quinta-feira, 2 de abril de 2020

Mulheres redescobrem e expõem corpos na quarentena

Sozinhas em casa, elas se despem, fazem fotos e gostam do que veem

Nádia Jung
SÃO PAULO

Confinadas em casa, sem poderem retomar suas atividades diárias, muitas pessoas estão atraindo olhares nas redes sociais com fotos sensuais.
Trabalhar em casa não é novidade para Neliane Catarina Simioni, 31, que desde o ano passado presta assessoria de imprensa para alguns clientes a partir do escritório do seu apartamento. Mas, com a quarentena imposta, a ansiedade se fez mais presente e tem ficado mais difícil concentrar-se.
Em uma das manhãs da semana passada, Neliane percebeu um feixe de luz entrando na sala. Parou o que estava fazendo e começou a fotografar. Fez algumas fotos suas nuas. Gostou do que viu. "Mandei uma das imagens para amigas em tom de brincadeira, como se perguntasse quem somos no confinamento. Para a gente rir mesmo. Me fez bem, mas só depois percebi o ato de autocuidado ao me fotografar nua", diz ela.
Neliane diz que sua vida é marcada pela relação que tem com o seu corpo. "O corpo de uma mulher gorda é marcado socialmente, vigiado." Nos dois primeiros dias de confinamento, ela começou a comer mais que o normal para aliviar a ansiedade. Depois temeu engordar. "Quebrei esse ciclo no dia em que uma luz bonita na sala do apartamento de casa me deu vontade de tirar a roupa e fotografar o meu corpo. É a primeira vez que, assumidamente gorda, faço fotos assim e compartilho com as amigas."

Antes do isolamento, a paulistana Marcilia Brito, 31, queria passar mais tempo em casa entre as plantas, o cachorro e os três gatos, mas praticamente só ia ao seu apartamento para dormir. Ficava entre o trabalho de revisora de textos em uma universidade e saídas com os amigos. Agora tem cozinhado mais e se exercitado em casa. Está frequentando mais as redes sociais e também tem exposto fotos em poses sensuais —até porque tinha o hábito de ficar sem muita roupa em casa antes da pandemia.
"Eu postava algumas fotos sensuais esporadicamente, mas agora as postagens estão mais frequentes. Quase todos os dias, no meu horário de almoço, eu tiro a roupa para tomar sol na janela. Quando acho que a luz está boa, acabo tirando umas fotos para mim, e algumas eu posto", afirma. Os seguidores têm gostado. "Tenho visto muitas amigas e amigos postando fotos desse momento de banho de sol também. Alguns já me marcaram, outros mais tímidos mandam mensagem via Instagram ou Whatsapp."
Moradora de Florianópolis (SC), supervisora de vendas de uma empresa de design para banheiros, Amanda Fernandes Batista, 31, tem usado mais as redes sociais para ler notícias, ver o que outras pessoas estão fazendo e também mostrar um lado que poucos conhecem, com fotos em poses mais sensuais. "Acho que é uma forma de me expressar. Não existe só a Amanda profissional ou a Nanis, como muitos me conhecem, mas a Amanda que quer se sentir bonita. Acho que temos muitos pudores em relação a nos expormos ou falarmos o que estamos pensando e sentindo", afirma.
Ela começou a tirar fotos nesse estilo há um ano e meio, mas agora no confinamento perdeu um pouco da preocupação que tinha com a exposição. "Não estou vendo mais sentido em me cobrar muito ou me importar com algumas reações ruins que ocasionalmente vão aparecer. Nessas fotos, eu me senti bonita, gostei do meu corpo, do meu rosto e da pose que estou fazendo."
As reações têm sido bem diferentes, diz Amanda. Uns (a maioria de familiares) acham desnecessária essa exposição, enquanto outras pessoas dão força e ficam orgulhosas. Alguns ficam preocupados porque pode atrapalhar o lado profissional. "Tem gente também que leva para o lado mais sexual, na sua grande maioria homens, e tem gente que apenas enxerga e lida como uma foto normal, porém mais bonita, de uma pessoa que está se sentido mais livre", afirma.
As fotos têm rendido cantadas. "De vários tipos, inclusive. As pessoas estão ficando cada vez mais criativas", afirma. Um homem mandou dezenas de mensagens querendo seu contato. Quando ela não deu muita atenção, ele enviou mensagens dizendo que seu irmão de 12 anos estava mal em um leito de hospital, entubado e que deveria estar doente com coronavírus. "Mandou até foto desse suposto irmão, pedindo meu número de telefone."


02 DE ABRIL DE 2020
DAVID COIMBRA

Como sair do isolamento


Tornei-me um admirador do álcool gel. Mais: tornei-me quase um devoto. Que substância extraordinária. Sempre o vi como um produto trivial, nunca lhe dei o verdadeiro valor, nunca pensei que ele fosse assim. Ele nos limpa e purifica, como as águas do Rio Jordão.

A propósito das águas do Rio Jordão, a Bíblia conta que o arameu Naamã, homem de grande valor, muito estimado por seu rei, tinha lepra, o que, na Antiguidade, era bem pior do que coronavírus. Um dia, uma moça hebreia que trabalhava para a mulher dele sugeriu que Naamã procurasse o profeta Eliseu para tentar curar-se. Segundo a serva, Eliseu matinha canal aberto com o próprio Jeová, que lhe concedia, entre outros favores, o poder da cura.

Naamã estava desesperado e decidiu tentar. Chegando a Israel, procurou o profeta, que nem sequer se dignou a recebê-lo, mandou apenas um mensageiro. Que deu o seguinte recado:

- Vai, lava-te sete vezes no Rio Jordão, que tua carne será curada e ficarás limpo.

Naamã se aborreceu com o pouco-caso de Eliseu. - Eu pensava que ele sairia para me ver e invocaria o seu Deus em minha presença! Será que os rios de Damasco não são melhores do que todas as águas de Israel, para eu me banhar nelas e me curar?

Dizendo assim, Naamã montou em seu cavalo e chamou seus soldados a fim de voltar para casa, frustrado. Mas um servidor sensato se aproximou dele e argumentou:

- Se o profeta tivesse mandado fazer uma coisa difícil, você faria. Por que não faz o que ele mandou, que é tão fácil?

Naamã pensou um pouco e considerou interessante a lógica do seu empregado. Banhou-se, então, sete vezes no Rio Jordão e, de acordo com o Livro, "sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado".

Pois bem. O álcool gel talvez não cure, como as águas do Rio Jordão, mas dissolve os coronas que tanto têm nos atormentado. Se caísse uma chuva de álcool gel sobre Porto Alegre, toda a cidade estaria a salvo de coronas. Que pensamento delicioso esse, uma chuva de álcool gel. Bem que Jeová poderia providenciar esse milagre.

DAVID COIMBRA

02 DE ABRIL DE 2020
ARTIGOS

ISOLAMENTO SOCIAL E CONSUMO ABUSIVO DE ÁLCOOL E DROGAS


O isolamento gerado pela pandemia de coronavírus vai obrigar a uma mudança radical nos hábitos de toda a população mundial - desde o uso discreto e controlado de álcool em uma refeição em família até o uso abusivo ou dependente de álcool e drogas. Face à necessidade de isolamento progressivo no domicílio durante muitas semanas, é provável que encontremos dois cenários distintos: o primeiro, mais saudável, em que indivíduos com problemas pelo uso de substâncias tenham a oportunidade de reduzir drasticamente seu consumo, em função das dificuldades logísticas de obtenção destas, além da redução geral das suas condições financeiras. 

Este seria um uso positivo da situação de confinamento, em benefício do problema individual. O segundo - mais dramático, seria o de uma percepção de "fim dos tempos", que pode gerar uma atitude progressiva de anestesia perante a realidade dura que enfrentaremos, levando a um estado constante de intoxicação, justificado por pensamentos do tipo "Titanic": uma vez que todos iremos morrer, então por que não entrar em um estado de torpor?

Não iremos todos morrer. Apesar de os dados mundiais descreverem uma situação nova e dramática para todos nós - em especial os menos favorecidos social, econômica e mentalmente, há margens significativas para ações, que vão desde as medidas de imposição de afastamento social até a mais importante das ferramentas disponíveis na humanidade - a solidariedade e a devolução social. Os grupos de autoajuda, como Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos já conhecem essa ferramenta poderosa desde a década de 1930 e a utilizam de forma eficaz.

É chegado o momento de estarmos disponíveis para as pessoas com maior dificuldade. Lembre que a solidão é um dos principais gatilhos para o consumo abusivo de substâncias, levando a conse- quências desesperadoras, e que podem ser diminuídas por palavras de conforto. Existem estruturas sendo montadas por equipes de psiquiatras e psicólogos para o auxílio remoto às pessoas com maior necessidade. Mas - em paralelo com o auxílio profissional - existe a força do auxílio que qualquer um de nós pode oferecer. Busque engajamento no nível que considere apropriado para sua segurança pessoal e saúde mental, mas faça a sua parte. A humanidade só tem a agradecer pelo seu gesto.

Psiquiatra, chefe do Serviço de Psiquiatria de Adição do HCPA flaviopechansky@gmail.com
FLAVIO PECHANSKY

02 DE ABRIL DE 2020
OPINIÃO DA RBS

PARA FICAR BEM


A pandemia é um teste de fogo para a temperança dos gaúchos. Até aqui, a população do Estado mostra ter de sobra essa característica que remete a moderação e equilíbrio. Nos mais duros episódios que permearam a história do Rio Grande do Sul, essa sabedoria em meio a momentos graves, aliada à tenacidade, moldou a índole dos que aqui vivem e viveram. Em poucas semanas, a rotina de mais de 11 milhões de gaúchos, assim como a dos demais brasileiros, se transformou radicalmente. A vida em sociedade, o trabalho e o lazer sofreram uma drástica reviravolta. Em nome do bem coletivo, necessitamos ficar em casa. Mas precisamos ficar bem.

Para que sejam atravessados da forma menos traumática possível, os dias de reclusão pedem que os gaúchos, dentro das limitações impostas, continuem exercendo seus ofícios, estudando e redescobrindo pequenos prazeres familiares antes um pouco esquecidos. Desta forma, tentando manter a higidez, saindo à rua apenas para tarefas indispensáveis e, principalmente, respeitando as orientações das autoridades que dia a dia monitoram o quadro da evolução da covid-19 no Estado, cada gaúcho estará exercendo o papel de um herói anônimo. O vírus precisa de pessoas circulando nas ruas para se disseminar. Ao quebrar essa cadeia de transmissão, somos milhões de agentes de saúde protegendo uns aos outros.

É preciso pensar de forma coletiva. As escolas e as universidades estão fechadas, mas esta é uma lição de vida. Nunca aprendemos tanto. De forma há poucos meses inimaginável, os gaúchos estão reinventando a coletividade. De janelas e sacadas, o olhar distante descobre o outro. Lá, naquele outro lar, aquela pessoa, hoje reclusa, é uma barreira contra o coronavírus. É a comunidade assimilando um novo conceito de pensar a sociedade.

Vive-se uma época de crise. Talvez comparável apenas a tempos de guerras de verdade. Mas esta guerra não divide. Ela une a humanidade. Por isso, é preciso abandonar o individua- lismo, rever prioridades, repensar o sentido da vida. E transformar toda a energia guardada e a dolorosa espera por rever familiares e amigos queridos em solidariedade, criatividade e empreendedorismo. Há muitas pessoas, neste momento, fora de casa. São trabalhadores de serviços essenciais, como os da segurança e da saúde, entre outros. Especialmente para os que estão nos hospitais travando esta batalha frente a frente com o inimigo, devemos uma imensa gratidão.

Se está em casa, lembre-se: manter o distanciamento social, agora, significa praticar empatia e exercitar a cidadania. O que parece ser uma passividade é, na verdade, uma postura ativa e uma forma de encurtar este momento de provação. Não esqueça dos exercícios, faça as compras necessárias, trabalhe, mantenha os estudos em dia, planeje a vida, trace metas, alimente os sonhos. Talvez nada seja como antes. Mas é preciso ser otimista e acreditar que cada gaúcho poderá sair desta crise como um cidadão melhor, contribuindo para um Rio Grande do Sul mais próspero e humano. Com cada um fazendo a sua parte, juntos, ficaremos bem.



02 DE ABRIL DE 2020
CORONAVÍRUS

Empresários e prefeituras do Estado divergem sobre abertura do comércio

Decreto assinado ontem pelo governador Eduardo Leite obriga municípios gaúchos a fecharem as lojas até 15 de abril
A restrição para a abertura do comércio no Rio Grande do Sul válida até 15 de abril, conforme decreto assinado ontem pelo governador Eduardo Leite, coloca de lados opostos prefeituras e lojistas em diferentes regiões do Estado. Durante o período, devem funcionar apenas estabelecimentos considerados essenciais, como supermercados e farmácias.

Enquanto a Federação das Associações de Municípios do Estado (Famurs) vê como acertada a decisão, entidades ligadas aos comerciantes afirmam que a medida é rígida e coloca em risco o futuro de milhares de negócios.

Nos últimos dias, diversos municípios do Interior vinham publicando decretos flexibilizando as condições de funcionamento do comércio, atendendo a pedidos de entidades. As decisões eram tomadas, principalmente, em cidades com poucos casos ou nenhuma suspeita de coronavírus. Ainda ontem, cidades como Frederico Westphalen e São Borja mantiveram o comércio aberto. Hoje, as lojas já devem amanhecer fechadas, atendendo à determinação do Estado.

- Essa situação poderia ser levada de maneira mais adequada. Temos diversas cidades pequenas, sem casos, onde poderia haver afrouxamento. Comerciantes estavam abrindo tomando todas as medidas de precaução - avalia Luiz Carlos Bohn, presidente da Federação do Comércio de Bens e Serviços do RS (Fecomércio-RS).

Prejuízo

A partir dos dados das notas fiscais eletrônicas divulgados pela Secretaria Estadual da Fazenda, a Fecomércio-RS calcula que a queda na atividade chega a 34% desde a implementação do primeiro decreto estadual de calamidade pública, em 19 de março. No período entre 13 e 19 de março, antes do isolamento social, as notas totalizaram R$ 2,63 bilhões. Já entre 20 e 26 do mês passado, o valor caiu para R$ 1,74 bilhão.

Para Bohn, a restrição imposta simultaneamente a todos os municípios coloca em risco a sobrevivência de aproximadamente 200 mil pequenas empresas do comércio, que não teriam capacidade de caixa para suprir a queda no faturamento neste período.

Alívio

Na avaliação do presidente da Famurs, Dudu Freire (PDT), o decreto fornece diretriz única a ser seguida pelos municípios para conter a pandemia e diminui a pressão que estava sendo exercida sobre os prefeitos. Segundo ele, a maioria dos Executivos se mostra favorável à medida anunciada por Leite:

- Esse período de 15 dias será importante para que os municípios organizem seus sistemas de saúde para enfrentar o pico da doença. Hoje, temos cidades que nem sequer têm equipamentos de proteção individual (EPIs).

Em cidades que já restringiam o funcionamento dos estabelecimentos, a posição do Estado é vista como endosso às diretrizes que eram seguidas. É o caso de Soledade, no Vale do Taquari.

- Falei com mais de 50 médicos e todos me disseram para ter precaução. Não é prefeito, governador ou presidente que vão saber mais do que os profissionais da saúde. Temos de ter humildade e ouvir. Depois, vamos ver as implicações na economia - aponta o prefeito Paulo Cattaneo (MDB).

Inicialmente favorável às restrições no comércio, Frederico Westphalen, no Norte, havia decidido no início da semana pelo retorno gradativo das atividades.

- O governador se precipitou. Cada localidade tem suas peculiaridades. Tínhamos construído um decreto com a comunidade para encontrarmos equilíbrio - diz o prefeito José Panosso (MDB).

O presidente da Associação Comercial e Industrial do município, Ramir Severiano, reforça que, em meio à crise, o empresariado fica perdido com tantas decisões:

- Ficamos perplexos com o decreto do governador, que sempre teve fala conciliadora, tentando equilibrar saúde e impactos econômicos.

FERNANDO SOARES


02 DE ABRIL DE 2020
ENTREVISTA: MARCO AURELIO CARDOSO secretário estadual da Fazenda

"O Estado para se suspendermos ICMS e IPVA sem reposição da arrecadação"

Por telefone, o secretário estadual da Fazenda, Marco Aurelio Cardoso, falou ontem sobre os resultados financeiros do Estado no primeiro bimestre do ano, avaliou os impactos do coronavírus nas contas estaduais e projetou o que vem pela frente. Em diferentes momentos da conversa, reivindicou apoio do governo federal para compensar a perda de arrecadação, que, só em abril, deve chegar a R$ 700 milhões - o equivalente à metade do valor da folha de pagamento do Executivo. A seguir, leia os principais trechos da entrevista.

Dados do primeiro bimestre indicam melhora nas finanças do Estado, mas depois disso veio o coronavírus. Qual é o cenário projetado agora?

De fato, tivemos um início de ano mais favorável. Infelizmente, com a crise, o panorama é outro. A prioridade absoluta, agora, é a saúde. Temos de seguir os protocolos científicos, porque não há nada mais importante do que a vida das pessoas, ainda que o efeito colateral na economia seja imenso e que essa crise seja muito diferente das anteriores. Temos três grupos com sérias restrições: os indivíduos, em especial os autônomos, as empresas e os Estados e municípios, que não têm alternativas de compensação de receita. Não temos um colchão que permita uma perda de arrecadação como a que vem pela frente.

Quais são os impactos e o que vem pela frente?

Projetamos impacto de R$ 700 milhões em abril, tanto que alongamos em 17 dias o prazo de pagamento da folha do Executivo. Se isso se repetir ao longo de três, quatro meses, poderemos ter uma queda de arrecadação de bilhões de reais, e isso afetará as prefeituras também. O governo federal anunciou medidas para ajudar Estados e municípios, mas boa parte delas não é relevante no caso do RS. Precisamos de suporte.

O senhor teme um colapso na contas do Estado?

Depende o que se entende por colapso. Se a crise se prolongar por meses, podemos ter muita dificuldade com nossos prazos de pagamento. Conseguimos estabilizar os repasses à saúde e a fornecedores. E os recursos para a saúde têm chegado. Há uma agilidade maior nisso. O problema é que precisamos de reposição de arrecadação. O governo federal vai ter de agir, e a ajuda precisa ser rápida e proporcional à queda.

Os servidores devem se preparar para atrasos ainda maiores na folha daqui para frente?

Sempre trabalhamos com os números do mês. Não tem como trabalhar mais para frente. Fazer uma ilação nesse momento é impossível. Ao longo de abril, teremos um retrato mais fiel do impacto na arrecadação e vamos ter de construir uma saída para repor as perdas.

O mesmo vale para fornecedores?

Em geral, 60 dias após a liquidação, eles são pagos. Não prevemos nenhuma alteração no fluxo de pagamento de fornecedores, do Daer, das cotas da saúde. São recursos que a gente precisa manter estabilizados.

Os repasses para hospitais e prefeituras?

Temos mantido o compromisso (de não voltar a atrasar de forma recorrente) e consideramos isso importante especialmente nesse momento.

Alguns setores sugerem a suspensão da cobrança de ICMS e de IPVA. É viável?

A gente já propôs, esperando aprovação do conselho nacional (de política fazendária), medida similar à do governo federal para empresas do Simples (micro e pequenas). Aqui são 200 mil contribuintes. Seria uma suspensão de ICMS por três meses. No fluxo financeiro, o impacto disso não é tão grande. A questão que se coloca é: não temos alternativa de cobertura de receita (para ampliar essa medida). Para empresas que não podem pagar salários porque não estão recebendo, o governo está dando uma linha de crédito. Em relação aos Estados, deve ser entendido da mesma maneira. Se a gente não tiver a reposição da arrecadação, se partirmos para suspensão de ICMS e IPVA, o Estado para. Não podemos resolver a crise sozinhos. Não há a menor condição de partirmos unilateralmente para suspensões sem cobertura.

Como fica, agora, a negociação para adesão ao regime de recuperação fiscal (RRF)?

Essa semana pode ocorrer a votação do projeto de lei complementar 149 (que prevê socorro aos Estados e altera regras do RRF). É um texto bastante discutido com todos os Estados. Se isso avançar, poderemos submeter novamente nosso plano e esperamos que a adesão do RS ocorra, porque temos de continuar tratando do longo prazo.

Havia a perspectiva de lançar o leilão de privatização do braço de distribuição da CEEE em setembro. O cronograma segue?

A gente está trabalhando com o BNDES exatamente como antes. Não houve mudança no cronograma até o momento. A decisão é de estarmos prontos nas datas que tínhamos planejado. A efetivação da operação dependerá de como estará a economia. Vai ter de ser feito um julgamento de oportunidades. Pode não ser possível, mas temos ainda cinco meses pela frente e muita coisa pode acontecer até lá.

02 DE ABRIL DE 2020
L.F.VERISSIMO

Pós-choque

Naomi Klein publicou um livro intitulado A Doutrina do Choque, ou A Ascensão do Capitalismo de Desastres, em que defende a tese de que o capitalismo nutre-se de desastres e de choque em choque vai ampliando seu poder. O livro é recente, mas saiu antes do ataque do coronavírus, um desastre que ninguém previa e ninguém sabe como vai terminar. E no meio do qual nenhuma tese, nem a reducionista da Naomi, sobrevive.

Oportunistas já se aproveitam da confusão da pandemia para lucrar e confirmar a pior expectativa do que o capitalismo amoral é capaz, segundo a Naomi. Está em curso a maior intervenção do Estado na vida das nações e das pessoas desde a Segunda Guerra Mundial, mas a velha briga entre dirigismo econômico e mercado persiste, enquanto contam os mortos. O mundo que emergirá do choque que estamos sofrendo será um mundo purgado pelo horror, e melhor, ou condenado pelo amoralismo para sempre.

Se estamos a caminho de uma escolha definidora do que seremos pós-tragédia viral, talvez não seja ingenuidade demais discordar da Naomi e esperar que no fim de tudo isto surja um mundo menos desigual e mais, na falta de outra palavra, decente. Para participar da velha briga, que continuará quando o coronavírus for apenas uma má memória, entre estatismo e livre mercado, traga-se de volta o John Maynard Keynes. Se for difícil transportá-lo fisicamente - afinal, o homem está morto desde 1948 -, recuperem suas ideias, e as escolhas que ele pregou para combater o capitalismo sem vergonha.

Keynes foi o cara que defendia um Estado forte a serviço do bem geral e a intervenção do Estado na economia para humanizá-la. A austeridade "made in" Chicago que hoje norteia a maioria das economias mundiais não teria prevalecido se o keynesianismo tivesse se imposto ao liberalismo, quando ainda dava.

Mas enfim, que mundo nos espera quando passar o horror? Acho que será melhor do que este. Disse ele, ingenuamente.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 1 de abril de 2020


01 DE ABRIL DE 2020
DAVID COIMBRA

O velho da montanha


Estou decepcionado com este século. Francamente. Tudo bem, no século passado houve duas guerras mundiais, o Holocausto, o Holomodor, a aids e as calças saruel, mas, até por isso, as coisas tinham de ter melhorado.

Mas, não. Ah, não. Já no primeiro ano, o Bin Laden derrubou as Torres Gêmeas e o mundo mudou para sempre. Viajar de avião se tornou um empreendimento custoso. A gente tem de chegar horas antes ao aeroporto e passar no raio X. Às vezes, precisa tirar o sapato. Detesto ter de tirar o sapato.

Depois disso, começaram a pipocar todos aqueles grupos terroristas. O Estado Islâmico. Como é que alguém poderia conceber algo selvagem como o Estado Islâmico nas alturas do século 21? Perto do Estado Islâmico, "Os Assassinos" eram um grupo de escoteiros.

A história desses "assassinos" é ótima. Eles eram chamados, originalmente, hashishin, porque consumiam haxixe. Seu líder era um homem conhecido como "O Velho da Montanha", porque, bem, vivia numa montanha. Ele recrutava jovens muçulmanos para a seita. Escolhia os mais fortes e inteligentes e, como iniciação, metia-os em uma caverna onde mulheres belíssimas, comidas deliciosas e muito haxixe os esperavam. Depois de algum tempo de sexo, drogas e música árabe, os noviços passavam para a segunda etapa: recebiam treinamento marcial e ficavam à espera das ordens do Velho da Montanha. As ordens, em geral, se resumiam a uma só: matar alguém. Por isso, hashishin virou sinônimo de matador. Donde surgiu a mui sonora palavra "assassino".

Se os soldados do Velho da Montanha fossem bem-sucedidos na sua tarefa, recebiam glórias e recompensas carnais. Se falhassem, recebiam a morte. Se morressem tentando, subiam ao Sétimo Céu, onde tudo o que haviam experimentado na caverna do prazer era lhes dado em muito maior quantidade e qualidade. Com esse sistema, o Velho da Montanha se transformou em um homem rico e poderoso. E eficiente. Ninguém sobreviveu, quando ele decidiu por sua morte.

Esse Velho da Montanha viveu por volta dos anos 1000 e morreu pelos 1100, mas a história não termina aí. Outros Velhos da Montanha o sucederam, como na história do Fantasma Que Anda. Dizem que ainda existe um Velho da Montanha hoje em dia, mas, se houver, ele estará escandalizado com a crueldade do Estado Islâmico, do Boko Haram e do Talibã.

É que o século 21 realmente não é de amenidades. Ao contrário, tudo é muito grave nesta época. Tudo o que se diz é perigoso e cumprimentar as pessoas faz mal, abraçá-las faz mal, ir ao bar beber faz mal. O século passado teve suas mazelas, teve a Guerra Fria, teve Stalin e Mao, Hitler e Mussolini, mas não tinha funk e nós podíamos ir ao bar beber. Eu quero ir ao bar beber. Eu quero ir ao bar beber!

DAVID COIMBRA

01 DE ABRIL DE 2020
OPINIÃO DA RBS

A DUPLA MISSÃO DE MANDETTA

Talvez em nenhum outro país, que não seja o tumultuado Brasil do presidente Jair Bolsonaro, um ministro da Saúde tenha de lutar em duas frentes ao mesmo tempo. De um lado, o hercúleo esforço de enfrentar o coronavírus e, de outro, equilibrar-se em uma função sabotada a todo instante pelo próprio chefe e pelo seu círculo mais fanatizado. Depois de Donald Trump ceder e admitir que os Estados Unidos precisam adotar o isolamento social até o fim de abril, o presidente brasileiro passou a ser o único chefe de Estado a desconsiderar as dimensões da pandemia para todos os setores da sociedade. Em sua ladainha sobre "histeria da imprensa" e "gripezinha", Bolsonaro só tem a companhia de um ditador doidivanas de Belarus, que manteve o campeo- nato local de futebol e recomenda sauna e vodca para tratar o coronavírus.

Mandetta, um desconhecido ex-deputado federal do DEM de Mato Grosso do Sul em função de ministro, até a eclosão da pandemia era um dos mais discretos membros da Esplanada, apesar de contar com um dos maiores orçamentos do Executivo. Praticamente do dia para a noite, foi alçado à condição de principal ponto de equilíbrio do país no combate ao coronavírus. Contra as vozes extremadas, que vão do relaxamento à reclusão absoluta, tem agido à luz da ciência, da técnica e, sobretudo, do bom senso. Pois justamente em um momento grave em que as ações precisam ser norteadas pelo que vaticina o conhecimento e pela sensatez, as virtudes de Mandetta o colocaram na alça de mira do presidente, insatisfeito com a falta de submissão total a suas teses exóticas. De forma mesquinha, virou alvo ainda da ciumeira de parte dos colegas devido aos holofotes e elogios generalizados que recebe.

Desde o princípio da crise, tem-se batido na tecla da necessidade de união, serenidade e desideologização do combate à pandemia - os três atributos que Bolsonaro não quer ou não tem capacidade de estabelecer em torno de si. O ministro e sua equipe, que inclui os ex-secretários da Saúde do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre, João Gabbardo dos Reis e Erno Harzheim, dois técnicos renomados, são o porto que dá segurança contra a disfunção administrativa que emana do gabinete presidencial.

Poderia ser fácil para o médico ortopedista Mandetta pedir demissão. Mas há uma missão a cumprir em nome da saúde. A despeito das pressões e, vez por outra, da necessidade de adular Bolsonaro para acalmá-lo, a expectativa da sociedade, das vozes centradas do governo e de lideranças dos demais poderes, que reconhecem o trabalho sóbrio do ministro, é de que permaneça firme em seu posto. O pior para o país, neste momento crucial para deter a disseminação do coronavírus, seria a chegada à pasta de alguém que se dobre aos palpites do presidente e parta para estratégias sem comprovação científica, uma aventura capaz de vitimar um número maior de brasileiros, alongar a crise sanitária e fazer um estrago ainda mais profundo na economia.



01 DE ABRIL DE 2020
CORONAVÍRUS

"É momento de pensar no Brasil", diz Luiza Trajano

A Magazine Luiza foi uma das primeiras a fechar as portas e vai ser uma das últimas a reabrir. Essa é a posição da presidente do conselho de administração da rede varejista, Luiza Trajano, diante da pandemia de coronavírus.

Ao programa Gaúcha Atualidade de ontem, na Rádio Gaúcha, a empresária detalhou a situação do setor e as medidas tomadas pelo Magazine Luiza, uma rede que abarca mais de mil lojas pelo país.

- Estamos com muita consciência de cidadão. Este é o momento de todos nós pensarmos no Brasil, não só no próprio negócio - afirmou.

Conforme a empresária, a sua rede disponibilizou um sistema de vendas via aplicativo e antecipou férias de funcionários. Além disso, as redes sociais do Magazine Luiza dão dicas e divulgam diariamente informações relevantes de autoridades e do governo sobre a situação da covid-19.

Luiza vem se manifestando na contramão de outros grandes empreendedores, que fizeram declarações públicas recentes a favor do levantamento das restrições de mobilidade impostas pelo combate à covid-19, como Roberto Justus ou Junior Durski. Para ela, o discurso que prevê um desastre econômico como resultado da quarentena não leva em consideração os elementos essenciais da questão:

- (A quarentena) Vai mexer com a economia? Vai. Mas compete ao governo em qualquer situação de guerra colocar dinheiro na economia, como já está acontecendo nos pacotes recentes que caíram. Agora, saúde é saúde, você recupera a economia mas não recupera a saúde. E os países que se restabeleceram mais rapidamente foram os que passaram por isolamento.

Mesmo ciente da falta de previsibilidade e dos reflexos do isolamento social na economia, Luiza defendeu a necessidade das medidas de quarentena - algo que vem repetindo em canais abertos, como entrevistas - e excluiu a possibilidade de demissão de funcionários.

- Melhor ver o que vai acontecer, esperar o Ministério da Saúde dizer como está a situação. Melhor do que abrir e depois não ter clientes. Tem pequenos e médios que estão falando em abrir. É direito deles, mas gostaria que eles entendessem que é pior e que estudassem o que está saindo (de medidas econômicas), principalmente para pequenas e médias empresas - afirmou.

Ela também reforçou que as manifestações recentes de grandes empresários contra a quarentena não representam a visão unânime do setor.

- No IDV, Instituto de Desenvolvimento de Varejo, um órgão da imprensa, sem nos entrevistar, falou que estávamos a favor (do fim da quarentena). Pelo contrário, nós, do IDV, que somos os 70 principais empresários do varejo, responsáveis por 60% do emprego, estamos alinhados que abrir agora, independentemente de quem queira, não vai ter resultado e vai ser pior depois por ter que fechar. É melhor esperar uns oito a 10 dias para ver.

Parceiros

A Magazine Luiza também lançou o Parceiro Magalu, oportunidade de renda extra para quem está em casa. A iniciativa permite que o colaborador monte uma loja online, venda os produtos da rede e receba uma comissão por cada produto vendido. Dúvidas podem ser tiradas no site parceiromagalu.com.


01 DE ABRIL DE 2020
+ ECONOMIA

"O governo está completamente atrasado e incrivelmente inerte nessa crise inédita"

ENTREVISTA: Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute

Monica de Bolle foi uma das primeiras economistas brasileiras a defender imediata e massiva intervenção do governo para conter o impacto econômico do coronavírus. Teve parte de sua formação na chamada Casa das Garças, centro do pensamento que, no passado recente, foi chamado de neoliberal no Brasil. Escreveu um livro, Como Matar a Borboleta Azul, com duras críticas à gestão fiscal no governo Dilma Rousseff e hoje vive perto de Washington, onde atua como pesquisadora sênior no Peterson Institute for International Economics. Na véspera da entrevista, Monica trocou o isolamento voluntário pelo obrigatório, por ordem do governo do Estado de Maryland, onde vive, perto da capital americana. Exasperada com a demora e a timidez das medidas de apoio econômico no Brasil, vê o governo "atrasado" e "inerte".

Você foi uma das primeiras a apontar a necessidade de intervenção pesada do governo. O que viu antes?

Não só no Brasil, as pessoas demoraram a entender que, para projetar a crise na economia, era preciso entender o que ocorreria na saúde pública. Desde a eclosão na China, passei a ler artigos científicos sobre a doença. Chamou atenção o fato de que as pessoas ficavam um tempo enorme nos hospitais. O nome, SARS-CoV-2 faz referência à Síndrome Respiratória Aguda, doença que acometeu a China e outros países asiáticos entre 2002 e 2003. Só que, desta vez, com grau de contágio imenso e sem imunidade ao vírus. 

Como as medidas para conter foram quarentenas rígidas, percebi que estávamos lidando com uma situação inédita na saúde, com impacto brutal na economia. Para mim, o cenário ficou claro no início de fevereiro. Com a parada súbita da economia e o vácuo deixado pelo setor privado, o suporte deveria de ser dado pelos governos. Teriam de ter uma resposta massiva na saúde, na proteção social, no amparo às empresas e aos bancos para evitar uma crise financeira. Inicialmente, fui muito criticada por essas posições, até de forma bem deselegante por parte de alguns economistas. Agora, formou-se certo consenso.

Como avalia as medidas adotadas pelo governo brasileiro?

O governo brasileiro está completamente atrasado e incrivelmente inerte nessa crise inédita. São insuficientes. A primeira medida que deveria ter sido tomada, assim que foi declarada a calamidade pública, que suspende todas as restrições previstas pela Lei de Responsabilidade Fiscal, é a liberação de um caminhão de recursos para o SUS, de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões. Não chegou nem perto disso, fala-se de em R$ 5 bilhões a R$ 10 bilhões. Depois, tem a rede de proteção social, que o governo quer dizer que fez, mas na realidade quem fez foi o Congresso, ao aprovar uma renda básica emergencial para atender pessoas desassistidas, em particular informais e autônomos, também permite que pessoas que recebem Bolsa Família migrem para esse programa de renda básica, que não tem condicionantes. Agora o governo precisa desenvolver uma logística de cadastro e de recebimento do benefício. Já era para estar pronto. 

O governo nada fez para se preparar, e as pessoas não têm como receber o benefício, que é um escândalo de inércia nessa situação calamitosa que estamos. Também é preciso adotar medidas para sustentação das empresas, o Banco Central se mexeu, mas o governo ainda bate cabeça. Agora se fala em medida provisória para diminuir a jornada e reduzir salário. Isso é um absurdo, não é o momento de reduzir salário, é de uma bobagem inominável. Nenhum outro país está tomando esse tipo de medida, nem aqui nos Estados Unidos. Precisaríamos de uma linha de ação coordenada com Banco Central, bancos públicos e Ministério da Economia. Porém, estamos em absoluta desarticulação. O custo para a população e para a economia será enorme.

Cobrar ajuda pública não é inesperado de uma economista de formação liberal?

Meu conhecimento teórico e prático é de que crises são momentos em que a economia, por choques internos ou externos, como uma crise de saúde pública, fica desequilibrada. Portanto, são momentos em que esses rótulos de liberal, heterodoxo, não cabem O que importa é tomar as medidas necessárias. Quanto mais demorar, mais grave será a crise que a sociedade terá de enfrentar. Liberalismo não é incompatível, como muita gente pensa, com gastos sociais. Um dos princípios é dar igualdade às pessoas no ponto de partida.

O Brasil terá pós-crise mais complicado, por estar frágil?

O mundo inteiro estará em uma situação fiscal, digamos, complicada. O peso da dívida sobre o PIB estará mais alto em todos os países. É verdade que estamos uma situação mais frágil, mas a Itália também. Não é diferente do que o mundo viveu no pós-guerra. Houve um pico imenso de dívidas e, para facilitar a reconstrução, surgiu o multilateralismo. Vejo o pós-crise de forma semelhante. Acredito firmemente que o mundo terá de trabalhar de forma coordenada para resolver seus problemas Será voltado para a construção de uma rede de proteção social. Essa crise e a epidemia expõe que a solidez da economia de um país, seja ele qual for, a economia é tão sólida quanto a parcela da população mais vulnerável, a sua economia como um todo é extremamente vulnerável.

A nossa parte #juntoscontraovírus | Construtora não demitirá por 60 dias

Gigante da construção civil nacional, a MRV se comprometeu a dar estabilidade no emprego a seus colaboradores diretos nos próximos 60 dias. Além da construtora, outra empresa controlada pela família Menin, a LOG CP, também assegura que não demitirá nos próximos dois meses.

Com várias obras no Estado, a MRV usa muitos empreiteiros terceirizados para executá-las, conforme o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Porto Alegre (STICC), Gelson Santana. Como o compromisso se refere apenas a "colaboradores diretos", não representa um número de empregos tão grande quanto poderia alcançar caso incluísse todos os trabalhadores.

Outra grande empregadora, a Lojas Renner, também afirmou à coluna que não vai demitir, "por enquanto". Comprometeram-se com manutenção de empregos durante a pandemia, ainda, os bancos Santander e Itaú Unibano e a Natura.

No Rio Grande do Sul, mais da metade das Indústrias enfrentam cancelamento de pedidos e encomendas (51,8%), conforme pesquisa da FIERGS. Uma parcela ainda maior, 57,4%, paralisaram a produção. No Estado, só 6,7% tiveram aumento de demanda, nos segmentos Alimentício, Químico, Farmoquímico e Farmacêutico.

O tamanho do caixa das gaúchas

O ativo mais valorizado pela crise não é o ouro, é o caixa. Empresas que têm essa disponibilidade imediata de recursos apresentam maior resistência ao contágio econômico do coronavírus.

Para fazer uma fotografia da situação das maiores companhias de capital aberto do Estado, a coluna teve ajuda de Laís Fracasso, sócia da corretora Fundamenta. Ela adverte que a projeção é uma simplificação, porque usa dados e comportamentos de 2019, portanto anteriores à crise da covid-19. Também não leva em conta medidas já adotadas de proteção de caixa, como redução de despesas, já relatada à coluna pela Lojas Renner, por exemplo. Há, ainda, dois casos com exceções específicas. No caso da Dimed/Panvel, que ainda divulgou os resultados completos do ano, foram considerados os dados até o terceiro trimestre.

No caso da Grendene, lembra que o caixa aparentemente abundante é resultado dos incentivos fiscais que a calçadista tem no Nordeste, com restrições de aplicação. Feitas essas ponderações, o resultado é de que, na média, as maiores empresas gaúchas têm caixa para suportar dois meses de custos, despesas e dívida.

MARTA SFREDO


01 DE ABRIL DE 2020

POLÍTICA +

Mutirão para socorrer a saúde em crise

A decisão conjunta dos poderes e órgãos com autonomia administrativa e financeira, de abrir mão de R$ 150 milhões de seu orçamento para socorrer a área de saúde, é uma demonstração de maturidade e de sensibilidade diante da situação de calamidade vivida pelo Estado. É a primeira parte de um esforço que talvez tenha de ser ampliado se a crise se prolongar, como indicam as previsões. Dependendo do tamanho do tombo da arrecadação, o orçamento aprovado na Assembleia vai virar peça de ficção e não haverá como repassar o duodécimo dos outros poderes.

Por ora, é de se saudar a disposição dos presidentes do Tribunal de Justiça, desembargador Voltaire de Lima Moraes, e da Assembleia, Ernani Polo, do procurador-geral de Justiça, Fabiano Dallazen, do presidente do Tribunal de Contas, Estilac Xavier, e do defensor-geral, Cristiano Vieira Heerdt, de apertarem o cinto para socorrer o Executivo, que precisa suprir o aumento de gastos causado pela pandemia.

Os primeiros R$ 150 milhões são uma gota d'água no oceano de gastos, mas qualquer dinheiro é bem-vindo neste momento de calamidade.

O Tribunal de Justiça entrará com R$ 60 milhões, R$ 10 milhões a mais do que a previsão inicial. A Assembleia e o Tribunal de Contas participarão com R$ 30 milhões cada um. A Defensoria e o Tribunal de Contas completarão a cota.

O dinheiro a ser liberado pelo Tribunal de Justiça nada tem a ver com a demanda do Executivo de tomar emprestados recursos do Fundo de Reaparelhamento do Judiciário, que somam cerca de R$ 1 bilhão. As negociações continuam.

Do Ministério Público, virão ainda outros R$ 5 milhões para montar 30 novos leitos de UTI completos, oriundos do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados. Os equipamentos serão doados em caráter definitivo, o que significa que serão utilizados mesmo depois da crise do coronavírus.

Em outra frente, o líder do governo, Frederico Antunes, garantiu ao governador Eduardo Leite o repasse de mais de R$ 50 milhões em emendas parlamentares estaduais para o combate à pandemia de covid-19. Antunes informou que, dos R$ 55 milhões previstos em emendas a serem destinadas para os deputados, R$ 48 milhões já estavam carimbados para a saúde e cerca de metade dos outros R$ 7 milhões devem ser redirecionados. Valores que seriam destinados à Consulta Popular ou outras demandas serão revertidos às ações de enfrentamento ao vírus. O montante final para a saúde será confirmado hoje.

Ameaças a Vanazzi

Decidido a manter as restrições de circulação e de funcionamento de serviços não essenciais em razão da pandemia de coronavírus, o prefeito de São Leopoldo, Ary Vanazzi (PT), tem recebido ameaças nos últimos dias. Segundo ele, os ataques partem de adversários políticos.

Vanazzi registrou ocorrência na Polícia Civil para investigação de uma ameaça recebida no Facebook, que prometia levar uma "lista de cobranças" em sua residência. O prefeito relatou ainda ter ouvido gritos com xingamentos e palavras de intimidação de motoristas que passaram por sua casa nos últimos dias.

O vereador de Porto Alegre Carlos Comassetto, que disputava com outros dois integrantes do PT o posto de vice na chapa de Manuela D'Ávila para as eleições municipais, desistiu de pleitear a vaga. Comassetto passa a apoiar o ex-vice-governador Miguel Rossetto, que agora concorre pela indicação com o vereador Marcelo Sgarbossa.

Mais duas semanas, no mínimo

Em teleconferência com os líderes de bancada, ontem, o governador Eduardo Leite avisou que vai manter as medidas restritivas ao funcionamento das atividades econômicas pelo menos até 15 de abril. Isso não significa que em duas semanas tudo estará liberado.

A continuidade do isolamento social vai depender da evolução dos números de casos de covid-19. As escolas, no entanto, seguirão fechadas pelo menos até 30 de abril.

Leite, que mora no Palácio Piratini, conversou com os deputados de seu gabinete, acompanhado do vice-governador Ranolfo Vieira Júnior, do líder do governo, Frederico Antunes, e do procurador-geral Eduardo Cunha da Costa.

Cada parlamentar teve três minutos para falar. Leite anotava as ponderações e questionamentos em um bloco para responder. Vários deputados elogiaram a postura do governador e disseram que se sentem confortáveis com as medidas adotadas.

Um dos depoimentos mais surpreendentes, pelo apoio, foi o de Juliana Brizola (PDT), que não integra a base do governo. Leite agradeceu aos deputados pela colaboração e ao presidente da Assembleia em particular pela devolução de R$ 30 milhões do orçamento para auxiliar o Executivo. O dinheiro virá da suspensão de diárias e do corte de verbas de gabinete. - É uma demonstração da compreensão dos deputados nesse momento de excepcionalidade - afirmou.

ALIÁS

A Câmara Municipal de Porto Alegre faz reunião virtual hoje para decidir como ajudar no enfrentamento ao coronavírus. O mínimo que se pode esperar é o repasse integral das emendas de R$ 1 milhão a que cada vereador tem direito.

Cairoli está hospitalizado

O ex-vice-governador José Paulo Cairoli, 68 anos, está internado no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, com suspeita de contaminação pelo coronavírus. Cairoli divulgou nota nas redes sociais confirmando que sentiu-se indisposto e procurou atendimento médico em Alegrete.

Como tinha sintomas da covid-19, especialmente cansaço, decidiu retornar para Porto Alegre, de avião, e foi direto para o Moinhos. Cairoli fez o teste, está em tratamento e ainda aguarda o resultado.

A deputada Juliana Brizola (PDT) entrou na justiça para anular trecho de decreto estadual que permitiu que os município decidam sobre a liberação de serviços privados não essenciais. Juliana quer a proibição dessas atividades em todo o rs.

Mais tempo

Nenhum dos seis projetos encaminhados pelo governo do Estado na semana passada, referentes ao IPE Prev e ao IPE Saúde, deverá ser votado na sessão virtual da Assembleia amanhã. O líder do governo, Frederico Antunes, alertou que não há como votar os dois projetos que autorizam a contratação emergencial de servidores, aceitos pela Mesa Diretora, sem aprovar antes a constituição dos quadros de funcionários, prevista em outras duas propostas.

Caso não haja acordo para votar os quatro textos, Antunes antecipou que as propostas ficarão para a semana seguinte.

ROSANE DE OLIVEIRA

01 DE ABRIL DE 2020

NÍLSON SOUZA

Maria Joaquina

Nas suas andanças pelo pátio durante o isolamento, minha mulher descobriu um casulo estranho numa pequena árvore do jardim. Apesar de seu conhecimento prático das coisas do campo, surpreendeu-se com o formato da bolota de pequenos gravetos, que destoava completamente do verde do arbusto. Me chamou para ver:

- Olha só para isso! Tem um bicho aí dentro.

Passamos a observar com atenção e cuidado aquela vida reclusa. Já no segundo dia, percebemos que o casulo estava em outro galho. Então foi possível ver a cabecinha da lagarta comendo vorazmente na sua marcha lenta de acumular energia para a transformação.

- Isso sim é que é confinamento! - pensei, antes mesmo de saber que o processo de metamorfose pode durar até um ano.

Descobri mais na minha pesquisa e nas minhas leituras. Com os humanos condenados temporariamente à prisão domiciliar, os demais seres vivos da natureza começam a recuperar seus espaços. Há registros nesses últimos dias de pássaros cantando alegremente por toda parte, javalis andando por cidades da Europa e até golfinhos aparecendo em praias que não frequentavam. Outro dia, um puma selvagem caminhou tranquilamente pelas ruas desertas de Santiago, no Chile.

Sem a presença humana e sem os ruídos da civilização, os animais retraídos reaparecem, estimulados também pela despoluição temporária do ar e das águas, resultante da paralisação de fábricas e da redução do tráfego de carros, navios e aviões.

Essa parada planetária também está possibilitando ao ser humano perceber o quanto depende da natureza. Nossa lagarta ganhou até nome, depois que minha mulher enviou uma imagem dela para seu grupo de amigos.

- Maria Joaquina! - sugeriu a madrinha informal do bichinho.

Temos convicção de que, logo, logo, Maria Joaquina romperá o seu isolamento natural e se transformará numa bela borboleta, para visitar flores, encantar o planeta e perpetuar sua espécie. Do mesmo modo, acredito que logo, logo, sairemos desta experiência dolorosa e desafiadora, quem sabe também transformados em seres mais fraternos, mais compreensivos e mais integrados à natureza.

NÍLSON SOUZA