05 DE JULHO DE 2022
NILSON SOUZA
O dilema do bonde
A polarização política no país e o vale-tudo da disputa eleitoral que se avizinha me lembram o célebre Dilema do Bonde, questão teórica que costuma ser apresentada em cursos e debates sobre ética. Tem várias versões, mas a que recordo de minhas leituras sobre o assunto é mais ou menos assim: imagine que você está dirigindo um bonde sem freios e, no trilho à sua frente, estão cinco pessoas que você vai atropelar. Você tem a opção de mudar a direção do veículo, o que resultaria na morte de uma única pessoa que está no outro trilho. O que você faz?
Diante da opção utilitarista e matemática de que a morte de uma pessoa é mais aceitável do que a morte de cinco, a maioria de nós não hesitaria em virar a chave para que o bonde fatal atropelasse a vítima solitária. Mas aí os maquiavélicos formuladores da hipótese complicam a nossa vida: mesma situação, mas você está fora do bonde e percebe que poderia salvar os cinco sujeitos ameaçados se empurrasse um outro - um obeso, na proposição filosófica politicamente incorreta - que faria o veículo descarrilar, salvando os demais. Você empurraria?
Eu não, evidentemente. Nem você, acho. Nem a maioria, embora o resultado matemático da tragédia seja o mesmo. Explicam os teóricos que aí se configura o confronto entre a razão e a emoção. Empurrar alguém coloca culpa (e sangue) nas nossas mãos. Azar dos cinco distraídos.
Outro dia perguntaram a um conhecido apresentador de TV em quem ele votaria no segundo turno da eleição presidencial, caso os atuais candidatos favoritos permaneçam na disputa. Ele disse que não votaria em nenhum dos dois. A entrevistadora, então, aplicou-lhe o dilema do bonde, com uma imagem adaptada a esses tempos estranhos de Pátria Armada Brasil:
- Você tem uma arma na sua cabeça e vai ter que escolher entre esses dois.
A resposta do apresentador virou polêmica nacional: - Pode atirar!
Agora chega de hipótese, vamos para a realidade. Outubro se aproxima. O Brasil é um bonde desgovernado. Eu, você e milhões de outros brasileiros, motorneiros momentâneos, logo estaremos diante da urna eletrônica. O que faremos? Sei que muitos já escolheram o caminho e dele não se desviarão nem mesmo se aparecer uma multidão na frente. Outros talvez tenham que escolher o mal menor. Só espero que todos possamos tomar a nossa decisão serenamente, sem sobressaltos. E sem empurrar nem ser empurrados para os trilhos.
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