sexta-feira, 23 de outubro de 2026


23 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Discussões irrelevantes afastam Lula e Flávio dos problemas reais

A campanha eleitoral de 2026 entrará para a história como aquela em que mais tempo se perdeu com irrelevâncias, poupando os candidatos de discutirem o que importa para o futuro do Brasil. No primeiro turno, o não assunto que mais mobilizou as redes sociais foi Nossa Senhora Aparecida, arrastada para a campanha a partir de uma fake news - a de que, se eleito, Flávio Bolsonaro a destituiria do "cargo" de padroeira do Brasil. 

A santa de devoção de milhões de brasileiros virou protagonista de uma campanha que deveria ser laica, mas está contaminada pela mistura entre religião e política, uma afronta ao segundo mandamento da lei de Deus - "não tomai Seu santo nome em vão". Enquanto se discutia se o posto de Nossa Senhora Aparecida estava ameaçado, os principais candidatos foram poupados de esclarecer o que farão, de fato, para melhorar a vida dos brasileiros. Neste segundo turno, a "santa" da vez é a quebra do sigilo bancário e telefônico dos candidatos. Nasceu de um desafio do presidente Lula no debate da Band, depois de ser chamado de ladrão por Flávio.

Desde o início estava claro para quem parasse um pouco para pensar que se tratava apenas de um recurso retórico de Lula para fustigar o adversário, que nunca explicou sua vida financeira incompatível com os bens e que carrega no histórico a compra de imóveis pagos com dinheiro vivo e a quitação antecipada de uma mansão em Brasília, financiada pelo BRB.

O mais incrível é que colou, até porque a imprensa tradicional, majoritariamente, acompanhou a toada das redes sociais e transformou em manchetes o que seria uma nota de rodapé (e aqui vale um mea culpa do jornalismo). O desafio de Lula foi entendido por seus militantes como a grande sacada do debate da Band. E como Flávio demorou três dias para "aceitar" o desafio, Lula conquistou a narrativa.

Ontem, as duas campanhas protocolaram no TSE um documento autorizando a dita quebra dos sigilos, estendendo o alcance a pessoas físicas e jurídicas ligadas aos dois candidatos. Se fosse sério, significaria entregar ali os telefones de todos os envolvidos (e a procuração assinada por todos eles para quebrar os sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático). Só que não.

Assinado o acordo, representantes da campanha de Flávio saíram reclamando que Lula apresentou "apenas" o requerimento e que o candidato só abriria o seu depois que Deltan Dallagnol analisasse com lupa toda a papelada do concorrente.

Blefe em cima de blefe. Quem tem de analisar o conteúdo de telefones são peritos habilitados a recuperar mensagens apagadas, como a Polícia Federal está fazendo com os celulares de Daniel Vorcaro. Isso demanda tempo, especialização, organização e cruzamento de dados, coisa que todos sabem ser impossível de produzir, até o dia da eleição, qualquer resultado que não seja marola.

Livres de cobranças

Pela perda de tempo com não assuntos, Lula não foi cobrado a explicar o que fará de diferente se conquistar o quarto mandato, nem como pagará as contas dos pacotes de bondades lançados nas últimas semanas. Flávio livrou-se de responder como fará para cumprir as promessas que sabe serem impagáveis, como a de fazer um tesouraço de R$ 250 bilhões no primeiro ano de governo e, ao mesmo tempo, manter e melhorar todos os programas sociais existentes.

Ficou na balela do "Ministério da Prosperidade", como se isso fosse capaz de reduzir as desigualdades sociais e, num passe de mágica, encher os carrinhos de supermercado que na propaganda aparecem vazios. 

Aliás

Era óbvio que o vice-presidente do TSE, André Mendonça, diria o que disse sobre a quebra de sigilo dos candidatos. Que não cabe à Justiça Eleitoral divulgar dados sigilosos de Lula e Flávio. E que cada um, se quiser, divulgue como e quando achar conveniente.

Leandro Sonne deve integrar futuro governo do Estado

Uma das premissas do governador eleito Luciano Zucco na montagem do secretariado é só indicar pessoas que "não precisem dar explicação sobre sua vida pregressa". A outra, que tenham conhecimento técnico. E uma terceira é que sejam da sua confiança.

Por isso, qualquer exercício sobre o futuro do secretariado não pode deixar de fora um jovem discreto, que integra a equipe de transição, trabalhou na coordenação da campanha e é uma das pessoas mais próximas do governador. Esse jovem é Leandro Sonne, funcionário de carreira do Estado, coordenador da bancada do Republicanos na Assembleia e quase uma sombra de Zucco na última campanha. Ele também desfruta da confiança do deputado Delegado Zucco, irmão do governador eleito.

No Piratini, foi subchefe legislativo quando Cleber Benvegnú chefiou a Casa Civil. Advogado, conhece os meandros dos dois lados da Rua Duque de Caxias, domina a legislação estadual e acompanha os bastidores da política, o que o credencia para chefiar a Casa Civil ou assumir outro papel relevante no governo. _

Leite apresenta plano de recuperação pós-enchente

Depois de passar a campanha criticando o governo de Eduardo Leite pela demora na execução das obras de prevenção às cheias, o governador eleito Luciano Zucco foi apresentado ontem ao Plano Rio Grande, que concentra os projetos em andamento.

Os técnicos do governo, cada um dentro da sua área de responsabilidade, detalharam como o Rio Grande do Sul se preparou para enfrentar futuros eventos climáticos, o que foi feito e o que ainda está por fazer.

Zucco e a vice-governadora eleita Silvana Covatti assistiram à apresentação acompanhados de integrantes da comissão de transição, que receberão de cada secretaria relatórios detalhados do andamento dos projetos e terão subsídios para o novo governo decidir o que será mantido e o que será modificado.

Também na campanha, Zucco disse que manterá o que estiver dando certo, mas quer acelerar o ritmo das obras. Insistiu também que seu Plano de Governo é um "Plano de Estado". Leite sempre disse o mesmo sobre o Plano Rio Grande, porque foi elaborado com visão de futuro, não só para o Estado recuperar as estruturas afetadas pela enchente de 2024, mas melhorá-las.

Elogios - Ao final do encontro, Zucco destacou o alto nível da transição:

- Quero agradecer pela condução desse processo, que tem sido muito positiva. Estamos tendo a oportunidade de conhecer os projetos, aprofundar os temas e dialogar com as equipes para construir uma transição organizada e responsável. _

Um curinga no baralho do secretariado de Zucco

Coordenador do plano de governo de Luciano Zucco, o secretário de Educação de Porto Alegre, Leonardo Pascoal, é tão certo no primeiro escalão que já está tratando da sua sucessão na equipe do prefeito Sebastião Melo. O que não está definido é qual secretaria ele vai ocupar. Na campanha, especulava-se que seria a da Educação, mas, tão logo saiu o resultado da eleição, o governador eleito convidou o atual secretário do Paraná, Roni Vieira.

Longe de representar um desprestígio para o ex-prefeito de Esteio, o movimento de Zucco mostrou que é ele o curinga no baralho da formação do secretariado. Pascoal cabe em diferentes caixinhas do organograma que está sendo montado a diferentes mãos. Eleito pelo PP em Esteio, migrou para o PL e conquistou a confiança do futuro governador.

Poderia ser a Casa Civil? Sim, mas não só ela. Por ter trabalhado no plano de governo e estar à frente da equipe de transição, ele também poderá ser o substituto de Danielle Calazans na Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão.

Com a experiência de prefeito, Pascoal também poderá acabar na Secretaria de Infraestrutura. _

POLÍTICA E PODER

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