quarta-feira, 6 de julho de 2022


06 DE JULHO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

POTENCIAL DESPERDIÇADO

Um trabalho do Banco Mundial, divulgado na segunda-feira, traz novas projeções alarmantes sobre o impacto da pandemia no potencial de desenvolvimento do país. O relatório Capital Humano Brasileiro - Investindo nas Pessoas mostra que, especialmente devido a prejuízos no aprendizado, uma criança nascida em 2021 perderá, em média, 46% da sua capacidade de acúmulo de habilidades até chegar aos 18 anos. Essas limitações tendem a comprometer a produtividade desses indivíduos na vida profissional, refletindo-se na renda que terão no futuro. São condições desfavoráveis que, lamentavelmente, se convertem em um freio nas possibilidades de crescimento sustentado da economia nacional.

A crise sanitária, aponta o Banco Mundial, piorou uma situação que já era grave. Para uma criança brasileira que veio ao mundo em 2019, as perdas no potencial de aquisição de aptidões eram de 40%. Pelos cálculos da época, dado o nível lento de progresso do país nos anos anteriores, estimava-se que o Brasil somente alcançaria o nível dos países desenvolvidos em seis décadas. Agora, indica o trabalho, serão necessários pelo menos mais 10 anos apenas para voltar aos patamares de 2019, um retardamento que se configura em uma verdadeira tragédia geracional capaz de atrasar ainda mais o país na corrida para recuperar o terreno perdido em termos de qualidade de vida e desenvolvimento. É um cenário preocupante.

O desperdício dos talentos dos pequenos brasileiros não é atribuído apenas às fragilidades da educação, agravadas no período de escolas fechadas, mas também pela oferta de serviços públicos de saúde aquém do desejável. Assim, aponta o Banco Mundial, torna-se imperativo acelerar a recuperação do aprendizado, especialmente nas escolas públicas, que atendem os estudantes mais prejudicados. 

É preciso combater a evasão, reforçar os conteúdos básicos e avançar em infraestrutura para oferecer internet e equipamentos adequados para que esses alunos também possam adquirir competências digitais, especialmente nos locais dedicados a receber os estudantes mais carentes. O Sistema Único de Saúde (SUS), por seu turno, teria o papel de proteger essas crianças e adolescentes das sequelas físicas e emocionais da pandemia. A instituição aconselha ainda o fortalecimento de programas de transferência de renda.

Mas sabe-se que a forma mais eficaz de recuperar capacidades é dar atenção especial à educação pública. Tanto ensino quanto saúde de qualidade exigem financiamento adequado, junto a uma gestão bem-feita e estratégias robustas. Neste sentido, merece reflexão o fato de o país estar fazendo um grande esforço para desonerar combustíveis fósseis, com objetivos de curtíssimo prazo, retirando receitas de Estados e municípios que oferecem esses serviços na ponta. Corre-se o risco de tornar ainda mais penosa e longa a caminhada para devolver a esperança a milhões de crianças e assegurar ao país melhores condições de reencontrar a trilha da redução da desigualdade e da retomada do progresso econômico.

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