“Iniciamos 2026 com muita preocupação com as tarifas que permanecem sobre os produtos industriais do Rio Grande do Sul. Tivemos uma série de flexibilizações ao longo do ano passado, mas poucos dos produtos que são da pauta exportadora da indústria gaúcha foram beneficiados. Cerca de 88% das nossas exportações seguem com algum tipo de taxação por parte dos Estados Unidos. Se pegarmos os cinco estados que mais exportam aos americanos, é o com maior percentual que continua taxado”, avalia o economista-chefe da Fiergs, Giovani Baggio.
Os setores mais afetados, nesse contexto, permanecem os mesmos. Entre eles, produtos em metal (incluindo a indústria de armas e de utensílios domésticos), tabaco, máquinas e equipamentos, madeira e coureiro-calçadista.
Logo ao início das sanções americanas, houve a tentativa de escoar a produção para mercados já existentes ou iniciar a negociação para a conquista de novos parceiros comerciais. Entretanto, a medida não surtiu os efeitos necessários para mitigar os impactos do tarifaço.
“Vemos que em casos pontuais isso está acontecendo. No ano passado, alguns segmentos conseguiram redirecionar os produtos, mas a um preço mais baixo. É uma estratégia para a abertura de mercado utilizar valores inferiores para consolidar o cliente e manter o fluxo. Mas é algo pontual. Dá para dizer que são poucos e acaba perdendo a rentabilidade”, explica Baggio.
Para o especialista, o que está acontecendo na prática é a redução da produção industrial em setores mais impactados, o que tem gerado diversos prejuízos. “Não é algo que se consegue de uma hora para a outra. Tem muitos mercados que já absorvem a quantidade de mercadorias que eles gostariam e não tem como enviar mais. Então, o fechamento do mercado americano é uma perda, que vai ocasionar essa perda de produção. O industrial vai ter que fechar linhas (de produção) e demitir pessoas. Já vemos isso acontecendo no setor calçadista”, acrescenta.
Ao olhar o calendário em perspectiva, o impacto do tarifaço é visível. Afinal, até julho de 2025, as exportações permaneceram relativamente constantes, variando quase sempre positivamente no comparativo interanual de cada mês. A partir de agosto, quando iniciaram as sanções econômicas, o cenário foi invertido, com as vendas ao exterior caindo mensalmente.
“Fica muito claro a mudança de nível das exportações que a gente tinha antes das tarifas para o que temos agora. Então, foram realmente as tarifas que ocasionaram essa queda. De janeiro a julho, tivemos um comportamento benigno das exportações aos Estados Unidos, estávamos conseguindo exportar bem para lá. Principalmente, depois de abril, quando iniciaram as tarifas sobre produtos de outros países”, explicou Baggio.
Exportações gerais caíram 12% com alta dos alimentos e queda do tabaco
Ao analisar as exportações para os demais países também é possível observar uma queda nas transações comerciais. Ao todo, o Rio Grande do Sul exportou 12% a menos em janeiro de 2026 do que no mesmo mês do ano anterior. Nesse cenário, dois setores destoam da média: o de alimentos, que cresceu consideravelmente, e o de tabaco, que caiu.
No caso da indústria fumageira, Baggio explica que há uma certa distorção nos índices. Afinal, devido às enchentes de 2024, não foi possível escoar todas as cargas de tabaco encomendadas pelo exterior ao longo do ano, resultando em um aumento anormal das exportações de janeiro de 2025.
Enquanto isso, a indústria alimentícia tem crescido vertiginosamente, com uma alta de 40% em janeiro de 2026 na análise interanual. Os responsáveis por isso foram o óleo de soja que tem sido bastante comercializado para a Índia e a Indonésia, a carne de frango para a Europa e a carne suína que abriu novos mercados no sudeste asiático no ano passado.
Além dos Estados Unidos, as exportações gaúchas a alguns outros países também iniciaram o ano em baixa. “Nos últimos dois anos temos melhorado muito as exportações para a Argentina e já começamos a ficar de olho se vamos entrar em alerta também. A China está demandando menos e é uma preocupação que a gente tem”, avalia Baggio.
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