
09
de abril de 2013 | 2h 18
Arnaldo
Jabor
Os sapatos de meu tio
O
telefone não dava linha. Era sempre assim: as linhas para o centro da cidade
nunca completavam a chamada. Depois de meia hora conseguiu falar com a secretária
do seu chefe no Banco do Brasil que lhe disse de uma reunião de urgência, o que
lhe deu um pavor especial, como se fosse para um tribunal.
Os
'lotações' passavam lotados, zuniam sem parar até que um deles fez meia trava e
falou: "Só agachadinho". No terno marrom da Ducal ele foi sentado no
chão e se consolou pensando nos jogadores que posavam nessa postura, Ademir
agachado, Danilo agachado, ele no micro-ônibus com as pernas de uma senhora de
meias ortopédicas junto a seu rosto.
Recebeu
o troco do ramalhete de notas que o motorista tinha entre os dedos e desceu na
Avenida Rio Branco, em 1951, quando tudo era precário, com ônibus amontoados no
trânsito sem rumo, milhares de transeuntes em sua pressa pobre, o que lhe
aumentava o medo e a solidão porque (pensava sempre) dali a 50 anos todos
estariam mortos.
E
seu peito esfriou mais ainda quando atravessou a repartição, entre as máquinas
de escrever batucando, como se o acusassem de fracassado, ele que marcava passo
enquanto incompetentes subiam na vida.
Por
que por que a ponta de sarcasmo no tom do contínuo que o chamou de 'meu chapa'?
Por que a ironia (ele achou) no sorriso gélido da secretária?
O
novo chefe à sua frente exibia uma desdenhosa superioridade, de modo a camuflar
o fato de ser um indicado político boçal. Ele falava lentamente, como cabe a um
diretor dirigir-se a um subordinado em cadeira mais baixa e seus olhos luziam
cruéis quando lhe comunicou que seu relatório estava muito fraco, entregando-lhe
o maço de papéis com desprezo. Trêmulo, ele perguntou por que o relatório era
ruim e o chefe respondeu com um sorriso de expert para ocultar sua ignorância:
"Descobre você mesmo" e indicou-lhe a porta.
Seu
amigo mais próximo era o porteiro que o 'gozou' quando ele saiu do prédio:
"Seu Flamengo, hein? Vender o Zizinho pro Bangu?" Dos bondes pendiam
cachos de passageiros nos estribos como trens da Índia.
Agarrou-se
em um deles, grudado entre um negão fuzileiro naval de paletó vermelho,
irritado com o recém-chegado e o condutor que se pendurava no cacho humano para
pegar as notinhas de cruzeiro e ele, protegendo o maço do relatório que o vento
ameaçava desfolhar, se perguntava com amargor por que o relatório era ruim, mas
falou está falado, o chefe manda, e pensava também no catupiry que esquecera de
comprar, já imaginando a cara de sua mulher dando um muxoxo que significava sua
desvalia.
Não
que fossem infelizes no casamento longo; sem ódio ou desamor, havia entre eles
uma estranheza, um temor quando se amavam raramente no escuro da cama, quase um
incesto entre dois irmãos íntimos, o que lhes esfriava o corpo, pois não sabiam
como transformar o tédio incestuoso num delicioso pecado, numa perversão
excitante.
Não
que estivessem velhos e feios; eles eram exatamente o que a vida lhes previa
havia anos - ela, com sua gostosura suburbana, perdera a bela maciez juvenil
que clamava por fecundações que nunca vieram, sem falar no aborto espontâneo
que lhe extinguiu o desejo maternal.
O
que antes era vigor do fundo de suas glândulas virara um peso de órgãos
infelizes, ovários inchados, flores brancas, escassez de menstruo, varizes que
lhe azulavam as pernas muito brancas e indesejados pelinhos negros que se
espalhavam pelas coxas como uma hera, o que o abatia quando despia o terno da
Ducal e se deitava sobre seu corpo.
Ambos
eram fiéis e quase não brigavam em silenciosa paciência, numa familiaridade
insossa e, de noite, nas salas e quartos, pareciam personagens de uma casa que
era na realidade habitada pelos móveis. Entre poltronas de veludo, quadros de
pretos velhos e pombas, entre cortinas e abajures eles viviam combinando seus
gestos com a mudez desbotada dos ambientes.
E o
que mais lhe doía ali no estribo do bonde era saber que não seria despedido
jamais, apenas eternamente humilhado, pois tinha estabilidade no emprego público;
se bem que, no fundo do seu corpo havia o desejo de sê-lo - por quê? Sentia vontade
de ser expulso não só do banco, mas de tudo, ejetado, projetado como uma bala
para bem longe, para um remoto lugar onde não houvesse nada a não ser uma
imensa planície verde como um infinito campo de golfe - por quê?
Pulou
do bonde andando e chegou em casa. No elevador, já sentia a habitual mão dura e
fria no peito. Quando entrou no apartamento evitou passar em frente do espelho,
com um vago receio de não ser refletido. A casa estava vazia - somente ele e os
móveis: o sofá de folhagens estampadas, a poltrona de veludo que parecia se
mover em sua direção, a jarra de flores de plástico prestes a cair da
cristaleira e o rádio tocando baixinho um bolero. Desligou tudo e ouviu o
silencio com um agudo ruído ao fundo, como uma nota de violino sem fim.
A mão
fria apertava mais seu peito e empurrou-o até a cozinha. A empregada pretinha
chamava-se Hermínia (por que o nome grego?)
Mandou-a
comprar bananas. Ela saiu. Ele bebeu um copo d'água com goles sôfregos. Em
seguida foi até a área de serviço, tirou os sapatos, arrumou-os juntinhos com o
pé direito um pouco à frente, como sempre fazia para dar sorte. Em seguida,
jogou-se da janela como um banhista que mergulhasse de um trampolim.
As
estatísticas registram o hábito estranho de que quase todos os suicidas tiram
os sapatos antes de pular. Por quê? Talvez uma esperança de leveza, uma hipótese
de voo, o quê? Um desejo de elegância para evitar sapatos desconjuntados?
Em
três segundos, enquanto caía, muitas emoções viveu na velocidade da luz: um alívio
pela coragem, um pavor arrependido, a ressurreição (sim, muitos se matam para
renascer), a esperança de que o chão não chegue nunca, a curiosidade de
conhecer a morte no instante do impacto e a pergunta 'por quê?' Caído na calçada,
pode ter visto um campo verde.
Quando
a empregada chegou com as bananas só viu a cozinha vazia e os sapatos pretos de
amarrar, arrumadinhos no canto da área. Pegou os sapatos para levar ao quarto
quando começou a gritaria dos condôminos lá embaixo.
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