quarta-feira, 5 de outubro de 2022


05 DE OUTUBRO DE 2022
MÁRIO CORSO

Percalços da covid longa

As epidemias chegam, roubam vidas, e depois da tristeza voltamos ao normal. Infelizmente, algumas epidemias são mais cruéis. A epidemia de covid lembra a da pólio, ela também causou uma legião de sequelados. Na pólio, as cicatrizes são visíveis, na covid, nem sempre.

Existem experiências que só entende plenamente quem as viveu. A depressão é o melhor exemplo: quem não passou, dificilmente capta a força da negatividade com que ela opera. É vista como uma falta de vontade, como se caso a pessoa realmente quisesse resistir, conseguiria.

Os sobreviventes da covid, nos quais me incluo, passam por algo semelhante. Um dos sintomas mais comuns é a fadiga crônica, um cansaço sem razão. A intensidade da fadiga pode variar, de sutil para alguns, a um cotidiano infernal para outros. Como por fora parecemos bem, ninguém cogita o descompasso entre o ânimo - não estamos deprimidos - e o corpo que não nos acompanha.

Por não haver divulgação suficiente, parte dos afetados sequer identifica o que está lhes acontecendo. Penso naqueles que desempenham trabalhos físicos, que, sem saber por que tornaram-se mais lentos e fracos, são acusados de preguiçosos ou estão sendo despedidos.

Na fadiga crônica, todos os dias parecem ser sexta-feira - com a desvantagem de que no outro dia não será sábado. Às vezes, acordamos como se não tivéssemos dormido. Um peso extra sobre o corpo nos acompanha sempre.

Este sintoma vai desaparecer? Esperamos que sim, mas não há garantia. A medicina avançou muito na compreensão do que é a síndrome da covid longa, mas ainda não há um tratamento. Até porque a fadiga é apenas um corredor do labirinto de sintomas.

Tenho a sorte de ter acompanhamento médico para entender e enfrentar este problema. Minha questão é quanto aos meus companheiros de infortúnio. Existem muitos que ainda não têm claro o que lhes passa. Como na depressão, além de sofrerem pela doença, ainda se culpam por supostamente não estarem dando o melhor de si.

Sugiro que as pessoas e os familiares de quem passou pela covid se informem mais sobre o sintoma da fadiga. Assim como os distúrbios do sono, de atenção, de confusão mental e de memória que não raro estão associados. Espero da saúde pública atitudes condizentes com esse exército de sequelados que nos tornamos. A solidão dos incompreendidos também é cansativa.

MÁRIO CORSO

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