terça-feira, 27 de dezembro de 2016



27 de dezembro de 2016 | N° 18725
ARTIGOS - LASIER MARTINS*

STF SEM ESTRUTURA

Sobre a mesa do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, encontram-se, por enquanto, 21 inquéritos com pedidos de indiciamento de 49 pessoas, a maioria políticos e gestores públicos, apontados pela Procuradoria-Geral da República como suspeitos de envolvimento na Operação Lava-Jato. Todos com direito a foro privilegiado, ou seja, só podem ser investigados pelo STF. E aí se situa a previsível dificuldade logística.

O que seria elementar e já poderia ter ocorrido há bem mais tempo, agora se anuncia no Supremo, a convocação de vários juízes federais de primeiro grau, que trabalharão durante o mês de janeiro analisando acordos de delação premiada junto ao Ministério Público. O que se deseja é que mais magistrados passem a atuar em toda a extensão dos processos daqui para diante. Caso contrário, as instruções do Supremo, com gente de foro privilegiado, levarão muitos anos e a prescrição dos feitos será inevitável.

É uma montanha de trabalho para o magistrado. Teori tem à sua frente processos que envolvem nada menos do que 22 deputados federais, 12 senadores, 12 ex-deputados e uma ex-governadora, além de dois operadores sem mandato, mas também cobertos pela prerrogativa de foro: João Vaccari, ex-tesoureiro do PT, e Fernando Baiano, acusado de ser arrecadador de valores para o PMDB. Essas acusações atingem 32 parlamentares do PP, sete do PMDB, seis do PP, e um do PSDB e PTB. Muita gente, muito fio de alta voltagem desencapado.

A Justiça precisa punir quem desviou, enganou, roubou verbas públicas que fizeram tanta falta para a saúde, educação, segurança, saneamento básico etc. Muitas vidas foram perdidas por causa destes crimes. Mas, como disse o ministro Zavascki, o Supremo terá de fazer diligências sobre os conteúdos das delações. Nenhuma sentença condenatória poderá ser proferida com fundamento apenas nas declarações de colaboradores. Tem de haver prova-provada dos crimes. Daí o desafio que se coloca.

Nossa sugestão e esperança é que o Supremo, sem demora, ponha em ação uma força-tarefa necessária para acelerar as providências, como aconteceu no processo do mensalão. A sociedade não mais aceitará impunidade de tanta gente importante envolvida com corrupção. Esse vício já, de longa data, esgotou a paciência de todos.

*Senador PDT-RS lasier.martins@senador.leg.br


27 de dezembro de 2016 | N° 18725
ARTIGO | DENIS LERRER ROSENFIELD

O AVANÇO TRABALHISTA

A reforma trabalhista é inegavelmente um grande avanço, abrindo as portas para uma efetiva modernização das relações trabalhistas. Nenhum dos governos anteriores ousou mexer na CLT, que parecia intocável, mesmo revestida de um caráter politicamente religioso. O presidente Temer e seu ministro Ronaldo Nogueira bem compreenderam que o futuro do país e novos investimentos dependem de uma reforma trabalhista que, agora, deu um passo decisivo.

Talvez não seja demais enfatizar uma questão de princípio envolvida neste projeto de reforma trabalhista: a de considerar os trabalhadores como seres emancipados da tutela estatal. Ou seja, os trabalhadores não mais são considerados como hipossuficientes, mas cidadãos capazes de exercer autonomamente os seus direitos. 

Via seus comitês de empresa, os trabalhadores poderão decidir junto com os seus empregadores o que é melhor para si. Ambos defenderão seus próprios direitos e interesses e, uma vez acordados, o decidido passará a ter força de lei. Não mais haverá recurso possível à Justiça trabalhista, salvo em casos de vício de forma.

Logo, há uma manifesta redução do campo de atuação da esfera estatal, principalmente da Justiça trabalhista, que passa a ter limites em sua ação. Esta é praticamente ilimitada, chegando a ter caráter normativo, tudo regulando a partir de súmulas, que nem passam por um processo de tipo legislativo. 

Com a modernização da legislação trabalhista ora em curso, ela passará a ter um papel menos importante do que aquele que hoje exerce. A reação dos juízes trabalhistas mais à esquerda bem demonstra isto. Em contraste, o presidente do TST, ministro Ives Gandra Martins, considerou essa proposta um verdadeiro “evento histórico”.

As centrais sindicais foram partícipes deste processo e avançaram na negociação sem que isto transparecesse publicamente. Confiaram no ministro Ronaldo Nogueira e deixaram desavenças ideológicas de lado. Estabeleceu-se um consenso progressivo em torno de alguns pontos centrais. Objetos de discórdia foram relegados e não vieram a fazer parte do projeto definitivo. Note-se que centrais mais radicais, como a CUT, participaram das negociações e contribuíram para o aprimoramento da proposta.

Há, inclusive, uma foto, tirada no gabinete do ministro, na manhã mesma da solenidade no Palácio do Planalto, que bem ilustra o quanto diferentes lideranças sindicais trabalharam conjuntamente pela modernização da legislação trabalhista e pelo progresso do país.

O colunista escreve às terças-feiras neste espaço



27 de dezembro de 2016 | N° 18725 
EDITORIAL

SIMPLIFICAÇÃO BEM-VINDA

A reforma trabalhista apresentada pelo governo na semana passada pretende combater o desemprego e ainda, como efeito adicional, reduzir a carga da Justiça do Trabalho, que somente neste ano recebeu cerca de 3 milhões de novas ações. Esse número confirma a condição do Brasil como recordista mundial de reclamações trabalhistas. 

É um recorde constrangedor, que reflete não apenas a recessão e o aumento do desemprego, mas também a verdadeira indústria da ação indenizatória, impulsionada e respaldada pelo emaranhado legislativo que a reforma pretende simplificar. A modernização das leis trabalhistas, segundo garantiu ontem o ministro Ronaldo Nogueira em entrevista a Zero Hora, deverá gerar cerca de 5 milhões de novos empregos nos próximos dois anos.

O próprio Tribunal Superior do Trabalho, na palavra do seu presidente, Ives Gandra Martins Filho, vem manifestando preocupação com o grande volume de processos que compromete a garantia constitucional de celeridade processual. Ele atribui essa deformação à complexidade do sistema processual e recursal, que permite interpretações de todo tipo. 

E sugere exatamente os meios alternativos de composição dos conflitos sociais contemplados no projeto do governo, já debatidos e aprovados por lideranças sindicais de trabalhadores e empresários. O projeto prevê 12 itens para valorização das negociações coletivas, o que deve reduzir os atuais conflitos.

Evidentemente, as alterações propostas têm que ser avaliadas e aperfeiçoadas pelo Congresso, mas devem ser acompanhadas também por uma mudança de mentalidade. A negociação direta, que está sendo proposta, precisa ser fiscalizada para que os trabalhadores não percam o poder de negociar em condições de igualdade com os patrões. 

De outra parte, chegou a hora de uma reavaliação transparente da judicialização das relações de trabalho, para que algumas deformações históricas sejam corrigidas. Como, sempre que vai à Justiça, o empregado ganha alguma coisa – de acordo com o ministro Ives Gandra Martins –, existe um assédio permanente dos escritórios de advocacia para que o trabalhador recorra aos tribunais. 

Alguns profissionais se aproveitam de imprecisões legais e são extremamente criativos na construção de argumentos para assegurar ganhos aos clientes. Mas essa prática sobrecarrega os tribunais e entrava a atividade produtiva, exatamente no momento em que o país mais precisa de empreendedores que gerem emprego. Evidentemente, o trabalhador deve ter direitos respeitados, mas os exageros contemplados pela legislação e por uma certa visão populista de operadores do Direito acaba inviabilizando a atividade empresarial.

Se a reforma contribuir para reduzir tais deformações, será um grande avanço para o país.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016



26 de dezembro de 2016 | N° 18724
EDITORIAIS

APOSTA NO CRESCIMENTO


Dois aspectos chamaram a atenção no pronunciamento que o presidente Michel Temer fez à nação, no último sábado, como mensagem de Natal: a ênfase no enfrentamento da crise econômica, que elegeu como principal meta de seu governo, e a omissão sobre as investigações da Operação Lava-Jato, que também atinge fortemente sua administração. É visível que o Planalto aposta no sucesso de uma agenda positiva na área econômica para legitimar o governo Temer, cuja reprovação só tem crescido. Na última pesquisa do Ibope, subiu de 39% para 46%.

O Brasil tem pressa – afirmou o presidente, com inteira razão, dizendo-se em sintonia com essa expectativa nacional. Lembrou que em poucos meses já promoveu avanços importantes, como a aprovação da PEC do teto de gastos públicos, a reforma do Ensino Médio e o encaminhamento da reforma da Previdência. Assegurou, ainda, que está aumentando investimentos na saúde e que continuará dando total atenção a essa área. Por fim, registrou o retorno da inflação à meta estipulada e prometeu que 2017 será o ano em que o Brasil derrotará a crise.

Tudo isso é verdade, ainda que algumas dessas medidas não passem de boas intenções, pois dependem de aprovação do Congresso e de implementação, como é o caso específico da reforma da Previdência. O problema é que o Congresso, assim como integrantes do governo e o próprio presidente, ainda enfrenta o desgaste político decorrente da Operação Lava-Jato, que não deve arrefecer no próximo ano. Ninguém ignora que a delação da Odebrecht atinge em cheio a classe política e pode desmobilizar completamente a base de apoio do governo no parlamento.

A aposta no crescimento é correta, mas o governo tem que entender que os brasileiros só voltarão a acreditar no Brasil – como pediu o presidente – quando as lideranças políticas voltarem a ser confiáveis.


26 de dezembro de 2016 | N° 18724
ARTIGOS

HÁBITOS NO FALAR

Todas as épocas têm hábitos variados. Em especial, no uso de expressões linguísticas.

Na década de 80, ouvia-se e lia-se, à exaustão, a expressão “inserido no contexto”. [Era sofisticado usá-la, em especial quando se tinha sobre a mesa ou debaixo do braço, sem nunca ter lido, um livro de Hegel, Sartre, Lukács etc.)

Tínhamos, e ainda temos, várias outras, como “vou fazer uma colocação”, “na sua fala foi mencionado etc.”. Há, também, os dialetos setoriais, no mais das vezes importados.

No setor financeiro, há, por exemplo, o “performar”, do inglês performance, além de várias expressões da mesma língua. Não se diz temos um negócio para fazer, mas, sim, temos um “deal” em construção. Grande parte desses modismos revelam tendências, compromissos, dependências, exibicionismo etc. Sempre expressam e denunciam um subterrâneo individual e/ou coletivo.

Há hoje um uso curioso e geral. Nas palestras, discursos, exposições, agradecimentos e outros, se usa, quando da introdução, a fórmula:

– Gostaria de saudar as autoridades presentes, em especial... Quando se quer expressar um juízo sobre algo, usa-se:

– Eu diria que... Há uma compulsão pelo uso dos verbos no “futuro do pretérito do indicativo”:

– gostaria de...; mencionaria que...; diria que...

Esse tempo verbal designa uma ação posterior ao tempo de que se fala. Poder-se-ia pensar que seria uma forma polida do tempo presente. Mas, não é o caso.

A rigor, o “gostaria de saudar” ou o “diria que” importa em que não se está saudando ou dizendo. O que se expressa, de forma oculta, é que só vão saudar ou dizer no futuro, sem o fazer naquele momento presente!

Por que não dizer “saúdo as autoridades, ...” ou “eu digo que...”? Por que o uso de um condicional, em que não explicita a condição? A saudação que não faz ou o dizer que não disse, mas que “gostaria” de fazer ou “diria”, está condicionada a quê?

Isso é corrente e majoritário.

Os que a utilizam parecem entender que a saudação ou o dizer não estão condicionados a coisa alguma. O mesmo, com os destinatários. Aqueles entendem que estão fazendo o que não fazem, mas que “fariam se...”? Por que, hoje, há uma fuga para o condicional, com ocultação do condicionante?

Podemos identificar uma tábua de salvação. Se houver irresignações e protestos, o recuo está assegurado: só dissemos que faríamos, mas não o fizemos... Fica espaço para retificação salvadora: “Disse que saudaria, mas não o fiz, porque sabia, de antemão que...”.

Estamos em um tempo de dissimulação. Esse hábito linguístico se encarrega de revelar.

É a covardia intelectual?

*Jurista, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal - NELSON JOBIM*


26 de dezembro de 2016 | N° 18724 
DAVID COIMBRA

O homem transformado em verme

Bem na minha frente, no café, havia um casal misto. Por misto, que digo, é a composição formada por um americano e uma latina. Como sei quem era o quê? Fácil: ele falava um espanhol vacilante e um inglês confiante, ela falava um inglês vacilante e um espanhol confiante.

Comunicavam-se assim mesmo, misturando idiomas, num esforço de compreensão que deve ter marcado o namoro. Dizem que a melhor forma de aprender uma língua nova é entre lençóis. Não sei. Suponho que, dependendo da professora, deva ser pelo menos a forma mais agradável.

Pensando nisso, ocorre-me que gostaria de aprender russo.

Mas, voltando ao casal no café, conto que o biótipo dela também era característico da América espanhola. Uma morena-jambo de boca de bergamota poncã; esguia, mas voluptuosa; uma beleza rústica, de mulher acostumada a sentir o vento nos cabelos e o sol no dorso.

Já o americano, não. O americano nada tinha de americano clássico. Não era nem loiro, nem tinha olhos azuis, tampouco podia ser considerado alto. Talvez até fosse mais baixo do que ela. E usava óculos. E seu cabelo seria classificado pela minha avó como “ruim”. Era o que ela me dizia:

– David, tu tens cabelo ruim.

Não estava feliz, aquele americano. Ao contrário, qualquer um que os observasse perceberia a aflição dele. Mas acho que só eu observava, brasileiro enxerido que sou. Os outros clientes do café estavam absortos em suas atividades. Aliás, esses cafés americanos são intrigantes. Todos têm wi-fi liberado. Então, o sujeito entra com sua pasta e seu laptop, pede um café, acomoda-se a uma mesa e permanece a tarde inteira lá, trabalhando ou estudando. O cara gasta US$ 3 e ocupa uma mesa por quatro horas. Tem gente que faz reunião de trabalho no café, por Deus. E ninguém reclama. Mas, se você está jantando num restaurante, pronto para despender US$ 120, mais a gorjeta, assim que a refeição termina, o garçom chega e coloca a conta na mesa.

Vá entender... Então, neste café, cada um se ocupava dos seus assuntos. Uma moça passava o indicador no celular, outra digitava num laptop, outro rapaz lia um livro, um velho folheava o jornal, o casal misto discutia a relação e eu olhava para eles.

Ele chegava perto do desespero e ela se situava em algum lugar vago entre a indiferença e o desprezo.

Eu pegava pedaços de frases no ar e as regava com meu cappuccino como se fossem donuts.

Ele implorava, ele era um verme. Nós, homens, se contraímos essa doença, que é a paixão, nós, homens, nos transformamos em vermes. A mulher pressente essa mutação e aí, para ela, é a glória. Ela sente prazer em fincar o salto 15 do scarpin no seu coração, ela quer amassá-lo, humilhá-lo, espezinhá-lo. Ah, ela adora isso!

E você também. Como bom verme que é, você quer rastejar aos pés dela. Se você for promovido e se transformar em vira-lata, você quer arfar e balançar o rabinho cada vez que ela afagar a sua cabeça oca.

Era nessa situação humilhante que se encontrava aquele americano, quando ela disse o que disse, e jamais esquecerei, porque foi uma frase forte.

Qual? Contarei amanhã.



26 de dezembro de 2016 | N° 18724 
L.F. VERISSIMO

Viagens fantasmas


Li que o Encouraçado Potemkin é visitado por turistas, atraídos pelo seu significado histórico. A rebelião dos seus marinheiros em 1905 foi precursora da revolução comunista que tomaria o poder em 1917, na Rússia. Mas também li que o encouraçado foi capturado e destruído pelos alemães em 1922 e que o exército branco, que se opunha à revolução, acabou de desmantelá-lo. 

O que, então, é visitado, exatamente? Seria uma reprodução do navio? Muitos dos turistas que percorrem as famosas caves de Lescaux, na França, não sabem que estão dentro de réplicas das caves verdadeiras, cujas pinturas nas paredes não resistiriam ao trânsito de visitantes. Teriam construído um falso Encouraçado Potemkin para evocar a rebelião?

Romeu e Julieta nunca existiram. Shakespeare se inspirou num poema chamado A trágica história de Romeu e Julieta, de um tal Arthur Brooke, para criar seu desafortunado casal.

A peça se passa em Verona, mas poderia se passar em qualquer outra cidade, italiana ou não, inventada ou não. O que não impediu que a imaginação popular a localizasse numa Verona real e até identificasse o balcão do quarto de Julieta na casa dos Capuletos. Vinha tanta gente olhar o balcão escalado por Romeu para os braços de Julieta, que a prefeitura de Verona resolveu oficializá-lo e garantir sua autenticidade. Afinal, um balcão por qualquer outro nome é um balcão, e que não falta na bela Verona são balcões.

Quem chega a Casablanca, no Marrocos, esperando encontrar o “Rick’s Café Américain” – encontra! Existe um bar chamado “Rick’s Café Casablanca”, que é uma cópia perfeita do café do filme, incluindo um piano da época e um pianista que passa o tempo todo atendendo a pedidos para tocar As time goes by. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não aparecem – o tempo passou para eles –, mas o bar pertence a um grupo chamado “The usual suspects”, uma das frases memoráveis do filme, dita pelo capitão Renault, que em caso de atentados manda prender os suspeitos de sempre.

Uma sugestão para agências de turismo: oferecer viagens fantasmas para lugares que nunca existiram ou não existem mais, ou ainda existem, mas falsificados.

sábado, 24 de dezembro de 2016



24/12/2016 e 25/12/2016 | N° 18723 
LYA LUFT

Essas datas


Nessas datas como Natal, virada de ano e outras, muitos têm olhos mais brilhantes e se sentem mais contentes – ou porque sua crença religiosa lhes confere isso, ou porque vão reunir pessoas amadas, talvez a família ou parte dela que esteja acessível, porque vão dar uma lembrança especial ao seu amor, ou simplesmente porque não dá para viver sempre angustiado.

Nessas datas, eu às vezes decido não escrever sobre elas. Mas acabo escrevendo. Bobagem minha, porque sempre há o que partilhar, ainda que sejam dúvidas. Por que, por exemplo, considerar datas especiais como farsa porque às vezes aproximam pessoas que nem se gostam, ou desculpam em tantas o frenesi do consumo que as deixa endividadas por todo o ano seguinte?

Essas datas não precisam ser festivais de consumismo, especialmente nesta fase de empobrecimento de quase todo mundo. Mesmo quem há alguns meses podia viver sem preocupação (desde que não cometesse excentricidades), é hora de calcular, encolher, recolher grandes impulsos. Passamos dos generosos presentes, dados e recebidos, às “lembranças” – não menos amorosas, pois revelam: “Não posso mais tanto, mas ainda posso te mostrar, lembrar o quanto és especial para mim”.

Essas datas podem ser aprendizado de economia e de afeto. Aprendemos no bolso e no coração que dinheiro não é tudo. É importante fator de segurança, dignidade e liberdade, mas tudo bastante relativo: não nos confere nenhuma nobreza, nem direitos, nem grandeza, nem, menos ainda, isso que chamamos felicidade. Acredito que muitas pessoas bem modestas têm mais chance de se sentirem amadas, acompanhadas, contentes: porque a união as mantém de pé, porque a proximidade, que de um lado propicia mais conflitos, de outro garante abraço e escuta ou um prato de comida compartilhado.

Talvez as épocas de mais penúria sejam boas para nos ajudar a reavaliar isso que chamamos “valores”, palavra que tantos pronunciam de boca cheia e coração vazio, cabeça mais ainda. O que mais vale? O carrão novo ou o filho encaminhado na vida, decente e ainda entusiasmado? O resort nas Bahamas ou poder pagar as prestações da casa modesta mas nossa, e aconchegante? 

Ganhar na Mega Sena ou recuperar a saúde que parecia perdida? Reencontrar o amigo que se afastou (e nem sabemos por quê), ver emoção brilhando nos olhos das pessoas queridas, só porque estamos juntos, esquecendo por algumas horas as rivalidades, as infantilidades, os mal-entendidos e os desentendimentos – e porque afinal ainda estamos aqui, firmes e atentos?

Gosto dessas datas que muitos dizem detestar: aquele telefonema, aquele recado na internet, aquela visita inesperada, aquela boa conversa frente a frente, lado a lado (se filhos ou netos, parece que ontem ainda estavam em nosso colo, mas passam o braço em nossos ombros, nós menores que ele ou ela). Se parceiro ou parceira, renova-se o calor de um afeto talvez antigo.

Essas datas são ainda mais especiais em tempos preocupantes aqui e pelo mundo. Que o Natal nos dê conforto, calor na alma, renovadas risadas, conversas jogadas fora, simples alegria de escutarmos nossas mútuas vozes, e olharmos nos olhos uns dos outros – ou, para quem estiver muito, muito longe, esse telefonema em que se brinca, pra disfarçar na voz a mal contida emoção.


24/12/2016 e 25/12/2016 | N° 18723 
MARTHA MEDEIROS

Noel, quero pedir que a gente volte a morrer de morte natural. Só isso

Carta para Papai Noel

Nem acredito que estou escrevendo para um cara que não existe. Mas a vida anda tão louca que uma loucura a mais não causará assombro. Olá, Papai Noel. Beleza?

Nunca escrevi uma carta para você nem quando era criança. Eu contava quais eram os meus desejos para minha mãe, pois ela garantia que tinha os seus contatos e que faria a informação chegar até a sua casa, e eu a considerava uma mulher tão incrível e cheia de poderes que não desconfiava dessa história nem um pouquinho.

Importa é que dava certo. Ganhava o que pedia. Mas eu cooperava, claro. Nunca pedi coisas caras ou difíceis de serem encontradas. A realização de sonhos impossíveis sempre funcionou em contos de fadas, mas não me parecia praticável numa vidinha mundana em Porto Alegre, então tratei, desde cedo, de desejar coisas razoáveis e realistas, sem correr o risco de me frustrar.

Porém, o que venho pedir hoje não é razoável nem realista, então resolvi apelar para o método tradicional fantasioso, que jeito.

Posso chamar você de pai em vez de papai? Fica menos infantil.

Pai, o que eu desejo é... Não, melhor não chamar de pai, vai parecer uma oração. Meu pedido fará um sobrevoo pela Lapônia e não aterrissará em local algum, ficará vagando sobre as nuvens.

Noel (agora sim, bendita informalidade), quero pedir que a gente volte a morrer de morte natural. Só isso.

Não me olhe dessa maneira, eu sei que é Natal, Noite feliz, Jingle bell, não estou querendo estragar o espírito da festa, longe de mim, mas é que pensei, pensei, pensei e não desejo outra coisa.

Morte natural significa a gente morrer bem velhinho (bem mais velhinho que você, relaxe) por pane súbita. Puf. Nada de morrer de desastre de avião por ganância do piloto, nada de morrer por falta de atendimento médico porque o dinheiro que deveria ser aplicado na saúde está na conta de políticos safados, nada de morrer numa embarcação em alto-mar fugindo do próprio país por causa de terrorismo, nada de ficar em seu país e esperar uma bomba cair sobre sua cabeça, nada de morrer na frente da escola do filho ou no estacionamento de um supermercado porque a falta de policiamento transformou a cidade num faroeste, nada de morrer por falência múltipla do Estado. Chega desses abreviamentos estúpidos e injustos. Minha proposta: antes dos cem anos, fica proibido. Depois dos cem, passa a ser facultativo. Fechado?

Dá para imaginar a dimensão do meu estupor diante da precariedade da vida a ponto de eu, uma mulher séria, acreditar que você lerá essas mal traçadas e que nos trará, de presente, mais futuro. Mas, absurdo por absurdo, resolvi arriscar.



24/12/2016 e 25/12/2016 | N° 18723 
CARPINEJAR

Sensação térmica da personalidade

Emoções são fatos. Não dá para desprezar como alguém sente uma experiência, ainda que esteja aumentando a importância do ocorrido.

A versão é a verdade de cada um. É o jeito que a pessoa percebeu emocionalmente uma cena. É o que ela pode entender ou aceitar, de acordo com a sua formação, os seus tabus e preconceitos.

Para alguns, mentir sobre a demora na entrega de um trabalho é motivo de demissão. Para outros, é educação. Para alguns, a deslealdade é motivo de separação. Para outros, é sinal de imaturidade e merece o perdão.

Tem gente que desculpa a infidelidade, tem gente que vira as costas e nunca mais oferece uma segunda chance. Eu parei de provocar a minha irmã com berros fantasmagóricos de surpresa quando notei que ela começava a chorar, exatamente os mesmos sustos que produziam risos consecutivos em meu irmão. O contentamento de um é a tristeza do próximo.

Não há como antever como os outros vão reagir sobre os dilemas e impasses da vida. É o que chamo de sensação térmica da personalidade.

Assim como a temperatura pode registrar 30 graus e a sensação térmica ser de 40 graus, o sofrimento de um amigo ou familiar pode ser bem maior do que o tamanho da realidade, o que não invalida o desabafo.

O nordestino pode se cobrir de casacos em passagem pela Serra no verão enquanto os moradores desfilam de camiseta, a impressão é que manda. Uma tentativa frustrada de assalto talvez renda mais desespero do que alguém que sofreu um sequestro.

Há a ciência do tempo, há a meteorologia, mas também as alterações sentimentais do cotidiano. Toda pessoa é um idioma à parte. Temos que nos preocupar com os efeitos da dor mais do que com a precisão dos acontecimentos.

Não se deve desmerecer a conversa porque o assunto não nos interessa. Ou julgar com os nossos próprios referenciais. Para quem sabe nadar, o medo da água é ridículo. Para quem gosta de show, o medo da multidão é patético. Para quem dança, as coreografias da micareta são fáceis.

Esquecemos de ponderar sobre a sensação térmica do coração.

Não me incomodo com os passionais, os dramáticos e os operísticos. Respeito os efeitos especiais da linguagem. O exagero é uma forma de dizer o que está incomodando e de diminuir a angústia com as palavras.



24/12/2016 e 25/12/2016 | N° 18723 
DAVID COIMBRA

A traidora na noite de Natal


A mais memorável noite de Natal da minha vida aconteceu quando tinha uns seis anos de idade. Uso o adjetivo memorável porque preservo aquela noite límpida na lembrança, mais do que a do Natal do ano passado. Haveria de ser mesmo um Natal da infância, que Natal é coisa de criança.

Está bem, poderia ser da infância do meu filho e, de fato, houve um em que a inocência dele me proporcionou momentos especiais. Eu havia contratado um Papai Noel para ir lá em casa. Quando o homem bateu na porta, falei para o Bernardo:

– Vai atender.

Ele foi correndo e, quando abriu a porta, ficou mudo de emoção. O Papai Noel, aliás, ótimo Papai Noel, muito convincente, entrou, o acomodou sobre os joelhos e começou a conversar conversas do Polo Norte. O guri batia os braços de agitação com tanta velocidade, que achei que levantaria voo.

Foi lindo. Mas o “meu” Natal, aquele em que fui, digamos, protagonista, foi o dos meus seis anos.

Deu-se na casa do meu avô, na Rua Dona Margarida. Minha avó passou o dia inteiro na cozinha, preparando a ceia. Enquanto isso, os outros adultos arrumavam o cenário da festa, no pátio, debaixo da parreira carregada de uvas brancas e pretas. Meu avô estendeu fios de luzinhas coloridas na parreira e, sob elas, foi instalada a grande mesa retangular. As margens estavam enfeitadas por hortênsias que a minha avó cultivava o ano inteiro. Sobre a toalha, ela ia deitando travessas com as comidas mais deliciosas – minha avó cozinhava melhor do que qualquer um desses Alex Atalas da vida.

Havia muita gente. Amigos e vizinhos conversavam e riam sob os cachos de uva. O namorado da minha madrinha, que ela chamava de Quaquá, trouxe um violão, e ele e um amigo puseram-se a cantar. Nunca tinha ouvido aquela música, até então, e só fui ouvi-la de novo uns 20 anos depois, mas lembro exatamente como eles cantaram, a entonação, o ritmo, tudo. Gostei tanto, que pedi que repetissem, e eles repetiram. Era uma música gravada pelos Beatles, Baby, it’s you. No refrão, depois de um chala-lalalá, os dois repetiam uma palavra em inglês:

– Cheat! Cheat! Pronunciavam: “Tchit! Tchit!”. Perguntei para o Quaquá o que significava.

– Traidora! Traidora! – ele respondeu. Fiquei um pouco perplexo. “Traidora” não podia ser considerada coisa boa, e a música era tão bonita...

Traidora, traidora... Então, a música tinha sido feita para insultar a moça. Era uma vingança. Aos seis anos de idade, aquilo me desconcertou. O amigo do Quaquá, percebendo minha decepção, emendou:

– Mas ele não acredita que ela seja traidora. É o que os outros dizem, mas ele quer ficar com ela.

Sorri. Assim, sim. Não prosseguimos a conversa. Alguém os chamou ou eu é que fui chamado, não sei, só sei que a noite continuou amena e boa. Houve presentes, tenho certeza de que houve, mas não lembro o que ganhei. Lembro que todos estavam bem, todos sorriam e pareciam gostar uns dos outros, e aquilo me fazia feliz.

Desejo uma noite de Natal parecida para você, para todos nós. Desejo que as pessoas à sua volta sintam-se contentes por estarem juntas. E, se alguma ideia ou ocorrência, por um breve instante que seja, anuviar o pensamento de um menino, corrija rápido, corra a dizer algo bom. Talvez você ajude a fazer com que a beleza daquela noite dure toda uma vida.



24/12/2016 e 25/12/2016 | N° 18723 
ANTONIO PRATA

A PESTE AZUL

Um de nós elogiou o hambúrguer, o outro comentou sobre as carnes que tinham surgido nos últimos anos, o papo evoluiu pras técnicas de engorda do gado (no pasto ou em confinamento), o termo “confinamento” trouxe um certo desconforto com nosso hambúrguer e o Fabrício falou “Ah, vamos mudar de assunto, minha vida já é complicada o suficiente, não quero agora, no dia 20 de dezembro, ter que começar a sofrer por todas as vacas do mundo”.

Ficamos um tempo em silêncio, foquei no hambúrguer, na tarde ensolarada e nas pessoas que, à nossa volta, também faziam daquele almoço de terça- feira uma minicelebração de fim de ano, embaladas por essa brisa que refresca dezembro, vinda ali de janeiro, conforme nos aproximamos do Natal. A garota do caixa, conversando com o garçom, deu uma risada. Um barbudo desembrulhou um disco de vinil. Um careca chegou numa mesa grande e foi recebido com pompa e circunstância: “Pereba! Pereba! Pereba!”.

Eu já estava quase ouvindo o mar quebrando na praia em algum ponto da Simão Álvares quando o Fabrício me trouxe de volta pro concreto: “A gente vive uma época muito religiosa.”. Concordei: “O terrorismo islâmico, a bancada da Bíblia, o Crivell...”, “Não”, ele me cortou, “Isso também, mas não tô falando de Deus. Agora tudo é religião. A religião vegana e a religião carnívora. A religião do carro e a religião da bicicleta, a religião da amamentação e a religião da cesariana, a religião da Lava-Jato e do ‘Volta, Dilma!’, todo mundo é fanático e, se você discorda um tiquinho, você é um herege que tem que ser bloqueado da vida da pessoa, que nem no Facebook”.

Quando ele acabou de falar, lembrei do filme O sétimo selo, do Bergman. O Facebook me pareceu muito semelhante à Europa do século 14, devastada pela peste negra: cada post uma cruz erguida por um messias instantâneo, pequenas seitas de “likes” e “comments” atrás, vagando pelas planícies azuis das timelines, comungando a iluminação do dia. “Goiabada no temaki, não!”, “Se o seu filho usa fralda descartável, você é um assassino de golfinhos!”, “Eis aqui o que eu acho sobre o prepúcio nojento do terceiro pinto no clipe ridículo da Clarice Falcão”. Uma diferença pras seitas do século 14 é que nas mídias sociais os chicotes são raramente usados para a autopenitência; costumam castigar mais o lombo alheio.

Antes da sobremesa já estávamos enredados na velha discussão de boteco do século 21: a humanidade sempre foi esse lixo, e as redes sociais só revelaram o chorume, ou o ódio e a intolerância aumentaram nos últimos anos? Não sei, mas tenho a sensação de que colaborou pra pindaíba termos parado de engordar as crianças soltas nos pastos e passado a criá-las em confinamento: escola, condomínio, inglês, clube, iPad. 

Em 1985, quando ainda existia uma instância muito louca, libertária, diversa e apartidária chamada “rua”, eu passava uma hora no amigo judeu, outra na casa da amiga com a avó janista, comia sal no baio macrobiótico e bebia no açude de groselha Milani. “Tolerância” não era um conceito ensinado na escola, mas um pré-requisito básico para você conseguir brincar de esconde-esconde com 15 crianças diferentes.

Olho a garota do caixa rindo com o garçom, o barbudo do vinil tomando sua cerveja, o Pereba contando uma história na mesa grande; faz sol lá fora e um jacarandá-mimoso estende sua sombra para dentro do restaurante. Não é possível que todo mundo se odeie tanto.



24/12/2016 e 25/12/2016 | N° 18723 
PIANGERS

O dia em que fui Papai Noel

Mais de uma pessoa já me disse que eu pareço com o Grinch, aquele personagem de desenho animado e filme que odeia o Natal. Minha cara de mau e barba desregrada me conferem um ar de malvadeza. Ao ponto de alguns amigos me chamarem de Barba Sem Alma. O apelido só me deixava mais amargo. Eu achava que até tinha alma, mas ficar mostrando assim pras pessoas era sinal de fraqueza. Só existia um momento em que eu abria completamente a guarda e virava um doce: quando eu encontrava uma criança.

Assim foi por toda a minha adolescência, até eu conhecer a minha esposa quando completei 23 anos. Ela parecia uma criança, demonstrando os sentimentos o tempo todo. Fazia careta quando ficava triste, tinha um sorriso enorme quando algo bom acontecia. Era como estar perto de uma criança sincera. Isso foi me transformando em um homem mais sensível. Um homem barbudo com cara de mau, mas sensível.

Quando conheci a família da Ana, apesar dessa primeira impressão assustadora, acho que eles gostaram de mim e gostaram ainda mais quando nossa primeira filha nasceu dois anos depois. A Anita tem uma prima quase da mesma idade, filha do irmão da Ana. Quando as duas fizeram quatro anos, o presente mais pedido no Natal foi o mesmo: a primeira bicicleta.

O Papai Noel escolhido para a entrega, adivinhem, foi o único barbudo da família. Um barbudo com cara de mau. Avisei as crianças que precisava ir ao supermercado, saí pela porta principal e dei a volta até um quarto. Coloquei a roupa vermelha que era de um tio da Ana, certamente duas vezes mais gordo do que eu, enchi o saco de presentes com bugigangas e catei as duas bicicletas das Meninas Superpoderosas na garagem. Era a primeira vez que eu me vestiria de Papai Noel: eu treinava baixinho o que iria dizer, experimentava a risada clássica. “Ho, ho, ho”.

Toquei a campainha, suando embaixo daquela touca com algodão. A roupa grande demais. O saco cheio de bugiganga. As duas bicicletas, uma em cada mão. Quando eu olho pra cima, um ninho de abelhas está perto da campainha. Elas parecem ter odiado aquele barulho, e a primeira coisa que viram era este Papai Noel atrapalhado, com as mãos ocupadas. Vieram todas pra cima de mim. Lembro de ser picado no rosto, no pescoço, na mão. 

As crianças vieram correndo felizes e gritando “Eeeeee”, mas quando abriram a porta viram o Papai Noel jogado no chão, lutando contra abelhas, utilizando suas bicicletas como armas para se livrar das picadas. O Papai Noel gritava: “Fechem a porta! Fechem a porta!”.

Acabei me livrando das abelhas, correndo pra dentro da casa. Empurrei uma bicicleta pra cada prima, virei o saco no meio da sala, gritei “Feliz Natal” e corri pro banheiro tratar tirar aquela roupa. As meninas ainda ficaram uns vinte minutos batendo na porta do banheiro e gritando “Papai Noel tá fazendo cocô!”.

A história do Grinch conta que seu coração era pequeno e ele odiava o Natal. Quando roubou todos os presentes e pretendia destruí-los, seu coração cresceu três vezes e ele se tornou um personagem sensível. Meu coração cresce três vezes toda vez que encontro uma criança. Agora, minha cara de mau, essa cresce três vezes toda vez que encontro um enxame de abelhas.



24/12/2016 e 25/12/2016 | N° 18723 
L.F. VERISSIMO

Os Magos


“E, tendo nascido Jesus em Belém da Judeia no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, dizendo: ‘Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’. E o rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e toda Jerusalém com ele. E congregados todos os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo. 

E eles lhe disseram: ‘Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo profeta. E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá, porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o povo de Israel’. Então Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exatamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes apareceria. 

E, enviando-os a Belém, disse: ‘Ide, e perguntai diligentemente pelo menino, e quando o achardes, participai-me, para que também eu vá e o adore’. E, tendo eles ouvido o rei, partiram, e eis que a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino. E, vendo eles a estrela, alegraram-se muito. E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, lhe ofertaram dádivas: ouro, incenso e mirra. E, sendo por divina revelação avisados em sonhos para que não voltassem para junto de Herodes, partiram para sua terra por outro caminho.”

Até aí, é o que conta a Bíblia. Algumas dúvidas. Dá-se pouca atenção à visita que os magos fazem a Herodes antes de procurarem o menino, tanto que, em encenações do episódio, Herodes nunca é mencionado. 

Na Bíblia, está escrito que Herodes chamou os magos “secretamente” à sua presença, o que já sugere que sua intenção não era apenas conversarem numa boa. Também está escrito que Herodes “perturbou-se” com a notícia do nascimento de um futuro rei dos judeus. O que não o impediu de, cinicamente, pedir que os Magos o informassem quando tivessem descoberto o Cristo, para também ir adorá-lo.

Por que Herodes não mandou que os Magos fossem seguidos até avistarem a estrela que mostraria o local do nascimento do Cristo? Especulação: na sua conversa secreta com os Magos, Herodes teria pedido que eles matassem o recém-nascido, o que o pouparia de mandar matar todos os recém-nascidos em Belém. Apenas um morto impediria a morte de milhares. Com uma punhalada certeira, os Magos salvariam a vida de muitos inocentes. E Herodes só esperaria a notícia da morte do Cristo para festejar.

A caminho do local que a estrela do Oriente apontava, os três magos teriam discutido quem empunharia o punhal que mudaria a história do mundo. O golpe seria dado antes ou depois da oferta das dádivas? Mas, chegando à manjedoura e vendo o menino no colo de Maria, apiedaram-se dele, prostraram-se e ofertaram o ouro, o incenso e a mirra. E naquela noite sonharam que Herodes os perseguia por o terem traído e partiram para sua terra por outro caminho.

A Bíblia não diz mais nada sobre os reis magos. Não se sabe se Herodes os alcançou para vingar-se da traição. Sabe-se, isto sim, que Herodes mandou matar todos os meninos de Belém.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016


Jaime Cimenti

Conto de Natal

Na madrugada fria, no céu escuro sem qualquer estrela, em meio aos trovões, ao vendaval e às chuvas torrenciais, a luz do Farol do Pontal brilhava, bem no alto do penhasco, provavelmente para nenhum navegante, naquele 25 de dezembro. Mas o faroleiro Jonas, como sempre, cumprira o dever de deixar funcionando as lentes, as lâmpadas e os espelhos refletores.

Há mais de 30 anos ele morava sozinho no farol e orgulhava-se de jamais ter deixado de cumprir com suas obrigações. Uma ou outra companhia feminina eventual naqueles anos todos, nenhum filho, pouquíssimas visitas de parentes ou amigos - para Jonas, aquela véspera de Natal fora como tantas outras: em silêncio, solitário, apenas o pequeno e velho presépio sinalizando a data. Pão com sardinha, conserva de frutas em lata, alguns cálices de vinho tinto popular com "gosto de uva", como ele dizia, e um café passado no coador foram a ceia.

Ele já ia deitar quando observou o mar e viu algo branco nas ondas, além das espumas. Algo que media alguns metros. Desceu os 150 degraus da torre e precisou entrar apenas alguns metros no mar para recolher a pequena canoa vazia. As duas gaivotas dentro dela esvoaçaram assim que ele chegou. Não havia remos. Dentro do pequeno barco havia só um lenço cor de rosa preso numa das tábuas do fundo.

Alguma coisa fez Jonas aguardar na praia, junto à pequena canoa branca. Ele não se importou com o frio, nem com os ventos ou com a garoa. Deixou o pensamento fixar-se no infinito do mar. Sempre pensava que nada era mais vital, misterioso, perigoso ou maior. O mar. Milhões de segredos e histórias, de movimentos de eterno retorno, milhões de vidas. Depois de observar a beleza daquele mar ainda bravio, ele enxergou um corpo de mulher que as ondas traziam. 

Foi até lá, conseguiu tomá-la nos braços como se fosse um noivo e a levou até o farol. Ajudou-a a respirar e a vomitar a água do mar que tinha engolido. Por milagre ela ainda estava viva. Deu-lhe leite quente e deixou, depois de lhe dar uma toalha, um pijama e acomodá-la numa pequena cama de solteiro, para que ela dormisse.

Sentiu logo que aquela mulher de 50 e poucos anos como ele, de cabelos e olhos claros, estatura mediana, nem magra nem gorda, queria apenas descansar naquele momento. Estava sem forças, precisava dormir - quem sabe, sonhar?

Por algum tempo Jonas ficou observando a navegante. Secou um pouco seus cabelos encostando levemente uma toalha para não acordá-la. O acontecimento mudara a rotina de seu Natal. Ele ficou imaginando quem seria aquela mulher e o que exatamente teria acontecido com ela e a canoa em alto-mar, naquela noite de tempestade. De onde teria vindo? Para onde ia? Era casada? Tinha filhos? Qual seria sua profissão? Quais eram seus sonhos? Sabia que as respostas, se é que as teria, somente viriam na manhã seguinte e se ela efetivamente sobrevivesse. Jonas tentara contato para socorro médico. Não conseguira.

Ele rezou e adormeceu.

a propósito...

Na manhã seguinte, o sol apareceu. Jonas acordou, preparou o café da manhã para eles e esperou que ela acordasse. Agnes, esse era o nome dela, acordou e assustou-se um pouco vendo que estava de pijama masculino listrado, no topo da torre de um farol. Agradeceu muito a ajuda, disse que na noite anterior decidira ir, sozinha, de canoa para alto-mar, sem plano de voltar ... Queria a última viagem, o final... Então, a tempestade a jogou para fora e ela, boa nadadora, mudara de ideia e conseguira chegar perto da costa quando fora recolhida por Jonas.

Nada acontece por acaso. Feliz Natal e pode ficar por aqui, até quando não sei ou não saibas, Agnes.


O debate pós-crescimento

Decrescimento - Vocabulário para um novo mundo (Tomo Editorial, 312 páginas, tradução de Roberto Cataldo Costa), organizado pelos pesquisadores Giacomo D'Alisa, Federico Demaria e Giorgos Kallis, da Universidade Autônoma de Barcelona e membros da Research & Degrowth, tem prefácio dos organizadores e apresentações de Felipe Milanez e Chico Whitaker e, em síntese, é um livro de referência essencial para o debate pós-crescimento.

O decrescimento é mais uma teoria da transformação social do que uma teoria do desenvolvimento. Nesta obra a coleção de ensaios cuidadosa e acessível, de uma gama de autores internacionais como Onofrio Romano, Marco Deriu, Sergio Ulgiati, Arturo Escobar, Susan Paulson, Mauro Bonaiuti e Sylvia Lorek, de leitura obrigatória, oferece muitas perspectivas diferentes que estimularão uma nova reflexão sobre que tipo de sociedade queremos e poderíamos ter.

A partir da ideia que vivemos em um momento de estagnação, empobrecimento rápido, aumento de desigualdades e desastres socioecológicos, no discurso dominante isso tudo seria decorrente da falta de crescimento ou do subdesenvolvimento. Este livro argumenta que o crescimento seria a causa dos problemas e que ele se tornou antieconômico, ecologicamente insustentável e intrinsecamente injusto.

Um movimento que começou na França e se espalhou pelo resto do mundo pretende que o debate público sobre a descolonização do idioma do economicismo e o crescimento econômico fosse abolido como objetivo social. "Décroissance", decrescimento, passou a significar, para eles, o rumo desejado de sociedades que vão utilizar menos recursos naturais e vão se organizar para viver de forma radicalmente diferente.

Simplicidade, convivencialidade, autonomia, cuidado e recursos comunitários são algumas das palavras que fazem parte do vocabulário do decrescimento. Esta obra apresenta e explica diferentes linhas de pensamento, ação, alianças, falando de autonomia, capitalismo, hortas urbanas, consumo de energia, ecocomunidades, despolitização, bioeconomia, ecologia política, cooperativas e dezenas de outros tópicos que inspiram todos que pretendem a construção de um mundo melhor.

Enfim, o livro tenta romper com o mito de que o crescimento econômico desenfreado é a panaceia para todos os males e propõe alternativas imaginadas coletivamente, implementadas de modo democrático e solidário, com vistas à busca de uma nova sociedade.

O tema é polêmico, claro, mas sem dúvida essa obra, no mínimo, contribui (e muito) para um debate indispensável sobre que tipo de crescimento ou decrescimento necessitamos, para um planeta melhor para todos.

lançamentos

O brincar e o jogar - Compreendendo significados (Artes e Ofícios, 272 páginas), organizado por Inúbia Duarte, com textos de Anete Ingride Kopp, Anne Pflüger, Eliane Goldstein e outras psicólogas e psicanalistas, traz experiências e estudos sobre o brincar e o jogar, temas fundamentais para o ser humano.

Educação e Sociologia (Edipro, 96 páginas), de Émile Durkheim (1858-1917), sociólogo francês de renome mundial, aponta o ensino como responsável pelo bom funcionamento de uma sociedade. A obra nega o caráter individual da educação e a coloca como construtora de um ser social, expressão de crenças, práticas e opiniões da comunidade.

Oswald - Ponta de lança e outros ensaios (Editora Bestiário, 148 páginas), do professor-doutor em História Éder Silveira, autor de A cura da raça e Tupi or not Tupi, Nação e nacionalidade em José de Alencar e Oswald de Andrade, traz densos ensaios sobre Monteiro Lobato, Modernismo, Di Cavalcanti e Mario de Andrade.

23 de dezembro de 2016 | N° 18722 
CLÁUDIA LAITANO

Resistir


Muitos artistas e produtores culturais vêm se referindo a 2016 como o ano da “resistência” – uma palavra de ecos heroicos, sem dúvida, mas que comporta sentidos diversos e até mesmo opostos. Resiste-se fincando o pé no chão ou nadando contra a correnteza, mas também entrando em movimento e adaptando-se a um novo ecossistema. Talvez uma boa palavra para manter em mente em 2017 seja “adaptação”, no sentido darwinista do termo: o esforço de harmonizar-se ao ambiente para sobreviver e, com sorte, evoluir.

São vários os exemplos de iniciativas culturais que nos últimos tempos tiveram que fazer uma escolha entre a adaptação e a extinção. A Jornada de Passo Fundo foi uma delas: cresceu tanto nos tempos de fartura, que, nos moldes como estava, tornou-se economicamente inviável e foi cancelada em 2015. Em setembro deste ano, porém, a UPF confirmou a volta do evento em 2017 – menor, mais conectado com a região, mas não menos relevante. 

Na semana passada, foi a vez de a Bienal do Mercosul anunciar um ano de interrupção e o retorno em 2018, com um orçamento bem menor do que o das edições anteriores, mas com empenho redobrado para que a comunidade cultural gaúcha aproprie-se da mostra de forma ainda mais intensa.

Como essas, são muitas as iniciativas que têm ajudado a soprar para longe o baixo-astral que parece estacionado sobre os céus do Rio Grande do Sul. A partir da mobilização de um pequeno grupo de artistas com vontade de fazer as coisas acontecerem, o Vila Flores movimentou o 4º Distrito como nunca nos últimos meses. Eventos como FestiPoa Literária, Fantaspoa ou Cine Esquema Novo já nasceram no “esquema novo” dos orçamentos enxutos e das soluções alternativas para atrair público e patrocinadores.

Claro que é triste ver o fim da TVE e da FM Cultura, principalmente pela forma precipitada e desinteligente como se desenrolou todo o processo, e encerrar uma longa história de serviços prestados à cultura local. Acima de tudo, é dramático ver tanta gente perdendo o emprego em tempos de crise. 

Mas, neste momento, a maior homenagem que poderia ser prestada a esse legado de pluralidade é extrair da inédita mobilização da comunidade cultural gaúcha a energia para construir alternativas que preencham, pelo menos em parte, a lacuna aberta pela extinção da Fundação Piratini. A tecnologia com certeza oferece possibilidades que não existiam há 40 anos, quando a TVE foi criada, e novos modelos de financiamento podem ser testados. A hora é de pôr a mão na massa. Resistir, adaptar-se, sobreviver.



23 de dezembro de 2016 | N° 18722 
DAVID COIMBRA

50 anos morando com os pais

Quase todas as pessoas que conheço que são contra o pacote de Sartori e as reformas de Temer seriam contra todos os pacotes de Sartori e todas as reformas de Temer. Poderiam ser reformas e pacotes completamente diferentes ou poderiam ser exatamente como elas acham que têm de ser. Elas ainda assim seriam contra.

Trata-se de oposição incondicional. Mas, se o partido com o qual elas simpatizam estivesse no poder e apresentasse idênticas propostas de reforma e idêntico pacote, elas seriam a favor.

Trata-se de apoio incondicional. Essa é uma das tragédias da política brasileira. Não importa o que é feito, importa quem faz. Sempre foi assim, mas não tanto como agora. São os efeitos do populismo.

O populismo só sobrevive se fraturar a sociedade entre os que seriam a favor do povo e os que seriam contra o povo – na concepção do populista, obviamente. O populista tem de promover essa divisão, porque ele se justifica como defensor do povo. Para defender o povo, ele tem de defender contra alguém. Quem? O inimigo do povo, claro. É preciso apontar o dedo acusador para o inimigo do povo.

Para o populista, a sociedade nunca é múltipla, nunca é complexa. Não existe mobilidade, os atores sempre fazem os mesmos papéis. Tudo é binário, zero ou um, branco ou preto, malvados ou bonzinhos.

É uma lógica funcional, porque as pessoas gostam de pensar que há um governo ou um Deus ou um pai a protegê-las das perversidades do mundo.

O populismo petista jogou parte da sociedade no “outro lado”. De lá, do outro lado, essa parte da sociedade no princípio observava com desconfiança, mas aos poucos passou a odiar o PT tanto quanto o PT a odeia.

Essa é a novidade no Brasil dos anos 10. Antes, havia o petista que era contra tudo o que não era feito por petistas. Agora, há o antipetista que é contra tudo o que é feito por petistas.

O PT, mesmo liquidado como partido, está no centro da sociedade e da política brasileiras, e aí ficará ainda por muito tempo.

No Rio Grande do Sul, esse fenômeno, de certa maneira, sempre ocorreu. Alguém disse que o Rio Grande do Sul é um avião que os passageiros tentam derrubar em pleno voo a fim de matar o piloto.

É isso.

O Rio Grande do Sul não é o Estado mais politizado do Brasil. É o Estado mais populista do Brasil. É o Estado que se orgulha de seus velhos caudilhos, todos eles autoritários, demagogos, ditadores de fato ou em potencial, todos eles patriarcais, todos eles supostos protetores do povo. Todos eles populistas: Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas, Brizola e Prestes, mais Costa e Silva, Médici e Geisel, e, para arrematar, o petismo de raiz.

A sociedade gaúcha almeja sempre estar sob a tutela do Estado, como um filho que mora com os pais até os 50 anos de idade. Mas de quem é a tutela? Do meu grupo ou do seu grupo? O meu grupo está sempre certo, o seu está sempre errado. Por princípio, tudo o que o lado de lá fizer é ruim e tudo o que o lado de cá fizer é bom. É o que o populismo ensina. É do que o populismo vive.

Será que o pacote de Sartori e as reformas de Temer não podem ter coisas boas e coisas ruins? Será que não pode haver uma discussão madura e racional a fim de eliminar o que é ruim e melhorar o que é bom? Temos sempre que sabotar e atrapalhar em vez de colaborar e somar?

Pobre Brasil, pobre Rio Grande. Nunca sairemos da casa dos pais.


23 de dezembro de 2016 | N° 18722 
NÍLSON SOUZA

SOBREVIVENTES


Como a maioria das pessoas, tenho acompanhado com especial atenção os relatos dos passageiros e tripulantes que sobreviveram ao acidente com o avião da Chapecoense, os quatro brasileiros e os dois bolivianos, todos com alguma sequela, mas já fora de perigo. Num caso desses, é sempre muito perturbador entender por que esses indivíduos foram poupados pela mão da fatalidade ou por algum desígnio sobrenatural, dependendo da crença de quem interpreta.

A gente sempre procura uma explicação lógica: estava sentado no último banco, usou o cinto, adotou a posição recomendada pelos manuais de sobrevivência. Aí, ouve-se o sobrevivente e ele diz que não foi nada disso. A maioria conta que sequer percebeu o que estava acontecendo. Um conta que viajava no banco do meio e, quando acordou do choque, percebeu que os dois colegas de fileira estavam mortos.

Seja como for, não há como sair igual de uma experiência dessas. Percebe-se nas manifestações dos sobreviventes um imenso sentimento de gratidão e o firme propósito de encarar a vida de outra maneira. O lateral Alan Ruschel, por exemplo, faz questão de repetir nas suas entrevistas:

– O que eu levo da lição é viver a vida, aproveitar a vida e fazer o bem.

Na verdade, todos deveríamos pensar assim. O simples fato de estarmos vivos já deveria ser encarado como um milagre biológico, considerando-se a proporção dos que não nascem, a mortalidade infantil e as vidas abreviadas pela violência do dia a dia. Em algum momento de nossa existência, talvez também tenhamos sido selecionados pelo acaso ou por alguma força insondável sem ao menos percebermos.

Compartilho essas reflexões com meus leitores nesta véspera de Natal porque esta é uma época propícia para também pensarmos no que fazer com o restante de nossas vidas. Considerando-se o destino inexorável dos seres humanos desde o princípio dos séculos, somos todos sobreviventes. Serve-nos, portanto, a sábia decisão anunciada pelo jogador gaúcho:

– Aproveitar a vida e fazer o bem.

Feliz Natal para todos nós


23 de dezembro de 2016 | N° 18722 
EDITORIAIS

PELA GERAÇÃO DE EMPREGOS


Finalmente, o governo federal deu um passo importante no sentido de modernizar a legislação trabalhista, remover entraves ao crescimento econômico e combater a principal mazela social do país na atualidade, que é o desemprego de 12 milhões de trabalhadores. O pacote de medidas que será enviado ao Congresso na forma de projeto de lei com regime de urgência desburocratiza as relações de trabalho e possibilita que acordos de negociações coletivas entre trabalhadores e empresas tenham prioridade sobre a lei. Só esta mudança já representa um avanço histórico.

A Consolidação das Leis do Trabalho, elaborada durante o governo de Getúlio Vargas, criou uma série de benesses que foram ainda mais ampliadas e multiplicadas pela Constituição de 1988. Só que, na prática, essa legislação paternalista e ultrapassada passou a fazer efeito contrário: em vez de proteger o trabalhador, onera o empresário, alimenta a judicialização excessiva das relações trabalhistas, estimula a informalidade e provoca desemprego. Faz muito tempo que lideranças empresariais vêm lutando para modificá-la.

A proposta do governo atende à expectativa dos empregadores, mas ainda provoca certa desconfiança das centrais sindicais, que temem a precarização da legislação. Para tranquilizá-las, o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, assegura que os direitos dos trabalhadores serão preservados, que não haverá qualquer alteração em vantagens como férias, décimo terceiro salário, Fundo de Garantia, vale-transporte, vale-refeição e repouso semanal remunerado.

A temida reação negativa também foi atenuada pelas medidas que precederam o anúncio e que, inquestionavelmente, beneficiam os trabalhadores. Pela manhã, o governo anunciou a liberação do saque integral de contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), com potencial para injetar R$ 30 bilhões na economia e para beneficiar 10 milhões de pessoas. Além disso, comprometeu-se com a redução pela metade dos juros do cartão de crédito ainda no primeiro trimestre de 2017.

Talvez a minirreforma trabalhista anunciada ontem não seja exatamente um presente de Natal, como exagerou o presidente Temer, mas certamente também não é o presente grego ironizado pela oposição. É, na realidade, e assim deve ser encarada pelo Congresso, uma tentativa concreta de modernização das relações de trabalho que precisa ainda ser aperfeiçoada.

A EXTINÇÃO DAS FUNDAÇÕES

Opacote de reestruturação da administração estadual avançou significativamente na Assembleia Legislativa com a aprovação dos projetos de extinção de fundações e órgãos estaduais, em votações marcadas pela forte resistência da oposição e por protestos de sindicatos e corporações de servidores. Por mais que algumas dessas instituições tenham sua atuação associada a diferentes áreas do cotidiano dos gaúchos, o fato é que, em muitos casos, não havia mais sentido em continuarem sendo bancadas pelo poder público. O desafio, agora, é garantir uma transição tranquila, para evitar a descontinuidade ou queda de qualidade nos serviços realmente essenciais prestados por algumas dessas instituições.

Num primeiro momento, as medidas aprovadas representam a demissão de mais de mil servidores celetistas e o remanejamento de centenas de outros. O impacto social aos trabalhadores e a seus familiares, portanto, é considerável. Ainda assim, o governo estadual garante não haver outra saída para a estrutura do Estado voltar a caber no bolso dos contribuintes que a sustentam.

Por acreditar nisso, o Executivo e os parlamentares que o apoiam vêm se submetendo a grande desgaste político particularmente entre sindicatos e corporações de servidores. E agem assim por acreditar que estão sendo fiéis ao compromisso assumido com a maioria da população.

Resta esperar que o processo de destinação de bens e imóveis e de redefinição das atribuições dos órgãos extintos ocorra de forma sensata, responsável e eficaz. Alguns serviços precisam continuar ao alcance da população, com níveis adequados de custo e qualidade. É preciso também que o governo saiba administrar com firmeza e sensibilidade o inconformismo de categorias que já começam a paralisar serviços indispensáveis.