terça-feira, 13 de janeiro de 2015


13 de janeiro de 2015 | N° 18041
DAVID COIMBRA

Boas ideias e maus sentimentos

“Eu sou um deus ciumento” é a advertência que Jeová faz a Moisés no Deuteronômio.

Eis a base de todas as religiões monoteístas. E a razão de inúmeros crimes cometidos em nome dessas religiões.

Os romanos acreditavam em muitos deuses e, por isso, tinham extrema tolerância com os deuses dos povos que conquistavam. Cada um podia ter sua religião, desde que pagasse impostos religiosamente. A César o que era de César.

A secular guerra que envolve muçulmanos, cristãos e judeus só existe porque o deus de cada uma dessas religiões é ciumento, embora todos tenham se originado do mesmo e devessem ainda ser o mesmo: aquele Jeová de Moisés.

Muita gente morreu por causa da intolerância do monoteísmo, portanto. Só que mais gente morreu por causa da intolerância ideológica. Por causa de Hitler e do nazismo, morreram dezenas de milhões; por causa de Stálin, Mao, Pol Pot, Enver Hoxha e do comunismo, morreram centenas de milhões.

O melhor que as mortes de Paris e o terrorismo islâmico têm a nos ensinar, hoje, é, precisamente, a tolerância.

Pessoas do nosso convívio têm exercitado diariamente a intolerância, não em nome de seus deuses, mas em nome de suas ideias. Você desenvolve certeza religiosa de que determinada ideia é boa e de que tudo que vagamente se opõe a ela é ruim, e passa a combater com intolerância essa oposição.

Vou tomar, de propósito, a causa mais nobre e talvez mais delicada de todas: a luta contra o racismo. Não existe preconceito mais repugnante do que o preconceito contra os negros. Não me refiro a qualquer preconceito racial, refiro-me ao contra os negros porque eles foram escravizados pelos europeus durante quatro séculos, sobretudo nas Américas, por serem negros. Não por serem africanos, até porque outros africanos, de origem árabe, também escravizavam os negros. Logo, os negros sofreram e sofrem apenas pela cor da sua pele.

Os crimes horrendos cometidos contra os negros são hoje universalmente condenados e combatidos. Bem. Quais foram os maiores líderes dessa causa? Quem obteve maior sucesso na luta pela igualdade? Os homens tolerantes: o pastor Martin Luther King, que estudou aqui, na Boston University, e o maior gênio político da história da Humanidade, o sul-africano Nelson Rolihlahla Mandela.

Luther King e Mandela aprenderam que não se chega a lugar algum sendo excludente. A maioria das pessoas quer viver em harmonia e morrer em paz. Só. Às vezes essas pessoas têm sentimentos contraditórios, às vezes elas ficam furiosas, às vezes cometem erros, às vezes elas têm interpretações equivocadas das outras pessoas, da vida e do mundo, mas isso não quer dizer que elas sejam más pessoas. Voltando ao caso do racismo e tomando um exemplo prosaico, responda: quem são as “melhores pessoas”: os que cometeram injúria racial naquele jogo do Grêmio, no ano passado, ou os que atearam fogo à casa de quem cometeu injúria racial?

Um sistema inteiro de boas ideias pode ser implodido por um único mau sentimento.


Tolerância. O ser humano substantivo só se torna humano como adjetivo se houver tolerância.
13 de janeiro de 2015 | N° 18041

ELEIÇÕES 2014 QUEM FICOU COM A CONTA

1% DOS DOADORES PAGARAM 56% DOS GASTOS NO RS

Empresas de alimentação e de construção responderam pela maior fatia do dinheiro arrecadado pelos candidatos

A campanha eleitoral de 2014 contou com 10,8 mil doadores que se dispuseram a financiar algum candidato a deputado estadual ou federal, senador ou governador no Rio Grande do Sul. Mas um seleto grupo de apenas cem contribuintes respondeu por nada menos do que 56% de todo o valor repassado aos concorrentes durante a disputa.

A análise das prestações de contas divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revela a grande concentração do sistema de custeio eleitoral no Estado. A elite dos financiadores – que representa menos de 1% dos mecenas da política regional – desembolsou R$ 80,5 milhões de um total de R$ 144 milhões arrecadados por candidatos, partidos e comitês.

Esse cálculo desconta os valores recebidos por partidos, comitês ou candidatos e repassados para outros partidos, comitês ou candidatos dentro do próprio Estado durante a eleição – o que muitas vezes ocorre –, já que levaria a somar um mesmo recurso mais de uma vez e superestimar a arrecadação eleitoral. A conta inclui, porém, repasses vindos de comitês e candidatos de outros Estados – ou seja, doações que foram feitas em outro local do país, mas acabaram no Rio Grande do Sul. Nesse caso, não há superposição na contabilidade feita com auxílio do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e do advogado, técnico em contabilidade e especialista em contas eleitorais Carlos Souto Júnior.

A lista dos maiores doadores reúne principalmente empresas de grande porte. Quem lidera o ranking dos maiores gastadores é a JBS – gigante do setor de alimentação que alcançou em 2013 a terceira maior receita líquida do país, com R$ 92,9 bilhões, atrás da Petrobras e da Vale. A JBS, que controla a Friboi, repassou pouco mais de R$ 12 milhões (somando R$ 772 mil da JBS Aves) aos candidatos no Estado. A maior parte desse recurso, assim como a de outras grandes companhias, foi doada para diretórios nacionais e transferida pelos partidos para seus correligionários gaúchos.

Em casos como esse, em que a verba muda de mãos, é preciso seguir o caminho do dinheiro até encontrar o doador originário – que deve ser identificado na prestação de contas de todos os candidatos. Porém, a complexidade do sistema de registro e eventuais falhas na identificação dos doadores dificulta esse trabalho.

– Embora os dados sejam públicos, é praticamente inviável para o cidadão saber quanto uma empresa investiu na campanha em um determinado Estado – afirma Souto.

CONCENTRAÇÃO FINANCEIRA OFERECE RISCO, DIZ ANALISTA

O topo da lista é ocupado ainda por Gerdau, com R$ 4 milhões desembolsados, Braskem (R$ 3,9 milhões) e Zaffari (R$ 2,8 milhões). Mas, graças ao montante da JBS, o setor de alimentação é o de maior peso no top 100 das finanças eleitorais no Rio Grande do Sul, com R$ 16,2 milhões investidos. Em seguida, vem a construção, com R$ 9 milhões aplicados, e depois os repasses da indústria em geral, com R$ 7,2 milhões. Chama a atenção, ainda, a presença de empresas ligadas ao fumo e a bebidas alcoólicas no rol de grandes apoiadores, os quais entregaram R$ 4,9 milhões, somados, aos políticos rio-grandenses.

Considerando-se todas as doações feitas, e não apenas a dos cem principais contribuintes, o PT foi o partido com maior arrecadação no Estado – R$ 35,5 milhões. Foi seguido pelo PP, com R$ 33,5 milhões, e pelo PMDB, com R$ 24,2 milhões.

A concentração do financiamento oferece um risco, conforme o cientista político e coordenador do curso de Ciências Sociais da Ulbra, Paulo Moura: que o apoio seja oferecido pelas empresas com a expectativa de receber vantagens depois da eleição.

– Esse fenômeno (da concentração de doações), que se repete em âmbito nacional, certamente exerce influência no processo eleitoral. Empresas que contribuem e têm negócios com o Estado, como as empreiteiras, ou concessão de créditos de bancos públicos acabam criando uma zona cinza em que não fica claro se o sistema político é moralmente correto, ainda que seja legalmene correto – diz Moura.


marcelo.gonzatto@zerohora.com.br

13 de janeiro de 2015 | N° 18041
MÁRIO CORSO

Vida interior

Devo à formação católica grande parte da minha vida interior. Sem as missas, não sei se teria desenvolvido a imaginação. Logo que comecei a frequentar a igreja, as celebrações mudaram do latim para o português, mas bem poderiam ter continuado assim, para mim seguiu soando grego. Como não entendia o ritual, as rezas prosseguiam alheias. Só restava me entreter com as janelas e os pensamentos.

Não sei se meu órgão da fé é avariado ou a se ideia de um deus zangado, ressentido e exigindo adoração nunca me fez sentido. O fato é que sempre estava na missa dividido. Tentava me conectar com aquela solenidade e não conseguia, então devaneava.

Experimentei várias fases de distração: a matemática, quando contava as pessoas multiplicando o número de bancos pela média dos ocupantes, ou calculava quantas lajotas havia no piso, ou ainda buscava descobrir a altura do teto comparando com animais de que conhecia o tamanho. A fase artística era difícil, pois sempre achei a iconografia das igrejas católicas com um pé no sinistro.

Exceção feita às poucas missas a que fui na catedral de Santa Maria, de belíssima decoração. Minha alma volúvel se deslumbrava com as pinturas de Locatelli e ali fui o mais próximo do bom católico, vencido não pela fé, e sim pela estética. Tive também a fase da pura viagem, tédio total: nessa, simplesmente inventava histórias, conduzia as fantasias aleatórias para filmes mentais. Antecipava os cowboys justiceiros que me aguardavam na matinê, ou os piratas na sua procura obstinada por tesouros.

Mas por que ia à missa se resistia a ela? Porque me mandavam e eu obedecia, seguia os passos dos pais. Minha mãe dentro da igreja junto comigo e meu pai no fundo, às vezes saindo para fumar. Ficava no meio-termo, dentro como minha mãe e com a cabeça lá fora como meu pai.

Da cerimônia, gostava apenas da hora do Pai Nosso, a única oração que conhecia de cor e minha deixa para entrar de verdade na missa, sabendo que já estava agradavelmente no fim.

As missas a que assistia com as minhas avós transmitiam uma sensação diferente. A fé delas parecia mais genuína e contagiante e transformava minha eventual companhia em alta e nobre missão.

De qualquer forma, mesmo sem elas, nunca achei que perdia meu tempo. Afinal, aquela era a minha religião, ainda que pela metade. Eu não acreditava, só que a missa fazia parte fundamental do mundo dos meus sonhos.


Saía da igreja de alma leve, co mo quem tira botas apertadas, como quem lava e seca seus pecados logo cedo e a perspectiva da próxima só em uma semana. A luz forte da manhã de domingo prometia um dia livre e feliz. Havia uma inexplicável alegria extra, vá que Deus fosse tão generoso que abençoasse até os ateus distraídos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015


12 de janeiro de 2015 | N° 18040
ARTIGO - CASSIO SCLOVSKY GRINBERG*

INFELICIDADE E PRECONCEITO

Quanto mais preconceituosos, mais infelizes somos. E somos, de fato, preconceituosos: não apenas com comidas que nunca provamos, países que nunca visitamos e profissões que não conhecemos, mas sobretudo com pessoas que fazem sucesso, justamente por terem investido em um caminho que, em dado momento, julgaram imprescindível e necessário perseguir.

Somos, em resumo, preconceituosos com tudo aquilo que o outro, e não nós mesmos, consegue com uma escolha legítima, ignorando que muitas de nossas escolhas representam não aquilo que verdadeiramente nos toca, mas sim o molde das opiniões prontas de pessoas e grupos a quem imaginamos que podemos, com tais escolhas, agradar. Trata-se de motivo contrário ao das pessoas que “chegaram lá”. E que, pior ainda: são felizes.

Há escolhas, no entanto, tão intrínsecas, que a elas denominamos condição: um estado tão natural que, mesmo quando o ser humano já nasce parte, ainda assim reforça uma escolha ao optar em valorizar e permanecer na identidade, sem deixar de ser quem de fato é. Gosto de pensar que as “minorias” fazem parte desse contexto. E também elas caminham felizes, mesmo que a todo tempo o mundo precise lembrá-las de que constituem uma exceção.

Há diversas formas de lembrar a uma minoria a natureza de sua condição, e a intolerância, que em certos casos já é considerada crime, mas que na prática, diante da reação, por vezes transforma agredido surpreendentemente em agressor (e agressor em vítima, digamos, da mídia), está proliferada no que chamamos de sociedade: nas cozinhas dos restaurantes, nos conselhos de administração de entidades e, por que não, no nosso próprio círculo de relações mais próximas.

E por que o ser humano prefere ser intolerante, optando pela armadura de inverdade dos preconceitos, quando poderia se dedicar a aprender sobre a riqueza das diferenças? Talvez fôssemos mais felizes se nos concentrássemos em criar nossa própria felicidade e não em provocar a infelicidade dos outros, deixando de responsabilizar por nossa brutal mediocridade aquele que conseguiu defender uma escolha, ou que é simplesmente diferente de nós.

*Professor da Famecos/PUC-RS, mestre em Marketing, escritor



12 de janeiro de 2015 | N° 18040
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

“The Game” e o que a Inglaterra tem

Vendo a minissérie The Game, da BBC America, me vem essa sensação feiosa a.k.a inveja da grossa. Como a Inglaterra tem atores, minha gente! Eles dão em árvore, só pode ser. Tem que ser a água do Tâmisa, o fog londrino, a torta de rim pela manhã, o chá com leite, a batida do Big Ben. Alguma explicação tem que haver para essas hipersafras de atores bons de doer que eles tiram do chapéu-coco a cada nova produção de TV ou cinema. Parece que eles são jogados em um caldeirão de teatro elisabetano quando criancinhas e ficam bons assim, de dar raiva.

The Game é uma história de espionagem situada em Londres, nos anos 1970. E a recriação da época é primorosa. O papel de parede, os cabelos, os vidros fumê. A gente olha e se sente transportado para alguma agência da Caixa Econômica Federal, impressionante.

Os anos são os 1970, a Guerra Fria segue firme e forte, e os ingleses fazem enormes esforços para mostrar que ainda estão no jogo, quando, na verdade, ele passou há horas a ser o jogo de gente grande, o que então queria dizer americanos e russos.

Um grupo de agentes do MI-5 segue firme na luta, fazendo de conta que eles sabem o que estão fazendo, o que nem sempre se mostra muito convincente na tela. E que grupo, caros leitores. O chefe, cujo nome ninguém sabe, é chamado carinhosamente de Daddy. O ator, Brian Cox, pode e deve ser visto na ótima série australiana The Straits, já mencionada na nossa humilde coluna, vejam.

Os demais membros do time são Bobby, suavemente esquisito e levemente assustador; Joe, o bonitão sem ética ou alma; Sarah, cerebral e boa esposa de um coadjuvante da sua equipe, e a tímida Wendy e seu cabelo indescritível. Eles sozinhos, sem plot nem cenário, já valem o tempo gasto diante da sua telona de LED, caros leitores.

Os russos estão por toda parte, a tecnologia é divertidamente ultrapassada para o que o nosso mundo se tornou, e eu acho o roteirista meio abalado pelo uso excessivo de sherry depois das refeições, mas ainda assim, o conjunto é uma beleza.

Janeiro mal começou e vocês devem andar com tempo de sobra. Aproveitem para ver e invejar, porque esse é apenas um dos muitos exemplos do que os ingleses são capazes de fazer, e que nos deixam assim, embasbacados. Embasbaquem-se com The Game, e vamos em frente.




12 de janeiro de 2015 | N° 18040
DAVID COIMBRA

Como é a vida 19 graus abaixo de zero

– Eu não sou homem de usar cuecão! – foi o que disse para a Marcinha, quando ela acomodou um cuecão na minha mala, antes da viagem que fiz para cá, para Boston, em janeiro do ano passado.

Ela suspirou: – Leva assim mesmo...Levei, mas fechei a mala repetindo:

– Não sou homem de usar cuecão. Não sou! Eu não!

Ao chegar aqui, fui dar uma saída. Botei o pé na calçada. Dei três passos. Voltei para o hotel. E me tornei homem de usar cuecão. Hoje sei bem que o amado cuecão bem como roupas especiais para o frio subzero são peças de sobrevivência no Norte distante.

Agora, no meu segundo inverno na Nova Inglaterra, peguei um frio de 19 graus Celsius abaixo de zero, sensação térmica de 30 graus negativos. Você aí, de bermuda e camiseta, imagina o que é isso?

Podia ter ficado no recôndito do lar, protegido pelo aquecimento central, sorvendo um bom tinto e desfrutando, com a Marcinha e o B, um puchero que preparei com minhas próprias mãos. Mas não. Saí à rua para caminhadas intrépidas. Por que tamanho desatino? Por SUA causa. Disse para mim mesmo: preciso contar como é a vida 19 graus abaixo de zero. Pois conto.

1. Quarta-feira. 6h. -9°C.

Você leu certo: às seis da manhã, o degas aqui estava ao relento. Tinha um compromisso às seis e meia. Seis e meia! Coisa de americano.

Era noite ainda, todo mundo em casa, e eu caminhando. Andava entre os belos sobrados de madeira, sorvia o ar noturno e via, ao longe, a silhueta dos edifícios de Downtown. Foi muito bonito, muito, e, sozinho na cidade adormecida, senti-me livre. Tanto que comecei a sorrir sem motivo e assobiar baixinho e assim vi o céu azular no horizonte e as estrelas apagando- se aos poucos e foi uma boa maneira de iniciar o dia.

2. Quinta-feira. 10h. -19°C.

Tenho a dizer, com toda solenidade, que aprendi algo de quarta para quinta: que faz diferença estar na rua com 9 graus negativos ou com 19 graus negativos. Ah, faz.

Antes de sair de casa, olhei para fora: o céu era de um azul-claro perfeito. O ar estava parado, os galhos nus das árvores não se moviam. O dia parecia amistoso. Mas, no momento em que saí, foi como se tivesse levado um soco na cara. A sensação é precisamente essa: de uma agressão. Só os meus olhos estavam expostos, e eles lacrimejavam em cascata. O ar era sólido, era como se eu inalasse pedras de gelo.

Na região central há um parque, o Public Garden, com um laguinho no meio. O laguinho estava congelado. Andei sobre as águas. E ali adiante uns guris jogavam hóquei sobre as águas. E os namorados se beijavam sobre as águas.

3. Sexta-feira. 14h30min. -5°C.

Meu filho estava contente, porque ele pôde brincar no pátio da escola. A professora me disse que, abaixo de sete graus negativos, eles preferem deixar as crianças dentro do prédio. Até sete graus negativos, tudo bem. Coisa de americano.

Meu filho ficou ainda mais feliz porque nevou bastante, e ele queria fazer um boneco de neve. Não era só ele que estava feliz. A temperatura amena, para o inverno do Norte, fez com que os americanos saíssem às ruas. Eles caminhavam com enormes copos de café nas mãos e cumprimentavam-se sorrindo. A animação geral me contagiou. Fui até uma loja de brinquedos e comprei uma grande pá de plástico cor-de-laranja para meu filho fazer seu boneco de neve. Na frente da loja tem uma sorveteria ótima, a J.P. Licks. Fiquei olhando para a vitrine da sorveteria e lembrei do sorvete de baunilha, que é uma delícia. Atravessei a rua. Meu filho, sem nem olhar para mim, anunciou:


– O meu eu quero de casquinha.

12 de janeiro de 2015 | N° 18040
MOISÉS MENDES

Oportunistas

Você se lembra daquele conhecido que apareceu de repente ao seu lado nas passeatas do inverno de 2013. O que aquele cara fazia ali?

Muita gente não sabe o que determinadas pessoas faziam nas ruas em 2013. Reacionários de naipes variados tiraram proveito das passeatas. Fascistas desceram a João Pessoa ao seu lado, nas noites daquele inverno, para afrontar a imprensa e jornalistas considerados inimigos.

Agora, no fim de semana, as passeatas em Paris foram pelas liberdades e contra o extremismo que mata. Os cartunistas da Charlie Hebdo incorporaram a resistência genuína contra terror. Os franceses morreram pelo humor sem limites.

Todo mundo é Charlie. Sua namorada é Charlie, seu colega é Charlie, sua tia será Charlie e ai de quem não queira ser Charlie.

Eu mesmo fui acusado, por causa de textos que publiquei em ZH, na sexta e no domingo, de não ser Charlie. Ser Charlie seria o que mesmo?

Seria engajar-se de forma incondicional a tudo o que os cartunistas faziam? Não há como. Se houvesse, a Charlie Hebdo não seria uma revista com apenas 50 mil exemplares. E todos atacariam todos, sem freios. Jesus, Maomé, Nossa Senhora, ateus, prostitutas, ex-comunistas, africanos, gays seriam apedrejados sem parar.

O mundo seria insuportável se todos fossem Charlie em casa, na firma, na repartição, na escola ou no jornalismo.

Assim como seria improvável que, nos anos 70, todos fossem Pasquim. Seria uma farsa grotesca se, em novembro de 1970, depois da prisão de quase toda a Redação do jornal pela ditadura, os cariocas tivessem saído às ruas com cartazes: Eu sou Pasquim.

Sei, você pode dizer que a indignação agora envolve terror e morte. Sei, porque também concordo (mesmo que não deva ficar dizendo o óbvio) que tudo isso é condenável. Vivo da liberdade de expressão.

Mas não dá pra aguentar tantos Charlies. Velhos reacionários brasileiros agora são libertários à francesa.


Como disseram Willem e Luz, dois cartunistas sobreviventes, os oportunistas deveriam recolher suas pombas da paz, porque pombas da paz não têm nada a ver com Charlie Hebdo. Mas vá você dizer a um farsante que ele não é Charlie.

12 de janeiro de 2015 | N° 18040
L. F. VERISSIMO

Charlie

Alguém já disse que cidade civilizada é aquela em que, a qualquer hora da noite, você encontra um lugar aberto para tomar uma sopa e comprar um jornal. Outro disse que cidade civilizada é aquela em que, a qualquer hora da noite, você encontra um lugar aberto para tomar uma sopa e comprar o Pravda. Para mim, cidade civilizada é aquela em que, a qualquer hora da noite, você encontra um lugar aberto para tomar uma sopa e comprar o Charlie Hebdo ou similar, o que exclui todas as outras cidades do mundo salvo Paris.

O Charlie Hebdo e outros, como o Canard Enchainé, pertencem a uma tradição de imprensa malcriada que vem desde antes da Revolução Francesa. É uma imprensa que não reconhece limites, nem de alvos para o seu humor corrosivo nem de coisas vagas como “bom gosto”. Lembro uma capa que ficou famosa, já não sei mais se do Charlie ou do Canard, que era o seguinte: fotos dos órgãos genitais de várias pessoas, com legendas embaixo especulando de quem seriam os órgãos. Entravam na lista políticos, astros e estrelas e até o Papa.

Charlie Hebdo é uma revista nitidamente de esquerda, mas que nunca livrou a esquerda das suas gozações. Seu alvo preferencial é a direita religiosa francesa, mas de uns anos para cá ela vem incluindo o fundamentalismo islâmico nas suas críticas – mesmo com o risco de atentados como o que acabou acontecendo na quarta-feira, que foi o mais trágico mas não foi o primeiro. Revistas como Charlie, impensáveis em qualquer outro lugar, se beneficiam de outra tradição francesa, a da tolerância com a contestação política e o respeito à liberdade de expressão.

Por ironia, o atentado de quarta-feira deve fortalecer a direita xenófoba e anti-Islã da França, justamente a que o Charlie mais combatia. O cartunista Wolinski e os outros morreram pelo direito de serem livres, totalmente livres, mas seus assassinos não tinham nenhuma tradição parecida com a da França para conter o dedo no gatilho. No fim, os mortos do Charlie podem virar mártires de uma causa inimiga. Uma ironia que todos eles dispensariam, se pudessem.


Quando a turma do Pasquim foi presa pela ditadura, houve uma mobilização para mantê-lo nas bancas. Muita gente, arregimentada, entre outros, pela Baby Oppenheimer, então casada com o Tarso de Castro, colaborou. Até meu pai participou do mutirão solidário. Não sei se alguma coisa parecida está sendo organizada para ajudar o Charlie. Se verá na próxima edição do semanário, que será histórica.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Ferreira Goulart

Os fins justificam os meios

O governo petista que agora se inicia pode ser a cartada que decidirá a continuação ou o final de sua hegemonia

Lula e Dilma sabem perfeitamente que este governo petista que agora se inicia pode ser a cartada final que decidirá a continuação ou o final de sua hegemonia política. Ao afirmá-lo, não digo mais que o óbvio, uma vez que a própria Dilma, por certas decisões que tomou ao constituir seu novo ministério, deixou clara a situação crítica que terá de enfrentar.

A nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda é a confissão de que a política econômica que impôs ao país fracassou e, por isso, terá que adotar a de seus adversários teóricos. Claro que ela jamais admitirá isso, conforme se viu, ao tomar posse, quando, mais uma vez, falou de um Brasil que só existe em seus discursos.

Mas, agora, na prática vai ter que fazer o contrário do que disse durante a campanha eleitoral, quando acusava Aécio de pretender fazê-lo e, com isso, acabar com os programas sociais.

Esse descompromisso com a verdade é, aliás, uma característica do PT. Não se viu, para espanto geral, o ministro Fulano afirmar "não somos ladrões", referindo-se às acusações que pesam sobre o seu partido? É como se o mensalão não houvesse existido e o STF não tivesse condenado, por corrupção, algumas das mais destacadas figuras do PT.

Quem usa dinheiro público para comprar deputados é o quê? Certamente, não se pode estender essa acusação a todos os membros do partido, mas tampouco isentar de culpa os que agiram errado.

Sucede que esse descompromisso com a verdade é tal que --lembram?-- quando Dirceu e Genoino apareceram em público, a caminho da prisão, ergueram o punho como heróis injustiçados, e a própria direção do PT os considerou "prisioneiros políticos"!

É que os dirigentes petistas, quando falam, não estão se dirigindo ao povo em geral, mas exclusivamente a seus seguidores.

Dilma sabe muito bem que as medidas que está tomando, neste segundo mandato, contrariam tudo o que ela disse durante a campanha eleitoral, mas sabe também que os petistas acreditarão em qualquer coisa que diga, simplesmente porque a verdade não vale se for contra o petismo; o que vale é a versão que denigre o adversário.

Noutras palavras, os fins justificam os meios. Confesso que, ao ouvir o seu discurso de posse, me perguntava como podia ela dizer o que estava dizendo, se sabia muito bem que, há poucos meses, dissera o contrário.

Uma das afirmações que mais me espantaram foi quando disse, a propósito do escândalo da Petrobras, que o seu governo era o primeiro a combater a corrupção no Brasil e isso graças a ela, que permitiu à Polícia Federal investigar as falcatruas naquela empresa.

Todo mundo sabe que a Polícia Federal é um órgão do Estado e não do governo, de modo que, por isso mesmo, não precisa de autorização da Presidência da República para cumprir sua função.

Mas Dilma insiste nisso, porque o escândalo da Petrobras atinge diretamente seu partido e o governo petista que, durante doze anos, fez vista grossa às trapaças de que participaram seus correligionários e seus aliados.

Como o escândalo se ampliou e ameaça ampliar-se ainda mais, Dilma passou a colocar-se como a verdadeira defensora da Petrobras, que estaria sendo ameaçada por predadores internos e inimigos externos, ou seja, a oposição.

Não dá para crer: segundo ela, quem ameaça a Petrobras não é o governo petista, que permitiu as falcatruas e participou dela, mas, sim, os que denunciam a corrupção e pedem a punição dos culpados. É evidente que nenhuma pessoa normal e isenta acredita nisso, o que torna ainda mais surpreendente a desfaçatez com que ela faz tais afirmações.

Foi assim que, ao ouvi-la no discurso de posse, ocorreu-me uma explicação talvez pertinente, ou pelo menos plausível, para que afirme tantas inverdades.

A explicação seria esta: ela, como seu partido, é a defensora do povo pobre, explorado pelos ricos. Logo, quem a ela se opõe é inimigo do povo pobre e, portanto, para derrotá-lo, tudo é válido, como mentir, valer-se do dinheiro público e das propinas pagas pelas empreiteiras.

Só pode ser isso, já que não consigo acreditar que alguém, falando à nação, afirme o contrário de tudo o que disse há poucos meses atrás.



Marta Suplicy critica Dilma e o PT em entrevista a jornal

Senadora petista afirma ao 'Estado' que 'ou o PT muda, ou acaba'; para ela, Aloizio Mercadante é 'inimigo'

Procurados pela Folha, o Palácio do Planalto, o Instituto Lula e Mercadante não se pronunciaram

Em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo" deste domingo (11), a ex-ministra da Cultura e senadora Marta Suplicy (PT-SP) fez uma série de críticas à presidente Dilma Rousseff e aos rumos do PT, partido que ajudou a fundar. Segundo ela, "ou o PT muda ou acaba".

Na entrevista, Marta cita episódios em que o ex-presidente Lula também teria criticado Dilma. E sugere que ele gostaria de ter sido candidato em 2014. A senadora, porém, afirma que Lula "nunca admitiu" esse desejo a ela.

"Nunca admitiu, mas decepava (sic) ela: 'Não ouve, não adianta falar'", contou.

Para Marta, Lula pode ter desistido de enfrentar Dilma para evitar "uma disputa em que os dois iriam perder".

ECONOMIA

A senadora definiu a política econômica de Dilma como "fracasso" e disse que a presidente não mudou os rumos da gestão "porque isso fortaleceria a candidatura do Lula".

Apesar de elogiar a nova equipe da Fazenda, composta por Joaquim Levy e Nelson Barbosa, Marta sugere não acreditar que eles terão independência para trabalhar.

"É preciso ter humildade e a forma de reconhecer os erros é deixar a equipe trabalhar. Mas ela não reconheceu na campanha, nem no discurso de posse. Como que ela pode fazer agora?".

Questionada se a nova equipe econômica poderia recorrer a Lula se contrariada, a senadora afirmou: "Você não está entendendo [referindo-se à jornalista]. O Lula está fora, totalmente fora."

Em relação à cisão entre lulistas e dilmistas no partido, Marta definiu o atual chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, como "inimigo" e disse que o presidente da sigla, Rui Falcão "traiu o projeto do PT".

A senadora diz apostar em uma disputa entre Mercadante e Lula em 2018.

"Mercadante mente quando diz que não será candidato. Ele é candidatíssimo e está operando nessa direção desde a campanha, quando houve complô dele com Rui e João Santana [marqueteiro do partido] para barrar Lula."

Marta se diz decepcionada com o próprio partido e que se sente "há muito tempo alijada e cerceada". "Cada vez que abro um jornal fico estarrecida (...) É esse o partido que ajudei a criar e fundar?".

Apesar disso, a senadora diz que ainda é uma "decisão duríssima" a de abandonar o PT."Não tomei a decisão nem de sair, nem para qual partido, mas tenho portas abertas e convites de praticamente todos, exceto PSDB e DEM."

Ela também não confirma se disputará a prefeitura de São Paulo em 2016, mas diz que a mudança de sigla não ocorrerá em função disso. No caso, ela enfrentaria o prefeito Fernando Haddad (PT).


Procurados pela Folha para comentários, o Planalto, o Instituto Lula e Mercadante preferiram não se manifestar. Falcão não foi encontrado.

ELIO GASPARI

Bolsa para todos, ou para ninguém

Com dinheiro da Viúva, cozinha-se de novo um mimo para os metalúrgicos e para as montadoras em crise

No ano passado as montadoras de veículos dispensaram 12,4 mil trabalhadores. Neste ano a Volkswagen disse que dispensará mais 800, e a Mercedes-Benz, 244. Disso resultaram greves nas duas empresas. Para um começo de ano, nada pior, e isso é apenas o começo. Só o tempo dirá se Dilma Rousseff e Joaquim Levy vivem no mesmo país, mas o bafo do desemprego de metalúrgicos acordou uma velha ideia: a empresa dispensa o trabalhador e ele vai para casa com uma parte do salário.

O pulo do gato está na identidade de quem paga. Copiando-se uma iniciativa alemã, a empresa pagaria uma parte, e a Viúva, outra. Seria a Bolsa Metalúrgico, ou Bolsa Montadora. Isso num governo que acaba de mandar ao Congresso uma medida provisória apertando as exigências feitas a todos os trabalhadores para o acesso ao seguro-desemprego.

Essa ideia já apareceu no início de 2014, quando as vendas de veículos começaram a cair. A analogia com o modelo alemão é mistificadora. Lá, a crise que criou esse gatilho ocorreu em 2009, quando a venda de veículos caiu 30%, o PIB contraiu-se 4%. Em Pindorama a situação é diferente. Ademais, nos últimos anos o mercado de veículos foi estimulado por uma renúncia fiscal de R$ 12,3 bilhões e nem todas as montadoras estão perdendo competitividade.

Não faz sentido botar dinheiro da Viúva para socorrer metalúrgicos e montadoras. Se o mecanismo é bom, deveria valer também para todos os outros setores da economia e para todas as categorias de trabalhadores.

O governo tem dinheiro para ficar com parte da conta? O doutor Levy sabe que não. No seu discurso de posse o novo ministro da Fazenda fez uma crítica do patrimonialismo, "a pior privatização da coisa pública". Citando o historiador Raymundo Faoro, apontou os malefícios do Estado centralizador, com os viscondes e marqueses do império.

Tudo bem, muitos são os males do Estado, mas Faoro mostrou, num quadro do século 19 que persiste no 21, que há gente na outra ponta do problema. Ele escreveu o seguinte:

"O empresário quer a indústria, mas solicita a proteção alfandegária e o crédito público. Duas etapas constituem o ideal do empresário: na cúpula, o amparo estatal; no nível da empresa, a livre iniciativa."

CONEXÕES

É compreensível que as inves-tigações das petrorroubalheiras partam de indícios para lapidar suspeitas. Ainda assim, uma coisa é juntar peças de um quebra-cabeças, e outra é construir teorias a partir de simples conexões.

A visitou B que telefonou para C e reuniu-se com D pode significar alguma coisa, mas qualquer relação de A com D precisará ser provada.

Num exemplo com personagens bem mais divertidos que os maganos das petrorroubalheiras:

Em 1938 o milionário Joseph Kennedy namorou a atriz alemã Marlene Dietrich. Mais tarde, Marlene namorou Marilyn Monroe, que por sua vez namorou o presidente John Kennedy, que em 1963 namorou La Dietrich.

E daí? Não se pode dizer Joseph e seu filho John tenham dormido juntos.

ELETROSURINAME

A Eletropaulo levou nove horas para atender ao pedido de um hospital que ficara sem energia. Um parto foi realizado com iluminação de celulares, e um bebê foi ventilado manualmente.

A empresa diz que foi um problema pontual. Tudo bem.

Na próxima vez que o presidente da Eletropaulo, doutor Britaldo Soares, pedir uma audiência ao ministro de Minas e Energia, ele poderá marcá-la para as 10h, recebendo-o às 19h, com as luzes ligadas.

FIM DE UM TIPO

O presidente François Hollande é a encarnação de um desastre, mas, por pior que seja seu desempenho, ele terá um mérito histórico: mandou para o lixo a figura do socialista francês, um sujeito que a gente não entende, mas de quem se gosta, sem saber direito por quê.

OS FUNDOS NA FRENTE

O próximo capítulo das petror-roubalheiras começou a deslocar-se na direção dos grandes fundos de pensão de estatais. A conta é simples: em quase todas as transações das empreiteiras, elas entravam com projetos e amizades, mas o dinheiro saía desses fundos.

Por exemplo: o aeroporto de Guarulhos foi entregue a um consórcio liderado pela empreiteira OAS. Nele, são parceiros os fundos Petros e Funcef, dos servidores da Petrobras e da Caixa. Em setembro passado o Petros tinha um deficit de R$ 5,5 bilhões, e o do Funcef estava em R$ 4,9 bilhões.

CAUTELAS BANCÁRIAS

Há dezenas de contas de brasileiros bloqueadas em bancos europeus. Em alguns casos, os bloqueios foram pedidos pelo governo, em outros, foi por precaução dos bancos. Na ponta nacional, em pelo menos um grande banco, por cautela, foram afastados alguns gerentes e superintendentes por cujas mesas passaram negócios outrora magníficos.

FRITURA

Há um mistério no lance da irritação da doutora Dilma com as declarações do ministro Nelson Barbosa sobre o salário mínimo. Ela estava na praia. Entende-se que pediu-lhe uma retificação, mas isso poderia ter sido feito discretamente, sem a teatralização de uma reprimenda escolar.

Se o acompanhamento sinfônico dado ao episódio saiu do Planalto, o que há por lá não é mais uma frigideira. É grelha mesmo.

DOIS COCOS

A ação da Petrobras caiu abaixo de R$ 10. Custa menos que dois cocos nos quiosques de Ipanema, onde cada um sai por R$ 5.

CHIORO CULPA O CLIENTE DO PLANO DE SAÚDE

O ministro da Saúde, comissário Arthur Chioro, gostaria que a sociedade brasileira debatesse melhor a questão do financiamento da saúde. Leia-se, mais impostos. Numa entrevista à repórter Ligia Formenti, ele mostrou que é um homem de novas ideias. Novas e ruins. Referindo-se aos planos de saúde privados, disse o seguinte:

"O que não dá é as pessoas quererem ter um plano de saúde e não pagar o valor real. É o famoso 'finjo que estou te cobrando' e você 'finge que está pagando'".

As "pessoas" pagam o que as operadoras cobram. Pelo que diz o ministro, se há planos de saúde que enganam clientes, a responsabilidade não seria das empresas, mas dessas "pessoas", os clientes, consumidores. De onde Chioro tirou a gracinha do "finjo que estou te cobrando e você finge que está pagando?" Ele ganha uma viagem a Cuba se souber de uma operadora que "finge" cobrar. Quando o ministro da Saúde diz que existe alguém que "finge que está pagando", simplesmente ofende aqueles que desembolsam suas mensalidades.


Na mesma entrevista, Chioro mostrou que "no final de contas fica um jogo entre um que não quer que use (os serviços médicos) e outro que quer usar". Tudo bem, mas quem "quer usar" pagou. E aquele que "não quer que use" recebeu.
BERNARDO MELLO FRANCO

Janela da infidelidade

BRASÍLIA - No princípio, era o caos. O político se candidatava a deputado pelo Partido do Não. Depois de eleito, negociava seu passe e exercia o mandato pelo Partido do Sim. O troca-troca turbinava a bancada governista e encolhia a oposição, distorcendo a vontade do eleitor.

Assim funcionava o Congresso até 2007, quando o Tribunal Superior Eleitoral decidiu que os mandatos pertenciam às legendas. Quem insistisse em mudar de time seria cassado. Exceções, só em casos excepcionais, como perseguição pessoal ou criação de uma nova sigla.

O sistema parecia se civilizar quando Gilberto Kassab descobriu a chamada janela da infidelidade. Fundou o PSD e atraiu 55 deputados ansiosos por se aproximar do poder. Ele fez questão de anunciar que a legenda não seria "nem de direita, nem esquerda, nem de centro". Para pular a cerca sem perder o cargo, bastava ser "a favor do Brasil".

O truque deu certo, e o ex-prefeito, que amargou um terceiro lugar na eleição para o Senado, acaba de virar ministro de Dilma Rousseff. Agora ele quer repetir a dose. Vai criar outra legenda, com o mesmo nome do finado Partido Liberal.

Os aliados de Kassab deixam claro que o objetivo é driblar a lei. As assinaturas para registrar o PL estão sendo coletadas por políticos do PSD. O plano é atrair o máximo de parlamentares, fundar o novo partido e incorporá-lo ao já existente.

Na prática, o PL não funcionará: só vai servir para abrir outra janela aos infiéis. Se a Justiça Eleitoral não endurecer as regras e barrar a manobra, o ex-prefeito ainda conseguirá barganhar mais um ministério.

O Carnaval ainda não chegou e a roubalheira na Petrobras já virou piada nos blocos do Rio. Um folião tem saído às ruas com um "pau de yousselfie", em homenagem ao doleiro que distribuía verba desviada da estatal. No lugar do celular, pendurou um maço de notas falsas. 

sábado, 10 de janeiro de 2015


11 de janeiro de 2015 | N° 18039
MARTHA MEDEIROS

A festa ao lado

Sou vizinha de um grande clube da capital. Um privilégio. Minha sacada se debruça sobre sua piscina, seu parque, suas canchas de tênis e o visual me faz recordar diariamente que trabalhar não é tudo na vida. Quando me perguntam se essa vizinhança não é incômoda em dias de festa, respondo que não, elas acontecem no interior do clube e não afetam em nada a minha paz.

Mas e se a festa for à beira da piscina, ao ar livre?

É bem verdade que tremi ao ver a recente e esdrúxula instalação de um chafariz em meio à piscina do clube: vá que a intenção fosse aproveitar melhor o espaço externo para eventos. Mas afora o deslize para a cafonice, estou segura de que festas à beira da piscina continuarão sendo apenas duas: na abertura da temporada e no réveillon, o que manterá os moradores vizinhos com suas outras 363 noites de sono garantidas.

Pois bem. A festa de abertura da piscina, em novembro passado, terminou tão cedo que não incomodou ninguém, mas a festa do réveillon se estendeu até às 5h30 da manhã e duvido que a meia-dúzia que não foi para a praia e que mora ao lado do clube tenha conseguido pregar o olho. Eu não consegui. O DJ parecia estar dentro do meu quarto. Mas eu pensava: é só hoje. Paciência. Querer dormir nas primeiras horas do novo ano, tem cabimento isso? Pega um livro. Entra no Face. Relaxa, mulher.

Relaxei, mas não pude deixar de me solidarizar com quem mora ao lado de bares que abrem de segunda a sábado, ao lado de boates cujo isolamento acústico é defeituoso, ao lado de casas com música ao vivo, enfim, com todos os que são obrigados a conviver com a sonzeira alheia durante o ano inteiro. Zumbis involuntários.

Eu gosto de ser vizinha de clube e também de restaurantes, bistrôs e assemelhados. Movimento é vida, lazer é alegria, e vida e alegria me interessam. Mas é bem diferente quando, de um dia para o outro, uma quadra de ensaio de escola de samba é aberta a 10 metros da sua janela.

Vizinho, por definição, é uma criatura chata. Como somos todos vizinhos de alguém, somos todos chatos, sem exceção. Cada um de nós com suas implicâncias, suas manias ou sua indiferença enervante – nada incomoda mais um vizinho do que outro vizinho que não se incomoda com nada.


Eu dificilmente me incomodo com alguma coisa, sou da turma dos indiferentes enervantes, mas depois de passar a primeira noite do ano em claro, entendi perfeitamente a fúria daqueles que bradam contra a poluição sonora que os atinge dia sim, outro também. De fato, é desesperador, só que não dá para perder as estribeiras como faz o elenco de Relatos Selvagens. Solução? Vigilância municipal e checagem de alvarás para os casos abusivos, e alguma conformidade com ruídos aleatórios: é o preço a pagar por vivermos numa metrópole. O barulho está incluído no IPTU.

11 de janeiro de 2015 | N° 18039
PAULO FAGUNDES VISENTINI

A história como comédia: a Sony e a Coreia do Norte

A política internacional geralmente é enfadonha ou trágica, mas também pode ser divertida. Um importante filósofo europeu disse que a história se repete, uma vez como tragédia e outra como farsa ou comédia. Em dezembro de 2014, um episódio envolvendo uma comédia juvenil caricata sobre o líder norte-coreano Kim Jong-un, o estúdio Sony e a Coreia do Norte, resgatou a famosa frase.

Até então mostrado como um Estado atrasadíssimo e à beira do colapso, essa nação foi acusada por autoridades americanas, sem qualquer prova ou mesmo indício, de estar por trás do sofisticado ataque cibernético de hackers, o qual teria revelado na internet informações sigilosas da Sony. E, pior, de ter ameaçado realizar atentados a salas de cinema que exibissem a película.

A “Guerra Fria”, encerrada na semana anterior com o reatamento diplomático EUA-Cuba, reviveu com intensidade. Por coincidência, quando Obama era atacado por sua leniência com o socialismo cubano, pode retomar o velho discurso da Guerra Fria contra a Coreia do Norte, e o acordo com Cuba fica esquecido. Espalhou-se, inclusive, o boato de que o “terrorismo”, que passou a incluir os coreanos, teria selado um pacto com os hackers para promover novas maldades. Mas foi, então, a Coreia do Norte a vitima de um ataque cibernético que tirou seus sites do ar.

Todavia, o presidente da Sony, “corajosamente”, voltou atrás e projetou o filme, sem se intimidar. O público correu a assistir e a companhia lucrou milhões com o incidente. Membros do Conselho de Segurança da ONU aproveitaram a ocasião para propor o indiciamento de Kim Jong-un por “crimes contra a humanidade”, embora ele esteja no poder há apenas três anos e o regime seja hoje muito mais tolerante do que no passado. É uma perigosa banalização do conceito, que pode esvaziá-lo.

A família Kim, apesar do discurso antiamericano recorrente e legitimador, tem um gosto curioso. O jovem líder, que cursou o colégio na Suíça, é um tipo comunicativo e informal. Nada a ver com o personagem do filme, ao qual provavelmente assistirá. Seu pai, segundo a ex-Secretária de Estado Madeleine Albright, era apaixonado por cinema e possuía a maior coleção hollywoodiana que ela já vira. Seu irmão mais velho, com a família, foi barrado em Tóquio em 2001 com passaportes falsos, quando viajava para a Disneylândia.

Conforme os interesses do momento, a Coreia do Norte pode ser atrasada ou letal, a ponto das pessoas se tornarem incapazes de diferenciar ficção e realidade. Seu regime é inaceitável nesta metade do mundo, mas o caso é um exagero. As ameaças, reais ou forjadas, representam uma indispensável ferramenta da política e da psique humana. Todavia, não se deve abusar, mesmo que o ridículo e a comedia não tenham limites.


PAULO FAGUNDES VISENTINI É HISTORIADOR, PROFESSOR TITULAR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA UFRGS. ESCREVE MENSALMENTE

11 de janeiro de 2015 | N° 18039
ANTONIO PRATA

Silogismos toscos

Said e Chérif Koauchi eram descendentes de imigrantes. Said e Chérif Koauchi eram os suspeitos do ataque ao jornal Charlie Hebdo. Se não houvesse imigrantes na França, não teria havido ataque ao Charlie Hebdo. Said e Chérif Koauchi, suspeitos do ataque ao jornal Charlie Hebdo, eram filhos de argelinos. Zinédine Zidane é filho de argelinos. Zinédine Zidane é terrorista.

Zinédine Zidane é filho de argelinos. Said e Chérif Koauchi, suspeitos do ataque ao jornal Charlie Hebdo, eram filhos de argelinos. Said e Chérif Koauchi sabiam jogar futebol.

Chérif Koauchi foi entregador de pizza. Chérif Koauchi era um dos suspeitos do ataque ao jornal Charlie Hebdo. Se franceses comessem só comida francesa, não financiariam o terrorismo.

Muçulmanos são uma minoria, na França. Membros de uma minoria são suspeitos do ataque terrorista. Olha aí no que dá defender minoria...

A esquerda francesa defende minorias. Membros de uma minoria são suspeitos pelo ataque terrorista. A esquerda francesa é culpada pelo ataque.

A extrema direita francesa demoniza os imigrantes. O ataque terrorista fortalece a extrema direita francesa. A extrema direita francesa está por trás do ataque terrorista.

Marine Le Pen é a líder da extrema direita francesa. “Le Pen” é “O Caneta”, se tomarmos o artigo em francês e o substantivo em inglês. Eis aí uma demonstração de apoio da extrema direita francesa à liberdade de expressão – e aos erros de concordância nominal.

(Esse último parágrafo não fez muito sentido. Os filmes do David Lynch não fazem muito sentido. Esse último parágrafo é um filme do David Lynch.)

O Charlie Hebdo zoava Maomé. Eu zoo negão, zoo as bichinhas, zoo gorda, zoo geral! “Je suis Charlie!”

Humoristas brasileiros fazem piada racista e as pessoas os criticam. Charlie Hebdo fez piada com religião e terroristas o atacaram. Criticar piadas racistas é terrorismo.

Numa democracia é desejável que as pessoas sejam livres para se expressar. Algumas dessas expressões podem ofender pessoas ou grupos. É desejável que pessoas ou grupos sejam ofendidos.

O Charlie Hebdo foi atacado por terroristas. A editora Abril foi pichada por meia dúzia de jacus. A Editora Abril é Charlie.

Os terroristas que atacaram o jornal Charlie Hebdo usavam gorros pretos. Black Blocs usam gorros pretos. Black Blocks são terroristas.

Os terroristas que atacaram o jornal Charlie Hebdo usavam gorros pretos. Drones não usam gorros pretos. Ataques com drones não são terrorismo.

O ataque terrorista contra o Charlie Hebdo foi no dia 7/1. A derrota brasileira para a Alemanha foi por 7 a 1. O 7 e o 1 devem ser imediatamente presos e submetidos a “técnicas reforçadas de interrogatório”, tais como simulação de afogamento, privação de sono e alimentação via retal. Por via das dúvidas, o 6 e o 8 e o 0 e o 2, também.


Todo abacate é verde. O Incrível Hulk é verde. O incrível Hulk é um abacate.

11 de janeiro de 2015 | N° 18039
PAULO SANT’ANA

A propina

Costumo falar mal das pessoas quando elas estão ausentes. Afinal, não sou mal-educado para falar mal delas em sua presença.

Outra mania que tenho é de falar bem das pessoas quando elas estão presentes, não sou bobo nem nada.

As autoridades de trânsito divulgaram agora que as ultrapassagens irregulares causam um terço das mortes em acidentes.

É lógico, se todos andarem uns atrás dos outros, sem ultrapassar, ninguém colide nos outros carros.

Já notaram os meus leitores que nenhum acidente se verifica nos engarrafamentos? Pois é, naquele trecho de 20 quilômetros da BR-101, em Laguna, em que todo o tráfego engarrafa, não acontece acidente, é um exemplo notável para o país de que andando devagar não há acidente.

Gozado, em todo o trecho da rodovia BR-101 acontecem acidentes às pamparras, enquanto ali onde a estrada se vê engarrafada, não há acidentes.

Pelo que concluo que o engarrafamento, embora nos irrite, nos beneficia, engarrafados é que andamos bem no trânsito.

Há três dirigentes da OAS que estão presos, trancafiados, certamente por pagarem propina a funcionários públicos para aumentarem o preço de suas obras, além de realizá-las, é claro.

Casualmente, é a mesma OAS que construiu a Arena do Grêmio, não acredito que tenham pago propina.

Mas quem disse que fica mais fácil para o Grêmio negociar uma repactuação do contrato da Arena agora que os dirigentes da construtora estão presos estava certo. Preso, com certeza, cobra mais barato por obra que construiu.

Houve um caso em São Paulo em que a propina paga aos funcionários do governo custou mais caro do que a própria obra.

Tem muita gente cravando o dente na propina.

Mas, com a prisão dos dirigentes da OAS, pela primeira vez os que pagam propina foram para a cadeia, antes só eram recolhidos à prisão os que recebiam propina.

Era injusto.

MEUS LEITORES
Boa tarde

Viajo com alguma frequência para a Austrália e, nesse final de ano, uma situação no trânsito me chamou atenção; notei um maior cuidado dos australianos em tomar bebidas alcoólicas antes de dirigir e também maior respeito aos limites de velocidade.

Então, fiquei sabendo que a pontuação na CNH é dobrada nos finais de semana e feriados, por isso a maior atenção dos motoristas.

Com essa medida, reduziram drasticamente os acidentes e mortes.

Diante disso, como você é um porta-voz do povo gaúcho e tem credibilidade, poderia lançar uma campanha nacional a exemplo da legislação australiana no sentido dos pontos da CNH serem dobrados em infrações de finais de semana e feriados.

Com certeza, reduziriam muito os acidentes aqui no Brasil.

(LEITOR PEDE QUE SEU NOME NÃO SEJA DIVULGADO)

Resposta: Grande ideia na Austrália. Aumentando o rigor das multas nos fins de semana se atingirá o resultado ideal almejado. Na verdade, a única linguagem punitiva que entendem os motoristas é a da multa financeira. Exorto os governantes a imitarem o exemplo australiano.

Só não entendo a causa de o senhor pedir para que não publiquem seu nome. Mas, enfim, o nome é seu e eu não posso divulgá-lo se o senhor não o permite.

O MELHOR DE MIM
(Pensamentos extraídos do meu arquivo de colunas)

Eu já disse que não tem nenhuma importância a realidade. O que importa é a leitura que cada pessoa faz da realidade.

A saudade se situa numa faixa de terreno entre o deleite e o amargor na alma humana.


Ou você passa o tempo, ou você perde tempo. Perder tempo é parar no tempo, significa que não passou o tempo para você. Perder tempo é escolher mal o passatempo. Quem ama passa o tempo. Quem se debate num amor frustrado perde tempo.

11 de janeiro de 2015 | N° 18039
MOISÉS MENDES

Maomé

Entre na Redação de um jornal brasileiro e pergunte de mesa em mesa se alguém faria humor com Maomé, com o Islã ou com extremistas muçulmanos. Depois desafie alguns, dependendo das respostas, a elaborar uma charge sobre Maomé, mesmo que não saibam desenhar direito.

Se você não encontrar ninguém que cometa o atrevimento, isso pode significar muita coisa e pode também não significar quase nada.

Pode querer dizer somente que a maioria não zombaria de Maomé – porque não há motivo para isso, por respeito às convicções religiosas dos outros, porque este não é um tema que esteja no foco de um jornalista brasileiro, ou por medo.

Mas alguém dirá que faz qualquer piada, em nome da liberdade de expressão. E outro pode dizer que faz humor com Deus e com o Papa argentino, mas não com Maomé.

Nos sentimos à vontade para satirizar deuses, santos e diabos que estejam sempre a nossa volta, mas acusamos um certo desconforto ao brincar com os profetas dos outros.

E por que os europeus se divertem com a imagem de um Maomé que teria sido corrompido pelos próprios adoradores? Os franceses debocham de quase tudo e a imigração de muçulmanos mudou a vida deles.

Mas a racionalidade ocidental, em que até as nossas transcendências têm de expressar alguma supremacia, não estaria reduzindo Maomé, sistematicamente, a um inspirador de ações do mal? Reproduzimos o que condenamos – as distorções de percepção dos extremistas?

É o atrevimento de artistas que radicalizam a liberdade, sem concessões a medos e a eventuais represálias. Têm até o “direito”, como disse um deles, de perder a vida para não ficar de joelhos e perder a piada.

Os chargistas da Charlie Hebdo deveriam então ter evitado a ira dos assassinos? Eles foram adiante e disseram não. Mas sabiam que, contra os lápis que usavam, as armas de seus algozes poderiam ser fuzis Kalashnikov.

Em outubro, quando o Tribunal Superior Eleitoral decidiu censurar a propaganda partidária na TV, eu escrevi contra. O duvidoso moralismo do TSE não tinha o direito de tutelar o eleitor e privá-lo de ver e ouvir baixarias.

Esperei que vozes fortes pela liberdade de expressão se manifestassem. Esperei. Tive minguada parceria. E mesmo assim esperei, esperei e continuo esperando.

Digo isso aos que estiverem deduzindo, por leituras tortas, que defendo restrições a críticos de profetas ou aceito a barbárie como reação legítima. Não! Repito, com três pontos de exclamação: não!!!

O que desejo é que o cinismo de uma certa direita (que agora é Charlie...) não enuvie o entendimento do que os chargistas faziam. Entre as milhares de charges em homenagem aos mortos, um desenho mostra o cartunista degolado pondo a língua para o carrasco pelo toco do pescoço.

É cruel? É o tipo de humor que eles certamente gostariam de ver em seus velórios. Sim, desta vez você pode chorar e rir com os mortos.


Para encerrar, a quem interessar possa, não tenho religião. E não acho graça nas charges que estabelecem alguma relação entre o terrorismo e Maomé.
ARTIGOS - FLÁVIO TAVARES*

PRÓTESE MENTAL

O fanatismo inunda a História como um aluvião que tudo destrói. Quando a raiz é religiosa, a cegueira do horror se multiplica e o assassinato vira virtude. Ao longo dos séculos, matou-se em nome dos deuses. No Gênesis 22, conta a Bíblia que Abrahão se dispôs a matar Isaac, seu filho único, em honra à Divindade.

Foi preciso que o próprio Deus lhe segurasse o punhal e explicasse que só queria provar sua fé e obediência cega. À exceção do budismo e suas variantes, todos os credos religiosos (e parte dos credos políticos) mataram em nome de seus deuses. Depois, se arrependeram e se penitenciaram, mas o crime já fora cometido.

A chacina de agora em Paris não foi só um ato contra a liberdade de expressão, ou contra a cultura e a arte da sátira expressada nas caricaturas do Charlie Hebdo. Reduzi-lo a isto é desconhecer os assassinos, pensar que pensam ou raciocinam, quando – de fato – são máquinas de ódio geradas pela deformação fanática do islamismo.

Chama-me a atenção, porém, a imperturbável brandura com que tratamos os tais “radicais islâmicos”. Matam “em nome de Alá” cada vez mais, como se os crimes superassem nossa capacidade de evitar ou punir o terror que praticam até na França, país que os acolheu e os livrou da fome e da opressão do mundo muçulmano.

Mais do que a liberdade de expressão, está em jogo um estilo de vida e de comportamento. Ou o boçal “pensamento único” irá se impor pela força à convivência e ao diálogo?

No Brasil, em matanças de outro tipo e com outros deuses, também está em jogo um estilo de vida. Além do assalto de rua, a mentira mata a cada dia. Nos mentem num bombardeio diário, sempre para roubar. E, vindo de cima, o roubo mata os valores morais, nos assassina sem tirar a vida.

O escândalo das próteses ortopédicas é o elo novo do grande embuste que assola o país e transforma em crime o que devia ser honesta dedicação à saúde humana. Médicos, advogados e laboratórios unem-se para enganar enfermos e fazer da Justiça uma grotesca fábrica de “liminares” e, assim, roubar do Estado – ou de cada um de nós, pois o povo é o Estado. Imitam governantes, políticos e empresários que, com idêntico despudor, mentem para assaltar a administração pública.

A roubalheira na Petrobras, por exemplo, foi comandada por três partidos (PMDB, PP e PT) que nada teriam em comum. Em teoria, o PT é de esquerda; o PP é de direita e o PMDB é amplo e aceita tudo, mas se juntam para saborear o apetitoso butim clandestino. Os partidos menores ficam com as sobras do banquete.

A mentira domina tudo, como vírus que se propaga e contamina a todos. Quem irá salvar-se?

A fraude das próteses ortopédicas, por exemplo, colide com o espírito da medicina em si. Os médicos lidam diretamente com a vida, não devem mentir ou enganar. No máximo, dirão uma “piedosa fantasia” a um doente terminal. Mas somos o único país do mundo em que a maioria dos nascimentos (uns 60%) ocorre por cesárea, como se o ventre das brasileiras exigisse parto antinatural, diferente das mulheres do planeta. Ou é só um ardil para cobrar mais, mesmo submetendo a mulher ao risco inerente de uma cirurgia?

Onde começa o emaranhado comportamental? Os políticos levaram a mentira à sociedade, ou a sociedade os inoculou com a mentira? Repete-se a dúvida insolúvel da biologia e da filosofia: quem surgiu primeiro, o ovo ou a galinha?

O pior é que esquecemos que nos roubam e mentem. Em alguns meses, a maior roubalheira ao povo do Rio Grande do Sul, o escândalo da CEEE no governo Pedro Simon, prescreverá na Justiça. Silencia-se sobre a fraude no Detran, envolvendo reitor e professor da Universidade de Santa Maria e três deputados. Idem sobre o roubo da merenda escolar, que se alastrou de Canoas a outros cantos. A lista é longa.

E se colocássemos uma prótese mental nessa gente dedicada ao crime?


*Jornalista e escritor