quinta-feira, 8 de janeiro de 2015


08 de janeiro de 2015 | N° 18036
L. F. VERISSIMO

A altura do Levy

Paul Krugman e Joseph Stiglitz não são donos da verdade, mas são donos de um prêmio Nobel cada um. Os prêmios lhes dão uma respeitabilidade que eles não encontram entre seus pares economistas, pois são os dois mais notórios inimigos da atual ortodoxia – keynesianos nadando contra a corrente da maioria. Para Krugman e Stiglitz, o receituário ortodoxo para vencer a crise mundial provocada pelo capital financeiro equivale a receitar gasolina para apagar incêndios.

O sacrifício de gastos sociais e as outra formas de austeridade vendidas com o nome de fantasia de “responsabilidade fiscal” já provoca reações de consequências imprevisíveis na Europa. Só quem está gostando da irresponsabilidade social oficializada é o capital financeiro, que pariu a crise e ama a sua cria.

Na foto do espantoso novo ministério da Dilma que saiu nos jornais, destaca-se, além do vestido da Kátia Abreu, o tamanho do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Ninguém, nem o Rossetto, chega aos seus ombros. O que não deixa de ser simbólico. Levy domina o grupo fotografado com sua altura como dominará o governo com suas medidas de, sim, responsabilidade fiscal e austeridade. E a altura de Levy tem outro significado: será difícil alguém chegar ao seu ouvido.

Alguém preocupado com a incoerência de um governo do PT entregar-se tão despudoradamente a uma ortodoxia de efeito duvidoso. Alguém pedindo clemência para os programas sociais ameaçados, talvez a própria Dilma. Se não fosse esperar demais, até alguém pedindo para ele ler Krugman e Stiglitz de vez em quando. Mas o ouvido de Levy é inalcançável, à prova de palpites. Na própria foto, ele parece estar com a cabeça numa camada superior da atmosfera, respirando outro ar. Certamente não o mesmo ar do pastor Hilton, lá embaixo.

Imagino que o Joaquim Levy tenha lido o Thomas Piketty, nem que seja só por curiosidade. Piketty também nada contra a corrente. Se a questão maior para qualquer pessoa que não seja um verme moral é a questão da desigualdade crescente no mundo, Piketty prova que o capitalismo, do jeito que vai, só agravará o problema. Ele chama a pretensão de que uma economia de mercado sem regulação acabará por “elevar todos os barcos” e diminuir as desigualdades de “um conto de fadas”. Mas esse conto de fadas é o outro nome da ortodoxia econômica que querem nos impingir.

PAPO VOVÔ


A Lucinda, nossa neta de seis anos, me pediu para consertar a corda de um cavaquinho que encontrara. Não consegui, e ela tirou o cavaquinho das minhas mãos, dizendo “deixa que eu conserto, inteligência rara”. Inteligência rara! Acho que vou baixar um decreto proibindo a ironia dentro de casa.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015


07 de janeiro de 2015 | N° 18035
MARTHA MEDEIROS

Ela, a incorruptível

Terminamos 2014 sentindo vergonha do país e, ao mesmo tempo, com esperança. Vergonha pela roubalheira que veio à tona como nunca antes, mas, por outro lado, com esperança de que as acusações e punições amedrontem os que simpatizam com a prática de pagar por benefícios ilegais e de embolsar dinheiro indevido. Esperança de que essa exposição espalhafatosa dos podres do governo e de outras camadas da sociedade intimide os audazes corruptores da nação e que eles pensem duas vezes antes de continuar metendo a mão no que não lhes pertence, como fazem há séculos.

É o que nos resta: contar com a covardia deles. Estando a impunidade menos garantida, talvez já não arrisquem tanto em suas gatunagens. E deduzam o óbvio: por mais que roubem, nunca poderão subornar a morte.

Ela está logo ali em frente, aguardando seres humanos de todos os escalões, tanto os donos de jatinhos quanto os que puxam carroças. Com ela, não tem carteiraço. A morte não apresenta tabela de preço. Não premia delatores. Não adianta trazer dinheiro grudado ao corpo com fita crepe, o vexame será inútil.

Se ela encasquetar que chegou sua hora, vai pegá-lo pelo colarinho branco e arrastá-lo à força, amarrotando seu terno Armani sem dar a mínima para quanto custou. E fará o serviço sem se anunciar antes para suas secretárias, assessores, guarda-costas. Ela não trata com intermediários.

A morte não embolsa agradinhos. Não recebe propina. Não negocia prazo. Não beneficia quem paga mais. Então, de que vale o risco de sujar o próprio nome, envergonhar a família, virar dedo-duro de colegas e ser transportado em camburão, algemado como um pivete? Toda a riqueza acumulada com transações ilícitas nem mesmo leva o golpista para a morte em classe executiva.

A morte é incorruptível.

Deve ser por isso que se diz que o crime não compensa. O crime forra os bolsos da criatura temporariamente, mas tira dele o privilégio de fazer alguma diferença benéfica na vida dos outros – o sujeito passa a ser um rico que não vale nada. E morre de qualquer jeito.

Você pode, claro, usar seu tempo aqui na terra para superfaturar tudo o que vê pela frente sem se importar com as consequências indignas dessa ganância. Ao nascer, você encontra o mundo de um jeito e decide se comportar de forma a deixá-lo bem pior ao partir. É uma escolha.

Ou você pode utilizar seu tempo aqui na terra colaborando, fazendo um trabalho que beneficie a coletividade e gozando a sensação reconfortante de que abandonará o mundo deixando-o um pouquinho melhor do que quando chegou. Dessa forma, não terá vivido à toa e não se sentirá tão desesperado quando tudo terminar.

Porque vai terminar, máfia. Para todos. Sem acordão.



07 de janeiro de 2015 | N° 18035
PEDRO GONZAGA

O COMPLEXO

Não ouviremos a voz divina se erguer da sarça ardente, ainda que recebamos ordens de nossos superiores aqui neste mundo. Não libertaremos o povo escolhido de seu cativeiro, ainda que possamos livrar uma ou duas pessoas de seus grilhões cotidianos. Não veremos o mar se abrir aos nossos pés, ainda que alguns caminhos nos sejam revelados por nosso próprio esforço. Como Moisés, no entanto, não fraquejaremos ao peso das tábuas, nem diante do longo deserto, nem às desavenças a nossa volta. Seguiremos, feito ele, independentemente de termos compreendido nossa missão.

E por isso teremos feito tudo certo, tantas vezes ignorantes, tantas vezes sábios, movidos por vago mérito, errando os erros erráveis, equilibradas as contas entre os golpes do azar e os da sorte, até divisarmos a terra de onde mana leite e mel. Mas esta terra não haverá de nos pertencer. Essa terra nos estará vedada porque não temos mais uma vida para lá chegar, uma vida para ser jogada, de verdade, ao fim do percurso.

Dez anos mais novos, duas vidas mais fortes talvez conhecêssemos o que seria de fato estar (não em fantasia) ao lado daquela mulher, daquele homem, vivendo em outra cidade, em outro país. Mas veremos tudo desde cima do monte, onde restarão nossos corpos. Tendo feito o que devia ter sido feito, virá o preço da travessia. Como Moisés, não chegaremos a Canaã. À diferença de Moisés, no entanto, perderemos não uma, mas muitas terras prometidas. Feito um complexo, ignorado pelo patriarca.

Porque apesar de nossas vidas tão mais curtas, seguimos tentando recomeçar naquele berço às margens do Nilo, para depois voltar a trilhar o dificultoso destino, vislumbrar o prêmio, não poder alcançá-lo, êxodo após êxodo, sempre um instante mais tarde do que deveríamos.

Perceber-se pela primeira vez vítima desse complexo tem um gosto de velhice. Espero que não o sintam, meus leitores, malgrado seja um gosto humano.


Se Moisés o sentiu, as escrituras não o registram.

07 de janeiro de 2015 | N° 18035
DAVID COIMBRA

Comida italiana é boa para labradores

Esse cachorro, eu o encontrei num lugar em que gosto de almoçar, aqui perto de casa. É um pequeno mercado de produtos italianos com uma única mesa comprida para refeições. O proprietário, Andrea, um toscano que carrega o sorriso sempre aberto debaixo do bigode, supervisiona ele mesmo a cozinha, bendita cozinha italiana.

Nesse dia, repimpei-me com fettuccine com molho vermelho e carne de porco, uma delícia. Foi na hora de pagar, em frente ao caixa, que vi o cachorro. Era um labrador preto e estava preso pela coleira. Na outra ponta da coleira havia um homem. Um cego. Enquanto ele pagava a conta, eu e o cachorro notamos um pedaço de carne de porco com molho do tamanho de uma moeda de um real, no chão, a um metro da minha botina. Devia ter caído recentemente do prato de algum cliente. O labrador sentiu o cheiro da carne e deu um passo para alcançá-la. Mas o dono, percebendo que ele se afastava, puxou a guia com força, fazendo com que recuasse.

O cachorro ficou fitando o naco de carne, depois levantou a cabeça e olhou para mim. Havia uma expressão aflita em seus olhos compassivos e úmidos de labrador. Era como se me pedisse ajuda. Decidi atendê-lo. Dei um biquinho no pedaço de carne, na direção dele. Mas o chute não foi suficientemente forte, restou ainda alguma distância, e o cachorro teve de se esticar para tentar pegá-lo. Só que o dono, sem nem virar a cabeça, deu novo repelão na guia, agora com violência, até certa raiva.

O labrador se encolheu, entre resignado e triste. Olhei para ele. Ele para mim. Era um olhar profundo. Um olhar de dor. De fome, talvez? Ou apenas de desejo frustrado? E o homem? Teria ele notado que chutei a carne na direção do cachorro e por isso se irritou? Ou se irritou porque o cachorro fez menção de se afastar? Ou as duas coisas? Ele parecia brabo, ali, pagando a conta. Brabo comigo? Com o cachorro? Com a vida? Afinal, eu devia ou não empurrar a carne para baixo do focinho do labrador? Era o que o labrador queria, disso não tinha dúvida, mas, se o fizesse, não estaria infringindo algum código de ética da relação entre cegos e seus cães guias?

Maldição!

Quer saber? Vou dar comida para esse cachorro! Vou! O cego que embrabeça, se quiser. Azar o dele! Quem manda não dar comida para o cachorro? Dou uma gingada, faço de conta que vou sair pela esquerda, saio pela direita e mando de trivela bem debaixo do maxilar inferior do cachorro. Ele só vai precisar atirar a língua pra fora para pescar o pedaço de carne. O homem nem vai notar. Vou lá. Vou!

E fui. Fiz um movimento para o lado. E o cachorro compreendeu a minha intenção. Aprumou-se. Salivou. Preparou-se para abocanhar a comidinha deliciosa do italiano e, então, puxa vida, então o homem também percebeu. De alguma forma, ele pressentiu o que eu faria, virou de leve o ombro na minha direção e não me olhou, porque olhar não podia, mas demonstrou claramente que sabia o que eu pretendia fazer.

Com o que, hesitei. Fiquei paralisado.

Não me aproximei da carne no chão, disfarcei e perguntei ao Andrea quanto devia. O homem ergueu o queixo, vitorioso, puxou o cachorro e dirigiu-se para a porta. Fiquei observando os dois, homem e cachorro, afastando-se. Antes de sair, o labrador girou a cabeça e olhou para trás, diretamente para mim. Entendi o que ele dizia com aquele olhar. Não havia mais aflição ali. Havia desprezo. Como se rosnasse:


– Covarde!

07 de janeiro de 2015 | N° 18035
MOISÉS MENDES

Kátia, a milagrosa

Nunca antes, o Brasil teve um ministro da Agricultura da estirpe de Kátia Abreu. Desde a redemocratização, tivemos Pedro Simon, Íris Rezende, Antônio Cabrera, Synval Guazzelli, Pratini de Moraes, Roberto Rodrigues, Reinhold Stephanes, Francisco Turra, Mendes Ribeiro Filho.

São 25 ministros, desde o início da Nova República, em 1986. Nenhum, por mais conservador que fosse, teve em seu currículo discordâncias radicais com os sem-terra, os ambientalistas, os índios. Kátia Abreu teve e virou ministra.

No domingo, antes de assumir, deu entrevista e disse que não há mais latifúndio no Brasil. Se não há mais latifúndio, não é preciso fazer reforma agrária de massa, só alguma reforma pontual, aqui e ali.

Quando alguém imaginaria que uma fazendeira do Brasil central seria ministra do lulismo, numa das áreas mais caras às esquerdas? Kátia está tão à vontade que desafiou o MST a encontrar terras para desapropriação.

E dizer que, nos anos 50 e 60, os comunistas iriam revirar o Brasil com a destruição do latifúndio. A burguesia industrial urbana seria aliada do comunismo para acabar com o atraso. E o atraso era o grande proprietário de terras.

Ninguém fez reforma agrária. Jango ameaçou fazer e caiu. Os militares enrolaram com o bem- intencionado Estatuto da Terra, que iria sobretaxar áreas improdutivas. Não aconteceu nada. A opção, para esvaziar pressões, foi a colonização do Centro-Oeste e do Norte.

O Censo Agropecuário indica que propriedades com mais de mil hectares ocupam 45% da área total do país, o que não quer dizer nada. Em Goiás, quem tem mil hectares é dono de um sítio. Não achei dados sobre, por exemplo, áreas com mais de 5 mil hectares.

O ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, disse ontem, dois dias depois da entrevista de Kátia Abreu, que é preciso “derrubar a cerca do latifúndio”. E agora?

Itamar Franco, em pouco mais de dois anos de governo, teve oito ministros da Agricultura. FH, em dois mandatos, teve quatro, o mesmo número de Lula. Kátia é o quinto ministro de Dilma.

Questões de terra são do ministério de Patrus. Mas faltava uma mulher na Agricultura para acabar com o latifúndio, antes de assumir e sem reforma agrária. É um problema a menos.


Foi mais fácil de resolver do que essa conta complicada do superávit primário.

07 de janeiro de 2015 | N° 18035
OLHARGLOBAL | Luiz Antônio Araujo

Sinos

Ainda sem confirmação por parte do Catar, a expulsão do mais graduado líder do Hamas no exílio, Khaled Meshaal, é condizente com o estado das relações entre o emirado e o mundo árabe. Desde a queda do presidente egípcio Mohammed Mursi, da Irmandade Muçulmana – da qual o Hamas é o braço palestino –, em 2013, o grupo que governa a Faixa de Gaza passou a contar com apenas dois aliados: o Catar e a Turquia.

Esse isolamento tornou-se ainda mais dramático durante a III Guerra de Gaza, de junho a agosto do ano passado. No breve conflito anterior, em dezembro de 2012, até mesmo o ministro do Exterior da Tunísia havia visitado o território durante as hostilidades em sinal de solidariedade. Desta vez, as demonstrações oficiais de apoio na vizinhança foram escassas, levando o ex-presidente Shimon Peres a declarar que não havia mais guerra árabe contra Israel.

A partir da Primavera Árabe, autocratas reais ou fardados do Oriente Médio passaram a ver no Hamas um fator de instabilidade. A expulsão de Meshaal não se deve, entretanto, ao medo da revolução – pela qual, justiça seja feita, o Hamas não tem a menor culpa.

O que está na ordem do dia é a normalização dos negócios entre o emirado e o Egito. A Arábia Saudita e seus parceiros do Golfo vêm patrocinando a reaproximação há meses, e o regime do general Abdel Fatah al-Sissi impôs como condição o fim do apoio de Doha ao Hamas e a outros ramos da Irmandade Muçulmana, especialmente a seu mais importante ramo, o egípcio.


Al-Sissi precisa proteger o flanco diplomático. Passado um ano e meio de sua ascensão ao poder, e às vésperas do quarto aniversário da queda do ditador Hosni Mubarak, o país vive uma atmosfera opressiva, com prisões lotadas, aumento da violência nas grandes cidades e no Sinai e perseguição a gays. O passado recente mostrou que o destino pode ser cruel com tiranos que não sabem por quem os sinos dobram. E os sinos no Egito têm sido particularmente barulhentos.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015


06 de janeiro de 2015 | N° 18034
LUIZ PAULO VASCONCELLOS

A VIDA EM UMA FRASE

Sempre começamos o ano cheios de ideias, planos, projetos, entusiasmo e otimismo. Por isso, inicio o ano citando algumas frases que costumo colecionar, frases que sintetizam pensamentos, conceitos, que provocam a imaginação, frases que sinalizam uma visão de mundo e induzem o leitor a voar no espaço da ternura, do alívio, da criatividade, da ironia, do humor e da aventura.

Começo com esta de Galileo Galilei: “Toda concepção nasce da análise”. Alguém tem dúvida dessa sábia verdade? Às vezes, até parece que sim, afinal, vivemos em tempos pós-modernos em que a concepção muitas vezes nasce do nada.

Continuando: “Não se conhece verdadeiramente um homem, sua alma, sentimentos e intenções, senão quando ele administra o poder e executa as leis” – Sófocles.

Indo mais além: “Existem três verdades: a minha verdade, a tua verdade e a verdade”. Em tempos de delação premiada, às vezes é preciso premiar para que alguém revele alguma verdade que não seja a minha ou a tua, mas simplesmente a verdade. Pelo menos, acredito que tenha sido essa a intenção de Peter Brook ao moldar a frase.

Vamos em frente: “A vida bate e estraçalha a alma. A arte nos lembra que você tem uma” – Stella Adler.

“O poeta tem a terrível tarefa de mostrar o que não pode e nem deve ser mostrado” – Ariane Mnouchkine.

“A digestão é a ação mais excitante de um solitário” – Gonçalo M. Tavares. “É demais ter dois olhos” – Rainer M. Rilke. “A arte perturba, a ciência tranquiliza” – George Braque.

“Nós não somos livres. E o céu ainda pode cair sobre nossas cabeças. O teatro foi criado, antes de tudo, para nos revelar essas verdades” – Antonin Artaud.

“A arte existe porque a vida não basta” – Ferreira Gullar.

“O drama, como a sinfonia, não ensina ou prova nada” – John M. Synge.

“Liberdade não é sinônimo de felicidade. Liberdade é conflito, agonia, solidão” – Luiz Felipe Pondé.

“Um fracasso inteligente tem muito mais valor do que um sucesso relativo” – Gianni Ratto.


Bom ano de 2015 a todos nós.

06 de janeiro de 2015 | N° 18034
DAVID COIMBRA

Não era bem isso o que eu queria dizer

A previsão do tempo indica que, nesta semana, teremos 18 graus abaixo de zero em Boston. Gelado. Em compensação, é lindo ver a neve branca como a pureza se acumulando no solo, sobretudo à noite, em contraste com o negro sombrio do céu.

Agora, um adendo: quando falo em branco da pureza e negro sombrio não vai aí nenhuma conotação racial. É só que o branco, em geral, é associado à limpeza, porque qualquer sujeirinha aparece bastante em uma superfície branca, não é?

Quanto ao negro sombrio e todas as referências de que o negro é algo negativo, como quem reclama que "aquele foi um ano negro", por exemplo, isso se deve ao fato de que a noite é negra porque é escura e no escuro não enxergamos bem e por isso sentimos medo e o medo é ruim. Certo?

Por favor, não vá pensar que sou racista, algo assim, embora já vacile ao chamar alguém, mesmo uma pessoa branca, de negão ou de negrinha, porque, sei lá, pode parecer qualquer coisa e não quero ficar parecendo qualquer coisa. Isso de negrinha mesmo, isso é algo de que uma mulher pode reclamar, porque tenho o hábito de chamar as mulheres de negrinha e de colocar seus nomes no diminutivo – a minha mulher, inclusive, chamo de Marcinha.

Só que alguma mulher, algum dia, disse que faço isso inconscientemente para reduzir as mulheres e, cruz-credo!, juro que não quero reduzir as mulheres, ao contrário, acho as mulheres realmente grandes, e digo grandes no bom sentido, não gordas, mesmo que não tenha nada contra gordas, as gordas são legais, muitas mulheres é que não querem ser gordas, eu juro que não me importo se uma mulher é gorda ou se tem culotes, eu só queria dizer que gosto das mulheres, sempre gostei, o que, é óbvio, não significa que tenha algo contra os homens que não gostam de mulheres.

Não, pelo amor de Deus, não vá pensar que sou homofóbico, os gays contam com toda a minha solidariedade, e as lésbicas também, e cito as lésbicas por ter aprendido há pouco que gays e lésbicas não são a mesma coisa e eu, na minha oceânica ignorância, achava que todos eram gays, o que não quer dizer que antes não tivesse consciência da justa luta dos gays e das lésbicas contra o preconceito, é claro que tinha e os apoiava, apenas não sabia desses detalhes, de muita coisa não sei.


Só para se ter ideia, fui aprender a dirigir aos 40 anos de idade. Quarenta anos! O que, por sinal, serve para deixar bem claro que não sou motorista radical, inimigo dos ciclistas, andei muito de bicicleta e ando ainda, então é importante frisar e ainda sublinhar e também gizar que sou um entusiasta do mundo ciclístico, suas delícias e seus mistérios, e que só dirijo carro por necessidade, não sou adversário da ecologia, defendo a Natureza com todas as minhas forças, se recorro ao automóvel não é por gosto, não é como outras questões de gosto, como comida, comida, sim: como carne vermelha por gosto, mesmo achando lindo o vegetarianismo e salivando ao ver uma salada e até um grão-de-bico, o que estou contando é que os bifes que volta e meia trincho e mastigo são tão-somente questão de gosto, se bem que, olha, não vá achar que sou um especista.


Não sou! Amo os animais, em particular os vertebrados, embora nutra simpatia por alguns invertebrados, como a borboleta, menos a mariposa, que é meio soturna, ela não tem cores, é cinzenta ou preta, o que não significa que tenha algo contra o preto, já disse, é só caso de preferência, e prefiro o branco e era isso que queria dizer, que o branco da neve é bonito. Só. Sem nenhuma outra conotação. Não me entenda mal.

06 de janeiro de 2015 | N° 18034
MÁRIO CORSO

O silêncio dos automóveis

Como seria se nossos carros pudessem falar? Dizer como foram companheiros e possibilitaram muitas das nossas aventuras. Mas não é assim, eles não falam. Porém, não falam porque não podem ou porque não queremos ouvir suas histórias tristes? Eu sou mais pela segunda opinião. Os carros sofrem demais, sua conversa não é animadora.

Tudo começou em 1982, quando uma Caravan bordô saiu de São Bernardo e veio para Porto Alegre. Não ficou dois dias na concessionária. Saiu de lá carregada, a família inteira veio buscá-la. Estava orgulhosa com o seu casal jovem e dois meninos. Moravam na Praça Japão, e ela tomava banho toda semana. Um arranhão leve na lataria era sanado imediatamente. Sentia que tinha encontrado seu lugar no mundo.

Mas essa vida de viagens à praia e buscar as crianças na escola durou pouco. Sem aviso, um dia qualquer, foi levada de volta à concessionária. Nunca soube por que nem pelo que foi trocada.

Sua vida mudou. Seus novos e sucessivos donos reclamavam que ela bebia muita gasolina e ia sendo passada para frente. Mal se acostumava a uma nova garagem e já estava noutra. Nem dava tempo de se apegar. Conheceu bairros mais pobres e a periferia. Seus novos donos mal trocavam o óleo. Esqueceu o que é um tanque cheio. Autorizada nunca mais, vivia de peças usadas e improvisadas. As viagens a passeio acabaram. De madrugada, fazia compras na Ceasa; de dia, entregava ranchos.

A maior tortura era quando uma diligência pedia para ir ao aeroporto. Ficava sempre perplexa, eram muitas camionetes novas, marcas e modelos que nem suspeitava que existissem. Se sentia envergonhada por estar sem calotas. Às vezes imaginava que elas quisessem saber do seu passado, da sua experiência, mas estavam todas entretidas entre si e ela nunca conseguia entrar na conversa. Notava nelas uma ponta de vergonha por serem vistas falando com uma velha.

Seu atual dono, um serralheiro, soldou na capota uma espécie de gaiola de ferro para transportar os portões que conserta e entrega. Era como uma coroa, mas significava o avesso. Para seu desespero, uma dessas encomendas foi na rua em que passou seus melhores dias. Podia ver dali a casa onde um dia se sentiu tão amada.

Rezava para que o serviço terminasse. Não queria ver nem ser vista. Como sempre, quando tememos um encontro ele acontece. Sua antiga família passou numa camionete novíssima. Menos mal que não a reconheceram. Queria morrer, mas não ali. Mal conseguiu arrastar os pneus até sua casa antes de fundir o motor.


Quando for reclamar da brevidade da nossa existência, pense nos nossos amigos automóveis, esses sim tem uma vida curta e conhecem a decadência muito rápido.

06 de janeiro de 2015 | N° 18034
ARTIGOS

PÁTRIA EDUCADORA

Prioridade esperançosa da Presidência da República, a qualidade da educação é também a qualidade de uma nação. Conhecimento, respeito, justiça, desenvolvimento social, prosperidade econômica e inovação são alguns dos requisitos fundamentais em uma Pátria.

Na educação superior, são mais de 7 milhões de estudantes no país, dentre os quais mais de 86 mil já beneficiados pelo Programa Ciência sem Fronteiras. Um estímulo ao crescimento e à qualidade da formação dos brasileiros. O lema “Brasil, pátria educadora” afirma a validez e a atualidade dessa primazia nacional.

Cabe reconhecer que, no século 21, o desenvolvimento das ciências da saúde, da tecnologia e da economia nascem nas universidades. Peter Piot, um dos líderes da equipe de descobridores dos vírus HIV e Ebola, é pesquisador ligado às universidades de Antuérpia, Imperial College London, Washington e Bruxelas. Rafael Yuste, dedicado ao estudo das interfaces cérebro-computador e à pesquisa da função do microcircuito cortical, é diretor do Departamento de Neurociência da Universidade Columbia de Nova York e consultor do presidente Obama para esses temas.

Bill Hewlett e David Packard, ícones das ciências da computação, são expoentes da Universidade de Stanford. Jean Tirole, Prêmio Nobel de Economia 2014, é diretor científico do Instituto de Economia Industrial da Universidade de Toulouse. Esses exemplos corroboram a premissa de que a educação superior muito tem a contribuir para a melhoria das condições da sociedade.

Impossível, ainda, prescindir de outro aspecto relevante – a cidadania – que deve estar presente desde o Ensino Fundamental até a Educação Superior. O respeito à dignidade e à inviolabilidade da pessoa, independentemente da raça, das crenças, do sexo e da orientação sexual, e o respeito à liberdade pessoal em relação à liberdade alheia são princípios insubstituíveis em uma educação para a cidadania.

Por tudo isso, a educação é uma prioridade e um compromisso pátrio inadiável pelo qual todos somos responsáveis, de modo especial, os governos, as famílias e os educadores.

Reitor da PUCRS - JOAQUIM CLOTET


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Duelo entre noras e sogras é o maior responsável pelas crises familiares

Estima-se que aproximadamente 60% das crises familiares tenha origem no duelo entre noras e sogras. Segundo Elizabeth Monteiro, autora de "Avós e Sogras", na maioria das vezes, o homem não é capaz de colocar limites à própria mãe, o que agrava o problema.

Essa situação se agrava quando nascem os filhos. Os pais passaram meses sonhando em exercer a sua função. Do outro lado, as avós querem reviver a maternidade e nem sempre confiam na capacidade dos filhos.

"Existem sogras que adoram quando o casal se separa", escreve Monteiro. "Há mulheres que acham seus filhos uns incompetentes e desejam continuar mandando neles, nas noras, nos netos".

Monteiro lembra que nem sempre o estereótipo da sogra megera é verdadeiro. Muitas avós estão bem-intencionadas, mas podem ser mal-interpretadas. "Saiba que conselhos demais só atrapalham e são cansativos", diz.

"Avós e Sogras" reafirma a importância de prezar pelo bem-estar da criança e reúne conselhos para os novos conflitos –e para alguns antigos– que surgiram com a nova configuração familiar.

Com o aumento da expectativa de vida, mães que deixaram de ser donas de casa e entraram para o mercado de trabalho e o crescimento do número de divórcios, a família brasileira mudou nas últimos 50 anos.

Pedagoga e psicóloga especializada em psicopedagogia, Elizabeth Monteiro tem quatro filhos e seis netos. Ela também assina, entre outros títulos, "A Culpa É da Mãe", "Cadê o Pai dessa Criança?" e "Criando Filhos em Tempos Difíceis".

AVÓS E SOGRAS
AUTOR Elizabeth Monteiro
EDITORA Summus Editorial
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E-BOOK R$ 24,50 *


Aumento da expectativa de vida muda planejamento de aposentadoria

A Previdência Social do Brasil foi criada numa época em que a expectativa de vida e os desejos daqueles que se aposentavam eram outros. Hoje, não temos referências para imaginar como será o mundo para a próxima geração de aposentados.

Segundo Gustavo Cerbasi, a renda de uma aposentadoria, seja pública ou privada, não é suficiente para o que pode nos esperar.

"Se a redução na renda não matar de fome, vai matar de depressão muitos desprecavidos", escreve em "Adeus, Aposentadoria".

No livro, Cerbasi questiona o que considera uma ilusão descontextualizada: trabalhar por 30 a 35 anos sem cuidados financeiros adequados. O autor considera também as consequências da falta de rotina de trabalho para a mente.

"É preciso adotar um novo modelo para planejar o futuro, já que as soluções para sobreviver no contexto atual não são convincentes", diz.

Gustavo Cerbasi é mestre em administração e finanças pela FEA/USP, formado em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com especialização em finanças pela Stern School of Business, da Universidade de Nova York e pela Fundação Instituto de Administração (FIA).

Ele leciona em cursos de pós-graduação e MBAs de instituições como Universidade de São Paulo, Fundação Instituto de Administração, Fundação Dom Cabral e Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Entre diversos títulos publicados, Cerbasi também é autor de "Dez Bons Conselhos de Meu Pai", "Mais Tempo, Mais Dinheiro", "Como Organizar Sua Vida Financeira", "Dinheiro: os Segredos de Quem Tem", "Investimentos Inteligentes" e "Os Segredos dos Casais Inteligentes".

Abaixo, leia trecho de "Adeus, Aposentadoria".

Não dá para contestar os fatos

Durante toda a minha vida, segui o que pareciam ser as regras do jogo. Procurei trabalhar em empresas sólidas, fui um profissional dedicado, cursei especialização e pós-graduação, criei uma rede de relacionamentos e pratiquei toda a política necessária para ser reconhecido pelos meus superiores.

Tive parte de meus ganhos retidos no contracheque para contribuir com os fundos de pensão das companhias para as quais trabalhei. Acompanhei, de tempos em tempos, meu saldo no INSS para ter certeza de que as empresas não estavam deixando de fazer a sua parte na construção de meu futuro. Seguindo a recomendação de especialistas, ainda poupei uma parcela de meus ganhos líquidos, investindo de acordo com as orientações de meus gerentes de conta, que sempre demonstraram segurança no assunto. Diversifiquei investimentos, evitando deixar tudo no banco: também comprei e construí alguns pequenos imóveis.

Pelo que fiz ao longo de minha vida profissional, pensei que chegaria a um ponto em que teria muito mais do que o suficiente para viver bem. Os fundos de pensão deveriam garantir uma renda equivalente à que eu tinha enquanto trabalhava. O INSS deveria me garantir proteção e um complemento significativo de renda para ampliar minhas escolhas. Meus investimentos deveriam ser desfeitos apenas se acontecesse algum imprevisto.

Hoje estou aposentado, como previsto pelas regras que segui.

Mas, ao contrário do retorno esperado em termos de renda e proteção, a única coisa que realmente tenho de sobra é um enorme sentimento de insegurança. Os fundos de pensão me proporcionam uma renda até maior do que a que eu tinha pouco antes de me aposentar, mas meus gastos aumentaram demais.

A renda do INSS é incrivelmente baixa comparada ao sacrifício incrivelmente alto que foi contribuir para ele ao longo de toda a minha carreira. E, ao avaliar o estado de minha moradia, percebi a necessidade de realizar melhorias. Ao fazer as contas, percebi que meus investimentos poderão ser consumidos em pouco tempo se eu não tomar bastante cuidado.

Sinto medo, pois tive que me adequar a um padrão de vida que parece estar em um frágil equilíbrio. Temo que qualquer imprevisto possa me colocar na situação de insuficiência e desconforto que já experimentei nos meus primeiros anos de trabalho. O problema é que naquela época eu tinha algumas escolhas a fazer. Agora, como aposentado, não tenho. Preparei-me durante décadas para não precisar contar com outras opções de renda, e de que adiantou?

Aposentado não é exatamente o termo com o qual me identifico. Na verdade, estou é apavorado!

Essa é a história de José. E também de João, de Maria, de Fulano, de Beltrano e de Sicrano. A descrição acima foi criada com base em aspectos comuns a dezenas, talvez centenas de depoimentos que colhi durante consultas, consultorias, palestras, aulas e trocas de mensagens ao longo de meu trabalho de consultor e especialista em educação financeira. É a história da desilusão de quem seguiu um roteiro que prometia o Éden, mas que conduziu a uma melancólica situação de insegurança e impotência.

ADEUS, APOSENTADORIA
AUTOR Gustavo Cerbasi
EDITORA GMT
QUANTO R$ 24,90 (preço promocional*)



marcia dessen
05/01/2015  02h00

A sedução das pirâmides financeiras

Participei da Conferência de Educação Financeira e Comportamento do Investidor, promovida pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), na qual assisti à palestra da procuradora da República Mariane Guimarães de Mello Oliveira sobre Prevenção e Combate às Pirâmides no Brasil. Fiquei estarrecida com os dados e não posso deixar de compartilhar com vocês, esperando que o alerta ajude a estancar esse processo.

As pirâmides financeiras proliferam no Brasil. Por um lado o consumidor confiante num "otimismo ganancioso", sem informação adequada sobre os riscos do investimento, em contraposição à propaganda altamente sedutora das empresas que oferecem lucro rápido sem esforço.

O Ministério Público tenta combater o crescimento vertiginoso de empresas que praticam o crime de pirâmide disfarçado de marketing multinível e estima que a cada semana surjam cerca de três novos casos!

O marketing multinível é uma estratégia de distribuição de bens e serviços, divulgada "boca a boca" por distribuidores independentes. O dinheiro dos novos participantes paga os mais antigos e o esquema desmorona quando o ingresso de novos associados diminui, deixando muita gente no prejuízo. Estima-se que 90% dos investidores vão perder seus investimentos no período de 18 meses, prazo médio de sobrevivência de uma pirâmide.

O pioneiro parece ter sido o italiano Charles Ponzi, que em 1920 atraiu milhares de pessoas prometendo rentabilidade de 50% em apenas 45 dias ao comprar cupons postais de outros países, trocados por selos nos EUA a um preço mais alto. Quando o esquema ruiu, descobriu-se que eram necessários 160 milhões de cupons postais para sustentar as margens que seduziam os investidores, mas só existiam 27 mil no mercado. Com prejuízo de US$ 225 milhões em valores atuais, seu nome carimbou o golpe de pirâmide, mundialmente conhecido como esquema de Ponzi.

Vamos ver casos que provocaram perdas de bilhões de reais a milhões de brasileiros, segundo investigação e parecer do Ministério Público.

Bbom –A empresa realizava marketing agressivo nas redes sociais e TV, focado não no produto (rastreador veicular), mas, sim, na bonificação. Apurou-se que a Bbom teria vendido mais de 1 milhão de rastreadores para mais de 200 mil associados; comprou apenas 69 mil aparelhos, nem todos entregues, embora cobrasse pelo seu comodato. Apesar da ampla cobertura da imprensa sobre a acusação de prática de pirâmide, a Bbom obteve autorização judicial para operar sob novo modelo. Antes de sofrer novo bloqueio judicial, faturou quase R$ 2 bilhões, prejudicando 1 milhão de pessoas!

TelexFree –Só no Acre estima-se que 10% da população tenha se associado ao esquema fraudulento, que afetou cerca de 1 milhão de pessoas no Brasil inteiro, causando prejuízo de bilhões aos consumidores. Sob a isca de venda de produto VoIP de chamada de voz gratuita pela internet, ao custo de US$ 49,90 por franquia de 3.000 minutos, anunciada como ilimitada, e valor comercial não competitivo diante de opções mais baratas, como o Skype, ou mesmo gratuitas, como o WhatsApp. Nem gratuito, nem ilimitado!

Boi Gordo –Considerado o mais conhecido caso de pirâmide financeira do Brasil, com atuação forte na década de 1990, 30 mil investidores perderam cerca de R$ 2,5 bilhões até 2004. Os investidores aplicavam em gado, seduzidos pela oportunidade de embolsar lucro muito superior ao juros da época. O esquema ruiu quando a CVM passou a regular esse mercado.

Avestruz Master –Fundado em Goiânia em 1988, o grupo oferecia contratos de compra e venda de avestruzes. A empresa comercializou mais de 600 mil aves, mas só tinha 38 mil. Tiveram prejuízo 40 mil investidores, sendo 30 mil só em Goiás. Foram gastos R$ 4 milhões em publicidade em 2004 e apenas R$ 100 mil em ração!

Camarão Master –Logo após a falência da Avestruz Master, na mesma Goiás que teve sua economia paralisada em razão do volume de dinheiro ali investido e, apesar da ampla cobertura da imprensa a respeito, surgiu em 2005 a empresa Acquajoin, com promessa de rentabilidade de 10% ao mês. A semelhança de atuação e do resultado desastroso da Avestruz não impediu novos investidores!

Madoff –Bernard Lawrence Madoff amealhou bilhões de dólares, em Wall Street, com o maior esquema de Ponzi da história. Ele administrou recursos de 16 mil vítimas, inclusive brasileiras, em um negócio que funcionou por 16 anos com promessa de rentabilidade de 1% ao mês. Estima-se que os investidores tenham perdido entre US$ 12 bilhões e US$ 20 bilhões no período!

Editoria de Arte          


Ainda tem dúvida de que o esquema não é sustentável? Observe na figura a evolução de uma pirâmide que solicita de cada participante a indicação de apenas seis pessoas. Na 13ª fase já estariam envolvidas mais de 13 bilhões de pessoas, número superior a toda a população mundial!
LUIZ FELIPE PONDÉ

O mercado do narcisismo

Todo mundo muito bonitinho na fita, vendendo a pose de que é uma geração de evoluídos

Uma nova geração de seres humanos parece estar chegando. Alguns arriscam chamar de "novos jovens".

Uma geração que não sofre das fraquezas comuns dos mortais. No terreno dos afetos, ciúmes e inseguranças comuns no mundo romântico, eles parecem ter resolvido um drama muito antigo que é o medo de não ser amado.

Desde a separação da atriz Gwyneth Paltrow e seu ex-marido Coldplay no ano passado e suas declarações no Facebook de que "agora" a família deles estava melhor e que eles não sofreram com o fim do casamento, uma enxurrada de casais bem resolvidos desfilam na passarela. Nós, os miseráveis ultrapassados, que não sabemos o que fazer com nossas inseguranças, babamos de inveja desta geração de bem nascidos sem ciúmes.

Eu, que desconfio de todo mundo bem resolvido, não engulo esse papinho furado típico do marketing de comportamento. Não creio no avanço moral da humanidade, duvido dessas declarações felizes. Mas, se são falsas, de onde elas saem?

Fácil de adivinhar: saem do velho e bom narcisismo contemporâneo. Esta cultura, baseada no fracasso do investimento na prole e em vínculos duradouros, cai bem num mundo de gente bem resolvida. Existem até psicoterapeutas e psicanalistas que começam a abraçar a causa da cultura do narcisismo afirmando que narcisistas são melhor adaptados ao mundo contemporâneo porque não sofrem dos sofrimentos imaginários dos neuróticos que idealizam o amor.

Isso mesmo, um desses dias a psicanálise, que tanto resistiu às baboseiras do século 20, tombará sob o peso do mercado do narcisismo.

O mercado do narcisismo, além de investir em apartamentos singles com um parque de diversão na área social, vende, basicamente, estilos de vida e modas de comportamentos. Essas modas se concentram no cotidiano. Alimentação, lazer, trabalhos sem muito vínculo, relacionamentos solúveis na busca de autoestima.

A simples ideia de que narcisistas resolvem melhor a vida já demonstra a raiz da hipótese: a solução para a insolúvel vida afetiva é não ter muitos afetos afora aqueles que são autorreferenciais. Todo mundo muito bonitinho na fita, se roendo por dentro, mas vendendo a pose de que é uma geração de evoluídos.

A tese segundo a qual esse comportamento seria uma evolução psíquica nasce, ao final, da aceitação de uma certa vertente do pensamento pós-moderno. Esta tese pressupõe que, terapeutas, ao supor que pessoas "blasés" com relação a solidez dos vínculos são, na realidade, pessoas com pouco amadurecimento psíquico, e, portanto, doentes, fere a natureza essencialmente socio-histórica do ser humano. Complicado? Nem tanto.

O pensamento pós-moderno tem uma vertente "otimista" segundo a qual tudo é historicamente construído, e, portanto, muda. Nada é perene. Não existe uma "natureza humana" (ponho entre aspas o termo para que os inteligentinhos não venham com suas críticas de Facebook ao conceito de natureza humana) a nos atormentar desde as trevas da ancestralidade. Tudo muda, basta você mudar sua alimentação ou forma de se locomover na cidade. Um novo estilo de se vestir gera toda um processo de evolução anímica.

Seguindo este raciocínio, supor que o "normal" seria as pessoas buscarem relacionamentos perenes (e que aqueles que não o fazem seriam, portanto, imaturos) é ser anacrônico e fazer demandas atávicas para jovens que superaram a necessidade desses mesmos relacionamentos mais consistentes.

Não é à toa que um comportamento light como esse é, normalmente, acompanhado de baixa fertilidade (por escolha ou mesmo por causas psicossomáticas). Filhos demandam uma certa perenidade e bastante generosidade. Características pouco comuns em narcisistas.

Agora, se você tem um paciente que parece um zumbi alegre na vida afetiva, não assuma que ele deveria ser diferente. Assuma que você é um ultrapassado e que pessoas pós-modernas podem ser bem resolvidas e não precisam de afeto como você. Por isso, elas são tão bonitinhas o tempo todo em eventos culturais por aí. Flanam pelo mundo livremente porque (quase) ninguém depende delas. Fofos e velozes.
PMDB do Senado já planeja troco a Dilma por perda de espaço no governo

A hora da revanche Sob o comando de um indignado Renan Calheiros (AL), o PMDB do Senado já articula meios de dar o troco em Dilma Rousseff pela redução de espaço no segundo governo. Uma das possibilidades é ceder ao PSDB a primeira-vice-presidência da Casa, que deverá caber aos peemedebistas, além da presidência, por terem a maior bancada. Além disso, o partido articula a derrubada do esperado veto de Dilma à correção de 6,5% da tabela do Imposto de Renda, aprovada em dezembro.

Chamego No pacote de ameaças ao governo, o PMDB também admite ceder à oposição o comando de comissões vitais, como a CAE, de Assuntos Econômicos, ou a CCJ, de Constituição e Justiça.

Rebaixado Na sexta-feira, Renan disse a Aloizio Mercadante (Casa Civil), Ricardo Berzoini (Comunicações) e Pepe Vargas (Relações Institucionais) que o PMDB foi reduzido a um “partido de secretarias”, com o comando de Portos, Aviação e Pesca.

Testemunha O presidente do Senado também disse, diante do vice Michel Temer, que se recusa a submeter uma lista de nomes ao crivo do Planalto para os cargos de segundo escalão nas pastas que couberam ao PMDB.

Oferenda Sugeriu, ironicamente, que, se o PMDB não pode preencher as vagas com “porteira fechada”, o governo deveria oferecê-las a aliados mais prestigiados, como Gilberto Kassab (Cidades) e Cid Gomes (Educação).

Isca A irritação de Renan é tanta que ele brigou com Jader Barbalho (PA), aliado histórico, que negociou por fora a minúscula pasta da Pesca para seu filho, Helder.

Tática A ideia de concentrar no ministério e nas secretarias do Esporte a cota do PRB no governo federal e nas gestões estaduais que o partido apoia partiu do presidente da sigla, Marcos Pereira, que também é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus.

Treino O partido já comandava a secretaria de Esporte no Distrito Federal até 2014. Uma das razões é a forte presença do grupo Força Jovem —que, entre outras missões, atua na inclusão de jovens por meio de práticas esportivas— na igreja, que detém o comando do PRB.

Degelo Na conversa com Joe Biden no Itamaraty, Dilma disse ao vice-presidente dos EUA que o embargo a Cuba era o “último resquício da Guerra Fria”. Afirmou que o bloqueio “não fazia mais sentido algum” e que sua suspensão era “uma demanda de todo o continente”.

Hora H No Palácio do Planalto, era certa a indicação de Edinho Silva para o primeiro escalão. Um ministro petista conta que o relatório do TSE que recomendou a rejeição das contas da presidente barrou a nomeação do tesoureiro da campanha.


‌Boca fechada A ministra Eleonora Menecucci (Mulheres) já perdeu 17 kg com a dieta Ravenna, que indicou à presidente. José Eduardo Cardozo (Justiça) também emagreceu 5 kg com o método. “Faltam 22kg”, disse.

Xerox A proposta de incluir trabalhadores da Cultura no Pronatec, feita pelo ministro Juca Ferreira no dia em que foi empossado na pasta, constava do programa de governo de Aécio Neves (PSDB).

Aspas O plano tucano previa “ampliar o Pronatec Cultura com cursos de formação na área da cultura, fortalecendo a ligação com a educação, englobando cursos de profissionalização em habilidades técnicas ou artísticas”.

Rei posto Fernando Haddad estuda convidar o vereador Nabil Bonduki (PT) para o lugar de Ferreira na Secretaria Municipal de Cultura.

TIROTEIO

Dilma é Dilma, ninguém se engane! Anuncia abstinência fiscal, mas tomará um porre de gastança. Barbosa e Levy não duram um ano.

DE MARCUS PESTANA (PSDB-MG), sobre a presidente ter desautorizado o titular do Planejamento, que anunciou mudança na correção do salário mínimo.

CONTRAPONTO

Fora do governo, mas na luta


Ao chegar ao coquetel do Itamaraty após a posse de Dilma Rousseff, na quinta-feira (1), Luiz Trabuco , presidente do Bradesco, cumprimentava convidados quando encontrou o ministro Thomas Traumann, da Secom. Como o ministro estava cercado por jornalistas, Trabuco se aproximou do grupo e brincou: –Thomas, se eles te tratarem mal me chama que também sou bom de briga! Traumann gargalhou e agradeceu a “ajuda” de Trabuco, que foi convidado pela presidente para o Ministério da Fazenda antes de Joaquim Levy, mas recusou.
LUIZ FELIPE PONDÉ

O mercado do narcisismo

Todo mundo muito bonitinho na fita, vendendo a pose de que é uma geração de evoluídos

Uma nova geração de seres humanos parece estar chegando. Alguns arriscam chamar de "novos jovens".

Uma geração que não sofre das fraquezas comuns dos mortais. No terreno dos afetos, ciúmes e inseguranças comuns no mundo romântico, eles parecem ter resolvido um drama muito antigo que é o medo de não ser amado.

Desde a separação da atriz Gwyneth Paltrow e seu ex-marido Coldplay no ano passado e suas declarações no Facebook de que "agora" a família deles estava melhor e que eles não sofreram com o fim do casamento, uma enxurrada de casais bem resolvidos desfilam na passarela. Nós, os miseráveis ultrapassados, que não sabemos o que fazer com nossas inseguranças, babamos de inveja desta geração de bem nascidos sem ciúmes.

Eu, que desconfio de todo mundo bem resolvido, não engulo esse papinho furado típico do marketing de comportamento. Não creio no avanço moral da humanidade, duvido dessas declarações felizes. Mas, se são falsas, de onde elas saem?

Fácil de adivinhar: saem do velho e bom narcisismo contemporâneo. Esta cultura, baseada no fracasso do investimento na prole e em vínculos duradouros, cai bem num mundo de gente bem resolvida. Existem até psicoterapeutas e psicanalistas que começam a abraçar a causa da cultura do narcisismo afirmando que narcisistas são melhor adaptados ao mundo contemporâneo porque não sofrem dos sofrimentos imaginários dos neuróticos que idealizam o amor.

Isso mesmo, um desses dias a psicanálise, que tanto resistiu às baboseiras do século 20, tombará sob o peso do mercado do narcisismo.

O mercado do narcisismo, além de investir em apartamentos singles com um parque de diversão na área social, vende, basicamente, estilos de vida e modas de comportamentos. Essas modas se concentram no cotidiano. Alimentação, lazer, trabalhos sem muito vínculo, relacionamentos solúveis na busca de autoestima.

A simples ideia de que narcisistas resolvem melhor a vida já demonstra a raiz da hipótese: a solução para a insolúvel vida afetiva é não ter muitos afetos afora aqueles que são autorreferenciais. Todo mundo muito bonitinho na fita, se roendo por dentro, mas vendendo a pose de que é uma geração de evoluídos.

A tese segundo a qual esse comportamento seria uma evolução psíquica nasce, ao final, da aceitação de uma certa vertente do pensamento pós-moderno. Esta tese pressupõe que, terapeutas, ao supor que pessoas "blasés" com relação a solidez dos vínculos são, na realidade, pessoas com pouco amadurecimento psíquico, e, portanto, doentes, fere a natureza essencialmente socio-histórica do ser humano. Complicado? Nem tanto.

O pensamento pós-moderno tem uma vertente "otimista" segundo a qual tudo é historicamente construído, e, portanto, muda. Nada é perene. Não existe uma "natureza humana" (ponho entre aspas o termo para que os inteligentinhos não venham com suas críticas de Facebook ao conceito de natureza humana) a nos atormentar desde as trevas da ancestralidade. Tudo muda, basta você mudar sua alimentação ou forma de se locomover na cidade. Um novo estilo de se vestir gera toda um processo de evolução anímica.

Seguindo este raciocínio, supor que o "normal" seria as pessoas buscarem relacionamentos perenes (e que aqueles que não o fazem seriam, portanto, imaturos) é ser anacrônico e fazer demandas atávicas para jovens que superaram a necessidade desses mesmos relacionamentos mais consistentes.

Não é à toa que um comportamento light como esse é, normalmente, acompanhado de baixa fertilidade (por escolha ou mesmo por causas psicossomáticas). Filhos demandam uma certa perenidade e bastante generosidade. Características pouco comuns em narcisistas.

Agora, se você tem um paciente que parece um zumbi alegre na vida afetiva, não assuma que ele deveria ser diferente. Assuma que você é um ultrapassado e que pessoas pós-modernas podem ser bem resolvidas e não precisam de afeto como você. Por isso, elas são tão bonitinhas o tempo todo em eventos culturais por aí. Flanam pelo mundo livremente porque (quase) ninguém depende delas. Fofos e velozes.