir sobre a partícula de Deus. Mas entendo quase tudo do que diz o economista Gesner Oliveira, especialista em recursos hídricos.

Gesner foi presidente da Sabesp, a companhia de água de São Paulo, e conhece o que acontece na região metropolitana. Li uma entrevista dele na Folha de S. Paulo. O que ele diz, para qualquer um compreender, é:

– Os hábitos brasileiros em relação à água ainda são carnavalescos.

Gasta-se água porque a água cai do céu. Em São Paulo, mesmo que não caia, continuam gastando e raspando represas para ressuscitar seus volumes mortos.

O Brasil desperdiça 37% da água tratada. Lava-se carro com água tratada. Lava-se calçada. Novas Cantareiras não aguentariam tanto desperdício. No início do segundo semestre de 2014, quando a seca piorou, a prefeitura de São Paulo constatou que a redução média no consumo era de 16%.

Nos bairros ricos, da área chamada genericamente de Jardins, o consumo caiu 7% no primeiro semestre (e esta região já consumia 39% mais do que o resto da cidade). Nos bairros pobres, a economia chegou a 20%.

Quem mais consome e mais poderia reduzir desperdício, menos economizou. Quem usa água para beber e para banhar-se sensibilizou-se com os apelos da prefeitura.

Para Gesner, os que não poupam água não se deram conta de que “acabou o mundo da fantasia”. Alguns ainda continuam achando, não só em São Paulo, mas em toda parte, inclusive aí em Dom Pedrito, em Erechim e nas cidades às margens do Rio dos Sinos, que água é um recurso sem fim.


Não entender o bóson de Higgs como ameaça real é exercer o direito à ignorância. Poluir rios e desperdiçar água tratada, depois do muito que se falou no assunto nos últimos 20 anos – e depois da seca bíblica em São Paulo –, é bem mais do que pensar só nos próprios jardins.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
L. F. VERISSIMO

Recenseamento

No samba do Assis Valente Recenseamento, o “agente recenseador” vai ao morro e esmiúça a vida da cantora. Quando vê a sua mão sem aliança, encara para a criança que dorme no chão e pergunta se o seu moreno é decente, do batente ou da folia. Um agente recenseador moderno esmiúça a vida dos cidadãos até um certo ponto, e é inimaginável que se meta em pormenores como o do samba. Não lhe interessa se o moreno da cidadã é decente, do batente ou da folia. Na minha opinião, talvez devesse voltar a interessar. Olha aí, IBGE.

– Notei que a senhora não usa aliança...

– Não sou casada. – E essa criança?

– Tenho um moreno. – E ele é decente? – Como assim?

– É do batente ou da folia? – Precisa responder isso?

– É obrigatório. Olha aqui os espaços no questionário: “Batente” ou “Folia”. Preciso preencher um.

– Então bota aí “Batente”, mas não muito.

Entende, IBGE? “Batente” ou “Folia” representaria mais do que apenas estar empregado ou preferir a gandaia. Ser do “Batente” significaria ser um cidadão honesto, trabalhador, bom provedor da família. Em suma, decente. Já a categoria “Folia” englobaria todas as maneiras possíveis de ser o oposto de “Batente”. Folia, no caso, não seria sinônimo só de festa, de Carnaval o ano inteiro. Incluiria corrupção, pequenas e grandes falcatruas, mau caráter em geral...

Claro, “Batente” e “Folia” não seriam categorias estanques. Um cidadão pode ser do “Batente” mas estar desempregado. Ou pode estar empregado, trazendo dinheiro pra casa, ajudando a cidadã a criar as crianças, mas sendo, disfarçadamente, da “Folia” também. E muitos recenseados que se declaram decentes podem estar mentindo. Mas acho que, mesmo imperfeito, um recenseamento bisbilhoteiro como o do samba nos daria uma boa ideia do caráter da maioria do povo brasileiro. Os do “Batente” superariam os da “Folia”, longe.


Na letra do Assis Valente, a cantora diz: “Fiquei pensando e comecei a descrever tudo, tudo de valor que o meu Brasil me deu. Um céu azul, um Pão de Açúcar sem farelo, um pano verde e amarelo, tudo isso é meu. Tem feriado que pra mim vale fortuna, a Retirada da Laguna vale um cabedal. Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia, um conjunto de harmonia que não tem rival”. Mas o samba também diz que na casa da cidadã e seu moreno “tem um pandeiro, tem cuíca e tamborim, tem reco-reco, cavaquinho e um violão”. Quer dizer, folia no bom sentido.

RUTH DE AQUINO
30/12/2014 08h00

Muda, Brasil

2014 desmoralizou os videntes, com o petrolão, a morte de Campos e o 7 a 1. Mas aí vão minhas apostas para 2015

O ano de 2014 desmoralizou qualquer astrólogo, numerologista ou jornalista metido a fazer apostas sobre o Brasil. A goleada humilhante de 7 a 1. A morte trágica de Eduardo Campos. As reviravoltas nas eleições. O petrolão, com o roubo de bilhões. Esses cataclismos somados tornam uma irresponsabilidade o texto abaixo. No ano passado, fiz meus votos ao presidente que fosse eleito em 2014. A julgar pelo que aconteceu, éramos ingênuos e não sabíamos. Dilma Rousseff também não sabia de nada. Eis minhas apostas para 2015.

O mordomo, aliás, o doleiro será o único a continuar preso até o fim do próximo ano.

A Papuda será transformada provisoriamente num resort, com jacuzzi nas celas, para se adaptar ao novo estilo de presidiário itinerante. Fará convênio com o Copacabana Palace para fins de semana semiabertos na suíte favorita de Lula e Gisele Bündchen.

Dilma Rousseff voltará a falar. Mas levará tempo. Está rouca de tanto engolir os sapos do Lula. Nenhuma refinaria será aprovada em 2015. Virou sinônimo de regrosseria.

A delação premiada virará moda nos presídios e nas favelas comandadas por traficantes e milicianos.

Bombeiro nenhum conterá os vazamentos. Ou o desabamento das ações da Petrobras.

Dona Marisa achará pequeno o tríplex no Guarujá e pedirá ao marido Lula um quadrúplex.

Paulo Roberto Costa abrirá uma empresa de consultoria para bandidos arrependidos e escreverá um best-seller definindo o que é “offshore vermelho”.

Sergio Moro perseguirá falcatruas até no Supremo. Ninguém segura mais o homem com jeito de bom moço. Silvio Berlusconi teme que Moro peça cidadania italiana.
Venina, a menina veneno da Petrobras, mostrará outros e-mails matadores e estrelará a nova temporada da série Downtown Brasília.

Graça Foster será promovida por Dilma. A qualquer coisa. Imperatriz do pré-sal, imperatriz leopoldinense, não importa. Sem Graça, Dilma não fica. Uma não vive sem a outra.
O novo Enem (Exame Nacional de E-Mails), a ser criado por Dilma em 2015, tem o objetivo de ajudar Graça a melhorar o nível de interpretação de texto.
Joaquim Levy, o Clark Kent da equipe ministerial, ajustará até a saia da Dilma. Só que ela esconde na manga uma pedra de kriptonita.

Cuba também investigará as contas da Petrobras. E o mojito desbancará a caipirinha no gosto dos americanos.

Carteiradas de juízes para levar vantagem pessoal serão finalmente extintas, porque ninguém mais leva a sério.

Motoristas de ônibus e vans não terão mais raiva assassina de ciclistas e pedestres.

O Congresso só aprovará reforma da cozinha. Deputados e senadores esticarão o recesso para aproveitar as últimas boquinhas e os últimos jatinhos emprestados.

Parlamentares acharão pouco o aumento de seus vencimentos, de R$ 26.700 para R$ 33.800.
A lista dos políticos envolvidos com o amigo oculto Alberto Youssef só será divulgada após o Carnaval por “excesso de trabalhos” em 2014. Você acredita?

O Botafogo pedirá audiência ao papa Francisco, para que ele revele a mandinga que fez para que seu clube, o San Lorenzo, fosse campeão da Libertadores.

A Baía de Guanabara será despoluída. O Gastão, sobrinho do Tio Patinhas Alckmin, será multado em 50% de suas contas se consumir mais água do que deve. Paulistas caíram como patinhos na lagoa seca.

Brasileiros de todas as classes sociais aprenderão a dizer “por favor”, “obrigado” e “desculpe”.



GUILHERME FIUZA
31/12/2014 08h00

O Brasil tem quatro anos para virar a Argentina

Ou levamos a investigação do petrolão até o fim – ou então já pode ir fazendo as malas

Uma grande empreiteira pagou R$ 886 mil a uma empresa de José Dirceu e obteve, em seguida, um contrato com a Petrobras no valor de R$ 4,7 bilhões, para realização de serviços na Refinaria Abreu e Lima. Para quem não lembra, essa é a famosa obra que multiplicou seu valor original pelo menos três vezes e passou dos R$ 40 bilhões. A reportagem de ÉPOCA que mostra a triangulação camuflada sob uma “consultoria” de Dirceu ajuda a entender por que essa refinaria ficou 200% mais cara que ela mesma. Há um outro sócio fundamental dessa transação: o eleitor de Dilma Rousseff.

Essa triangulação, descoberta pela Polícia Federal na blitz conhecida como “Dia do Juízo Final”, se deu entre 2010 e 2011. Exatamente quando Dilma ascendia à Presidência. E Dirceu já era réu no processo do mensalão. As cartas já estavam na mesa, e os anos seguintes apenas as revelaram: Dirceu condenado, e o petrolão descoberto.

Quando foi às urnas em outubro passado, o eleitor brasileiro já sabia de tudo: que cardeais petistas haviam plantado uma diretoria na Petrobras para roubar a empresa em benefício da sustentação de seu projeto de poder. Exatamente a mesma tecnologia do mensalão, também tramado de dentro do Palácio do Planalto. Quem votou pela reeleição de Dilma, mesmo que alegue esquerdismo, progressismo, coitadismo ou cinismo, é sócio político do esquema.

A pergunta é: o que será do Brasil nos próximos quatro anos? Algumas vozes respeitáveis têm oferecido um ombro amigo ao governo popular – não para que ele chore suas lágrimas de crocodilo, mas para que não caia de podre. É a tese de que o impeachment é pior para o país do que carregar por quatro anos um governo na UTI. Tudo bem. Só falta combinar com os russos. O segundo mandato de Dilma Rousseff nascerá desmoralizado no país e no exterior. Nesse cenário, como investir no Brasil? Como respeitar as instituições? Como concordar e se submeter às regras do jogo, se o juiz se vendeu na cara de todo mundo?

O mais ortodoxo dos contribuintes, aquele que jamais cogitou sonegar impostos, está revoltado com cada centavo que paga ao Fisco. Caiu a máscara social do PT – e agora todos já sabem que a trilionária arrecadação da União está a serviço de uma indústria de privatização da política. Daí os níveis de investimentos irrisórios, a estagnação da infraestrutura, o desperdício de uma década de bons ventos econômicos sem avançar um milímetro nos sistemas de saúde e educação – enquanto o sistema de corrupção cresceu admiravelmente (o mensalão é troco diante do petrolão), e o bom pagador de impostos não tem mais dúvidas: estão me fazendo de otário.

Traduzindo: o contrato republicano foi rasgado. Se o brasileiro não fosse essa doçura, o primeiro governista que falasse na volta da CPMF seria crucificado em praça pública. Por meio de um dublê de bobo da corte e ministro da Fazenda, o governo assegurou que estava tudo bem com as contas públicas – até avisar, passada a eleição, que daria o golpe na Lei de Responsabilidade Fiscal. A tropa companheira marchou sobre o Congresso e incinerou, ao vivo, o principal compromisso com a saúde financeira nacional. É isso aí: torramos o dinheiro do contribuinte e mudaremos a meta na marra, para legalizar o rombo.

O projeto parasitário do PT está empobrecendo democraticamente ricos e pobres. É sempre indesejável a metáfora do câncer, mas não há descrição mais precisa dessa autópsia: um projeto de poder que plantou células degenerativas a cada movimento no organismo estatal. Como será o embate do respeitável Joaquim Levy com toda a teia de artifícios montada para gerar a famosa contabilidade criativa? Haja quimioterapia.

Seria até esperançoso imaginar que, agora, haverá 100% de esforço e sacrifício em prol do tratamento rigoroso. Só que não... O ponto a que chegou o plano petista não tem volta. A única chance de Dilma, Lula & Cia. é ajeitar as aparências e dobrar a aposta. Do contrário, a mitologia acaba e, aí sim, todos eles pagarão muito caro pelo que fizeram ao Brasil.


Ou o país leva às últimas consequências a investigação do petrolão – se for séria, ela levará a uma inevitável faxina no Palácio – ou pode ir fazendo as malas para a Argentina.