Aniversário discreto
Deixe-me ser vulnerável. Eu falo para multidões. Eu faço palestra para milhares de pessoas. Mas não tenho um monte de amigos, como os outros acreditam. É comum imaginar que recebo convites sem parar para comemorações, matrimônios, shows, baladas. Necas.
Sou vip do meu sofá. Não me inveje. Não frequento altas rodas do poder. Não ando de jato ou avião particular. Você nunca me localizará em troca de mensagens com Vorcaro. Não participo de escândalos.
Sou feijão com arroz. Com bastante farofa.
Minha prosperidade é dedicação. Eu trabalho todos os dias da semana sem folga. Quem me conhece sabe.
Eu me mantenho reservado. Entendi que a maior solidão é a pública. Ninguém me chama, talvez porque não alimento aparências ou mesmo porque me consideram inacessível.
Não há nada de sofisticado em meu software. É mundano. Converso sobre futebol tanto quanto sobre livros e cinema. A banalidade me atinge. Paro quando alguém me aborda na rua, abraço, rio, escuto, ganho histórias de vida. Não me acho antipático dentro do convívio. Grite meu nome e vou atrás.
Mas, contrariando as expectativas, meus amigos enchem uma mão. Aqueles de telefonar diariamente, de reportar as novidades, de discutir os problemas, de surgir de repente no interfone do meu lar, de decorar a novela dos meus perrengues, de rir dos meus defeitos incorrigíveis, de me acompanhar no estádio: a esposa, os filhos, os pais, a irmã e cinco contatos.
No meu aniversário de hoje, adotei a discrição. Desisti de comemorações espalhafatosas. Prefiro sair para jantar e soprar as velas em casa. O bom é que sobra mais torta para mim.
Não conto com gente íntima para lotar uma festa de aniversário. Preciso pedir amigos e parentes emprestados para Beatriz. Ela engrossa a minha lista, salva o evento. Ela se preocupa comigo, com a minha felicidade.
No nosso casamento, eu parecia torcida adversária, ocupando 5% da capacidade do salão com os meus convidados. Não arda de pena de mim. Não estou triste. Sequer é um incômodo, ou algo para mudar. São contingências do destino. Eu me sinto amado na família e respeitado fora.
Minha sessão de autógrafos humilha minha festa de aniversário. Dá de relho. Inclusive, um de meus momentos prediletos é o encontro com meus conterrâneos na Feira do Livro de Porto Alegre (marcado, neste ano, para 7 de novembro, às 19h). Aliás, meus leitores são meus confidentes. Trato meus lançamentos de livros como a mais fiel celebração de meu nascimento.
E, se eu observar aos lados, existem sósias de minha alma. Muitos vivem como eu: sociáveis solitários. As redes sociais mascaram a verdade. Pode ser que me enviem relatos depois deste texto: "eu me vejo igual a você".
Possivelmente é uma triagem do tempo. Colegas desaparecem, amigos ficam. Amizade é antiguidade.
Ou é da minha natureza interior ser da montanha e dos silêncios, das visitas de Deus. _

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