sábado, 4 de julho de 2026


04 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Dos joelhos até os calcanhares

As meias foram diminuindo de tamanho de geração a geração. Meus pais na infância usavam três quartos; eu, a soquete; meus filhos, as invisíveis ou sapatilha. Meus pais usavam meias até os joelhos; eu, até os calcanhares; meus filhos preferem que não sejam vistas. Elas começaram a desaparecer. Cada época abocanhou um naco de sua medida.

É uma história silenciosa do estilismo, acompanhando o desejo de destapar o corpo. Pode ser efeito da superexposição da aparência nas redes sociais, da tendência fitness, das academias de musculação. Ou porque o tênis passou a ser protagonista, com a ostentação de marcas e modelos, e roubou a cena da sua fiel coadjuvante.

O vestuário encolheu junto com os costumes. As meias não sofreram redução somente de tecido, mas também de importância e influência. Antes faziam parte do visual; agora a intenção é camuflá-las, num minimalismo que apenas privilegia o indispensável.

O acessório não é nem enfeite. Mudou de função. Antigamente protegia do frio; nos tempos modernos, protege do atrito do calçado. A liberdade se tornou sinônimo de despojamento. Quanto menor a peça, maior seu consumo: fones sem fio, por exemplo.

Nas fotografias amareladas de meus pais, eles posavam com meias de algodão grosso, lã ou mistura de fios, porque aqueciam mais. Possuíam elástico firme ou ligas para evitar que escorregassem. As tonalidades revelavam discrição: cinza, marrom, azul-marinho, bege e preto.

Sua constância no período se explicava pela versatilidade: eram adotadas tanto com sapatos sociais quanto com calçados esportivos. Ninguém mostrava a canela, sinal de pouca elegância, status que migrou hoje para não mostrar as meias.

Na década de 50, crianças não abdicavam do seu emprego nos passeios e na escola, completando o dueto do uniforme com as bermudas. Tratava-se de um código que transmitia sobriedade, disciplina, decência, respeito à família.

Depois, conforme as barras das calças ficaram mais largas e a moda assumiu um caráter informal e casual, as meias três quartos deram lugar às de cano médio, coloridas, divertidas, com estampas. Participei desse momento em que sua extravagância indicava uma ideologia de insubordinação e independência.

Atualmente, olho para os pés de meus filhos e não enxergo meia nenhuma. Está por baixo, constrangida, sufocada. Não há sentido em falar "arregaçar as meias" ou "puxar as meias". Não há sentido em deixar uma gaveta unicamente para elas. Ocupam um espaço simbólico.

E, paradoxalmente, reivindicam cifras muito mais salgadas - vendidas de modo avulso, não em pacotes com uma dúzia. Gastamos o dobro para algo que não se percebe. Um par de meias virou um presente secreto. Você jamais testemunhará o presenteado se exibindo com o regalo.

São as novas roupas íntimas. 

CARPINEJAR

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