sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Visita de mãe

A vida adulta é mesmo engraçada. Viver como alguém independente, com mais de 30 anos, solteiro e morando sozinho carrega um misto de responsabilidade, rotina e preguiça. A fase da liberdade já ficou no passado. Imagino que aconteça com todo jovem que sai de casa na casa dos vinte e poucos anos e vê tudo como novidade.

Depois o tempo passa, as coisas se acomodam e a gente já não quer acordar tarde nem chegar virado de alguma festa. Não é só por causa da idade, nem das obrigações do trabalho ou dos relacionamentos que às vezes fracassam. O fato é que os hábitos mudam depois de alguns anos morando você com você mesmo.

A própria companhia deixa de ser solidão. Talvez a gente desenvolva inconscientemente um "eu" paralelo. É uma voz mental com quem conversamos, repassamos tarefas, verificamos compromissos e relembramos o dia. Eu adoro essas conversas que tenho comigo mesmo e até me pego rindo sozinho de alguma reação que tive, de alguma história que vivi ou de alguma tirada hilária que surge de uma lembrança aleatória.

Quando atingimos esse "flow" de morar sozinho, passamos a não gostar muito de sair do espaço que criamos para nós. É seguro, confortável, previsível e normalmente tem um sofá pronto para nos abraçar. Visitas são boas, claro. Mas não quando se alongam muito.

Mas toda regra tem uma exceção.

Visita de mãe faz a gente buscar uma reconfiguração instintiva. Até quem está acostumado a fazer tudo para si quer se sentir mimado mais um pouquinho. Basta minha mãe chegar à minha casa e, em poucos minutos, eu volto a ser criança ou adolescente.

Gosto de como ela pergunta se quero comer alguma coisa ou sai dobrando alguma roupa que deixei espalhada pela casa. Gosto de lembrar de como era quando morávamos na mesma casa. Gosto da companhia dela para ver novelas e filmes. Gosto de quando tomamos chimarrão juntos e ela pergunta algo sobre o meu trabalho. Gosto de ter minha mãe em casa comigo.

As visitas nunca duram muito, mas fico lembrando dela por vários dias. Na salada de frutas que ficou na geladeira, no jeito como ela deixou alguma coisa pela casa, na presença que segue comigo mesmo quando ela não está.

Os primeiros dias depois de ver alguém são sempre os de maior saudade para mim. Depois a gente se acostuma com a distância.

É assim a vida adulta. 

MARCO MATOS 

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