segunda-feira, 20 de julho de 2026

CARPINEJAR

Quase rei- Pelé sobreviveu a Messi.

Se o argentino conseguisse sua segunda Copa consecutiva em sua última dança, a comparação seria sempre reincidente.

A realeza resistiu a sua mais contundente ameaça de sucessor, a um canhoto que parecia filho do impossível, de reações sobrenaturais, levando a seleção inteira nas costas para uma improvável decisão. Mas Messi se despediu da Albiceleste sem o triunfo derradeiro e não tem como ser colocado lado a lado com aquele que levantou três Copas do Mundo. Por coincidência, ou capricho dos deuses, Messi deu adeus no mesmo palco em que Pelé se aposentou do futebol, o MetLife Stadium, que substituiu o antigo Giants Stadium, em Nova Jersey.

São cerca de sete décadas ainda intocado no trono. Pelé já travou batalhas mentais pelo posto de melhor de todos os tempos com vários monstros: Di Stéfano, Eusébio, Cruyff, Beckenbauer, Maradona, Cristiano Ronaldo. Talvez quem mais tenha se aproximado dele foi Lionel, que jamais desistiu de tentar agarrar o manto e o cetro, fugindo de analogias e sendo ele próprio. Sequer sai da competição com a marca de maior artilheiro da história, que ficou para o francês Kylian Mbappé, com 22 gols.

A Espanha anulou a Argentina no confronto de domingo e conquistou seu bicampeonato, ampliando a vantagem das seleções europeias na quantidade de títulos mundiais (13 certames, enquanto os latino-americanos possuem 10).

Assim como neutralizou a França e a Bélgica, outras favoritas para a taça, não deixou o time de Lionel Scaloni existir. Foram duas dezenas de finalizações perante simbólicas duas do adversário. Encurralou a sua presa agigantada pelo messianismo como uma jiboia, digerindo-a lentamente, com paciência exasperante, até superar o goleiro Dibu Martínez na segunda etapa da prorrogação. Ferran Torres consagrou-se como o herói da partida, o "herdeiro" de Iniesta, em 2010.

Venceu o futebol total, orgânico, de absoluta posse de bola, com apenas um gol sofrido no torneio. Mostrou-se uma derivação da Laranja Mecânica da Holanda, que atacava e defendia junto. No entanto, diferentemente dela, pôde sentir o gosto da vitória e não esmorecer no quase.

O esporte coletivo da Fúria - os atletas se completando com igual importância, numa coreografia tática baseada no tiki-taka - subjugou o caos da emoção, a passionalidade, as ressurreições elétricas e intempestivas da Argentina, que se centrava num solitário ídolo.

A cooperativa comandada pela batuta de Luis de la Fuente, campeã da Euro há dois anos, revelou uma geração - Cucurella, Rodri, Olmo, Lamine Yamal e Oyarzabal - que não demonstra pressa para definir, mas controle para escolher a hora do golpe fatal.

Pelé, longe de nós, agradece dos céus.

Na imensa rivalidade com nossos vizinhos hermanos, o povo brasileiro explodiu em gritos no apito final, como se fosse um campeão paralelo. Campeão da secação. Permanecem cinco estrelas contra três. A flauta continua pelas Eliminatórias de 2030. _

CARPINEJAR

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