segunda-feira, 25 de março de 2013


Por BROOK LARMER

China terceiriza busca pelo amor

De seu posto de vigilância perto da entrada de uma loja H&M em Joy City, um shopping center em Pequim, Yang Jing parecia perdida em pensamentos, torcendo um cacho de cabelo e tamborilando as unhas no iPhone. Mas seus olhos não paravam quietos, acompanhando os grupos de moças que faziam compras. Eles se demoravam em um rosto ou em um gesto e então seguiam adiante.

"Esse é um bom lugar para caçar", disse. "Eu sempre tive sorte aqui." Yang, 28, é uma das principais "caçadoras de amor" da China, um novo tipo de cupido que proliferou com o boom econômico do país. A empresa em que ela trabalha, a Diamond Love, atende os novos ricos da China: homens e mulheres dispostos a pagar até milhares de dólares para terceirizar a busca pelo par ideal.

Em Joy City, Yang deu instruções para a sua equipe de oito batedores, um dos seis esquadrões que a companhia mobilizou em três cidades para um milionário de Xangai. Esse cliente apresentou uma lista de exigências para sua futura mulher, incluindo idade (22 a 26 anos), cor da pele ("branca como porcelana") e histórico sexual (sim, uma virgem). "Esses milionários são muito minuciosos, sabe?", disse Yang. "Ninguém é suficientemente perfeito."

Mas a recompensa potencial para Yang é enorme: a caçadora de amor que encontrar a eventual escolhida pelo cliente receberá um bônus de mais de US$ 30 mil, cerca de cinco vezes o salário anual médio nessa linha de trabalho.

Três décadas de crescimento econômico acelerado reformularam a paisagem do casamento na China. Uma geração atrás, o país era um dos mais igualitários do mundo, tanto em gênero como em riqueza. A maioria das pessoas era pobre, e rígidos controles sobre habitação, emprego, viagens e vida familiar simplificavam a busca por uma parceira adequada.

A transição da China para uma economia de mercado eliminou muitas restrições da vida das pessoas. Mas, de todas as novas liberdades de que os chineses gozam hoje, há uma que se tornou uma carga inesperada: buscar uma mulher ou um marido.

A confusão que cerca o casamento na China reflete a transição frenética do país. As acentuadas desigualdades de riqueza criaram novas linhas de falha na sociedade. Até 300 milhões de chineses da zona rural se mudaram para as cidades nos últimos 30 anos. Desenraizados e sem parentes próximos para arranjar encontros com parceiras potenciais, esses migrantes muitas vezes ficam perdidos no caos da cidade grande.

Não apenas mais mulheres chinesas estão adiando o casamento para investir em suas carreiras, como a proporção entre gêneros na China -nascem 118 meninos para cada 100 meninas- se tornou uma das mais desequilibradas do mundo, alimentada em grande parte pela política de filho único do governo. No final desta década, segundo pesquisadores chineses, o país terá um excedente de 24 milhões de homens solteiros.

Sem as redes familiares ou sociais tradicionais, muitos homens e mulheres estão procurando pares na internet, onde surgiram milhares de sites de namoro e casamento. Mas a intensa concorrência levou um número crescente de solteiros a recorrer a serviços mais práticos de apresentação de casais. "Mercados de casamento" brotaram em parques de toda a cidade. Filas de homens e mulheres grisalhos se sentam diante de placas enumerando as qualidades de seus filhos.

Altas taxas, clientes ricos

Dezenas de serviços de alta classe surgiram na China nos últimos cinco anos, como os que cobram altas taxas para encontrar mulheres para clientes ricos.

"Esses homens são almas perdidas", disse Yang. "Eles trabalharam duro, ganharam muito dinheiro e deixaram para trás seu mundo antigo. Agora, não têm tempo para encontrar uma mulher e não sabem em quem confiar. Por isso nos procuram."

Um dia, em seu escritório em Pequim no ano passado, Yang estava preocupada com um cliente potencial: um magnata dos imóveis divorciado de 42 anos que estava disposto a gastar o equivalente a mais de US$ 500 mil.

Yang é a mais tarimbada caçadora da Diamond Love. Seu sucesso lhe valeu grandes bônus -em um caso, US$ 27 mil- e a reputação de uma das mais eficientes caçadoras de amor da China.

Ainda assim, ela disse que esse novo caso era "quase impossível". Mr. Big (ele insistiu que a Diamond Love não revelasse seu nome) é um membro da "fuyidai" da China, a "primeira geração de ricos" que saltou da pobreza para a riqueza de repente, muitas vezes desprezando a primeira mulher. Mr. Big tinha requisitos específicos para sua segunda consorte. A mulher ideal, disse, seria parecida com Zhou Tao, uma famosa âncora de televisão chinesa: magra, com a pele muito branca, o queixo ligeiramente proeminente, dentes perfeitos, pálpebras duplas e cabelo comprido e sedoso.

O mercado de casamento

Yu Jia manteve sua busca em segredo, no início. Não queria incomodar seu filho logo depois de um tempo difícil para a família. O marido de Yu morreu de câncer em 2009, depois de arrasar as economias familiares.

Devastada, Yu ficou em um apartamento na periferia de Pequim com seus filhos -um casado e outro, Zhao Yong, ainda solteiro aos 36 anos. Mas um dia Yu encontrou uma multidão animada sob as árvores perto do Templo do Paraíso. Era um "mercado de casamento", onde os pais tentam achar parceiras/os para seus filhos solteiros.

Sua vida, de repente, ganhou um novo objetivo: encontrar uma mulher para Zhao. Mergulhar em uma multidão estranha com uma placa fez Yu se sentir bizarra no início. Seu filho ficou irritado quando descobriu o que ela estava procurando. Mas ele se acalmou. "Eu vejo como ela dá duro, por isso não posso recusar", disse.

Para economizar dinheiro e melhorar suas perspectivas de casamento, Zhao, hoje com 39 anos, tem dois empregos -em um vende microondas, no outro, cosméticos. Ele tentou namorar pela internet, mas não funcionou. Finalmente, sua mãe venceu: arranjou um encontro entre ele e a filha de uma mulher que ela conheceu no mercado de casamentos.

Apesar da falta de química, a mulher, que era uma empresária bem-sucedida, ficou interessada por Zhao e propôs o casamento. No final, ele recusou: não queria ser subordinado a ela. Mesmo com esse revés, Yu continuou sua peregrinação diária aos mercados de casamento. "Sou otimista", disse. Depois de tantos anos, a esperança é o que a mantém firme.

Encontrando o par ideal

Certa tarde em Chengdu, capital da província de Sichuan, onde Yang tinha ido para verificar candidatas, ela notou uma jovem que passou e entrou rapidamente em um restaurante. Seu cabelo preto e comprido escondia a maior parte do rosto, mas havia algo cativante em sua risada e seus gestos.

Yang a seguiu no restaurante, desculpou-se pela intromissão e ligou seu charme. Saiu com o número de telefone, a foto e alguns detalhes importantes sobre ela: tinha 24 anos, era estudante e se parecia com a âncora da TV Zhou Tao.

A campanha de caça ao amor para Mr. Big rendeu mais de 1.100 novas prospectivas. A lista foi reduzida a oito. Mr. Big recebeu dossiês grossos sobre cada uma delas.

As técnicas de caça de Yang e sua tenacidade funcionaram mais uma vez, dando-lhe duas das oito finalistas. Em junho, Mr. Big voou para Chengdu para conhecer as três finalistas locais. Seu último encontro foi com a sósia de Zhou Tao, que Yang havia abordado no restaurante.

No início, parecia um engano, não apenas por causa da diferença de idade -18 anos- mas porque ele sabia quase tudo sobre ela -seu histórico amoroso, sua aceitação em uma escola de graduação, o cargo importante de seu pai no governo-, enquanto ela sabia pouco mais que a altura e o peso dele. A Diamond Love havia lhe contado apenas que sua renda líquida era superior a US$ 800 mil.

Depois do jantar, Mr. Big cancelou todos os outros encontros com as finalistas e despachou seu consultor para comprar uma bolsa Gucci para a jovem, como mostra de afeição. O casal ainda não decidiu se casar, mas está namorando firme. Ninguém paga meio milhão de dólares "só para brincar", disse Yang. "Ele apenas precisa de um pouco mais de tempo."

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