terça-feira, 4 de janeiro de 2011



04 de janeiro de 2011 | N° 16570
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

Receita para 2011

Nestes primeiros dias de 2011, eu queria ter 10 anos menos.

Nestes dias inaugurais do Ano Novo, eu desejaria não ter dito palavras, não ter tomado atitudes das quais me arrependeria.

Neste período inicial de uma nova era em minha vida, eu gostaria de ter feito gestos de que me esqueci.

Almejaria ter usado mais vezes o verbo almejar, para desejar paz, saúde, felicidade a todos os que me eram próximos.

Queria não ter calado a palavra quase dita, a frase quase formulada, a declaração quase enunciada.

Nestes primeiros dias de 2011, eu gostaria de ter a idade da inocência.

Eu pretenderia não haver ouvido ainda todas as músicas que me comoveram.

Eu ambicionaria não ter lido ainda todas as obras-primas que me emocionaram.

Eu aspiraria a não ter visto ainda todas as grandes telas da pintura que mexeram com meu coração e minha alma.

Eu pretenderia ser tão puro de mente que todo o saber me fosse desconhecido.

Me apeteceria desconhecer toda a ciência, para que eu próprio a descobrisse.

Ansiaria por desvendar todos esses pequenos, grandes segredos da alma humana, só para esquecê-los depois.

Ambicionaria voltar a cada trecho dos livros que me tocaram, só pelo gosto de reinventáa-los.

Anelaria tornar a cada grande museu que visitei, ao menos para reecontrar a Mona Lisa, a Vitória de Samotrácia e a Vênus de Milo.

E em tudo isso buscaria, em cada sentimento e anelo e desejo, o melhor de mim mesmo, aquele que procura norte e rumo na beleza.


04 de janeiro de 2011 | N° 16570
LUÍS AUGUSTO FISCHER


Shakespeare em Machado de Assis

Não há ficcionista brasileiro que tenha lido e aproveitado mais a Shakespeare do que Machado de Assis; e não há autor que mais tenha influenciado o brasileiro do que o gênio inglês. Desde a juventude, nosso maior escritor frequentou as páginas teatrais e poéticas do autor do Ham­let, e isso numa época em que o prestígio cultural da língua inglesa no Brasil era pequeno, muito menor do que o do francês.

Machado sabia que ali, e não em seus estimados franceses Voltaire, Pascal e Victor Hugo, estava a chave para os maiores segredos da psicologia humana, que sua literatura iria explorar com profundidade inédita em português.

Machado traduziu, parafraseou e citou Shakespeare desde sua juventude. A partir de 1870 essa relação se intensificou, em parte pelo amadurecimento do próprio autor brasileiro (nascido em 1839), em outra parte pela chance que teve de assistir a um conjunto expressivo de interpretações de peças shakesperianas feitas por uma companhia italiana de passagem pelo Brasil; foi a primeira vez que Machado (e talvez todo o país) pôde ver como era uma ótima montagem europeia do grande autor inglês, e registrou suas impressões em crônica da época.

Mas as maiores provas da importância do bardo inglês na obra do brasileiro acontecem em seu apogeu. A primeira vez que saíram publicadas as Memórias Póstumas de Brás Cubas, em folhetim, lá estava uma epígrafe shakesperiana, de As You Like It, em tradução do autor:

“Não é meu intento criticar nenhum fôlego vivo, mas a mim somente, em quem descubro muitos senões”. Seu primeiro grande romance, assim, vem precedido de Shakespeare, que funciona aqui como um parachoque autocrítico.

Depois o mesmo dramaturgo apareceu em muitos contos memoráveis (como A Cartomante) e em crônicas, até ganhar sua maior homenagem em terras brasileiras, nada menos que o nervo psicológico do mais importante romance machadiano, Dom Casmurro.

Ocorre que Bentinho reencarna o ciumento Otelo – esta peça foi citada 28 vezes por Machado, em narrativas, peças e artigos –, vivendo o sentimento em seu cotidiano e medindo Capitu com Desdêmona, aquela culpada, esta inocente.

Machado sabia que, para ser grande, era preciso conhecer os maiores; Shakespeare foi a melhor referência que nosso grande autor poderia ter escolhido.


04 de janeiro de 2011 | N° 16570
PAULO SANT’ANA


Duas enganações

Estou voltando a escrever minha coluna. Saí por alguns dias de férias em face de dois motivos: 1) queria me submeter à cirurgia de dois tumores na face; 2) de folga, eu não escreveria contra a volta de Ronaldinho para o Grêmio, abrindo caminho, assim, a uma vontade da torcida tricolor, que quer a volta do jogador.

Como parece que os médicos entraram em acordo em que não devo fazer a tal cirurgia, dando tempo aos tumores para que se acomodem e não cresçam e também porque encardiu a vinda de Ronaldinho para o Grêmio, volto a escrever hoje.

É incrível, mas Assis Moreira, o irmão e empresário de Ronaldinho, o autor intelectual da saída monstruosa do jogador do Grêmio àquela vez, declarou na Zero Hora de ontem que “o Grêmio está em férias”, ironizando que o presidente Paulo Odone esteja em férias em Punta del Este, enquanto os dirigentes do Flamengo estão trabalhando para contratar Ronaldinho.

É incrível, mas teve de vir do Assis a crítica às férias inoportunas de Odone, que tinha de estar no Olímpico trabalhando pelo Grêmio.

Paulo Odone, por sua parte, mandou dizer de Punta del Este que “não entra em leilão”.

Ele não entra em leilão, mas entra em férias.

O que eu pensei quando deixei de escrever para não atrapalhar a volta de Ronaldinho é que o Assis, com remorso pela forma ingrata e insidiosa com que levou embora seu irmão para a Europa, queria recompensar o Grêmio daquela grande ofensa, trazendo Ronaldinho de volta para o Olímpico.

Mas não é isso o que está acontecendo: Assis está se aproveitando novamente do Grêmio para vender mais caro Ronaldinho para o Flamengo.

Isto é uma barbaridade. É a segunda vez que Assis vai enganar o Grêmio, como eu tinha dito antes de entrar em miniférias.

Cachorro ovelheiro... Como é que o Grêmio foi confiar no Assis depois de tudo o que o Assis fez para o Grêmio?

Como é que o ex-presidente Duda Kroeff e o atual, Paulo Odone, disseram que as portas do Grêmio estavam abertas para a volta de Ronaldinho, se os dois irmãos já tinham assassinado o Grêmio no passado, fugindo para a Europa e deixando os cofres do Grêmio raspados de qualquer recompensa pela formação do jogador? É muita ingenuidade!

É triste ver que as pessoas não mudam, são sempre as mesmas, umas desertoras, outras ingênuas.

E, se o Ronaldinho for para o Flamengo, ursando mais uma vez o Grêmio, ficará muito difícil para o Assis e o Ronaldinho transitarem pelas ruas de Porto Alegre.

Duas enganações, já é demais!

Mas não vai faltar um outro futuro presidente do Grêmio para trazer Ronaldinho de volta, depois que o Flamengo não o quiser mais por ser tão velho quanto o Assis.


04 de janeiro de 2011 | N° 16570
MOACYR SCLIAR


Esporte & grana

Aqueniana Alice Timbilili conquistou seu segundo título na corrida de São Silvestre, quebrando o recorde de velocidade. Já seu compatriota James Kwambai, vencedor em 2008 e em 2009, não chegou ao tricampeonato; quem venceu a prova foi o brasileiro Marilson Gomes dos Santos. O que não deixou de surpreender; a vitória de Kwambai era tida como certa, mesmo porque há oito décadas o Quênia é conhecido como um celeiro de maratonistas triunfantes.

Há várias explicações para isso, tanto em termos de biologia quanto de modo de vida. Para começar: cerca de três quartos dos corredores quenianos pertencem à tribo Kalenjin, que vive numa região elevada, de ar rarefeito, o que pode desenvolver a capacidade respiratória. O desenho corporal (pernas longas, torso curto) ajuda.

Depois, temos o modo de vida. É gente pobre, que não tem carro e que, para criar gado, sua principal forma de sustento, precisa andar ou correr, muitas vezes de pés descalços (e, descalço, o africano Abebe Bikila venceu a maratona de Roma).

Os Kalenjin representam só 12% da população do país e 0,001% da população do planeta; no entanto, conquistaram 70% das medalhas nas provas mundiais de corrida de longa distância.

Não é de admirar que para eles, e para os quenianos, a corrida tenha se transformado no esporte nacional, da mesma forma que o futebol para os brasileiros, e por motivos semelhantes: no nosso caso, terrenos baldios e bolas de meia facilitaram o surgimento de craques.

Mas termina aí a semelhança. Partidas de futebol galvanizam multidões. São dois times, um frente ao outro, são as jogadas sensacionais, é a vibração do gol. Na maratona, a disputa é antes de mais nada pessoal, interior, com o corredor se perguntando constantemente: “Será que eu vou aguentar?”.

É muita gente, não raro uma mistura de profissionais e amadores (o senador Eduardo Suplicy já garantiu que vai correr a próxima São Silvestre). Resultado: jogadores de futebol podem ganhar quantias fabulosas, mas o mercado para maratonistas não é tão generoso, sobretudo nesta época de crise econômica na Europa e nos Estados Unidos.

No último ano, a maratona de Hamburgo, Alemanha, reduziu o prêmio de 40 mil para 6 mil euros, algo como R$ 13,3 mil, o que não é nenhuma fortuna. E os quenianos não foram convidados, provavelmente porque os organizadores da prova não tinham como trazê-los.

O queniano Timo Limo, que venceu a maratona de Praga, voltou para casa com 120 euros, fração insignificante de suas despesas de viagem. E, para coroar este quadro desanimador, num país pobre é difícil encontrar patrocinadores para atletas.

Esporte hoje é negócio. Mas, para o maratonista que, ofegante, cruza a linha de chegada, é mais que isso. É um desafio, uma prova de que o ser humano, ajudado ou não pela natureza, pode superar suas limitações, como mostrou a humilde e valorosa Alice Timbilili. Na maratona esportiva ou na maratona da vida, todos temos o nosso lugar, ainda que não muito bem pago.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011


MOACYR SCLIAR

Fantasias

Tão logo entrou na jaula, viu que a coisa funcionava. Os pandas acolheram-no com um carinho comovente

Cientistas se fantasiam para ajudar pandas. Para os pesquisadores do Centro de Conservação e Pesquisa do Panda Gigante, na China, vale tudo para proteger a espécie, inclusive usar uma pesada fantasia peluda. Embora essas fantasias não sejam muito convincentes, os biólogos do centro apostam em sua eficácia.

Segundo eles, a figura humana assusta os animais, que tendem a fugir, o que precisa ser evitado, pois é uma ameaça à sua sobrevivência. Estima-se que menos de 1.600 pandas gigantes ainda vivam na natureza. Cerca de 280 estão em zoológicos espalhados pelo mundo.

QUANDO O DIRETOR do Centro de Conservação e Pesquisa do Panda Gigante lhe anunciou que, para ter contato com os animais, ele deveria usar uma fantasia de panda, o zoólogo reagiu com indignação.

Fantasia de panda, que palhaçada era aquela? Afinal, ele era um cientista, não um artista de circo. Mas os argumentos do chefe e dos colegas acabaram por convencê-lo. As pesquisas mostravam que os pandas aceitavam melhor os humanos fantasiados. E, animais raros, eles precisavam de cuidados.

Fantasiou-se, pois, e, tão logo entrou na jaula, viu que, de fato, a coisa funcionava. Os pandas acolheram-no com um carinho comovente.

Para um homem solitário, sem família e sem amigos, aquela era uma experiência nova e surpreendente.

Agora era ele quem queria fantasiar-se e passar horas entre os simpáticos animais. Encontrava ali o afeto que sempre lhe faltara. Gostava de todos os pandas: dos filhotes, naturalmente, a coisa mais engraçadinha; e dos pandas adultos, que lhe pareciam extraordinariamente bem-humorados.

Mas havia ali um motivo de perturbação. Era uma fêmea, ainda jovem, que a ele parecia belíssima. As características manchas negras em torno aos olhos davam à essa panda uma face sedutora, lembrando aquelas atrizes dos anos 30 e 40.

Quando ele a via, seu pulso se acelerava. E então constatou: estava apaixonado. A fantasia que usava já não era um truque; ele de fato se sentia um panda, e queria viver com uma fêmea panda.

Problema: ela já estava comprometida. Tinha um companheiro, um robusto urso que era obviamente ciumento. Suas chances de conquistá-la eram zero. Quando se deu conta disso, caiu numa profunda depressão.

Era a primeira vez que se apaixonava, e essa paixão resultava num fracasso.

Com o coração partido, pediu ao diretor que o transferisse para um outro centro de pesquisas que trabalha exclusivamente com sapos. Ali não viverá outro caso de amor impossível: ninguém vai lhe pedir que se disfarce de batráquio.

Mas há duas coisas que o inquietam. Primeiro: a todo instante ele lembra a história do príncipe que virou sapo. Segundo: a certa altura, de uns tempos para cá, começou a coaxar como sapo. E, para um principiante, até que não se sai mal.

MOACYR SCLIAR escreve nesta coluna, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal.

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Mulher meia-oito

SÃO PAULO - Dilma Rousseff iniciou seu discurso de posse destacando o "significado histórico" de ser a primeira mulher presidente do Brasil: "Venho para abrir portas". No final, se emocionou ao lembrar dos que estiveram com ela na luta armada contra a ditadura: "Muitos da minha geração, que tombaram pelo caminho, não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles essa conquista, e rendo-lhes minha homenagem".

Na abertura, o elogio da condição feminina, projetando o futuro; no encerramento, a memória dos radicais da geração meia-oito, reparando o passado: foi a moldura que Dilma escolheu para seu retrato ao vestir a faixa presidencial.

Não havia, porém, nessa evocação histórico-sentimental da guerrilha, nada que desviasse a presidente de seu eixo pragmático. Entre uma ponta e outra, o recheio do discurso passou em revista a pauta já conhecida do "melhorismo" (o que já fizemos e o que ainda falta fazer), tudo com bom senso e equilíbrio, sem rancores nem radicalismos.

A ênfase, como deveria ser, ficou reservada ao combate à miséria: "A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza extrema". Trata-se, afinal, de um governo "de esquerda", apesar do consenso, formado desde FHC, de que "governar é um processo".

Se Dilma começou bem, Lula poderia ter terminado em melhor companhia. O fato de Sarney tê-lo acompanhado no avião de Brasília até em casa foi de um oportunismo patético, mas também algo muito simbólico. Tão patético e simbólico quanto Lula, já "ex", num palanque em S. Bernardo ao lado de Sarney, pragejando pela enésima vez contra "as elites deste país".

O velho remanescente da ditadura que deu posse a Dilma no Congresso era prestigiado horas mais tarde no ABC por Lula, o maior líder popular da história. Este é o Brasil.


03 de janeiro de 2011 | N° 16569
FABRÍCIO CARPINEJAR


Quebra-cabeça de 5 mil peças

Troco os objetos de lugar para que minha mulher fale comigo.

Funciona perfeitamente. Ela que demora a colocar a alma no corpo de manhã acaba conversando mais do que esperava.

– Onde está meu cinto?

– Viu meu celular?

– Cadê meus óculos de sol?

Vou respondendo como um quiz show, um sábio dos esconderijos:

– Na segunda gaveta.

– Está carregando na sala.

– No porta-luvas do carro.

Forjo importâncias. Com o pretexto de salvá-la dos atrasos do trabalho. Ela acorda às 8h30min, tem meia hora para se arrumar e outros 30 minutos para chegar à clínica.

É evidente que ela não perderia tempo se eu deixasse sua bagunça em ordem, acharia mais rápido as urgências, mas crio uma falsa eternidade, uma falsa ordem, para dar a sensação que cuido dela e ainda me preocupo com a limpeza.

O marido mais torturador é o metido a faxineiro. Não vem com o caminhão de mudança, é o caminhão de mudança. Aquele que entra em sua casa como namorado e, na primeira semana, promove uma limpeza geral, com o objetivo de recuperá-la dos vícios. Trata-se de um escorpiano ou um dominador. Ou os dois. A disposição é tanta que passa a temer sua intenção de preparar a salada de maionese do churrasco.

O tipo não se contenta em exercitar seu transtorno obsessivo-compulsivo, pretende emprestá-lo. É um TOC solidário.

Você conclui que foi uma ideia estúpida alcançar uma cópia da chave. A chave é a verdadeira escova de dente que inicia o casamento. Toda a fechadura é um copo que transborda.

Mal entra na sala, enxerga o piso brilhando, encerado, e bate o pavor: as pilhas de papéis importantes estão guardadas não se sabe onde, quer cortar a unha e a tesourinha desapareceu da mira, o prontuário de receitas repousa em uma caixinha anônima na lavanderia. Afora as toalhas, as calças, os vestidos.

E nem pode reclamar, nem pode xingar. Porque os piores atos são feitos para o bem. E isso é um costume do amor.

O arranjo das flores no centro da mesa pede sexo de agradecimento. E ficará chato dizer: “Não toque mais nas minhas coisas”. Engolirá a raiva e permanecerá entontecida em seus próprios domínios, tentando completar diariamente o quebra-cabeça de cinco mil peças.

Uma mulher odeia que a gente mexa em sua bolsa, mas não fez nenhuma restrição em alterar o trajeto dos seus pertences fora do ferrolho. Não colocou nas resoluções do condomínio.

Coitada de Cínthya. Tirou a chave da bolsa, já é minha. Tirou o pente, já é meu. Tirou o filtro solar, já ponho no armário do banheiro.

E ela pensará em mim várias vezes durante o expediente.

– Onde que ele colocou, onde ele colocou, onde ele colocou... minha vida? E não devolvo.

Excelente segunda-feira. Uma ótima semana, um gostoso mês de Janeiro e um maravilhoso 2.011


03 de janeiro de 2011 | N° 16569
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Cultura

Não deve espantar a imensidão de conceitos para esta palavra. É que a cultura é múltipla e está em contínuo processo. É como um peixe na água translúcida, que devemos pescar com as mãos nuas; sempre à vista, sempre conhecido, mas de difícil captura. Podemos, entretanto, dizer que a multiplicidade é uma de suas marcas mais evidentes, pois são múltiplos os seus criadores.

Num outro plano, podemos entender essa multiplicidade também como decorrente da produção simbólica dos diferentes povos, nações e etnias. Um complicador (bem-vindo complicador) é que esses bens simbólicos por vezes encontram-se hibridizados, o que lhes assegura melhor potencial genético, à semelhança do que ocorre com os entes biológicos.

Outra perspectiva adequada é entender a cultura como processo. Cultura é um ente in fieri, sempre se transformando, sempre se alterando, metamorfoseando-se, não aceitando descrições estáticas ou submetidas a um padrão. Tentativas de “congelar” seu conceito, como, por exemplo, fez a Alemanha hitlerista, podem servir de perigoso apoio ideológico aos regimes totalitários, que sempre buscaram um índice unificador – e quase sempre situado num remoto passado.

Quando tratamos de políticas para a cultura, é essencial que essas duas vertentes sejam consideradas em conjunto, para preservar-se certa idoneidade conceitual.

Mas, por si mesmas, essas duas vertentes serão estéreis se não empolgadas por políticas adequadas a preservá-las. Assim, cabe pensar numa tríade operativa: a estética (consubstanciada no reconhecimento e na preservação dos elementos simbólicos, expressos nas chamadas belas-artes, mas também nas manifestações espontâneas das comunidades), a cidadã (em que o Estado a reconhece como direito de todos, transformando-se em agente estimulador da mais ampla circulação desses bens) e a econômica (na qual o agente público estabelecerá condições para que a cultura resulte na utilização desses itens para gerar emprego e renda).

Como se percebe, se o conceito de cultura é complexo, complexa também é a tarefa de encará-la como uma das áreas mais relevantes da ação pública, na busca de uma medida que se situe entre a omissão e a intervenção. Ação complexa, mas não impossível no âmbito da mentalidade estritamente contemporânea, que é ampla e dialógica.


03 de janeiro de 2011 | N° 16569
PAULO SANT’ANA | CLÓVIS MALTA (INTERINO)


O aprendizado da paz

O primeiro dia útil do ano é uma boa data para se colocar resoluções em prática, e não apenas aquelas que costumam nos afligir a cada começo de segunda-feira. Assim como é possível erguer castelos de nuvens na imaginação ou nos sonhos, na realidade do cotidiano também dá para se encarar a paz como o objetivo de um imenso e permanente canteiro de obras.

Basta acreditar nisso e será mais fácil arregimentar pessoas determinadas a contribuir com ações concretas para edificar esse valor.

Quem acompanhou com atenção a discurseira dos governantes empossados na virada do ano percebeu que alguns, a começar pela presidente Dilma Rousseff, fizeram menção a essa palavrinha de apenas três letras – entre as quais a primeira e a última do abecedário. Que tal, então, inaugurar a agenda com esse monossílabo poderoso? Melhor ainda se grafá-lo e escrever do lado: “Cobrar dos políticos”. Perfeito se acrescentar: “E de mim”.

Se alguém tivesse se proposto a contar quantas vezes o termo paz foi referido nas felicitações de mudança de ano, verbalmente ou nas mensagens despachadas por tambor, pelo correio, pela internet, pelos telefones móveis ou fixos, ou mesmo só na intenção, estaria à frente agora de um daqueles números de dar a volta à Terra, talvez também na Lua...

A paz, tão banalizada sob a emoção de fogos de artifício, eventualmente do champanha, das lágrimas e dos sorrisos, é mais viável a partir do olhar de uma criança do que dos adultos. Seres humanos são normalmente educados para ter, não para ser. Aprendem cedo a competir, a derrotar – afinal, a vida não é uma guerra de batalhas diárias, sem trégua? Habituam-se também a recusar desaforo, a revidar no ato, sem contar sequer até três.

Na defesa de direitos que consideram para sempre seus e de mais ninguém, os adultos estão geralmente mais preocupados em afastar do caminho quem é visto como ameaça a supostas conquistas ou ao bem-estar percebido como perene e imutável. Saiu dos padrões? Exclusão. Dá a impressão de ter pirado? Hospício, ou no mínimo um rótulo de louco. Incomodou? Cadeia. De preferência bem longe, pois queremos mais e mais prisões, mas à distância, não é isso?

A paz que deveríamos almejar não é a resultante de conflitos do dia a dia sufocados pelo autoritarismo, à força ou no grito. Tampouco é a exibida por pessoas para as quais isso ou aquilo parece indiferente, pois tanto faz. Não é também a comumente atribuída aos cemitérios.

Sim, pois a criminalidade está aí, sorrateira e aterradora, sem respeitar sequer os mortos, muito menos os pacifistas. A paz com a qual poderíamos nos comprometer hoje no papel e no plano virtual, copiando para os outros dias do ano, é a buscada pelo diálogo, pelo respeito à diferença, pela aceitação da divergência, pela promoção da igualdade, pelo exercício da tolerância.

É ver mais e se perceber no olhar do outro, é ter compaixão pelos que sofrem – mesmo de quem nos perturba ou incomoda –, é ouvir, é tentar encontrar sempre uma brecha pela qual estabelecemos contato e podemos somar forças num projeto de construção permanente. Mas é sobretudo educação – educação voltada para a paz. Por isso é preciso ter fé nas crianças. Por isso a crença nos adultos, aos quais cabe passar adiante esses valores.

Uma verdadeira cultura de paz procura transmitir a pequenos seres humanos a noção de que cada palavra, mesmo minúscula, cada gesto nosso, inclusive pensamentos, têm o poder de impactar o mundo. Um projeto de paz é o que se constrói a partir da consciência de nossas limitações e fraquezas, mas também da certeza de que, sem se levar a sério alguns princípios – e aí o recado serve especialmente para os políticos – fica difícil alcançar o progresso.

Pode-se até conquistar a prosperidade ignorando esses pressupostos, no plano individual e coletivo, mas no final, bem lá no fundo, será como se nada fizesse sentido.


03 de janeiro de 2011 | N° 16569
L. F. VERISSIMO


O alemão

Cheguei ao Botafogo via Internacional. O Pirilo tinha vindo do Sul para jogar no Botafogo. Depois veio o Ávila, centromédio (naquele tempo ainda se dizia centromédio), um negro forte, peça importante da grande máquina de jogar futebol que era o Internacional da década de 40. Tão grande que teve três jogadores convocados para a Seleção Brasileira de 50: Nena, Tesourinha e Adãozinho.

Nenhum dos três chegou a jogar na fatídica Copa daquele ano, o que para a minha mente juvenil explicou nosso fracasso. Há pouco tempo morreu o Nena, e o noticiário disse que ele era o último remanescente daquele Inter mítico. Deduzi que o Ávila também já tinha morrido.

Depois do Ávila, seu substituto no Inter, o Ruarinho, também foi para o Botafogo, o que só reforçou minha decisão de ser botafoguense desde recém-nascido. Naquele tempo a gente tinha time em toda parte.

Nunca saberei o que me levou a “ser” Tottenham Hotspurs na Inglaterra, Racing (hoje Paris Saint-Germain) na França, Colo Colo no Chile ou Atlético Mineiro em Belo Horizonte, mas eram os meus times, entre muitos outros (eu vibrava com as vitórias do Dínamo na Rússia embora nem soubesse a cor da sua camiseta).

Nenhum, no entanto, era o meu segundo time com a intensidade do Botafogo. Quando fui morar no Rio não perdia jogo de Garrincha, Quarentinha e Cia no Maracanã. E tudo começou com o Ávila.

Mas eu já não morava no Rio quando outro centromédio do Sul foi jogar no Botafogo. Este era um loiro ainda maior do que o Ávila chamado Elton. Vinha do Grêmio, onde tinha se transformado numa espécie de símbolo do futebol duro, feio e efetivo imposto pelo treinador Foguinho, um pioneiro do outrora chamado “futebol força” pouco reconhecido fora do seu Estado.

O Elton foi um dos protótipos do “cabeça de área”, nome depois misericordiosamente mudado para “volante de contenção”. Não se esperasse do alemão Elton nenhuma jogada de brilho. Não se poderia nem descrevê-lo como um Dunga antes do tempo, porque não tinha o passe longo do Dunga. Seu talento era de desarmador. O que não impedia que, vez que outra, aparecesse sorrateiramente na frente e até marcasse seus gols.

Não me lembro como o Elton se deu no Botafogo. Era, de certa forma, a antítese de tudo que os cariocas gostam no futebol. Quando saiu do Botafogo, fez o inverso dos meus ídolos do passado – foi jogar no Inter.

Onde também acabou sendo um símbolo, no caso de uma transformação no modo de jogar do time, que na época era constantemente derrotado pelo futebol mais forte e objetivo do Grêmio moldado pelo Foguinho. Foi o precursor do Inter que, anos mais tarde, jogando sério como ele, foi oito vezes seguidas campeão do Estado e três vezes campeão brasileiro.

O Elton também morreu, há dias. Não deve ter lhe passado pela cabeça que foi um nome histórico. Mas, pelo menos na minha história sentimental, ele foi um herói.

domingo, 2 de janeiro de 2011



02 de janeiro de 2011 | N° 16568
MARTHA MEDEIROS


Deixe-se em paz

Que mania a gente tem de fazer listinha de resoluções, como se uma simples virada de ano bastasse para nos transformar em uma pessoa mais completa

Geralmente é o que se deseja intimamente: paz para o mundo, paz para todos, paz para os torcedores, paz para os moribundos, paz para os iraquianos. É um desejo legítimo, mas qual a nossa contribuição prática para ajudar a construir uma serenidade universal? O máximo que podemos fazer é garantir nossa própria paz. Portanto, esses são os meus votos: deixe-se em paz.

Parece uma frase grosseira, mas é apenas um desejo sincero e generoso. Deixe-se em paz. Não se cobre por não ter realizado tudo o que pretendia, não se culpe por ter falhado em alguns momentos, não se torture por ter sido contraditório, não se puna por não ter sido perfeito. Você fez o melhor que podia.

Aproveite para estabelecer metas mais prosaicas para o futuro que virá, ou até meta nenhuma. Que mania a gente tem de fazer listinha de resoluções, prometer mundos e fundos como se uma simples virada de ano bastasse para nos transformar numa pessoa mais completa e competente.

Você será o que sempre foi – e isso já é muito bom, pois presumo que você não seja nenhum contraventor, apenas não consegue dar conta de todos os seus bons propósitos, quem consegue? Às vezes não dá. Vá no seu ritmo, siga sendo quem é, não espere entrar numa cabine e sair de lá vestido de super-homem ou de supermulher. Deixe de fantasias. Deixe-se em paz.

Se quer tomar alguma resolução, resolva ajudar os outros, fazer o bem, dedicar-se à coletividade, seja mais solidário. Não deixe os menos favorecidos na paz do abandono, na paz do esquecimento. Mas esquecer um pouco de você mesmo, pode. Deve. Não se enquadre em comportamentos que não lhe caracterizam, não se enjaule por causa de decisões das quais já se arrependeu, não se arrebente por causa de questionamentos incessantes.

Liberte-se desses pensamentos todos, dessa busca sofrida por adequação e ao mesmo tempo por liberdade. Nossa, ser uma pessoa adequada e livre ao mesmo tempo é uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Será mesmo tão necessário pensar nisso agora? Deixe-se em paz.

Não dê tanta importância à melhor roupa para vestir, à melhor frase para o primeiro encontro, às calorias que deve queimar, à melhor resposta para quem lhe ofendeu, às perguntas que precisa fazer para se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Deixe-se em paz.

No fundo, estou escrevendo pra mim mesma. Não me deixo em paz. Estou sempre avaliando se agi certo ou errado, cultivo minhas dúvidas com adubo e custo a me perdoar. Tenho passe livre para o céu e também para o inferno. Preciso me deixar em paz, me largar de mão, me alforriar.

Só falta alguém ensinar como é que se faz isso.


02 de janeiro de 2011 | N° 16568
COMPORTAMENTO


Tempo de delicadeza

Há pouco tempo estava em cartaz nos cinemas brasileiros um outro olhar sobre a relação da humanidade com os problemas e com a alegria. O filme era A Suprema Felicidade, do cineasta e jornalista Arnaldo Jabor.

Quando começou a escrever o roteiro, a história da adolescência e das muitas descobertas do personagem Paulo, Jabor tinha em mente lembranças da própria infância, “um tempo de delicadeza, mais esperança e mais certezas”, como descreve.

“Não sei se a felicidade era mais fácil, mas era certamente mais simples”, constata. Dos 8 aos 18 anos, o protagonista, Paulo, apaixona-se, decepciona-se, apaixona-se de novo, conhece a noite carioca, aproxima-se do pai, de quem sempre fora distante.

No fim das contas, percebe que a felicidade pode estar nas menores coisas, nas pessoas, nos lugares e pode mesmo durar alguns minutos, o que não a diminui.


02 de janeiro de 2011 | N° 16568
MOACYR SCLIAR


Palavras-chave

Estamos nos refundando, estamos nos reinventando, estamos na virada

Nos artigos científicos costuma figurar a expressão key words, palavras-chave. São termos que, se não chegam a resumir o que foi abordado, pelo menos dão uma dica a respeito. Nesse sentido, podemos dizer que 2010 teve suas palavras-chave, palavras ou expressões que, mesmo tendo existência anterior, apareceram repetidamente durante o ano, na mídia, em discursos de políticos ou de formas variadas. E quais são essas palavras?

A primeira delas foi objeto de minha coluna do domingo passado. É reinventar. Não é palavra nova. Já dizia um poema da grande Cecilia Meireles (1901-1964): “A vida só é possível/reinventada.”Em 2010, contudo, reinventar voltou ao vocabulário. Dizia uma notícia sobre o Corinthians: “Timão se reinventa em 2010” (mas não ganhou o campeonato no ano de seu centenário; no caso, reinventar não foi suficiente).

Em Belo Horizonte músicos de pagode se reuniram e criaram o grupo Reinventar. Um documentário (TV Cultura) sobre o heterodoxo psicanalista francês Jacques Lacan recebeu o título de Reinventar a psicanálise. Renovar a Teoria Crítica e Reinventar a Emancipação Social é o título de um livro do sociólogo Boaventura de Souza Santos.

Refundar. Dizia uma notícia de dezembro: “Senador eleito por Minas, Aécio Neves conseguiu o apoio do governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para seu projeto de refundar do PSDB”. O que quer dizer isso, refundar? Para alguns dicionaristas de maus bofes a palavra significa tornar mais fundo, afundar, mas certamente não era isso que Aécio pretendia, a menos que seja um político maquiavélico, o que não é o caso. Refundar significa fundar de novo, em outras bases. Um pouco mais que renovar, sem chegar ao nível de revolucionar.

A propósito, FHC, citado na notícia, não é muito fã do termo, pelo menos quando usado pelos adversários. Tempos atrás considerou “um tanto pretensiosa” a declaração do ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, de que o Ministério das Comunicações precisa ser “refundado” no Brasil. “É a mania de refundar tudo. Lula não começou o Brasil de novo?”, ironizou. “Agora todo mundo quer refundar. Isso é conversa, precisa melhorar, precisa aperfeiçoar.”

Virada. Outra palavra que esteve na moda em 2010, e numa variedade de situações, todas elas destinadas a atrair um grande público. Para começar, Virada Cultural foi a expressão que a Casa de Cultura Mário Quintana usou para a maratona de atividades que comemorou 20 anos da instituição, incluindo shows musicais, encenações teatrais, sessões de cinema, oficinas, workshops, atividades infantis. Viradas culturais ocorreram também em São Paulo, em Curitiba e em outras cidades. Em outubro realizou-se, em São Paulo, a Virada Imobiliária, um evento que disponibilizou abundante crédito para a aquisição de imóveis.

Em novembro, São Paulo realizou a Virada Esportiva 2010: 36 horas de atividades esportivas e recreativas em vários lugares da capital paulista. E a loteria de fim-de-ano foi a Mega-Sena da Virada. Muita virada, portanto.

Qual o denominador comum dessas palavras? É a mudança. O Brasil quer mudar, e está mudando. Com algumas exceções (a explosão da droga, a corrupção, os problemas do trânsito) as mudanças tem sido benéficas. Estamos nos refundando, estamos nos reinventado, estamos na virada. E isto, considerando o triste passado do nosso país, é muito bom. Antecipa um grande 2011.

O Dr. José Diogo Cyrillo da Silva lembra que no ministério Dilma há pelo menos um nome que condiciona destino: o do ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. Aliás, condiciona o destino de uma família: vários de seus integrantes dedicaram-se ao serviço diplomático.

Oscar Pinto Jung retifica: a escritora Perpetua Flores, que divulga nossa literatura na Argentina, não é de lá, mas sim de Santo Ângelo. Agenda do ano: é a da L&PM, que homenageia, de forma artística, Martha Medeiros.

Se a poesia muda o mundo, e muda, teremos , “um trajeto luminoso até o fim dos tempos”, nas palavras do poeta Luiz de Miranda. Agradeço as mensagens de Luiz Baú, Aron Teitelbaum, Pena Cabreira, Péricles da Cunha, Gilda Haubert, Carla Mannino, Alberto Oliveira, prof. Waldomiro Minella. E muito obrigado, leitores, pelas centenas de mensagens de fim de ano. Boas entradas para vocês.

Um verdadeiro “tour de force” é a obra “William Shakespeare: as múltiplas faces de um gênio”, editado para o grupo Zaffari por Luiz Coronel, com apoio de uma grande equipe e planejamento da Opus. O belíssimo volume reúne frases famosas do bardo de Avon, entremeadas com textos sobre a obra shakespeariana. Imperdível.

Este ano viu a consagração definitiva de Vida, a canção da RBS para a passagem do ano. Um verdadeiro hino de esperança.


02 de janeiro de 2011 | N° 16568
VERISSIMO


Resoluções

Vou usar fio dental depois de cada refeição e me esforçar para promover a paz mundial, não necessariamente ao mesmo tempo. Vou organizar meus livros e LPs em ordem alfabética, jogar fora minha coleção de minhocas e parar de ligar o chuveiro para a mãe pensar que eu estou tomando banho enquanto fico sentado na tampa da privada lendo gibi. Vou...

Espera um pouquinho. Esta é uma lista de resoluções de ano novo antiga. Onde está a lista deste ano?

Vou tomar coragem e pedir a D. em namoro. Vou contar pra ela o que eu faço todas as noites antes de dormir só pensando na pintinha que ela tem em cima do lábio, mas com todo o respeito. Vou desenterrar as minhas revistas de nudismo suecas e tocar fogo para não ficar tentado a trair a D. com nenhuma outra mulher, nem na imaginação. Vou tentar melhorar em matemática, comer mais verdura e...

Também não é esta!

Está decidido, este será o ano da minha independência. Vou sair de casa, cortar todos os laços que me prendem à família e viver pelos meus próprios meios, desde que o velho concorde em dar uma ajuda. Plano para o ano novo: me aperfeiçoar no “twist”. Ler mais. Deixar o gibi.

Também não.

Devo me tornar uma pessoa mais interessante. Talvez deixar crescer o cabelo e usar jeans apertados. Sair de casa, desta vez para valer. Dedicar-me a assuntos sérios, como geopolítica ou percepção extrassensorial. Escolher um. Adotar uma atitude mais serena e filosófica diante dos infortúnios e de comentários jocosos, afinal futebol não é tudo na vida. Controlar o peso.

Também não é a lista deste ano!

Ler Marx para pelo menos saber do que se trata. Decorar algumas frases, como “É preciso ver isso holisticamente...” para usar em conversas. Tentar encontrar Deus, ou pelo menos uma mulher que preencha os mesmos requisitos. Cuidar o açúcar, o colesterol e as más companhias.

Esta também não.

Finalmente, encontrei! Minha lista de resoluções para o ano de 2011. São 10.

1 – Chegar ao ano 2012.

2 – Tentar, mais uma vez, ler A Montanha Mágica.

3 – Fazer exercício.

4 – Encontrar maneiras originais de justificar a falta de exercício.

5 – Sair da frente da televisão e redescobrir que há vida alem do controle remoto.

6 – Só acreditar na vitória do Internacional no próximo mundial de clubes quando ele estiver vencendo a final por três gols faltando um minuto para terminar o jogo.

7 – Contatar a Soledad Villamil para discutir maneiras de estreitarmos os laços Brasil-Argentina sem dar muito na vista.

8 – Aprender a dançar tango, se não for tarde demais.

9 – Ouvir mais Gustav Mahler e Guinga.

10 – Usar fio dental depois de cada refeição e me esforçar para promover a paz mundial, não necessariamente ao mesmo tempo.

FERREIRA GULLAR

O show que não houve

Teria apenas uma intérprete, alguns poucos músicos e muita conversa sobre Noel Rosa e sua curta vida

Na crônica que publiquei aqui, sobre Noel Rosa, falei de um show sobre ele, que pensei realizar, mas desistira do projeto ao saber que este é o ano do centenário de seu nascimento e que muita coisa já se estava fazendo para homenageá-lo.

A ideia do show me surgira ao ouvir, depois de anos, os sambas de Noel, e achei que muita gente também iria gostar de ouvi-los de novo.

O show imaginado por mim teria apenas uma intérprete, poucos músicos e muita conversa sobre o compositor e sua curta vida. A mistura dessas duas coisas me parecia interessante, mas certamente não era lá uma sacação tão original.

Devo esclarecer que nunca me atrevi a escrever ou realizar qualquer espetáculo musical e não seria agora que me aventuraria a fazê-lo.

Sonhei com ele, imaginei-o: uma cantora com um violão a interpretar os sambas deliciosos de Noel que, se não estou equivocado, deu à nossa música popular muito mais malícia, bom humor e um modo irreverente de cantar o amor e outros assuntos às vezes estranhos ao nosso repertório musical.

Ele só raramente mostrava-se romântico e, quando o fazia, jamais descambava para o sentimentalismo deslavado. "Enquanto você faz pano/ Faço junto do piano/ Estes versos pra você." Era isso que deveria mostrar o show que não houve.

Porque pensei numa cantora apenas, com um violão e uns poucos músicos? Porque não vejo suas músicas num grande musical, executado por grandes orquestras. Vejo-o, como de fato foi, cantando em rodas de boêmios com seu violão.

Certamente, pode-se levar suas composições à execução de grandes orquestras, mas esse não seria o Noel com que me identifico e comovo. Por isso, o meu show começaria com a cantora interpretando, com muita graça, seu primeiro sucesso: "Eu hoje estou pulando que nem sapo/ Pra ver se escapo/ Desta praga de urubu/ Já estou coberto de farrapo/ Eu vou acabar ficando nu".

Se fosse noutra época, a cantora poderia ser Nara Leão; hoje, escolheria Marisa Monte ou Adriana Calcanhotto. Já imaginou o encanto novo que qualquer delas emprestaria aos sambas de Noel?

"Quem dá mais?/ Por uma mulata que é diplomada/ Em matéria de samba e de batucada/ Com as qualidades de moça formosa/ Fiteira, vaidosa e muito mentirosa", "Quem dá mais/ Por um violão que toca em falsete/ Que só não tem braço, fundo e cavalete/ Pertenceu a Dom Pedro, morou em palácio/ Foi posto no prego por José Bonifácio."

E entre uma música e outra, diria de sua irresistível vocação para a boemia, das noitadas no Café Nice, dos papos com Lamartine Babo, Ismael Silva, Orestes Barbosa, sem falar nos instrumentistas e nos cantores, como Custódio Mesquita e Aracy de Almeida, sua intérprete preferida.

"Eu sou diretora da Escola do Estácio de Sá/ E felicidade maior neste mundo não há/ Já fui convidada para ser estrela de nosso cinema/ Ser estrela é bem fácil/ Sair do Estácio é que é o "x" do problema".

Haveria muita coisa interessante a contar da vida de Noel, que fez sambas com 56 parceiros, sem contar os sambas de outros, a que acrescentou um verso aqui, um acorde ali, sem querer tirar patente.

É que compor, cantar e farrear era o seu prazer maior, sem o que a vida não fazia sentido.

Nascera para aquilo, tanto que, enquanto os outros sambistas buscavam os meios profissionais, o estúdio das rádios, os restaurantes frequentados por gente do ramo, Noel se enturmava mesmo era com os malandros dos botecos de subúrbios e das favelas.

Teria que falar também de seus namoros e amores, que não foram poucos e nem sempre deram certo: "Se alguma pessoa amiga/ Pedir que você lhe diga/ Se você me quer ou não/ Diga que você me adora/ Que você lamenta e chora/ A nossa separação/ E às pessoas que eu detesto/ Diga sempre que não presto/ Que meu lar é o botequim/ E que eu arruinei sua vida/ Que não mereço a comida/ Que você pagou pra mim".

Lindaura, com quem o obrigaram a casar-se, sofreu o diabo em suas mãos, mas foi no colo dela que descansou a cabeça, pouco antes de deixar para sempre sua Vila Isabel e as noitadas de farra.

Mas um show não pode terminar, assim, para baixo, pensei. Foi quando me voltei e vi, na última fila da plateia, um sujeito magro, de queixo torto, que se levantou e saiu, antes que a luz acendesse.

DANUZA LEÃO

Episódio natalino

Para que um conto do vigário se concretize, é preciso que a vítima queira se aproveitar do outro

APRENDI ISSO AGORA: se alguém, na rua, se dirigir a você para pedir uma informação sobre seja lá o que for, não pare. Não pare, não olhe, aperte o passo e vá em frente. Pode ser o chamado "conto do vigário", aquele que aparecia nos jornais há séculos e que continua acontecendo. Aconteceu comigo dois dias antes do Natal.

Eram 11h30 da manhã, eu passava por uma rua movimentada de Ipanema, quando um senhor, modestamente vestido, me parou para perguntar se eu sabia onde era determinada loja.

Eu disse que não sabia, ele começou a contar sua história: era comerciante em Maricá, tinha vindo de ônibus, tomado um táxi na rodoviária e não encontrava a rua da tal loja. Perguntei se não tinha um endereço escrito, ele tirou um papelzinho do bolso da camisa e me mostrou; nunca tinha ouvido falar daquela rua.

E veio a história; recebeu telefonema de uma pessoa de quem comprava mercadorias para seu comércio há três anos, dizendo que viesse ao Rio para receber uns brindes de Natal, uma panela de pressão e uma bicicleta; ele não conhecia a cidade, estava perdido.

Sugeri que se informasse com um motorista de táxi, e nessa hora apareceu o "colega" e entrou na conversa. Perguntou se podia ajudar, o senhor tirou de novo o papel do bolso da camisa, e junto veio uma nota de 100 e outra de 20. O colega logo aconselhou que tivesse cuidado com seu dinheiro, pois poderia ser roubado.

Não pensei, mas em algum lugar da minha cabeça devo ter achado "ainda existem pessoas de bem". O velhinho contou toda a história de novo e acrescentou: além dos brindes, ia receber R$ 30 mil.

Mas como? Ele mostrou outro papel, um talão da Mega Sena, e a conversa foi indo. Contou que, como não sabia ler nem escrever, não podia ter conta em banco, por isso pediu que a pessoa depositasse na conta de sua mãe, mas que não foi possível, pois a partir dos 60 o limite para depósito é R$ 10 mil.

O colega disse que não era verdade, era um absurdo, e pediu minha confirmação; eu confirmei, disse que isso não existia, e ele imediatamente perguntou se eu tinha conta em banco. Ingenuamente eu disse que sim; o parceiro continuou a conversa, contou que sua mãe havia acabado de vender seu apartamento por R$ 2 milhões e tinha depositado no banco X, e me perguntou "é lá que você tem conta?"

Respondi mais uma vez que sim -como sou boba.

A conversa não acabava; um falava, o outro falava, e o tal colega sugeriu irmos a seu escritório que era logo ali, e quem sabe eu poderia ajudar? Passaríamos no meu banco, que era perto, eu tiraria R$ 10 mil ou R$ 15 mil e entregaria ao velhinho, que me daria o papelzinho da Mega Sena premiada com R$ 30 mil.

Você acredita que até aquela hora minha ficha ainda não havia caído? O que me salvou foi que, para que um conto do vigário se concretize, é preciso que a "vitima"-no caso, eu- queira se aproveitar do outro, comprando um papel que vale R$ 30 mil por R$ 10 mil.

Como a conversa estava ficando um pouco longa demais, disse que tinha hora marcada e fui saindo. O cúmplice veio atrás de mim, dizendo que era questão de minutos, que eu estaria ganhando R$ 20 mil com a transação, e foi só aí que entendi tudo. Apertei o passo e entrei na primeira loja que encontrei.

Era de manhã, em plena Ipanema, zona sul do Rio.

PS - estou saindo de férias, minha coluna volta em 6 de fevereiro, feliz 2011.

danuza.leao@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Dilma entra em campo

RIO DE JANEIRO - Dilma pode tudo, menos reclamar de uma herança maldita -como em geral fazem os governantes que substituem outros. Embora os oito anos de Lula não tenham sido a maravilha curativa que alguns apregoam -e o próprio Lula é o primeiro e o mais entusiasta em proclamar a idade de ouro que deu ao Brasil- o fato é que Dilma faz parte das bem-aventuranças que rolaram na mídia e em especial na TV.

Ela terá duas opções a escolher: continuar o governo anterior, do qual fez parte importante, ou criar uma estrada própria -e até certo ponto inesperada- para se marcar na história política e administrativa do país. O resto é especulação.

Se eu estivesse no lugar dela, a primeira que coisa que faria era nomear Lula para embaixador no Vaticano. Tanto no lado bom como no ruim, a proximidade do ex-presidente criará permanente constrangimento para ela e sua equipe.

Não que se duvide de sua capacidade para gerir ao mesmo tempo a política e a administração pública. Pelo que se conhece da personalidade e do estilo de Lula, por mais que ele se contenha, sempre haverá pontos de possíveis atritos.

Poucas vezes na história republicana um presidente criou um sucessor não à sua imagem e semelhança -difícil encontrar outro Lula na paisagem-, mas de acordo com seus objetivos próximos e remotos. Até que ponto Dilma dará conta do recado é questão em aberto.

Evidente que ela não governará para Lula nem pelo Lula, mas seu cacife pessoal não está nos quase 60 milhões de votos que recebeu nas urnas, atribuídos pacificamente ao próprio Lula.

No futebol, há jogadores que, quando entram em campo no lugar de outro, eletrizam a partida e a definem. No caso de Dilma, ela terá de jogar mais e melhor do que Lula.

Editorial da Folha

Sem elefantes brancos

Brasil ainda tem condições de dar exemplo de inteligência e criatividade no planejamento das obras para a Copa-2014 e para a Olimpíada Rio-2016

Em visita ao Rio de Janeiro, o presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), Jacques Rogge, lançou na semana passada um inesperado e elogiável apelo para que a sede da Olimpíada de 2016 não repita os erros de Atenas-04 e Pequim-08, procurando evitar os chamados "elefantes brancos".

"Nós precisamos de muita responsabilidade e levar em conta muitos aspectos. Toda vez que planejamos uma instalação, temos que nos preocupar para que ela não seja muito grande", disse o dirigente, que lembrou a necessidade de pensar no que acontecerá com as instalações depois da realização dos Jogos.

Na capital chinesa, por exemplo, o famoso estádio Ninho de Pássaro custou US$ 450 milhões (cerca de R$ 770 milhões) para ser palco da abertura e do encerramento do evento -e hoje raramente encontra algum uso.
O alerta, que vem a calhar, vale também para a Copa do Mundo de 2014. Os dois eventos consumirão vultosos recursos públicos. Conhecendo-se os padrões de fiscalização e lisura na realização de grandes obras no país, não são desprezíveis os riscos inerentes a esses empreendimentos, como erros de planejamento, fraudes, atrasos e desperdícios.

Sede da próxima Olimpíada, em 2012, a cidade de Londres promete dar, nesse sentido, um bom exemplo. Seu parque olímpico foi planejado para utilizar estruturas desmontáveis, permitindo a reciclagem do material em outras construções. O principal estádio poderá abrigar 80 mil pessoas durante a competição -mas depois será reduzido a 25 mil lugares para se adequar à vida da cidade.

Em seu discurso no Rio, o presidente do COI mencionou a proposta londrina como um alternativa para baratear os custos.

Não se deve esquecer o péssimo legado dos Jogos Pan-Americanos de 2007. Se aquela competição permitiu um ensaio para a conquista do direito do Brasil de patrocinar a Olimpíada, muito do que foi feito é para não se repetir. Custos estouraram, estruturas tornaram-se ociosas e o legado para a cidade do Rio, em termos de melhorias urbanas, foi nulo.

No caso da Copa de 2014, as chances de evitar problemas dessa ordem parecem cada vez menores. A perspectiva de construção de "elefantes brancos" já começa a se transformar em realidade.

Cidades com pouca capacidade de atração de plateias esportivas candidatam-se a erguer estádios que jamais terão sua capacidade preenchida após as poucas partidas internacionais que irão receber. Mesmo em São Paulo, a maior cidade do país, são consideráveis as chances de uso de recursos públicos para construir uma arena com dimensão acima do razoável.

O Brasil, que sem dúvida faz jus a receber eventos dessa magnitude, ainda tem tempo e condições de evitar o pior, oferecendo ao mundo um exemplo de inteligência e criatividade -e não apenas uma coleção de obras faraônicas.

sábado, 1 de janeiro de 2011


Editorial Folha

Diferenças tucanas

Seleção de nomes para o secretariado do governador Geraldo Alckmin desagrada a ala serrista e evidencia os conflitos internos do PSDB

Havia, em setores do PSDB, a expectativa de que o secretariado de Geraldo Alckmin pudesse reunir um time de nomes notáveis, capaz de fazer sombra ao ministério de Dilma Rousseff, marcado, como se viu, pela mediania e falta de brilho individual, com as acomodações políticas de praxe.

Havia, também, por parte dos tucanos ligados a José Serra, a expectativa de que Alckmin pudesse acolher sugestões do candidato derrotado à Presidência da República -expectativa que foi reforçada pelo engajamento para muitos surpreendente do governador na campanha do colega. Serra, quando pôde, nunca fez gestos semelhantes de desprendimento em benefício de Alckmin.

Passada a eleição e delineada a montagem do primeiro escalão do governo paulista, Alckmin toma posse hoje frustrando as expectativas iniciais do tucanato.

Tome-se, mais pelo efeito simbólico do que pela relevância da pasta, a nomeação tardia do deputado federal Márcio França, do PSB, para a recém-criada secretaria do Turismo. Indicado pelo partido e rejeitado para o ministério por Dilma, o líder local dos socialistas se arranjou, dias depois, com os tucanos de São Paulo.

No conjunto, além das nomeações destinadas a atender o apetite fisiológico das forças que apoiam o governo, o secretariado de Alckmin tem um pouco do perfil acanhado que adversários criticavam no seu primeiro governo.

Nele, o nome que mais se destaca é o de Saulo de Castro Abreu, o polêmico secretário da segurança Pública do mesmo Alckmin entre 2002-06, agora deslocado para a pasta de Transportes e Logística. Deve-se à gestão de Saulo -justiça seja feita- parte substancial da redução dos índices de criminalidade verificada ao longo da última década no Estado.

Entre 26 secretários, Alckmin manteve 7 nomes da gestão Serra. A permanência de Antonio Ferreira Pinto à frente da Segurança Pública responde à expectativa de que o importante trabalho de combate à corrupção policial tenha continuidade e respaldo.

Sinal de que Alckmin vai reassumindo uma posição mais autônoma em relação à ala serrista, o governador Alberto Goldman não foi contemplado com a pasta do Saneamento, pela qual manifestara interesse. O cargo ficou nas mãos de um quadro de menor expressão do PV.

No mesmo sentido foi a rejeição do pleito de Fernando Henrique Cardoso para que Paulo Renato Souza seguisse à frente da pasta da Educação. Alckmin nomeou para o cargo o reitor da Unesp, Herman Voorwald, ligado ao ex-secretário Gabriel Chalita, adversário político de Serra e hoje deputado federal eleito pelo PSB.

Embora nem Serra nem Alckmin estejam dispostos a facilitar a ascensão de Aécio Neves como líder nacional dos tucanos, está claro que a disputa de poder reavivou entre ambos um velho mal-estar.

A derrota de Serra oferece boas perspectivas para o novo governador recuperar terreno e projeção. Os sinais são de que os conflitos internos do PSDB devem recrudescer -com eventuais prejuízos às pretensões futuras do partido.

RUY CASTRO

Sururu no réveillon

RIO DE JANEIRO - 1º. de janeiro de 1981. Esmagado pela paisagem, o Réveillon segue morno no morro da Urca, e um amigo (vamos chamá-lo de João Luiz, embora este seja o seu nome verdadeiro), fantasiado de papa João Paulo 2º., resolve animar o baile. Quando passamos por um grupo de rapazes e moças argentinos, ele diz, num volume que lhe permite ser escutado: "Todo argentino é f. da p.".

Os argentinos se ofendem e vêm tomar satisfações. João Luiz diz que não foi bem isso, eles entenderam errado. Os rapazes o perdoam, talvez por ele ser o papa, e saímos de perto. Então, à distância, como que casualmente, João Luiz repete: "Todo argentino é f. da p.".

Eles o interpelam de novo. João Luiz se justifica e, incrível, os gringos deixam passar. Mas, incontinente, João Luiz diz a frase pela terceira vez.

Aí não tem jeito. O pau quebra junto ao Pão de Açúcar. Os argentinos vêm para cima de João Luiz e ele acerta um ou dois na cabeça com o cetro do papa (um cabo de vassoura enrolado com uma fita). Não briguei, preferi ficar de longe, narrando a contenda com os bordões do Waldir Amaral.

A turma do deixa-disso (perdão, leitores) entra na história e acalma o sururu. Ninguém se machucou, e João Luiz apenas perdeu o chapéu do papa (comprado na Casa Turuna), que rolou morro abaixo. Todo mundo se abraça, os argentinos se reúnem a nós e acho até que brotou um romance entre um rapaz e uma moça das duas bandeiras.

Horas depois, sol já quente, descemos todos juntos no bondinho, cantando o tango "Cambalache", do Discépolo ("Que el mundo fue y será/ Una porqueria, ya lo sé..."), e com João Luiz recitando a escalação de uma antiga seleção argentina -Vacca, Salomón e Sobrero; Sosa, Strembel e Battagliero; De La Mata, Méndez, Pedernera, Labruna e Lostau- que dava uma ou duas surras por ano no Brasil, e da qual ele agora se sentia vingado.