sábado, 10 de janeiro de 2015


11 de janeiro de 2015 | N° 18039
L. F. VERISSIMO

Gênio, gênio!

Pais preocupados com a possibilidade de seus filhos não serem gênios têm um consolo: o apelido do Albert Einstein quando criança era “der Depperte”, que em alemão quer dizer, mais ou menos, “o bobão”. Não desespere do garoto nem proíba videogames até que ele pegue um livro, portanto.

Ele ainda pode, um dia, revolucionar a Física. O próprio Einstein descreveu o momento em que revelou-se sua vocação para a especulação científica e, pode-se dizer, ele deixou de ser bobo. Foi quando ganhou uma bússola do seu pai e descobriu o magnetismo, e com ele a ideia fascinante de uma força invisível por trás de tudo. Quando cresceu, mais do que qualquer cientista na História do mundo, Einstein examinou e definiu, por dedução ou por intuição, essa força invisível.

O mais admirável nas conclusões de Einstein é o que ele intuiu. Muitas das suas teorias só foram provadas há relativamente pouco tempo, anos depois que ele as botou no papel. Uma vez, imaginei um encontro de Einstein com Deus (parênteses: se Einstein entraria no céu, mesmo depois da sua participação na construção das primeiras bombas atômicas, é discutível, mas, para efeito da minha parábola, ele entra). Assim que Einstein chega ao céu, Deus manda chamá-lo. Einstein vai ao escritório de Deus, indagando-se “o que será que o Velho quer comigo...?”. E, quando chega, a primeira coisa que Deus faz é pedir seu autógrafo!

Einstein fica embaraçado diante dos elogios de Deus. “Gênio, gênio!”, repete Deus.

– O que é isso, Senhor?

– As coisas que você descobriu sobre o Universo. Algumas eu nem tinha me dado conta!

– O que o senhor fez foi muito mais importante, Deus. E difícil de decifrar. Olhe, seu universo me deu trabalho, viu? Eu é que tenho de cumprimentá-Lo.

O entusiasmo de Deus parece diminuir.

– Você não está entendendo, Albert – diz Deus. – Não há comparação entre o meu trabalho e o seu. O que Eu fiz, fiz porque sou Deus. Posso fazer tudo. Você não tinha essa vantagem!

Einstein nota um certo ressentimento na voz de Deus. Decide ir embora antes que Deus, com ciúme, o fulmine com um raio. Quando sai do escritório, olha para trás e vê Deus se dirigindo para o armário de bebidas.

Quando visitou os Estados Unidos pela primeira vez, Einstein, na companhia da sua segunda mulher, Elsa, esteve em Hollywood e pediu para conhecer Charlie Chaplin. Este convidou o casal para acompanhá-lo na estreia do filme Luzes da Cidade. Ao descerem, os três, da limusine em frente ao cinema, o público aplaudiu-os, e Chaplin comentou para Einstein: “Eles me aplaudem porque entendem o que eu faço, e você porque ninguém entende o que você faz”.

Se a história é verdadeira, Chaplin acertou: Einstein ficou famoso pelo que fez, apesar de poucas pessoas no mundo terem a capacidade de entender o que era. Foi o maior exemplo de alguém que se torna uma celebridade sem que se saiba por quê. Só se sabia que ele era um gênio.


Einstein foi um namorador notório, mas só recentemente, num livro sobre a sua vida, ficou-se sabendo que ele esteve sob investigação do FBI por estar supostamente dormindo com uma espiã russa chamada Margarita Konenkova. Se houve ou se não houve alguma coisa entre eles dois, só o FBI ficou sabendo. Deve haver gravações de momentos íntimos de Einstein com a russa, mas que não adiantaram muito. Se ele revelou algum segredo atômico para a espiã na cama, os agentes do FBI também não entenderam nada.

13 bizarrices de Dilma na economia das quais jamais esqueceremos

Apesar de todos os avisos dados por analistas independentes, a presidente fez do Brasil um laboratório de bruxarias heterodoxas e deixa o governo com resultados pífios

JOSÉ FUCS
19/12/2014 21h06 - Atualizado em 19/12/2014 23h46
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Bar Sonho Meu #4 - Dilma e o abacaxi (Foto: ÉPOCA)
Em seu primeiro mandato, a presidente Dilma Rousseff transformou o Brasil numa espécie de laboratório para todos os tipos de bruxarias heterodoxas na área econômica. Como os analistas independentes cansaram de avisar, os experimentos de Dilma acabaram provocando o desordenamento do processo produtivo, a alta da inflação e a paradeira da economia.  Levaram, também, à perda de credibilidade do governo e à desconfiança dos empresários.  A seguir, você poderá conferir algumas das principais bizarrices cometidas por Dilma na economia, que, felizmente, parece que serão deixadas para trás em seu segundo mandato.  Ainda assim, elas serão lembradas para sempre com ironia por todos aqueles que previram seus resultados catastróficos.
1.”O ministro da Fazenda sou eu”
Inspirada em Luís XV, autor da célebre frase L’etat c’est moi (O Estado sou eu), Dilma foi, desde o primeiro dia de seu governo, o ministro da Fazenda de fato – e não Guido Mantega, o titular da Pasta. Em certa medida, foi ela também quem comandou  o Banco Central, pressionando o presidente da instituição, Alexandre Tombini, a retardar o aumento de juros que se fazia necessário para combater a escalada inflacionária que se insinuava quando ela ainda estava na metade de sua gestão. Depois, para não prejudicar seu desempenho nas urnas, Dilma usou o mesmo expediente durante a campanha eleitoral. É Dilma, portanto – e não Mantega e Tombini – a grande responsável pelo fracasso retumbante de seu governo na economia. Mantega e Tombini podem até ser acusados de omissão ou de conivência, mas é ao Palácio do Planalto que a fatura pela estagflação, aquela combinação incômoda de estagnação econômica e inflação, deve ser enviada.

2. Um pibinho incomada muita gente...
Apesar da dificuldade de Dilma e o PT reconhecerem publicamente seu fracasso na gestão da economia, o governo chega ao final de forma melancólica. Com um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) estimado em apenas 0,2% em 2014 e numa média de 1,5% ao ano durante sua gestão, Dilma só ficou à frente dos governos Collor e de Floriano Peixoto neste quesito. O crescimento do PIB no governo Dilma foi tão baixo que o marqueteiro João Santana teve de fazer malabarismos para criar um discurso alternativo que a favorecesse e permitisse a ela enfrentar a realidade dos números e as críticas da oposição durante a campanha eleitoral. Em vez de divulgar a taxa de crescimento econômico de seu governo, Santana decidiu divulgar o crescimento médio anual nos 12 anos de governo do PT e compará-lo à media dos dois mandatos de Fernando Henrique. Obviamente, sem levar em conta o contexto histórico dos dois períodos.

3. Um pouco de inflação não faz mal a ninguém
Dilma jamais admitirá, nem o presidente do BC, Alexandre Tombini. Mas qualquer analista de mercado independente sabe que, na gestão de Dilma, a política monetária sofreu influências políticas inimagináveis no governo Lula, quando o ex-banqueiro Henrique Meirelles comandava a instituição, contribuindo de forma decisiva para garantir a credibilidade do país junto aos investidores locais e estrangeiros. Mais de uma vez, Dilma defendeu a ideia pregada pelos nacional-desenvolvimentistas, com quem se identifica ideologicamente, de que um pouquinho de inflação não faz mal a ninguém. Contra todas as evidências de que o BC precisava endurecer a política monetária, diante da frouxidão fiscal, para conter as pressões inflacionárias, Tombini dizia que a trajetória da inflação era de queda – o que, como se comprovou depois, com a inflação roçando o teto da meta, de 6,5% ao ano, era uma previsão prá lá de furada.

4. A irresponsabilidade fiscal com aval do Congresso
Depois de passar boa parte da campanha eleitoral jurando de pés juntos que as contas  estavam em ordem e que o governo faria a economia prometida para pagar os juros de sua dívida pública em 2014, Dilma teve de reconhecer que a situação era dramática e enviou um projeto criticadíssimo ao Congresso para flexibilizar a meta fiscal que ela mesma havia traçado no ano anterior. Para aprová-lo, ofereceu R$ 745 mil para cada parlamentar aplicar a seu bel prazer em seu reduto eleitoral, num total de quase R$ 500 milhões. Ao final, apesar da gritaria da oposição, o toma-lá-dá-cá acabou prevalecendo e o projeto foi aprovado, para Dilma não ser questionada na Justiça por descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal.

5. 2 + 2 = 5
Embora Dilma tenha sido pródiga em bizarrices na economia, talvez nada tenha sido mais bizarro em seu governo do que a tal da “contabilidade criativa”. Para tentar esconder o desequilíbrio nas contas públicas, Dilma usou e abusou de truques contábeis grotescos, idealizados pelo secretário do Tesouro, Arno Augustin.  As manobras podem até ter iludido os incautos, mas deixou “estarrecidos”, para usar a palavra preferida da “presidenta”, quem é do ramo. O repertório de aberrações incluía principalmente triangulações de recursos entre o Tesouro, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Caixa Econômica Federal. Essas triangulações apareciam na dívida bruta federal, mas não na dívida líquida, que o governo usava para fazer a propaganda oficial e vender a ideia de que era uma freira na gestão das finanças públicas. No fim, a manobra “esperta” contribuiu decisivamente para deteriorar a credibilidade do governo e minar a confiança dos investidores no país.

6. A  morte anunciada da “nova matriz econômica”
Em oposição ao tripé macroeconômico criado no governo FHC, baseado nas metas de inflação, no câmbio flutuante e no superávit fiscal, Dilma adotou a “nova matriz econômica”, idealizada pelos acadêmicos da Universidade de Campinas (Unicamp), onde Dilma fez o curso de pós-graduação em economia. Eles têm horror a tudo que guarde qualquer semelhança com a visão clássica de mercado, defendida pelos economistas mais liberais. Centrada no real fraco em relação ao dólar, em incentivos fiscais para alguns setores “eleitos” da indústria e numa taxa de juro baixa,  a “nova matriz” tinha o objetivo de estimular o crescimento econômico.  

Só que, apesar da contenção de preços administrados, como a gasolina, a inflação deu um salto, e os juros tiveram de subir para tentar manter os preços sob controle.  Além disso, mesmo com os subsídios oficiais, a indústria não realizou os investimentos que o governo desejava estimular e a taxa de crescimento do país ficou num dos níveis mais baixos da história. A boa notícia é que, por causa de seus resultados pífios, a “nova matriz econômica” deverá ser abandonada no segundo mandato de Dilma, em nome de práticas tidas como "ortodoxas", como a austeridade fiscal e uma política monetária mais dura, para recolocar o Brasil na trilha do desenvolvimento sustentável.
7. O Petrolão e a perda bilionária de valor da Petrobras
Estatista militante, ex-presidente do conselho de administração da Petrobras e defensora do modelo nacionalista implementado para explorar o pré-sal, Dilma encerra seu primeiro mandato em meio ao maior escândalo de corrupção do país em todos os tempos, o Petrolão.  Embora até agora ainda não haja nenhuma evidência concreta de que Dilma tenha se beneficiado da bandalheira, muitos analistas e muitos cidadãos de bem consideram que, como ex-presidente do conselho da Petrobras, ela foi, no mínimo, omissa no caso. Poderia, portanto, ser responsabilizada pelo que aconteceu com a empresa. 

O valor de mercado da Petrobras na sexta-feira, 19 de dezembro, havia caído de um pico de R$ 510 milhões, em maio de 2008, para R$ 122 bilhões – uma queda de 76%! Resultado: a Petrobras perdeu o posto de empresa mais valorizada do Brasil para a Ambev, que reúne as marcas Brahma e Antarctica, e foi também ultrapassada pelos bancos Itaú e Bradesco, nesta ordem.  De estrela internacional, a Petrobras foi parar nas páginas policiais dos jornais. Além dos processos movidos no Brasil pela  Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o xerife do mercado de capitais do país, a Petrobras está sendo investigada pela SEC, sua congênere americana, e pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Está sendo processada também por investidores privados nos EUA. Apesar de ainda ser difícil dizer como os desdobramentos do caso vão atingir seu governo e ela própria no segundo mandato, pode-se dizer, sem medo de errar, que há nuvens negras no horizonte.
8. A redução de juros “por decreto”
Um dia Dilma acordou e decidiu que era preciso dar uma marretada nos juros estratosféricos do país, bem ao estilo “eu prendo, eu bato, eu arrebento” que caracterizou seu governo desde o primeiro minuto. Embora jamais admita, forçou o Banco Central a reduzir a taxa básica de juros, que serve de referência para todas as outras, muito além do que seria razoável naquela conjuntura, marcada por crescentes pressões inflacionárias, com o objetivo populista de beneficar-se na campanha eleitoral. Dilma obrigou também os bancos oficiais – o Banco do Brasil e a Caixa, que hoje estão com uma taxa de calote muito acima da média do sistema – a seguir o mesmo  caminho. Obviamente, o que muitos analistas previram acabou acontecendo. O corte dos juros, com a alta da inflação e o desequilíbrio fiscal, tornou-se insustentável, e as taxas voltaram a subir – e deverão subir ainda mais no começo de seu segundo mandato.

9  A “quebra” de contratos na área de energia
Com uma manobra arriscada, Dilma decidiu mudar as regras do jogo na área energética, que ela comandou no início do governo Lula, antes de se tornar ministra da Casa Civil. Acreditando que conseguiria reduzir os preços da energia no país com seu voluntarismo ingênuo, Dilma criou o caos e acabou afastando investidores nacionais e estrangeiros do setor, um dos mais carentes de investimentos no país. Para renovar os contratos com as concessionárias, Dilma ofereceu uma indenização considerada menor do que as empresas teriam direito pelo critério anterior, que levava em conta os investimentos realizados e que ainda não haviam sido recuperados com a exploração do serviço. Como aconteceu com quase todas as medidas que Dilma tomou na economia em seu primeiro mandato, o tiro saiu pela culatra. Em 2015, o preço da energia deverá ter um reajuste considerável para cobrir o “rombo” que ela gerou no setor com sua política estapafúrdia.

10. As cotas impostas à importação de veículos
Sem aviso prévio, Dilma mudou também, da noite para o dia, as regras adotadas no campo automotivo.  Com o objetivo de estimular a produção local e manter os empregos dos metalúrgicos do país, ameaçados pela concorrência externa e pelo preço mais alto dos carros nacionais, Dilma trouxe de volta a velha reserva de mercado, de triste memória. A reserva  havia vigorado até o início dos anos 1990 e acabou provocando uma acomodação nas montadoras locais, em franco prejuízo dos consumidores, obrigados a consumir verdadeiras “carroças”, nas palavras do ex-presidente Fernando Collor, responsável pela abertura do mercado.  

Dilma aumentou o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos carros importados produzidos fora do México e do Mercosul em 30 pontos porcentuais e forçou a renegociação do acordo de livre comércio de veículos leves com o México, que havia levado várias montadoras a adotarem uma estratégia de negócios compatível com o regime anterior. Resultado: em 2014, as vendas e a produção de veículos despencaram, mesmo com a redução de impostos promovida pelo governo. Hoje, há um excesso de produção, sobram carros nos pátios das montadoras e muitas fábricas deram férias coletivas para os trabalhadores ou implementaram medidas semelhantes para reduzir o ritmo de produção.
11. As privatizações são ruins, mas nem tanto
Depois de demonizar as privatizações em todas as eleições desde 2002, Dilma e o PT decidiram apoiá-las. Como o governo na tinha dinheiro para fazer as obras de infraestrutura de que o país precisa, ela se deu conta, com dez anos de atraso, que a melhor forma de realizá-las era por meio de privatizações – ou concessões, como preferem os petistas, para evitar a palavra proibida. Só que,  como Dilma queria tabelar o lucro dos empresários e oferecer a tarifa mais baixa possível aos usuários, o projeto acabou não decolando, por absoluto desinteresse dos investidores. Quando Dilma quis consertar o erro – algo raro em sua trajetória – era tarde demais.  Exceto por uma ou outra privatização de serviços públicos, como estradas e aeroportos, ela chegou ao final do primeiro mandato com quase nenhuma realização nesta seara.

12. A volta da política do “pires na mão” a Brasília
Durante seu governo, de tendência nacional-desenvolvimentista, Dilma ressuscitou várias práticas que se popularizaram durante o governo militar, quando o economista Antônio Delfim Netto era chamado de “czar” da economia.  Talvez a principal delas – e a mais nociva para o país – foi a volta da política do “pires na mão”, pela qual os empresários voltaram a peregrinar pelos gabinetes de Brasília, em busca dos favores oficiais, em troca de promessas de investimento raras vezes cumpridas.

13 O filtro de Informações negativas 
Para não atrapalhar seu desempenho eleitoral, Dilma interferiu até mesmo no cronograma de divulgação de dados do Instituto de Pesquisa de Economia Aplicada (IPEA), ligado ao governo federal. Embora negue oficialmente, qualquer observador minimamente atinado, sabe que o IPEA adiou a divulgação de uma pesquisa que mostrava a estagnação da queda da desigualdade e da pobreza no país. Houve trapalhadas semelhantes na divulgação de pesquisas feitas pelo IBGE, cuja independência tem sido ameaçada pelo aparelhamento promovido pelo  PT.

Com este post, encerro as atividades do blog em 2014. A partir do dia 5 de janeiro, estarei de volta à ativa.
RUTH DE AQUINO
09/01/2015 20h30

Criticar a roupa de Dilma é machismo?

Se eu falar do cabelo armado Mao Tsé-Tung de Dilma, além de machista serei considerada fascista e fútil

A posse de Dilma Rousseff e seu megaministério medíocre quase passaria em branco ou “nude” (cor da pele) se não fosse a histeria em torno do vestido de renda da presidente e sua falta natural de elegância. Primeiro, veio o humor. Comparava-se o vestido de Dilma a toalhas rendadas de mesa artesanais e regionais. Comentou-se sua escolha inadequada de vestuário. E também seu andar desajeitado. Até aí, era a irreverência normal das redes.

Uma irreverência útil a Dilma, pois tirava o foco de um bando de 39 ministros – a maioria inexpressivos, alguns com passado nebuloso e condenável –, escolhidos a dedo para compor o toma lá dá cá indecoroso de Brasília. Uma irreverência que nunca atingiu a presidente. Ao contrário. O folclore e a sátira são absorvidos por qualquer líder minimamente inteligente. Dilma adora o blogueiro criador da Dilma Bolada – sabe, aquela personagem que fala palavrões pesados a torto e a direito. Cx?%&*alho, P x?%&*rra. Dilma nunca ficou bolada. Tudo estava dentro do roteiro, menos, claro, o vestido de pamonha da Kátia Abreu.

De repente, a patrulha fundamentalista petista armou-se de Kalashnikovs e passou a fuzilar grosseiramente quem fizera troça do “vestido da presidenta”. Os maiores alvos foram as colunistas mulheres. São mulheres fúteis que “internalizaram o machismo”. Que odeiam mulheres no poder e, por isso, se comportam como os piores machos da espécie. Só não acho uma tolice essa reação desproporcional e rude porque ela é, na verdade, um perigo. A censura contra o humor e a liberdade de expressão começa assim.

Para alguns fanáticos da estrela vermelha, Dilma é como Maomé. Intocável. Irrepreensível. Acima do bem e do mal. Nem ela se acha assim. O episódio do vestido de renda revelou que querem transformar Dilma em Evita, a santa. Na Argentina, Cristina Kirchner é muito mais visada por cartunistas e humoristas. E também os kirchneristas acusam de machistas as mulheres jornalistas que ousam criticar a maquiagem medonha de “la presidenta”.

Aqui, em minha coluna, já critiquei o Botox exagerado de Aécio Neves, o implante capilar do presidente do Senado, Renan Calheiros, o cabelo precocemente acaju do imperador do Maranhão José Sarney, a barriga pronunciada que quase arrebenta os botões dos ternos dos parlamentares, a deselegância de muitos. Ninguém me chamou de machista. Mas, se eu falar do cabelo armado Mao Tsé-tung de Dilma, serei machista, porque sou mulher, ela é mulher e, portanto, somos “sisters”. Não, não somos sisters. Somos pessoas. No caso de Dilma, além de machista serei fascista e fútil, uma combinação inacreditável.

As mais ofendidas foram duas jornalistas, Cora Rónai e Miriam Leitão. Não recebi procuração de nenhuma das duas para defendê-las, elas não precisam, até porque o lixo histérico nas redes, destituído de humor ou sutileza, era tão malcheiroso que só poderia depor contra os irados. O besteirol se revestiu de um tom mais sério e perigoso quando um teólogo, Leonardo Boff, que sempre admirei, publicou em seu perfil no Twitter: “Se Miriam Leitão e Cora Rónai se olhassem no espelho, teriam mil razões para não falar mal da roupa e do estilo da Presidenta” .

Primeiro, duvidei que fosse ele, há tanta mentira na internet. Achei que o teólogo tivesse contratado um estagiário que escrevera asneiras em seu nome. Mas, depois, percebi que Leonardo Boff tinha ficado pessoalmente ofendido com as críticas ao visual “nude” de Dilma. E Boff diz: “Há 30 anos me ocupo com a questão de gênero”.

Ora, Boff, questão de gênero é constatar que as mulheres ainda são discriminadas por ganhar menos, por não dispor das creches prometidas e por morrer em clínicas clandestinas de aborto. Outra de Boff: “Causa-me espanto que mulheres jornalistas se rebaixem tanto e percam a compostura ao fazer críticas das roupas da Presidenta”. O teólogo acha condenável “desrespeitar assim a Presidenta”. Nem com lupa enxerguei desrespeito – nada diferente do que se faz normalmente com líderes homens, no Brasil e no exterior.

É possível criticar porque estamos numa democracia. E as críticas a um líder nacional ou internacional, que envolvam discurso, comportamento dentro e fora do Palácio, escolha de equipe ou aparência, não podem ser consideradas um desrespeito. A não ser em ditaduras de qualquer coloração, onde o Grande Líder jamais pode ser contestado. No Brasil, diz Cora, “querem blindar Dilma porque é mulher, avó, tem 67 anos, como se estivéssemos falando de Dona Benta ou Tia Nastácia e não de uma das pessoas mais poderosas do país”.

Até o humor passa a ser uma ameaça. O limite para o humor nós presenciamos dolorosamente em Paris. Já tem gente engajada dizendo nas redes: “Quem mandou o Charlie Hebdo desrespeitar o profeta?”.





10 de janeiro de 2015 | N° 18038
ARTIGOS

CINTO MUITO

Os brasileiros, em linhas gerais mas evitando a generalização, têm nas suas características comportamentais a pouca disciplina e um otimismo exagerado, desconectado mesmo da realidade, que os leva a crer que as desgraças nunca vão acontecer com ele. Realmente, é bom que se diga, grandes tragédias, como terremotos, tsunamis, furacões ou mesmo guerras de grandes proporções, nunca ocorreram por aqui, o que talvez tenha “habituado” as pessoas a assim procederem.

Outro fator preponderante é o desconhecimento absoluto das leis da física, principalmente aquela da dissipação da energia: ninguém acredita, até ver, que uma pessoa pesando cem quilos possa ser ejetada pelo para-brisas do carro a vários metros de distância se estiver sem cinto de segurança numa colisão abrupta com grande probabilidade, neste caso justificada, de morrer.

Somando, então, indisciplina, otimismo injustificado e ignorância, temos a equação da pouca ou nenhuma utilização do cinto de segurança nos veículos. Mesmos nos aviões, vemos frequentemente pessoas sentadas sem cinto apesar dos constantes avisos do pessoal de bordo.

Agimos todos, conscientemente ou não, guiados pela lei das probabilidades. Senão vejamos, não vamos a certos locais à noite por considerarmos alta a probabilidade de sermos assaltados, as campanhas antifumo reiteram a grande probabilidade de doenças associadas ao vício e assim por diante.

O que oscilava, até pouco tempo, entre alta e baixa probabilidade passou a ser quantificado recentemente, como, por exemplo, a previsão do tempo, em que a probabilidade de chuva possa ser 50%, o que traz, até acostumarmos, certas dúvidas, nesta situação, como carregar guarda-chuva ou óculos de sol.

A “solucionática” para essa “problemática”, como dizia o grande Dadá Maravilha, passa, para variar, pela educação do nosso povo. Infelizmente, ainda vai custar muitas vidas.

Será uma sucessão interminável de “sinto muito”.


Médico e professor universitário - FERNANDO DE OLIVEIRA SOUZA

10 de janeiro de 2015 | N° 18038
DAVID COIMBRA

Os profetas e as mulheres, o bem e o mal

Digamos que você seja poderoso e invencível. Ninguém pode reprimi-lo, ninguém pode batê-lo. O que o impedirá de pegar o que quiser, quando quiser? O outro tem uma mulher que você deseja? Você a toma. Aquela casa é melhor do que a sua? Você expulsa quem nela mora e lá se instala. Você não gosta de um vizinho? Resolve o incômodo metendo-lhe uma bala na têmpora.

O que o impediria de fazer isso, se você fosse poderoso, se estivesse fora do alcance do braço da lei?

Talvez apenas a percepção de que essas ações são erradas. De que são... pecados.

Eis aí uma noção importante na formação do espírito civilizado do ser humano: a noção do pecado.

Os hebreus inventaram o pecado, mais especificamente os profetas hebreus, por volta do oitavo século antes de Cristo. Até então, as religiões não tinham sentido moral. Mesmo o judaísmo pioneiro não tinha sentido moral. Os homens tentavam agradar a seus deuses com sacrifícios e com adoração a fim de obter benesses ou evitar infortúnios, mas não precisavam ter bom comportamento ou respeitar o próximo.

É verdade que Moisés fez uma tentativa de estabelecimento de padrões éticos antes do ano 1000 a.C., com os 10 Mandamentos, mas logo os hebreus voltaram aos velhos hábitos. Foram os profetas, sobretudo os três Isaías, que reenquadraram o judaísmo e fundaram a ética ocidental. Foram eles, inclusive, que estabeleceram o domínio masculino no mundo.

Todas as religiões tinham poderosas deusas-mães, e o judaísmo também: Aserá era a deusa consorte de Javé, chamada de “a rainha dos céus”. O culto a Aserá foi sufocado para que os homens sufocassem as mulheres, mas isso é assunto para outra crônica. Quero voltar aos três profetas Isaías. O Primeiro Isaías era um Lênin de sandálias. Ele pregava:

“Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe das minhas vistas! Parem de fazer o mal! Aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça! Acabem com a opressão! Lutem pelos direitos do órfão! Defendam a causa da viúva! Que pretendeis ao oprimir o meu povo e esmagar o rosto dos pobres? Ai dos que acumulam casa sobre casa e ajuntam terras e mais terras! Ai dos que promulgam decretos injustos para negar justiça aos necessitados, defraudam o direito dos pobres para explorar as viúvas e roubar os órfãos!”.

Pela primeira vez na História, os pobres, os oprimidos, os órfãos e as viúvas tinham voz. Pela primeira vez, alguém criticava os excessos de acumulação de propriedade. Isaías antecipou-se a Thomas Piketty em 28 séculos!

A partir dos profetas hebreus, as religiões tornaram-se morais. O homem não cometia más ações para não desagradar a Deus. Foi uma extraordinária evolução na história da Humanidade.

As religiões não são um mal, apesar de os homens muitas e muitas vezes as utilizarem para o mal. Os terroristas que atacaram a Charlie Hebdo, em Paris, o fizeram em nome da sua crença, mas eles são uma degeneração, como o foram os cruzados cristãos, mil anos atrás.

A Charlie Hebdo é uma revista que critica religiões, todas as religiões, e para isso não se vale da racionalidade ou da ponderação. Ao contrário: as charges da Charlie Hebdo são agressivas, ofensivas e, talvez o pior, sem graça. Há muito a se criticar nos padrões morais que começaram a ser construídos pelos profetas hebreus há 2,8 mil anos. A dominação masculina, iniciada com o banimento de Aserá, por exemplo, oprime mulheres, mutila-as e as mata historicamente.

Ou seja: faz o Mal. Mas até nisso o caráter moral da religião pode ser um aliado. A Charlie Hebdo erra no seu ataque desrespeitoso às religiões. Os fanáticos religiosos erraram muitíssimo mais no ataque à Charlie Hebdo. Podemos fazer esse julgamento porque tentamos, todos os dias, refletir sobre o que é certo ou errado. Porque aprendemos isso há mais de dois mil e quinhentos anos, com os profetas andrajosos do Oriente Médio.




10 de janeiro de 2015 | N° 18038
CLAUDIA LAITANO

Allons enfants

Você não precisa saber francês, ter vivido os horrores da II Guerra ou mesmo gostar de filmes antigos para se arrepiar com a cena de Casablanca (1942) em que os frequentadores do Rick’s Café erguem-se para cantar A Marselhesa, atendendo à provocação do líder da resistência Victor Laszlo (Paul Henreid) e abafando, com ardor cívico, a cantoria dos oficiais nazistas – assim como, simbolicamente, o próprio nazismo, que seria derrotado pelos Aliados pouco tempo depois da estreia do filme.

Na última quarta-feira, em uma manifestação em Trafalgar Square, no coração de Londres, cerca de 2 mil pessoas portando cartazes (“Nous Sommes Charlie”, “Keep Calm and Charlie On”) e levantando canetas no ar, como espadas, entoaram os versos de A Marselhesa como um gesto de resistência ao ataque contra a revista de humor Charlie Hebdo.

Em uma semana com inédita produção de peças gráficas de qualidade sobre um mesmo assunto, hashtags viralizadas em questão de minutos, Torre Eiffel às escuras e manifestações espontâneas de solidariedade ao redor do mundo, A Marselhesa de Trafalgar Square e a linda artilharia de lápis e canetas em punho formaram uma das imagens mais tocantes.

Isso porque o hino mais conhecido do mundo não é apenas o ícone de um país, mas a música símbolo de todo um sistema de pensamento, o Iluminismo, que deu origem ao modelo americano de democracia, à Revolução Francesa e à civilização ocidental como a conhecemos hoje. O conjunto de ideias que tomou corpo na França no final do século 18 defendia, basicamente, o homem como medida de todas as coisas e a autonomia do indivíduo para criticar e desafiar todas as instituições.

As leis deveriam ser aquelas acordadas entre os homens e não as ditadas pela tradição ou pelo sobrenatural, mas o novo modelo não excluía a possibilidade da experiência religiosa individual, apenas retirava a crença do lugar central que ocupava na sociedade. (O Estado laico, a propósito, é o único que torna possível, no plano ideal, a pluralidade de crenças e descrenças, sem o domínio autoritário de uma sobre as outras – platitude que as bancadas religiosas no Brasil nem sempre conseguem alcançar.)

A independência de pensamento e a possibilidade de criticar, questionar e mesmo ridicularizar qualquer tipo de autoridade, política ou religiosa, abriu espaço, entre outras coisas, para a imprensa livre, a ciência e a democracia moderna. A ideia de que todos os homens são iguais e de que nossas leis deveriam refletir valores da experiência humana, e não crenças religiosas, são a base da civilização ocidental – imperfeita, é verdade, mas “aperfeiçoável”. Como todos os seres humanos.

Em Casablanca, assim como em Trafalgar Square, A Marselhesa simboliza a resistência contra um sistema muito pior do que o imperfeito e muitas vezes desigual modelo de democracia desenvolvido ao longo dos últimos 200 anos no Ocidente. Um modelo em que as instituições não são sagradas nem intocáveis e onde nenhuma ofensa simbólica é tão grande que valha o preço de uma vida humana.

Neste momento, no gigantesco salão do Rick’s Café que é o nosso mundo globalizado e conectado, estamos todos em pé, cantando A Marselhesa e celebrando os valores que ela representa – sem esquecer as reflexões humanistas que a II Guerra tornou para sempre incontornáveis: nenhuma pessoa jamais deveria ser perseguida ou segregada pela origem étnica, pela cor da pele ou pelas convicções religiosas. Defender os valores iluministas, sem deixar escorregar parte deles pelo caminho, é o grande desafio da Europa neste momento.

E de todos aqueles que acreditam que liberdade, igualdade e fraternidade são ideais pelos quais ainda vale a pena lutar.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015



09 de janeiro de 2015 | N° 18037
OLHAR DESTEMPERADO | DIEGO FABRIS*

DOCE, POESIA A CADA MORDIDA

DIZ A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA que quem não gosta de samba, bom sujeito não é. E quem não gosta de doce, é o quê? Costumo dizer que não confio muito em quem não gosta de doce. Pode alguém ser tão amargo que não aprecie um bom chocolate derretido? Você confiaria um segredo a quem não valoriza aquela colherada no pote de doce de leite?

Venho de uma família de formigas. Tenho duas irmãs que, se pudessem, comeriam doce no café da manhã, no almoço e no jantar. Também sou filho de mãe doceira, que é responsável por uma torta de morango com doce de leite e nozes que me faz perder o sono. Talvez tenha açúcar em meu DNA.

Nesta época de verão, reconheço de longe aqueles mentirosos que, por uns quilinhos a menos, desdenham do pudim com furinhos ou do brigadeiro quente na panela. A esses, só desejo uma coisa: que sonhem com Nutella!

Em festas de aniversário de criança, tenho dificuldades para esperar o parabéns até atacar o cajuzinho. E vai dizer que você aí nunca passou o dedo na cobertura do bolo ou raspou o fundo da panela?

Quem sabe cozinhar diz que preparar doces é o que existe de mais difícil na cozinha. E, mesmo seguindo a receita à risca, tem que ter “mão boa”. Acredito nisso. Nada que é tão bom deveria ser fácil de fazer. Por essas e outras é que adoro uma boa confeitaria. Espero que esse tipo de lugar se multiplique. É difícil encontrar alguém infeliz dentro de uma boa doceria.

Nos últimos tempos, tenho visto gente apontando o dedo para os doces como vilões. Ok, em excesso pode prejudicar. Mas o que em excesso não prejudica? Equilíbrio é o caminho. E, se for pra privilegiar alguns, que sejam aqueles doces de verdade, que remetam à infância, que façam você sorrir quando se lembra. Viva a rabanada, o arroz-doce e a ambrosia.

*Diretor de conteúdo Destemperados


09 de janeiro de 2015 | N° 18037 
DAVID COIMBRA

O petista em quem sempre votei

“Nós não somos ladrões!”, bradava o ex-secretário-geral da Presidência da República Gilberto Carvalho. “Não somos ladrões!”, repetia com ênfase em seu discurso de despedida do cargo, dias atrás.

Fiquei com a frase ribombando nos vazios do meu cérebro, que são muitos. Carvalho referia-se aos governistas, em especial aos petistas.

“Nós não somos ladrões.”

Imagine você ter de dizer isso da sua família:

– Minha mãe não é ladra!

– Meu pai não é ladrão!

Imagine você dizendo dos seus filhos, da sua mulher, de você mesmo:

– Nós não somos ladrões!

Não, você não precisa dizer isso, claro que não. Gilberto Carvalho, um dos petistas mais petistas da história do petismo, precisa.

O PT, depois de 12 anos no poder, se transformou num partido de ética esgarçada, um partido oportunista, que, se não é formado por ladrões, no mínimo não vê os ladrões que o cercam, ou não os quer ver.

Não é uma derrota do petismo. É uma fragorosa derrota da política brasileira. Mais: é uma derrota da sociedade brasileira. Os petistas sempre foram maniqueístas e excludentes, mas esses são defeitos de quase todos os movimentos de esquerda. Em geral, os esquerdistas levam suas certezas para um púlpito acima dos outros seres humanos a fim de julgá-los.

Mas tudo isso era suportável, porque o PT prometia mudar a política brasileira. Não com grandes projetos para o país, o PT nunca teve grandes projetos para o país. Com honestidade. É isso: o PT mudaria o Brasil agindo com honestidade.

Fui eleitor do PT. Vou citar um petista no qual sempre votei, e cito-o porque ele se afastou da atuação pública: Flávio Koutzii. Homens como Koutzii, para mim, eram a esperança do país.

Koutzii não me decepcionou. O PT, sim.

O PT se transformou num PFL da esquerda. Quase posso ver antigos pefelistas proclamando:

– Nós não somos ladrões! Nós não somos ladrões!

Mas os destinos do PT e do PFL não me fazem desistir. Acredito que a política possa ser exercida com retidão. Há muitos homens públicos retos neste país, inclusive dentro do PT. Homens como Flávio Koutzii e outros tantos, que sairão fortalecidos com o que está acontecendo hoje no Brasil.

E isso é que é importante. A sociedade brasileira mudou e continua mudando. A indignação com os corruptos está se solidificando, os brasileiros não aceitarão mais o relativismo moral que vigia na vida pública. O acordo por conveniência, a vista grossa, o rouba mas faz estão deixando de ser palatáveis ao brasileiro.

Sim, as coisas estão mudando. Talvez até o PT mude, talvez se torne menos sectário quando na oposição e menos permissivo quando na situação. Talvez. O certo é que esses homens retos de que falo se encarregarão de, enfim, transformar a política brasileira. Que pode ser uma política compreensiva com as circunstâncias humanas, claro que pode e até deve, desde que não seja cínica, desde que seja clara inclusive nas suas eventuais concessões à dureza da realidade. Para que os governantes não tenham mais de vir a público, jurando:

– Nós não somos ladrões.



09 de janeiro de 2015 | N° 18037 
MARCOS PIANGERS

O homem sozinho

Um homem sem uma mulher vira mais uma mobília na casa. Façam a experiência: deixem um homem casado sem uma mulher por uma semana em casa, sozinho, e vejam como ele vira algo muito próximo de um sofá. Provavelmente nos primeiros dias ele ainda tentará aproveitar a solidão, combinar um chope com os amigos que irá até mais tarde. Mas lá pelo terceiro ou quarto dia o homem casado sem uma mulher em casa vira uma mobília.

A passividade será tanta que a louça se acumulará na pia, alguns pratos com farelos de pão do ano passado. O lixo do banheiro poderá transbordar, mas o homem sozinho dará um jeito de equilibrar os novos papéis higiênicos amassados, formando uma nojenta montanha sob a tampa. Um homem sozinho, sem uma mulher para obrigá-lo, jamais irá trocar os lixos da casa. Também não fechará as janelas em dia de chuva. Também não secará o carpete quando molhá-lo. O homem sozinho é desapegado dessas coisas.

As plantas morrerão sem ninguém para regá-las. Os animais de estimação correm o mesmo perigo. A geladeira será saqueada para todo tipo de mistura: ovos com catchup, restos de arroz com molho shoyu, todos os alimentos serão consumidos sem nenhum critério pelo homem sozinho, sempre com o mínimo de esforço no preparo.

Os alimentos serão consumidos sempre na frente da televisão. O homem sozinho verá muita televisão. Programas sobre tubarões, aliens, algumas reprises de jogos interessantes e alguns jogos da terceira divisão sub-20 do campeonato de peteca de Santo Antônio da Patrulha. O homem sozinho dormirá olhando bobagens no Facebook.

Não se lembrará de tomar banho. Usará roupas repetidas para ir trabalhar. Vestirá cuecas em casa todos os dias. Perderá longos minutos acessando sites estranhos. Limpará o histórico de navegação para que estes sites não apareçam. Com o tempo, o homem sozinho ficará parecendo um apêndice da mobília, como uma colcha na poltrona, como um edredon dobrado em cima da cama.

Pobre da mulher que deixou um homem sozinho em casa durante uma semana. Quando voltar, terá que adestrá-lo novamente.

09 de janeiro de 2015 | N° 18037 
MARCOS PIANGERS

O homem sozinho

Um homem sem uma mulher vira mais uma mobília na casa. Façam a experiência: deixem um homem casado sem uma mulher por uma semana em casa, sozinho, e vejam como ele vira algo muito próximo de um sofá. Provavelmente nos primeiros dias ele ainda tentará aproveitar a solidão, combinar um chope com os amigos que irá até mais tarde. Mas lá pelo terceiro ou quarto dia o homem casado sem uma mulher em casa vira uma mobília.

A passividade será tanta que a louça se acumulará na pia, alguns pratos com farelos de pão do ano passado. O lixo do banheiro poderá transbordar, mas o homem sozinho dará um jeito de equilibrar os novos papéis higiênicos amassados, formando uma nojenta montanha sob a tampa. Um homem sozinho, sem uma mulher para obrigá-lo, jamais irá trocar os lixos da casa. Também não fechará as janelas em dia de chuva. Também não secará o carpete quando molhá-lo. O homem sozinho é desapegado dessas coisas.

As plantas morrerão sem ninguém para regá-las. Os animais de estimação correm o mesmo perigo. A geladeira será saqueada para todo tipo de mistura: ovos com catchup, restos de arroz com molho shoyu, todos os alimentos serão consumidos sem nenhum critério pelo homem sozinho, sempre com o mínimo de esforço no preparo.

Os alimentos serão consumidos sempre na frente da televisão. O homem sozinho verá muita televisão. Programas sobre tubarões, aliens, algumas reprises de jogos interessantes e alguns jogos da terceira divisão sub-20 do campeonato de peteca de Santo Antônio da Patrulha. O homem sozinho dormirá olhando bobagens no Facebook.

Não se lembrará de tomar banho. Usará roupas repetidas para ir trabalhar. Vestirá cuecas em casa todos os dias. Perderá longos minutos acessando sites estranhos. Limpará o histórico de navegação para que estes sites não apareçam. Com o tempo, o homem sozinho ficará parecendo um apêndice da mobília, como uma colcha na poltrona, como um edredon dobrado em cima da cama.

Pobre da mulher que deixou um homem sozinho em casa durante uma semana. Quando voltar, terá que adestrá-lo novamente.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015


08 de janeiro de 2015 | N° 18036
ARTIGO - CARLOS ROBERTO SCHWARTSMANN*

A FANTÁSTICA DISTORÇÃO DA SAÚDE

Estamos iniciando um novo ano letivo na universidade. E, como professor de ortopedia, minhas primeiras palavras para o novo aluno são de cumprimentos por estarem aqui.

São pessoas altamente diferenciadas, treinadas, estudadas e submetidas a várias avaliações. Hoje, depois do Enem, eles vêm de todo o país. Ainda na escolha profissional, a medicina é a preferida. Na USP, a relação é de 63 candidatos por vaga e, na UFRGS, é de 57.

Meu primeiro ensinamento em relação à nova especialidade é que todo e qualquer esforço deve ter como meta primordial o bem-estar do paciente.

Apesar dessa tentativa de transmissão de atitudes corretas, como podem alguns se afastar tanto dos ensinamentos familiares e universitários?

Como podem alguns médicos ser acusados de estupros, assassinatos, fraudes e outras contravenções?

Infelizmente, isso também existe entre nós.

É por isso que estamos assistindo “à divina comédia da máfia das próteses”.

Sozinho, um médico jamais conseguiria obter lucros escusos tão elevados. A cadeia dos envolvidos passa por paciente, familiares, distribuidor, hospital, advogados e juízes. Quando o Judiciário interfere no dinamismo da medicina, é porque algo está muito errado.

A classe médica não pode novamente ser condenada e acusada por essa fantástica distorção.

A saúde do nosso povo nunca foi tão destratada, humilhada, cruel e fétida.

Atitudes governamentais tentam macular a arte e o sacerdócio da medicina. Temos o maior número de faculdades de Medicina por habitante do mundo.

A municipalização da saúde foi atroz e a contratação de cubanos foi degradante.

Esquecem os nossos críticos que a tabela do SUS não é corrigida há mais de 10 anos.

O médico recebe por um parto cesariano R$ 150 e para tratar cirurgicamente a fratura do maior osso do corpo humano, que é o fêmur, R$ 134.

A propósito, o colega gaúcho acusado das fraudes tem um processo na Justiça para ingressar no corpo clínico da Santa Casa, que lhe foi negado, desde 2013.

Espero que nenhum juiz defira pelo seu ingresso.


*Médico, professor universitário - CARLOS ROBERTO SCHWARTSMANN

08 de janeiro de 2015 | N° 18036
DAVID COIMBRA

Cada vez mais o mundo precisa dos Estados Unidos

Sou um vendido. Sou um deslumbrado. Entreguei-me ao capitalismo.

Verdade que meu deslumbramento é meio fajuto, é um deslumbramento fácil demais. Quando morei em Criciúma, deslumbrei-me com a cidade. Adorava-a, e a adoro ainda. Sou um criciumense adotivo.

Quando morava no IAPI, era um deslumbrado com o bairro. De fato, sou. Considero o IAPI o pedaço mais bucolicamente suburbano de Porto Alegre. Ou mais suburbanamente bucólico, escolha.

Agora, estou deslumbrado com os Estados Unidos.

Se bem que, aí vai outra confissão, que hoje é dia de confissões, se bem que sempre fui admirador dos Estados Unidos. Um pouco pela pujança do seu cinema e da sua música, muito pelas calças jeans e pela Megan Fox, mas sobretudo pelos princípios que cimentaram a construção desse país.

Os americanos dizem que esta é a pátria da liberdade. E é. Os pioneiros que vieram para cá, exatamente para cá, para a Nova Inglaterra, vieram em busca de tolerância religiosa e para formar uma nova nação, baseada na liberdade individual e na igualdade de oportunidades. Atingiram ambos os objetivos. Os Estados Unidos se transformaram em um país grande, complexo, cheio de falhas e contradições, mas seus princípios fundadores continuam os mesmos. Durante sua história, houve abalos graves, como a aceitação da escravidão e a intolerância gerada pelo 11 de Setembro, mas, ao fim e ao cabo, os princípios originais venceram e até se robusteceram.

Atentados como o cometido ontem, em Paris, são capazes de produzir na Europa o efeito que o 11 de Setembro produziu nos Estados Unidos, com o agravante de que os europeus não dispõem da proteção das convicções históricas americanas. Lembre-se: nos Estados Unidos, nunca houve um rei, nunca houve um ditador, nunca houve espaço para a tirania. Na Velha Europa, sim.

Existem ondas anti-islâmicas e anti-imigrações na Europa, e ações do gênero da que ocorreu ontem, na França, só servem para justificá-las.

Ao mesmo tempo, um ataque contra uma revista, isto é, contra a imprensa, reúne-se a uma série de pequenos atentados que vêm sendo cometidos contra a liberdade de expressão, seja sob forma de agressão física, seja pela coerção exercida pelos vigilantes do comportamento das redes sociais, seja sob o estabelecimento de censura legal, como já se deu na Inglaterra, em Portugal e ora é tentado no Brasil, por esse governo, justamente por “esse” governo.

Nos Estados Unidos, isso não acontece. Nos Estados Unidos, isso seria impossível. Os Estados Unidos são, sim, a terra dos homens livres, mas são também a terra da lei. Seres humanos de todas as curvas do planeta vivem aqui, debaixo de quipás ou de burcas, ajoelhando-se para Meca ou diante de uma cruz, cada qual podendo trabalhar, professar seu culto e falar o que quiser, desde que dentro da lei.


Eis o exemplo a seguir. O da hidra capitalista de mil cabeças. O da besta-fera da iniciativa pessoal. Entregue-se você também. Deslumbre-se. E seja livre.

08 de janeiro de 2015 | N° 18036
LUCIANO ALABARSE

EMBATES DURÍSSIMOS

Final de um ano marrento/começo de outro igualmente difícil, época perfeita para entrar no clima “paz e amor” que o período enseja. Regido por Ogum e Iansã, o ano promete embates duríssimos. Por isso mesmo, na virada do dia 31 pedi aos duendes do universo que atendessem cinco desejos de um homem teimosamente crente. Demasiadamente humanos, reais, meus pedidos miraram forças transformadoras para:

a) Iluminar os corações e mentes dos Bolsonaros da vida, cujas posturas me soam repulsivas, indignas de homens de bem. Que as Marias do Rosário se fortaleçam ante a sanha machista desses caras;

b) Erradicar episódios racistas e homofóbicos do solo brasileiro, incompatíveis com a ideia de um país equânime e solidário;

c) Desgrenalizar o nosso combalido Rio Grande, para que não afundemos em desgastadas picuinhas partidárias. Nós, gaúchos, temos o dever de evitar o naufrágio do Titanic. Nosso navio já bateu no gelo;

d) Esclarecer os conceitos antropológicos que se grudam às leis de incentivo à cultura. Moda e culinária, por exemplo. É justo que existam leis específicas para esses setores. Sem discussão. Mas misturar tudo no saco das artes cênicas só dificulta o que já é, em si, muito difícil;

e) Perdoar um mundo onde homens adultos se dão o direito de invadir escolas e atirar na cabeça de estudantes adolescentes. Não há o que me faça entender uma coisa assim.


Clarice Lispector, durante anos, escreveu uma coluna no Jornal do Brasil. Uma vez, queria encerrar o texto com um “feliz Ano-Novo” aos seus leitores, mas mudou de ideia. Que o ano fosse feliz não lhe parecia importante. Mas que, por pura alegria de viver, fosse um ano realmente novo! Cravou um definitivo “novo Ano-Novo” a todos. E quem sou eu pra contradizer Clarice? Mas, em dúvida, ouvindo Rainha dos Raios, o maravilhoso disco novo de Alice Caymmi, meu coração resolveu acreditar no que o Jânio de Freitas disse outro dia: “Dias melhores verão!”.

08 de janeiro de 2015 | N° 18036
L. F. VERISSIMO

A altura do Levy

Paul Krugman e Joseph Stiglitz não são donos da verdade, mas são donos de um prêmio Nobel cada um. Os prêmios lhes dão uma respeitabilidade que eles não encontram entre seus pares economistas, pois são os dois mais notórios inimigos da atual ortodoxia – keynesianos nadando contra a corrente da maioria. Para Krugman e Stiglitz, o receituário ortodoxo para vencer a crise mundial provocada pelo capital financeiro equivale a receitar gasolina para apagar incêndios.

O sacrifício de gastos sociais e as outra formas de austeridade vendidas com o nome de fantasia de “responsabilidade fiscal” já provoca reações de consequências imprevisíveis na Europa. Só quem está gostando da irresponsabilidade social oficializada é o capital financeiro, que pariu a crise e ama a sua cria.

Na foto do espantoso novo ministério da Dilma que saiu nos jornais, destaca-se, além do vestido da Kátia Abreu, o tamanho do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Ninguém, nem o Rossetto, chega aos seus ombros. O que não deixa de ser simbólico. Levy domina o grupo fotografado com sua altura como dominará o governo com suas medidas de, sim, responsabilidade fiscal e austeridade. E a altura de Levy tem outro significado: será difícil alguém chegar ao seu ouvido.

Alguém preocupado com a incoerência de um governo do PT entregar-se tão despudoradamente a uma ortodoxia de efeito duvidoso. Alguém pedindo clemência para os programas sociais ameaçados, talvez a própria Dilma. Se não fosse esperar demais, até alguém pedindo para ele ler Krugman e Stiglitz de vez em quando. Mas o ouvido de Levy é inalcançável, à prova de palpites. Na própria foto, ele parece estar com a cabeça numa camada superior da atmosfera, respirando outro ar. Certamente não o mesmo ar do pastor Hilton, lá embaixo.

Imagino que o Joaquim Levy tenha lido o Thomas Piketty, nem que seja só por curiosidade. Piketty também nada contra a corrente. Se a questão maior para qualquer pessoa que não seja um verme moral é a questão da desigualdade crescente no mundo, Piketty prova que o capitalismo, do jeito que vai, só agravará o problema. Ele chama a pretensão de que uma economia de mercado sem regulação acabará por “elevar todos os barcos” e diminuir as desigualdades de “um conto de fadas”. Mas esse conto de fadas é o outro nome da ortodoxia econômica que querem nos impingir.

PAPO VOVÔ


A Lucinda, nossa neta de seis anos, me pediu para consertar a corda de um cavaquinho que encontrara. Não consegui, e ela tirou o cavaquinho das minhas mãos, dizendo “deixa que eu conserto, inteligência rara”. Inteligência rara! Acho que vou baixar um decreto proibindo a ironia dentro de casa.