Debate sobre desafios para investir no Brasil fecha Semana do Mercado Financeiro da Pucrs

Gabriel Margonar
Juros altos, capital mais seletivo e um mercado menos previsível marcaram o tom do terceiro e último dia da 4ª Semana do Mercado Financeiro da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), nesta quinta-feira (16). Ao longo dos painéis, a percepção foi de que o Brasil ainda oferece oportunidades, mas exige hoje mais leitura de cenário, adaptação e repertório de quem quer investir ou construir carreira no setor.
Essa avaliação apareceu de formas diferentes, mas complementares, nos painéis de Pedro Englert, sócio da StartSe e da NVA Capital, e de Roberto Indech, head de renda variável na XP Inc. Partindo de trajetórias pessoais e experiências bastante distintas, os dois convergiram na ideia de que o cenário atual impõe escolhas mais duras ao investidor e ao profissional do mercado: se antes o capital abundante favorecia apostas mais ousadas, hoje o retorno da renda fixa e do crédito força uma revisão de teses e encarece o risco.
No painel de Pedro Englert, o eixo principal foi a necessidade de formação contínua em um mundo menos previsível. Ao relembrar sua trajetória, ele argumentou que o grande diferencial profissional deixou de estar apenas na formação acadêmica tradicional.
“Hoje, o conhecimento não está mais só aqui dentro da Universidade. Ele está um pouco aqui dentro e muito lá fora. Curiosidade, capacidade de definir objetivos e disposição para aprender de forma permanente passaram a pesar mais do que o prestígio isolado de um diploma”, afirmou.
A análise de Englert também dialogou diretamente com o momento atual do mercado de capitais. Ao falar da gestora NVA, ele explicou que o ambiente de juros altos alterou profundamente a atratividade do equity no Brasil, sobretudo em operações de maior risco e prazo mais longo.
“Se eu tenho a alternativa de ganhar 15% ao ano num ativo relativamente protegido, ou entrar numa startup cheia de incerteza, com prazo de cinco, seis, sete anos e risco de perder tudo, fica muito difícil justificar equity em muitos casos”, disse. Na leitura do empresário, o País ficou “caro demais para o risco de equity inicial”.
Essa mudança de lógica, comenta, ajuda a explicar por que a própria NVA passou a olhar também para crédito, e não apenas para participações societárias. Segundo Englert, em muitos momentos o retorno da dívida no Brasil simplesmente não compensa o risco adicional do investimento em participação.
Ao mesmo tempo, ele sustentou que a instabilidade do cenário não deve ser lida apenas como ameaça. Para o especialista, a quebra dos modelos tradicionais de previsão também reabre o jogo para quem consegue se adaptar. “Sempre que o mundo chacoalha com essa intensidade, todo mundo volta a jogar em condição mais parecida de igualdade”, ponderou. Na sequência, completou: “Então, para quem quer criar oportunidade, esse é um momento único”.
No painel seguinte, Roberto Indech levou essa discussão para dentro da renda variável e tratou do paradoxo que marca o mercado brasileiro em 2026: mesmo com juros elevados, o Ibovespa renovou máximas e vem se aproximando dos 200 mil pontos.
Na visão dele, esse movimento exige leitura menos entusiasmada do que os números sugerem. “Com juros de 15%, por que alguém vai investir em bolsa? Só um maluco vai investir em bolsa vendo 15% ao ano na renda fixa sem fazer nada”, argumentou.
Para o executivo da XP, a força recente do índice tem menos relação com uma melhora homogênea do mercado doméstico e mais com fluxo estrangeiro e concentração em poucos papéis de grande liquidez. “Quem faz fluxo mesmo é o gringo".
Na sequência, foi ainda mais direto ao relativizar o peso simbólico do recorde do índice: “O Ibovespa é um índice ruim. Ele é muito concentrado em poucas empresas - commodities, petróleo, Vale, grandes bancos - então ele acaba sendo meio mentiroso também”, ressaltou.
A fala de Indech reforça o ponto central que atravessou os dois painéis: o capital está mais seletivo e mais exigente, tanto para investimento quanto para construção de negócio. Por fim, ao comentar sobre day trade, influenciadores e o esforço de educação financeira, o executivo disse que grande parte do público ainda busca atalhos e ganhos rápidos, muitas vezes sem disposição para estudar ou compreender risco.
Um elo entre os dois debates esteve na ideia de adaptação. Englert afirmou que “comprometimento vence talento” e defendeu que jovens se exponham a ambientes em que descubram o quanto ainda precisam aprender. Indech, por sua vez, disse valorizar “skill, atitude e proatividade” ao contratar e relatou que, em um setor que muda rápido, resiliência e capacidade de entrega contam tanto quanto conhecimento técnico.
A programação de encerramento da Semana do Mercado Financeiro contou ainda com painéis de Leandro Melnick, CEO da Melnick, e do economista-chefe do Sindilojas, Rodrigo de Assis, ampliando o debate sobre negócios, investimentos e os rumos da economia. O evento ocorreu entre terça (14) e quinta-feira (16), no prédio 50 da Pucrs.

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