
10
de abril de 2013 | N° 17398
PAULO
SANT’ANA
Muito
fingimento
Já
repararam, meus leitores e leitoras, que a conduta de todos nós é quase sempre
marcada pelo fingimento?
Ficou
de repente tão popular e lícito ser homossexual, que muita gente passou a
fingir que é bicha. E, mais ainda, há muita gente fingindo que é hétero. Uns
fingem que são honestos, caso de muitos políticos. Multidões fingem que são
sinceras. E não são.
Há
até alguns que fingem que são pobres. Vai-se ver, estão com as contas bancárias
abarrotadas de depósitos. Esses fingem para não serem mordidos.
Tem
gente, muita gente, que finge que tem orgasmo para enganar seus parceiros. E há
até no sexo quem finge que não tem orgasmo, só para não dar o braço a torcer a
seus parceiros, mas por dentro está se debulhando de gozo.
O
Ibsen Pinheiro, por exemplo, finge há 30 anos que é diabético: nunca chegou
perto de uma gota sequer de insulina. Tem gente que finge que é solidária,
escondendo que na verdade está secando os outros. Há os que fingem que são
caridosos, dando migalhas aos necessitados.
E há
até os que, tendo domínio do fato, se fingem de mortos, dizendo até que desconhecem
a corrupção em torno deles, quando na verdade a comandam.
E há
os que se valem da liberdade de imprensa para crescer na vida e ver publicados
os seus atos, mas fingem que querem implantar medidas para restringir a
liberdade de expressão só para fazer cartaz com os seus companheiros radicais.
É
fingimento para todo lado. Recebo de um setor da Santa Casa de Misericórdia uma
explicação sobre a cirurgia que não se realiza nunca num menino paralítico, e a
crítica é feita em todas as edições do Teledomingo:
“Caro
Paulo Sant’Ana: são 6h e acabei de ler, como faço todas as manhãs, em primeiro
lugar, a penúltima página da Zero Hora: ‘O menino paralítico’. Não vou
conseguir trabalhar sem tentar responder em poucas linhas a sua crônica, pois
ela atinge profundamente o âmago das nossas vidas: ser médico!
Quem
lê a crônica e está alheio aos problemas da saúde desconhece o principal
conflito, diário, corriqueiro e terrível do médico no atual sistema: sua
impotência diante da incapacidade de atender à imensa demanda.
O
menino Cláudio, citado na sua crônica, está sendo avaliado periodicamente e seu
caso é eletivo. O tipo de cirurgia que ele necessita – artrodese em
cifoescoliose grave –, no Rio Grande do Sul, só é realizado na Santa Casa de
Misericórdia de Porto Alegre, pois são necessários no mínimo dois ortopedistas
pediátricos altamente treinados e qualificados para fazer esse procedimento de
grande risco, pois o paciente pode ficar paraplégico.
A
cirurgia pode demorar mais de 12 horas e exige uma equipe multidisciplinar
especializada: além dos ortopedistas, anestesista pediátrico, cirurgião
torácico pediátrico, neurologista pediátrico, neurofisiologista, pediatra, UTI
pediátrica especializada, fisioterapia pediátrica etc. É por tais razões que um
ortopedista de adultos não pode realizar a cirurgia. Seria o mesmo que um
motorista comum pilotar um avião.
Cláudio
é o 34º a ser operado na lista da Santa Casa. Na verdade, temos dezenas iguais
a ele. Será justo operá-lo em detrimento de outras crianças, em igual ou piores
condições?
Essa
é uma opção inaceitável. Mas, conforme o senhor escreveu, ‘os responsáveis pelo
SUS (governos federal, estadual e municipal) não se sentem responsáveis’.
Por
reconhecer o cronista como um dos maiores defensores da saúde dos gaúchos e
saber do imenso impacto da sua coluna, envio esta resposta, na qual aponto
distorções que merecem ser conhecidas, divulgadas e, o mais importante,
corrigidas. Abraços. (ass.) Carlos Roberto Schwartsmann, chefe do Serviço de
Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre”.
Agradeço
a resposta, no entanto nela não foi dito quando o garoto infausto será operado.
E
prossegue o calvário de uma criança provocado por um arcaico sistema de saúde e
pela insensibilidade de todas as esferas de poder.
Enquanto
isso, viva a farra dos gastos bilionários para a Copa do Mundo e a Olimpíada!
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