sábado, 3 de janeiro de 2015


RUTH DE AQUINO
30/12/2014 08h00

Muda, Brasil

2014 desmoralizou os videntes, com o petrolão, a morte de Campos e o 7 a 1. Mas aí vão minhas apostas para 2015

O ano de 2014 desmoralizou qualquer astrólogo, numerologista ou jornalista metido a fazer apostas sobre o Brasil. A goleada humilhante de 7 a 1. A morte trágica de Eduardo Campos. As reviravoltas nas eleições. O petrolão, com o roubo de bilhões. Esses cataclismos somados tornam uma irresponsabilidade o texto abaixo. No ano passado, fiz meus votos ao presidente que fosse eleito em 2014. A julgar pelo que aconteceu, éramos ingênuos e não sabíamos. Dilma Rousseff também não sabia de nada. Eis minhas apostas para 2015.

O mordomo, aliás, o doleiro será o único a continuar preso até o fim do próximo ano.

A Papuda será transformada provisoriamente num resort, com jacuzzi nas celas, para se adaptar ao novo estilo de presidiário itinerante. Fará convênio com o Copacabana Palace para fins de semana semiabertos na suíte favorita de Lula e Gisele Bündchen.

Dilma Rousseff voltará a falar. Mas levará tempo. Está rouca de tanto engolir os sapos do Lula. Nenhuma refinaria será aprovada em 2015. Virou sinônimo de regrosseria.

A delação premiada virará moda nos presídios e nas favelas comandadas por traficantes e milicianos.

Bombeiro nenhum conterá os vazamentos. Ou o desabamento das ações da Petrobras.

Dona Marisa achará pequeno o tríplex no Guarujá e pedirá ao marido Lula um quadrúplex.

Paulo Roberto Costa abrirá uma empresa de consultoria para bandidos arrependidos e escreverá um best-seller definindo o que é “offshore vermelho”.

Sergio Moro perseguirá falcatruas até no Supremo. Ninguém segura mais o homem com jeito de bom moço. Silvio Berlusconi teme que Moro peça cidadania italiana.
Venina, a menina veneno da Petrobras, mostrará outros e-mails matadores e estrelará a nova temporada da série Downtown Brasília.

Graça Foster será promovida por Dilma. A qualquer coisa. Imperatriz do pré-sal, imperatriz leopoldinense, não importa. Sem Graça, Dilma não fica. Uma não vive sem a outra.
O novo Enem (Exame Nacional de E-Mails), a ser criado por Dilma em 2015, tem o objetivo de ajudar Graça a melhorar o nível de interpretação de texto.
Joaquim Levy, o Clark Kent da equipe ministerial, ajustará até a saia da Dilma. Só que ela esconde na manga uma pedra de kriptonita.

Cuba também investigará as contas da Petrobras. E o mojito desbancará a caipirinha no gosto dos americanos.

Carteiradas de juízes para levar vantagem pessoal serão finalmente extintas, porque ninguém mais leva a sério.

Motoristas de ônibus e vans não terão mais raiva assassina de ciclistas e pedestres.

O Congresso só aprovará reforma da cozinha. Deputados e senadores esticarão o recesso para aproveitar as últimas boquinhas e os últimos jatinhos emprestados.

Parlamentares acharão pouco o aumento de seus vencimentos, de R$ 26.700 para R$ 33.800.
A lista dos políticos envolvidos com o amigo oculto Alberto Youssef só será divulgada após o Carnaval por “excesso de trabalhos” em 2014. Você acredita?

O Botafogo pedirá audiência ao papa Francisco, para que ele revele a mandinga que fez para que seu clube, o San Lorenzo, fosse campeão da Libertadores.

A Baía de Guanabara será despoluída. O Gastão, sobrinho do Tio Patinhas Alckmin, será multado em 50% de suas contas se consumir mais água do que deve. Paulistas caíram como patinhos na lagoa seca.

Brasileiros de todas as classes sociais aprenderão a dizer “por favor”, “obrigado” e “desculpe”.



GUILHERME FIUZA
31/12/2014 08h00

O Brasil tem quatro anos para virar a Argentina

Ou levamos a investigação do petrolão até o fim – ou então já pode ir fazendo as malas

Uma grande empreiteira pagou R$ 886 mil a uma empresa de José Dirceu e obteve, em seguida, um contrato com a Petrobras no valor de R$ 4,7 bilhões, para realização de serviços na Refinaria Abreu e Lima. Para quem não lembra, essa é a famosa obra que multiplicou seu valor original pelo menos três vezes e passou dos R$ 40 bilhões. A reportagem de ÉPOCA que mostra a triangulação camuflada sob uma “consultoria” de Dirceu ajuda a entender por que essa refinaria ficou 200% mais cara que ela mesma. Há um outro sócio fundamental dessa transação: o eleitor de Dilma Rousseff.

Essa triangulação, descoberta pela Polícia Federal na blitz conhecida como “Dia do Juízo Final”, se deu entre 2010 e 2011. Exatamente quando Dilma ascendia à Presidência. E Dirceu já era réu no processo do mensalão. As cartas já estavam na mesa, e os anos seguintes apenas as revelaram: Dirceu condenado, e o petrolão descoberto.

Quando foi às urnas em outubro passado, o eleitor brasileiro já sabia de tudo: que cardeais petistas haviam plantado uma diretoria na Petrobras para roubar a empresa em benefício da sustentação de seu projeto de poder. Exatamente a mesma tecnologia do mensalão, também tramado de dentro do Palácio do Planalto. Quem votou pela reeleição de Dilma, mesmo que alegue esquerdismo, progressismo, coitadismo ou cinismo, é sócio político do esquema.

A pergunta é: o que será do Brasil nos próximos quatro anos? Algumas vozes respeitáveis têm oferecido um ombro amigo ao governo popular – não para que ele chore suas lágrimas de crocodilo, mas para que não caia de podre. É a tese de que o impeachment é pior para o país do que carregar por quatro anos um governo na UTI. Tudo bem. Só falta combinar com os russos. O segundo mandato de Dilma Rousseff nascerá desmoralizado no país e no exterior. Nesse cenário, como investir no Brasil? Como respeitar as instituições? Como concordar e se submeter às regras do jogo, se o juiz se vendeu na cara de todo mundo?

O mais ortodoxo dos contribuintes, aquele que jamais cogitou sonegar impostos, está revoltado com cada centavo que paga ao Fisco. Caiu a máscara social do PT – e agora todos já sabem que a trilionária arrecadação da União está a serviço de uma indústria de privatização da política. Daí os níveis de investimentos irrisórios, a estagnação da infraestrutura, o desperdício de uma década de bons ventos econômicos sem avançar um milímetro nos sistemas de saúde e educação – enquanto o sistema de corrupção cresceu admiravelmente (o mensalão é troco diante do petrolão), e o bom pagador de impostos não tem mais dúvidas: estão me fazendo de otário.

Traduzindo: o contrato republicano foi rasgado. Se o brasileiro não fosse essa doçura, o primeiro governista que falasse na volta da CPMF seria crucificado em praça pública. Por meio de um dublê de bobo da corte e ministro da Fazenda, o governo assegurou que estava tudo bem com as contas públicas – até avisar, passada a eleição, que daria o golpe na Lei de Responsabilidade Fiscal. A tropa companheira marchou sobre o Congresso e incinerou, ao vivo, o principal compromisso com a saúde financeira nacional. É isso aí: torramos o dinheiro do contribuinte e mudaremos a meta na marra, para legalizar o rombo.

O projeto parasitário do PT está empobrecendo democraticamente ricos e pobres. É sempre indesejável a metáfora do câncer, mas não há descrição mais precisa dessa autópsia: um projeto de poder que plantou células degenerativas a cada movimento no organismo estatal. Como será o embate do respeitável Joaquim Levy com toda a teia de artifícios montada para gerar a famosa contabilidade criativa? Haja quimioterapia.

Seria até esperançoso imaginar que, agora, haverá 100% de esforço e sacrifício em prol do tratamento rigoroso. Só que não... O ponto a que chegou o plano petista não tem volta. A única chance de Dilma, Lula & Cia. é ajeitar as aparências e dobrar a aposta. Do contrário, a mitologia acaba e, aí sim, todos eles pagarão muito caro pelo que fizeram ao Brasil.


Ou o país leva às últimas consequências a investigação do petrolão – se for séria, ela levará a uma inevitável faxina no Palácio – ou pode ir fazendo as malas para a Argentina.

03 de janeiro de 2015 | N° 18031
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

PODES ME OUVIR?

A escassa cultura médica sobre transplantes implica, muitas vezes, encaminhamentos tardios

Um telefonema interurbano para falar de transplante quase invariavelmente é prenúncio de sofrimento, de angústia, de corrida perdida contra o tempo, de nada por fazer.

A escassa cultura médica sobre o procedimento e a noção equivocada de que transplante é terapia do desespero implicam, muitas vezes, encaminhamentos tardios. Disso decorrem injustificáveis mortes durante a realização dos exames para avaliar a indicação do transplante em pacientes portadores de doenças que evoluíram ao longo de anos. Outras vezes, a consulta pretende apenas afastar qualquer possibilidade de culpa por omissão no futuro. E isso se previne com a certeza de que tudo o que era possível foi tentado.

Quando o paciente é mais velho, é comum que a informação de que o transplante é inviável naquela idade seja seguida de um indisfarçado suspiro de alívio. “Porque é certo que faríamos tudo o que fosse necessário, mas se não é possível, temos de nos conformar, não é, doutor?” Pois é. Depois de muitos anos trabalhando com pessoas no limite do desespero, podemos ter a sensação de que, afinal, conhecemos a floresta, mas sempre haverá chance de uma surpresa, e a vida que surpreende é a que conta.

O telefonema começou com um tom de voz a denunciar que aquela era a primeira frase depois de um choro prolongado. As palavras eram entrecortadas, arranhavam na garganta. Desliguei o DVD, aquela não era conversa para se resolver num simples pause.

No fim, não pude fazer nada para ajudá-los, o câncer da Eduarda nunca tinha sido de fato controlado e as lesões pulmonares decorrentes das drogas da quimioterapia eram apenas um atalho no caminho inexorável para a morte. Ouvi-la descrever a dor de uma mãe assistindo a morte diária da filha liquidou com minha semana. Passados alguns meses, agora véspera de Ano-Novo, ela resumiu bem o nosso convívio virtual, solidário, soluçado, doloroso.

“Final de ano, aproveito para mandar uma mensagem, já devia tê-lo feito antes.

Sou Sandra, mãe da Eduarda, paciente do doutor Leonardo. Talvez se lembre do meu último contato, em 30 de abril, um telefonema em caráter de desespero e apenas para atender pedido de um colega médico que não se conformava com a triste evolução da Eduarda.

Certamente, quando disquei, sabia que nada havia por fazer que fosse relacionado a transplante pulmonar. Mas mesmo assim liguei e, para minha surpresa, fui de imediato atendida pelo senhor, que parecia estar esperando minha chamada e, com amor, carinho e paciência, me explicou o que era óbvio, mas teve a sensibilidade de entender o desespero da mãe com uma criança agonizante, com uma morte anunciada e até desejada, diante de tanto sofrimento. Mas quero dizer que aquele não foi o nosso contato mais importante.

A sua figura significou, para Eduarda e nossa família, esperança, sem a qual não teria sido possível continuar vivendo. Tínhamos de cumprir várias etapas para chegarmos a Porto Alegre. A última seria a segunda prótese de quadril, agendada para a semana seguinte à da sua morte. Quero agradecer a gentileza de ter respondido todos os meus e-mails e me orientado. Se não chegamos a Porto Alegre, foi porque esse não era o nosso destino. Muito obrigada pela sua grandeza, mesmo não nos conhecendo, fez parte da nossa vida em 2014.


Desejo-lhe um feliz 2015. E que Deus cuide da sua família com o carinho que roguei tanto que cuidasse da minha. Abraços, Sandra”.

03 de janeiro de 2015 | N° 18031
 NÍLSON SOUZA

A ENTREVISTA

Encontrei na virada do ano um velhinho que caminhava solitário às margens plácidas do lago/rio/estuário das nossas dúvidas alegreportenses. Era noite já, e cheguei mesmo a pensar que aquela aparição de barbas compridas fosse o próprio homem do calendário, batendo em retirada lá para os lados da Ponta Grossa. Resolvi entrevistá-lo:

– Boa noite! Feliz ano velho! – disse, para chamar-lhe a atenção.

– Feliz? – murmurou, sem levantar a cabeça. Parei na sua frente e tentei animá-lo.

– Se não foi feliz, também não foi totalmente infeliz. Afinal, estamos vivos. O que aconteceu com você?

– Tropecei na bola... – me disse, com sete rugas de preocupação.

– Ora, isso acontece com os melhores campeões – argumentei sem muita convicção.

– Mas não foi só isso – ele acrescentou. – O que mais? – ousei perguntar.

– Sujei as mãos de petróleo – confessou, aparentemente envergonhado.

Era só lavá-las, pensei, sem captar o sentido figurado do verbo. Como se lesse meus pensamentos, ele acrescentou, ainda na linguagem das metáforas.

– Faltou água. E por culpa minha.

Captei a mensagem e tentei consolá-lo:

– Erro de santo. São Pedro é que controla a torneira – tentei brincar.

Sem achar graça do trocadilho, ele continuou:

– Também não consegui controlar a filharada, que brigou como gato e cachorro para mandar na casa.

Agora, já ciente de seu gosto pelas analogias, percebi que falava das eleições. Procurei mudar de assunto:

– Mas o ano terminou bem, um brasileiro caminhou sobre as águas do mar no Havaí...

– E muitos outros ficaram retidos nas estradas engarrafadas – atalhou ele.

Seu baixo-astral era contagiante. Resolvi, então, encerrar a entrevista, mas antes quis saber a sua identidade. Comecei pela idade:

– Quantos anos tem o amigo? – Vou fazer 515 no próximo abril - afirmou com convicção.

Só então percebi com quem estava falando. Já um pouco agastado, tratei de me despedir:


– Passe bem, senhor Brasil! E saí rezando para que o meu primeiro desejo de Ano-Novo se realize.

03 de janeiro de 2015 | N° 18031
DAVID COIMBRA

Por que o governador decepciona

Num domingo de manhã, tempos atrás, fui ao Trader Joe’s para reabastecer a despensa. O Trader Joe’s é um supermercado meio natureba – pelo menos a filial perto da minha casa é. Tem um monte de produtos orgânicos e tal. Eles nem vendem refrigerante, que faz mal para o corpo. Mas bebida de álcool vendem, que faz bem para a alma.

Nesse dia, queria comprar, entre outras coisas, um tinto do Napa Valley, para ver se os americanos conseguiram se equiparar ao Vinhedo’s Valley, de Bento. Mas, quando cheguei à seção de bebidas, surpresa! Não pude entrar. Aí percebi que havia uma fila de pacientes americanos ao lado do acesso ao setor. Fui falar com um deles e descobri o que estava acontecendo: existe uma lei, no Estado de Massachusetts, que proíbe a comercialização de álcool aos domingos até o meio-dia.

É uma das chamadas “leis azuis”, as leis com base em tradições religiosas. A ideia é que as manhãs de domingo servem para ir à missa, para se fazer uma pausa de sobriedade e reflexão.

Bem. Faltavam cinco minutos para o meio-dia. Passado esse tempo, uma multidão invadiu a seção de bebidas e deu de mão nas garrafas de uísque, rum, cerveja e vinho, e acabaram-se a sobriedade e a reflexão.

Você tem de prestar atenção às leis estaduais, por aqui. Os Estados Unidos são, de fato, um país federalista, inclusive (e principalmente) na arrecadação de impostos.

A federação brasileira foi organizada tendo os Estados Unidos como molde, mas não funciona da mesma forma. O Brasil é um país centralizado, o presidente é um rei.

Há uma razão histórica para isso.

Nos Estados Unidos, ao contrário de todos os outros países do mundo, o Estado foi constituído antes da nação. As 13 colônias inglesas eram como que países independentes entre si, embora fossem vinculadas à coroa britânica. Como Uruguai, Argentina e Paraguai, que eram da coroa espanhola.

Então, um grupo de intelectuais se reuniu e criou regras para formar um país. Depois disso, as colônias foram se agregando ao país, como sócios que ingressam num clube, até chegar ao atual número de 50 Estados.

Essa situação colocou a lei no centro da vida norte-americana. Porque os Estados Unidos foram FUNDADOS pela lei. Há um famoso discurso de Lincoln em que ele brada:

“Que o respeito às leis seja transmitido por todas as mães norte-americanas com um bebê balbuciante nos braços. Que seja ensinado em escolas, seminários, faculdades. Que seja mencionado em cartilhas e almanaques. Que seja pregado nos púlpitos, proclamado nas tribunas legislativas e reforçado nos tribunais. Em suma, que se torne a religião política da nação!”

E assim é. Os americanos confiam no sistema, e o sistema é intrinsecamente federalista e municipalista.

Tal realidade não impede que Estados e municípios americanos cometam erros e sejam mal administrados, obviamente, mas a diferença em favor deles é que um Estado brasileiro não tem autonomia nem para ser miserável. Sartori, agora, está assumindo um Estado que só tem uma prerrogativa: de pedir mais ou menos recursos para a União.

O que um Estado brasileiro pode fazer que a União ou o município não façam melhor?

De quatro em quatro anos, o Rio Grande do Sul troca um governador com quem se decepcionou por outro com quem se decepcionará. Não é culpa dos governadores. Talvez os gaúchos tenham uma parcela de culpa, porque esperam demais de seus governadores e acreditam demais na ficção de autonomia do seu Estado.


Mas a culpa maior, na verdade, é da estrutura da federação brasileira, que é federação só no nome. Antes da reforma política, o Brasil tinha de passar por uma profunda reforma tributária, mantendo a maior parte da arrecadação onde o imposto é cobrado, tornando o país uma federação de fato. Mas em Brasília vivem reis, e quem vai querer deixar de ser rei?

03 de janeiro de 2015 | N° 18031
O PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Xeica

COMO O ÁRABE USA um alfabeto que não é o romano, vocábulos foram transliterados de diferentes maneiras

De uma leitora de Curitiba, Palmira G., veio a pergunta que hoje respondo com especial carinho (ela lecionou Português durante quarenta anos, e, mesmo aposentada, nunca deixou de ensinar o amor ao idioma aos filhos e aos netos): “Sempre que eles têm dúvida, recorrem a mim, mas dessa vez eu fiquei devendo: minha neta mostrou uma notícia que fala de uma xeica que veio nos visitar. Isso existe, professor? O senhor não acha horrível?”. Acho horrível, sim, dona Palmira, mas se a senhora acompanhar minha explicação, verá que existe uma hipótese muito, mas muito pior.

Vamos começar com sheik, termo de origem árabe que serve para designar uma autoridade cuja gradação pode ir do simples chefe de clã ou tribo até chegar a um príncipe ou mesmo a um rei. Em vários países islâmicos – e, em especial, nos Emirados Árabes –, as mulheres da mesma hierarquia recebem o título de sheikha. A notícia que a senhora leu seguramente devia tratar da sheikha Mozah bint Nasser Al Missned, esposa do emir do Catar, que esteve no Brasil no ano que acabamos de encerrar.

Como o Árabe usa um alfabeto que não é o romano, o vocábulo, ao ingressar no Ocidente, foi transliterado das mais diferentes maneiras: jeque (Esp.), sceicco (It.), Scheich (Al.), cheik (Fr.), sheikh (ou sheik, as preferidas do Inglês, embora o OED registre mais outras dezenove variantes). No Português, como não poderia deixar de ser, a forma tradicional sempre foi xeque (adotamos sempre a letra X para essas transliterações: xampu, xerife, xarope, Xerazade).

Desde o século 16, as páginas de Camões, de João de Barros e de Fernão Mendes Pinto estão repletas de xeques, e assim vivemos muito bem até que Hollywood (e depois a Rede Globo) puseram em voga por estas bandas o sheik do Inglês. Nos anos 20, as brasileiras suspiravam quando Rodolfo Valentino, o eterno latin lover, corria pelo deserto, com o albornoz ao vento, nos filmes O Sheik e O Filho do Sheik; quatro décadas depois, nos anos 60, foi a vez da TV brasileira reaproveitar o cenário “romântico” do deserto para lançar a novela O Sheik de Agadir, que fez um grande sucesso na época. Por influência direta dessa forma inglesa, terminou surgindo a variante xeique, menos usada mas também registrada nos bons dicionários.


Agora a senhora vai me entender: a esposa do emir de Catar vem ao Brasil; o repórter, no que fez muito bem, não quer usar a forma inglesa, com o seu exótico SH e, pior ainda, com o KH, cacófato próprio para piada. O que faz ele? Vai ao dicionário e encontra duas opções, xeque ou xeique. Como se trata, porém, de uma dama, ele sabe que precisa usar o vocábulo no feminino. E aí? Existe outra saída? A senhora terá de concordar que, afinal, até que xeica não é tão horrível assim...

03 de janeiro de 2015 | N° 18031
CAROL BENSIMON

Chiado

2014 foi o ano do qual as pessoas adoraram reclamar no Facebook. Foi o ano que não terminava, o ano de saber demais a respeito das opiniões políticas daquele amigo de infância, o ano de escândalos de corrupção, de intolerância declarada, humilhação futebolística, grandes acidentes aéreos. 2014 foi também o ano em que a venda de discos de vinil na Grã-Bretanha atingiu o maior patamar desde 1996, o que parece um dado irrelevante diante do aquecimento global, do ministério da Dilma e da crise hídrica de São Paulo, mas não se engane: o crescente interesse pelos bolachões diz um bocado sobre o mundo de hoje e a chamada geração Y. Em 2014, eu comprei uma vitrola.

Não há nenhuma lembrança de infância ou juventude que justifique tal coisa. Sou uma dessas filhas frustradas da década de 80. Isso quer dizer que nasci na fatia da história em que os hippies foram trocados pelos yuppies (claro que prefiro os hippies), os sonhos passaram a ter cifras e as mulheres faziam permanente (o processo tinha um cheiro ruim). Quando tive idade para ouvir música, me mandaram direto para as fitas K7 e os CDs. Nunca me ensinaram a pousar a agulha nas ranhuras de um disco.

A volta do vinil é provavelmente um ato de resistência que, como todo o “desvio” hoje, tornou-se em pouco tempo uma tendência de consumo. E parece mais ou menos simples entender o que esse ato significa: digamos que uma parcela de nós fica meio incomodada com a velocidade das coisas, a imaterialidade da música digital e a sensação de que tudo está ao nosso alcance o tempo todo.

Há alguma beleza em percorrer capas em uma loja de discos. Há alguma beleza em observar um objeto que gira para fazer Bob Dylan cantar. A época em que tínhamos tempo de decorar letras – hoje parece que não ouvimos nenhuma canção o suficiente para isso – também parece bela, imperfeita, cheia de significado. Em 1994, memorizei a saga inteira de Faroeste Caboclo, do Legião Urbana. Todas as meninas da turma fizeram isso. Pule alguns anos. No fim da década de 90, os amigos que sabiam tocar violão tinham um repertório restrito, e a gente não se importava em repetir canções. Parece que o momento se amplificava quando Stairway to Heaven era tocada pela enésima vez. Há alguma beleza no finito, na insistência, no detalhe.


O vinil provavelmente simbolize tudo isso. Em 2015, mais discos serão comprados. Ainda vamos consumir muita música digital, porque é bom ter 5 mil canções no bolso ou acesso imediato ao álbum de uma nova banda dinamarquesa. Mas, em algumas noites, estaremos em nossas salas rindo, ou preocupados com o tempo que passa, e o disco vai estar lá, rodando. Aquele disco mais uma vez. A trilha sonora de nossas vidas. Um 2015 com música, paixão e um pouco de chiado.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015


02 de janeiro de 2015 | N° 18030
ARTIGOS ZH

CARTA A JOSÉ IVO SARTORI

Prezado governador,

Há informações vitais sobre a educação no Rio Grande do Sul que são de seu interesse. O Departamento de Pesquisa do Instituto Alfa e Beto analisou os dados do Enem de 2013, que o Inep acaba de divulgar, e concluiu que o Ensino Médio é o exterminador do futuro dos jovens, se continuar a ser conduzido no formato em que está. Cabe ao senhor reverter esse quadro.

Os resultados da prova objetiva mostram que, no plano nacional, a média foi de 513 pontos, sendo 554 nas redes privadas e 479 nas redes estaduais.

No Rio Grande do Sul, esses resultados foram de 494 pontos para as escolas da rede estadual e 565 pontos para as da rede privada. O Estado ficou no honroso 2º lugar dentre as redes estaduais, mas, apesar do feito, os resultados são medíocres e a diferença entre as duas redes, gigantesca.

No Brasil, apenas 1,8% dos alunos das escolas estaduais atingiram mais de 600 pontos; esse índice foi de 42% para as escolas privadas, o que significa que são os seus alunos que ingressam nas melhores universidades.

Mudar a gestão das escolas públicas fará enorme diferença. Há algo intrinsecamente ineficiente no modo de operar dessas escolas. O Ensino Médio aí ministrado não apenas é de baixa qualidade, mas é mais ineficiente. Essa mistura explosiva contribui para aumentar a desigualdade social e retirar da juventude a perspectiva de um futuro melhor. No país, apenas 50% dos que começam o Ensino Médio chegam ao final do ciclo. No seu Estado, os números não são muito diferentes.

Se a experiência dos países desenvolvidos nos servir, a resposta é simples. É preciso melhorar o Ensino Fundamental, o ponto de partida. É vital diversificar o Ensino Médio, oferecendo cursos diferentes, de caráter profissionalizante e em escolas separadas, com essa vocação. Disso, resultarão diferentes tipos de exame, e não apenas um único Enem.

Cabe ao seu governo trazer esperança para os jovens do Rio Grande do Sul e ampliar suas chances no mercado de trabalho. O futuro está em suas mãos, governador.

Presidente do Instituto Alfa e Beto - JOÃO BATISTA ARAUJO E OLIVEIRA



02 de janeiro de 2015 | N° 18030
ARTIGOS ZH

A ESPERANÇA COMO ENERGIA PROATIVA

Vivemos em um momento curioso da história brasileira. Sentimos o perigo de andar na rua, a falta de suporte a nossa saúde pública, sentimos também o peso da corrupção, a influência do baixo PIB brasileiro... Enfim, não há quem não conheça ou até saiba discorrer horas sobre nossas mazelas. Por outro lado, sentimentos como o da esperança parecem estar com mais perigo de extinção do que o mico-leão-dourado.

Não quero falar de esperança somente por estarmos iniciando um novo ano. Não é no sentido religioso ou do que sempre espera, em que a mesma encontra sua maior importância.

Quero expressar minha vontade de que o ato de ter esperança venha a tomar nossas vidas como uma energia para as melhorias. Somente conseguimos fazer algo melhor, seja para nós mesmos ou para os outros, se acreditarmos nisso como sendo possível. Povos que prosperam, pessoas que se desenvolvem, momentos bons, sempre acontecem porque queremos que assim seja. Evidentemente que estes mesmos exemplos de povos, pessoas e momentos também podem dar “errado” mesmo com a esperança de dar certo, mas a única certeza que temos é que, sem a esperança, sequer começamos a dar chance para o sucesso acontecer.

Hoje, no Brasil, estamos convivendo com naturalidade com as más notícias. Achamos normal um escândalo atrás do outro. Resignamo-nos por índices baixos nos mais variados indicadores de prosperidade. Seguidas vezes, pensamos que não existe solução possível.

Quando deixamos a esperança capitanear nossas ações, o passado não conta mais, pois é para o futuro que estamos trabalhando. Quando olhamos para o futuro é que desejamos somente coisas boas (ou você já viu alguém sonhando com dias piores). Gostaria de propor a mudança da frase “a esperança é a última que morre” para algo mais proveitoso: a esperança tem de ser a primeira a nascer.

Foi com a esperança de que o homem conseguisse voar que foi inventado o avião. Foi com a esperança de lhe tornar uma pessoa mais feliz que seus pais lhe deram educação. É com a esperança de um Brasil melhor que devemos acordar todo dia.

Vai aí a minha dica: tenha esperança, compartilhe esperança, viva com esperança, pois assim as ações para nossos desejos terão um local mais fértil para prosperar.

Esta é a minha esperança.


Arquiteto e empresário da construção civil - DANIEL TOMBINI KASPRZAK

02 de janeiro de 2015 | N° 18030
PRÓXIMO PRATO | LUIZ AMÉRICO CAMARGO*

UM EXCELENTE 2015

FOI UMA SURPRESA. Mas 2015 revelou-se um ano e tanto, em especial na gastronomia. Basta lembrar como estavam os ânimos no já distante dezembro de 2014. Diante de perspectivas pouco animadoras da economia, de uma atitude arredia dos consumidores e de uma postura desconfiada dos empreendedores, a temporada se encerra de forma brilhante.

Vamos relembrar. A primeira boa notícia foi em relação ao vinho. A produção nacional foi corajosamente desonerada, os impostos sobre os bons rótulos importados caíram à metade e, num pacto inédito, importadoras e restaurantes reduziram drasticamente seus preços. Que alegria ver que o consumo médio no país saiu dos imutáveis 2 litros/ano por cabeça para quase 10 litros/ano.

Na alimentação doméstica, foi ótimo constatar como o arroz com feijão, as moquecas, o barreado, o arroz carreteiro e outras especialidades sobrepujaram lasanhas e empanados industriais. Nos restaurantes, a guinada foi mais notável: muita comida fresca, barata e mais comensais do nunca. Para tanto, a redução geral de preços foi essencial. O aumento da diversidade de opções, idem: de quitutes de rua e food trucks a tradições de etnias menos conhecidas, de bares gastronômicos a novas casas de alta gastronomia.

Sem falar na valorização crescente da nossa culinária no plano mundial. Até poucos anos, os estrangeiros só conheciam um ou outro chef nacional. Hoje, são mais de 30 estabelecimentos brilhando em guias e listas internacionais. O brasileiro está mais orgulhoso em cozinhar e em comer.

2016 promete, vocês não acham?

PS: Daqui a 12 meses, lembre-se do exercício de futurologia acima. Veja se o colunista delirou ou se alguma coisa, para felicidade geral, concretizou-se.


*Crítico gastronômico e autor do livro Pão Nosso

02 de janeiro de 2015 | N° 18030
MOISÉS MENDES

Capilé

Estava cruzando por uma esquina da Redação, na semana passada, quando ouvi alguém lançar a pergunta a quem estivesse na volta: por onde anda o Capilé?

Continuei andando, e a pergunta ficou por ali, juntando-se a outras que se dependuram como bicho-preguiça no teto, nas TVs, nas frestas do ar-condicionado, nas testas dos repórteres. Num fim de ano, uma Redação é o lugar das perguntas dependuradas, algumas há décadas.

Por onde anda o moço que surgiu como profeta das mídias sociais? Capilé barbarizou a internet com o Mídia Ninja, na cobertura das manifestações do inverno de 2013. Os ninjas inquietaram o jornalismo. Eram colaborativos e captavam, sem filtros, as imagens e as falas das manifestações.

O guri do Mato Grosso, articulador do Fora do Eixo, cumpriu seu tempo como celebridade midiática e sumiu. O Mídia Ninja continua aí, no site, no Facebook. E bombando.

Depois daquela pergunta sobre o Capilé, fui espiar o Mídia Ninja. Tinha uma longa reportagem do jornal inglês The Guardian sobre a cidade chinesa de Yiwu.

Yiwu produz 60% de todas as bugigangas de Natal para o mundo. Pinheiros de plástico, luzinhas piscantes, Papais Noéis, bonequinhos, bolinhas, renas, trenós.

Yiwu é o lixo do comunismo confuciano a serviço do que existe de pior do capitalismo que obtém vantagens também com as misérias mais distantes. A cidade chinesa do Natal tem 600 fábricas. Os operários trabalham 12 horas por dia em porões.

Li a reportagem e pensei nas coisas que tenho em casa, além das bolinhas de Natal. Que utilidades não vieram da China? É difícil querer discriminar mercadorias chinesas e ficar, como produto genuinamente nacional, apenas com a bomba de chimarrão de mil furos dos Vargas do Alegrete.

Mas agora me incomodam os enfeites piscantes. Como associar Natal, mesmo com todo o consumismo, ao que se passa nas fábricas chinesas?

Falo disso porque me lembrei daquela pergunta sobre o Capilé. Todos os que lidam com informação precisam ser cutucados de vez em quando por um Capilé que nos tire da sesta.


Então, decidi agora que em 2015 quero ter menos produtos chineses e mais Capilés. Tivemos as redes sociais (vivam as redes), com as vozes da diversidade do Facebook, mas faltou um Capilé em 2014. Não dá para ficar sem um Capilé.

02 de janeiro de 2015 | N° 18030
OLHAR GLOBAL | Luiz Antônio Araujo

Aquela ponte em Selma

Habitantes da cidadezinha de Selma, no Alabama, receberão um afago do estúdio Paramount na sexta-feira. Responsável pela distribuição do filme de Ava DuVernay que leva o mesmo nome do lugarejo, o gigante de Hollywood propiciará uma sessão gratuita do longa para o público local. Selma, o filme, é inspirado nas marchas pelos direitos civis protagonizadas na cidade pelo reverendo Martin Luther King Jr., que completarão 50 anos em março.

Enfrentando a polícia, a Ku Klux Klan e racistas avulsos, King e seus companheiros abriram caminho para a promulgação da Lei dos Direitos Civis pelo presidente Lyndon B. Johnson.

Selma é a primeira produção hollywoodiana a apresentar Luther King como personagem principal – até mesmo seu antípoda, o radical Malcolm X, já merecera uma cinebiografia. Mas não foi o retrato de King, vivido por David Oyelowo, que rendeu as mais pesadas críticas a Selma, e sim o de Johnson. Especialistas deploram a apresentação do presidente como signatário relutante da lei que aboliu a segregação racial e responsável pela espionagem do FBI contra o reverendo.


Na cerimônia de posse de Barack Obama, em 2009, o militante dos direitos civis John Lewis disse que o novo presidente era “o que estava do outro lado daquela ponte em Selma”, referindo-se a um sangrento episódio de março de 1965. O filme antecipa as controvérsias que certamente terão lugar no aniversário de 50 anos das marchas.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015


PAULA CESARINO COSTA

Dá para pular 2015?

RIO DE JANEIRO - O ano que demorou a começar foi embora debaixo de alta temperatura e pressão. Era um ano cercado expectativas. No final, parecia que nunca ia acabar.

Houve a Copa do Mundo. O clima era de pessimismo quando se tratava da organização e de otimismo em relação à seleção brasileira. O fracasso limitou-se ao time em campo. Foi uma invasão de todas as línguas e cores, bonita e emocionante. A Copa em si teve bom futebol e muitos gols. Escancarou os erros brasileiros. A goleada de 7 a 1 imposta pela Alemanha obrigava à modernização de técnicos e dirigentes, mas o que se viu foi o retorno de Dunga.

Houve eleição. No ano seguinte às manifestações que pareciam ter oxigenado o país, acreditava-se na reafirmação da democracia e em renovação política. Mas a sétima eleição presidencial desde a redemocratização terminou com invocação da ditadura. E um deprimente novo ministério feito à base do velho loteamento.

Em 2014, estourou a investigação da Lava Jato. Depois de décadas de corrupção, poderosas empreiteiras devem ser punidas. O que sairá daí assusta e anima ao mesmo tempo.

A Petrobras, tida como orgulho nacional, revelou-se a casa da mãe joana, onde tudo pode desde que respeitadas certas regras de conchavo. Delações expuseram irregularidades comentadas há muito tempo à boca pequena. Paulo Francis tinha razão: as contas no exterior com dinheiro de corrupção não eram miragens. A gigantesca empresa saiu de 2014 menor do que entrou. Se a economia não foi bem, vai ficar muito pior.

A sensação térmica de 50 graus no Rio parece sinal do que se avizinha. O governador afia as tesouras para cortar investimentos, a política de segurança tropeça em velhos problemas, as tarifas de transporte viram o ano muito mais altas.

O ano que acabou de começar tem tudo para ser mais difícil do que o que passou. Não dá para pular 2015?


BERNARDO MELLO FRANCO

Feliz ano velho

BRASÍLIA - O que esperar de um governo novo que já nasce velho? A pergunta ronda toda reeleição, mas promete ser ainda mais implacável com Dilma Rousseff. A presidente começa hoje o segundo mandato em clima de ressaca, com a economia estagnada e sua base política enredada no escândalo da Petrobras. Nem os áulicos mais otimistas conseguem prever tempos melhores em 2015.

Há quatro anos, Dilma subiu a rampa do Planalto embalada por uma votação consagradora. O país crescia em ritmo chinês e fazia história ao escolher a primeira mulher para governá-lo. Agora a presidente não é mais novidade, e a vitória apertada nas urnas indica que seus créditos podem se esgotar rápido.

Ao discursar em sua segunda posse, em 1999, Fernando Henrique Cardoso afirmou que não havia sido eleito para ser o "gerente da crise". A ficção do real forte se desfez em apenas duas semanas, e o tucano foi perseguido pela impopularidade até entregar a faixa a Lula.

E Dilma, o que dirá hoje? Ressuscitará o "pacto contra a corrupção", depois de convidar o filho de Jader Barbalho para a Esplanada? Prometerá a reforma política, embora não tenha força nem para evitar que um desafeto assuma a presidência da Câmara? Acenará com a retomada do crescimento, enquanto sua equipe prepara novos cortes para fechar o rombo nas contas públicas?


O Ano-Novo virá repleto de armadilhas, do reajuste nas tarifas de ônibus, que pode reacender a chama dos protestos de rua, à denúncia dos políticos envolvidos no petrolão. Além de enfrentar as tormentas, a presidente terá que manter o apoio dos 51,6% que votaram nela. Para quem acreditou na promessa de "governo novo e ideias novas", nada poderia ser mais frustrante que o ministério que toma posse hoje. A decepção tende a se agravar quando a turma der razão à máxima do Barão de Itararé: "De onde menos se espera, daí é que não sai nada".

rogério gentile
01/01/2015  02h00

Indicação de ministro foi tramada na prisão

SÃO PAULO - O segundo mandato de Dilma começa hoje com um fato bastante inusitado, mesmo para um país que coleciona episódios surpreendentes como o Brasil. Após a posse, a presidente assinará a nomeação de um ministro cuja indicação foi tramada meses atrás, ainda na campanha, numa penitenciária.

Novo titular dos Transportes, pasta com um orçamento na casa dos R$ 20 bilhões, Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP), o Carlinhos, chega ao cargo por vontade do mensaleiro Valdemar Costa Neto, o Boy, que até pouco tempo atrás dormia no Centro de Progressão Penitenciária de Brasília –em novembro, o ex-deputado ganhou o direito de cumprir em casa o resto de sua pena.

Descontente com a atuação de César Borges, então ministro, Valdemar pressionou a presidente, por meio de sua bancada na Câmara, a trocá-lo por Carlinhos ou pelo deputado Edson Giroto (PR-MS). Como Dilma recusou, ele articulou a divulgação de um manifesto público do partido pedindo o "Volta, Lula". O texto dizia que "o momento de crise reivindica (...) o brilho de Lula no comando da nação".

Dilma não apenas continuou a bater o pé como passou a chamar Borges publicamente de o "melhor ministro dos Transportes". O PR, então, começou a negociar o apoio à candidatura de Aécio. No dia 24 de junho, Carlinhos declarou que Borges não representava o partido, do qual é secretário-geral. Dilma capitulou e, no dia seguinte, demitiu "o melhor ministro", com o compromisso de nomear no segundo mandato o apadrinhado de Valdemar.


O novo ministro, que entrou na política pelo malufismo e se diz "temperamental" ("Não é fácil trabalhar comigo"), já defendeu o nepotismo ("Contrataria meus três filhos se eles não estivessem bem empregados"). Carlinhos costuma citar as lições que aprendeu com o avô: "Ele sempre dizia: 'A oportunidade é careca, a gente tem de agarrar com as duas mãos [senão escorrega]'". Dilma que se cuide.

kenneth maxwell
01/01/2015  02h00

A caixa de entrada de Dilma

Dilma Rousseff toma posse hoje em seu segundo mandato. O dia deveria ser de comemoração. Ser a primeira mulher eleita –duas vezes– para o mais alto cargo brasileiro é uma façanha notável.

Ela conseguiu grandes realizações em seus primeiros quatro anos, especialmente ao sustentar e ampliar os programas sociais e reduzir a pobreza. A vitória apertada que lhe deu o segundo mandato foi conquistada com base nessas realizações. As atenções vêm se concentrando na formação de seu novo governo, mas existem nuvens ameaçadoras se formando no horizonte.

A caixa de entrada da presidente Dilma está repleta de problemas urgentes, mas não está em seu poder controlar os principais desafios que enfrenta. Tampouco está em poder da classe política brasileira. Nem a presidente nem os demais políticos são capazes de acobertar as consequências dos escândalos de corrupção e propinas que batem à porta do governo, dos políticos e dos facilitadores com quem eles se relacionam.

Por que isso ocorre? Porque os escândalos de corrupção são bipartidários e internacionais em suas ramificações. A Polícia Federal vem investigando o cartel que, entre 1988 e 2008, superfaturou fraudulentamente a construção do Metrô de São Paulo. No período, o Estado foi governado por Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, todos do PSDB.

Os contratos em questão envolviam grandes empresas estrangeiras, entre elas a alemã Siemens, a francesa Alstom, Bombardier, do Canadá, e Mitsui, do Japão. O pagamento de comissões indevidas foi revelado quando a Siemens admitiu que o cartel havia imposto um sobrepreço de 20% ante o valor cobrado no mercado.

O escândalo da Petrobras é ainda maior em suas ramificações nacionais e internacionais. As propinas supostamente envolvem cerca de 50 políticos. Os promotores públicos brasileiros podem indiciar os envolvidos em breve.

Uma vez mais as dimensões internacionais do escândalo escapam ao sistema político e legal do Brasil. As ações da Petrobras no exterior, bem como as de seus diretores e dos políticos que supervisionam a empresa, estão também sujeitas a leis, regulamentos, processos por prejuízos fraudulentos e a leis estrangeiras de combate à corrupção.

E quanto a Dilma? Uma coisa que pode ser dita com certeza é que ela é notória pela atenção aos detalhes. Ela foi presidente do conselho da Petrobras por uma década. Foi ministra das Minas e Energia. Foi presidente da República nos quatro últimos anos.


Ou ela não sabia o que estava acontecendo sob sua responsabilidade, o que a torna incompetente, ou sabia –o que a torna culpada. É muito difícil extrair qualquer outra conclusão.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014


31/12/2014 e 01/01/2015 | N° 18029
MARTHA MEDEIROS

Para iniciar bem o ano

Selecionei algumas frases de pessoas célebres e outras nem tanto, a fim de montar um mosaico que nos faça relaxar e refletir sobre essa aventura insana que é viver. Levantar de manhã já pode ser considerado um esporte radical, então está aí um kit de sobrevivência para nos socorrer quando estivermos ligeiramente em pânico e levando tudo a sério demais.

– Se quiser fazer Deus rir, faça planos. (aforismo iídiche)

– É preciso ter altos e baixos. De outra forma, você não saberia a diferença. Seria tudo uniforme, linha reta, como olhar para um monitor de batimentos cardíacos. E, quando rola aquela linha reta, baby, você está morto. (Keith Richards)

– Segurança não é ausência de perigo; segurança é o gerenciamento do medo. (Wendy Reid Crisp). – Sossega, porque nada há que esperar, e por isso nada que desesperar também. (Fernando Pessoa)

– Felicidade se acha é em horinhas de descuido. (Guimarães Rosa)  – As coisas boas vêm com o tempo. As melhores, de repente. (Denise Lessa)

– Tudo é saudável, menos interrogar-se constantemente sobre o sentido dos nossos atos. (E.M. Cioran) – Desconfio/dessa coisa/de pessoas do bem/e pessoas do mal/acho que só existem/as sensíveis/e as sem sal. (Josué Orsolin)

– Ninguém vale pela sua ascendência, pelo lugar onde nasceu nem pela tradição a que pertence, mas cada um vale pelo que conseguirá fazer da sua vida. (Contardo Calligaris)

– É melhor buscar a verdade do que a glória. Que humilhação ter a aprovação dos outros como objetivo. (E.M. Cioran)

– Aquele que não dispõe de dois terços do dia para si é um escravo. (Nietzsche)

– Eu gostaria de fazer um grande filme, desde que isso não atrapalhe minha reserva para o jantar. (Woody Allen) – O objetivo da psicanálise não é curar as pessoas, mas mostrar que não há nada de errado com elas. (Adam Philips)

– O custo de uma coisa é a quantidade de vida que se tem que dar em troca. (H.D. Thoreau) – Se você for sempre o guia, só vai chegar aonde já conhece. (Maria Rezende) – Um passo à frente e já não se está no mesmo lugar. (Sandra Flanzer)

– As pessoas se dirigem a Deus para obter o impossível. Para o possível, os homens bastam. (Pedro Maciel)

– Nunca vou entrar no céu. Minha esperança é um telão do lado de fora. (Dirceu Ferreira)


– Hoje é um bom dia para continuar insistindo. (Caio Fernando Abreu) - Desejo a todos um ano que valha o esforço de viver. (Nélida Piñon)

31/12/2014 e 01/01/2015 | N° 18029
ARTIGOS ZH - LUIZ CARLOS CORRÊA DA SILVA*

SÓ DEPENDE DE NÓS

O clima assustador que nos atormenta deve-se não apenas aos indicadores econômicos e às más notícias do setor político, mas particularmente ao crime

organizado e à impunidade. Corrupção sempre existiu, mas agora as proporções são gigantescas e seus protagonistas são mais graduados e audaciosos, por terem fortes ligações com o poder e a certeza da impunidade. Assistimos estarrecidos a essa agudização da vergonha nacional e ao desgaste progressivo das instituições. Valores, princípios morais, seriedade e confiança são enxovalhados por pessoas que jamais poderiam ocupar os importantes cargos que lhes foram oferecidos. Não dá para continuar o loteamento político de cargos técnicos!

Atingiu-se o clímax com esse pacto corporativo interdisciplinar de corrupção, vindo finalmente à tona o que se passava nos bastidores. Como é que se deixou acontecer toda essa sujeira sem fiscalização e sem medidas de controle? Será que tem de ser assim? Será que não temos capacidade de agir e reagir?

Sim, nós podemos mudar. E a primeira mudança é recuperar a confiança, acreditar que o Brasil pode melhorar, e muito, desde que cada um faça muito mais e melhor.

Nossos representantes não podem mais pactuar com o crime em troca de apoio parlamentar, esse grande nó da governabilidade que contamina o ambiente político. Não podem entregar as chaves dos cofres públicos para os bandidos e depois dizer que nada sabiam. Isto precisa mudar, e já!

A construção dessa mudança inclui, necessariamente, ações como enxugar a máquina, não desperdiçar e ter transparência. Impor foco máximo na educação. Privilegiar a saúde. Proteger mais os jovens. Investir pesado num estilo de vida populacional mais saudável. Responsabilizar empresas por danos que estejam causando. Hierarquizar o Estado como soberano e sempre acima do governo. Exigir seriedade e limpidez na relação entre governo, partidos políticos e interesses pessoais e setoriais. Consagrar cumprimento de direitos e deveres.

Se 2015 tiver pelo menos um pouco de tudo isso, haverá um grande avanço. É preciso acreditar na nossa capacidade, trabalhar e exigir mais de todos. Cidadania é compromisso, exigência e participação. Omissão favorece corrupção. Só depende de nós.

Vamos fazer?


*Médico da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre - LUIZ CARLOS CORRÊA DA SILVA