OPINIÃO RBS
Sinal de mal-estar financeiro
É sintoma da sensação de mal-estar da população com a economia o dado apresentado na edição de Zero Hora de ontem demonstrando que 40% dos brasileiros com investimentos já precisaram resgatar dinheiro para pagar dívidas. O levantamento é da Serasa. Ter aplicação já é, de certa forma, um privilégio no país. Muitos cidadãos, que fazem malabarismos para fechar as contas todo mês, não têm essa condição.
Tem investimento, em regra, quem em algum momento conseguiu obter renda superior às despesas e pôde guardar dinheiro. Parte desses indivíduos é agora forçada a recorrer às reservas para honrar compromissos. É sinal de desequilíbrio nas finanças pessoais e gera desconforto, a despeito de ser lógica a decisão de sacrificar aplicações para pagar obrigações e evitar a bola de neve do endividamento, que não raro se transforma em inadimplência. Há casos em que se economiza como forma de ter uma espécie de fundo de emergência, mas muitas vezes poupa-se e investe-se para a realização de planos pessoais ou familiares.
Inúmeras pesquisas de opinião captaram, nos últimos anos, um sentimento de frustração dos brasileiros com a própria condição financeira, a despeito de a economia interna demonstrar resiliência e o mercado de trabalho continuar forte. Ao fim, predomina a percepção de aumento do custo de vida, com inflação persistente e juro nas alturas, o que corrói a renda.
Outro indício aparece nos números da caderneta de poupança, a aplicação mais popular entre os brasileiros. De janeiro a junho, os saques superaram os depósitos em R$ 39,3 bilhões, de acordo com o Banco Central (BC). Foi o 11º semestre consecutivo de perdas. É verdade que, pelo rendimento baixo da poupança, parte desse movimento se deve à busca por opções mais atrativas. Mas boa parte da explicação está na necessidade de cumprir compromissos quando os ganhos mensais deixam de cobrir as despesas.
A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), mostrou que, no ano passado, 36% dos brasileiros de 16 anos ou mais tinham algum tipo de investimento, queda de 1 ponto percentual em relação a 2024, após um crescimento verificado nos anos anteriores. A pesquisa constatou ainda que cerca de um terço da população gasta mais do que ganha. Esses são presas fáceis para o endividamento em um período de oferta farta de crédito, mas com juro exorbitante.
O quadro reforça a importância da educação financeira, mas também da disciplina fiscal do governo federal. A gastança pré-eleitoral alimenta as expectativas inflacionárias e dificulta o trabalho do BC de manter o ciclo de corte da Selic, hoje em 14,25% ao ano. A surpresa positiva do IPCA de junho, com alta de 0,16%, abaixo das expectativas, dá maior conforto para o Comitê de Política Monetária (Copom) promover nova redução da taxa na primeira semana de agosto. Mas os riscos persistem.
O El Niño pode impactar alimentos e energia e o recrudescimento do conflito entre EUA e Irã provoca um repique no preço do petróleo. Diante de causas que não tem como controlar, o Brasil deveria ao menos ser mais responsável em relação aos fatores que pode manejar.

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