sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 Lojas de artigos de Carnaval relatam pior movimento dos últimos anos na Capital

Como já é tradicional, máscaras, tiaras e colares lideram as vendas neste ano

Como já é tradicional, máscaras, tiaras e colares lideram as vendas neste ano

DANI BARCELLOS/ESPECIAL
Gabriel Margonar
Gabriel MargonarUma das tradições de fevereiro - ou pelo menos do pré-Carnaval - em Porto Alegre é caminhar pelas ruas e se deixar levar pelo brilho das vitrines. Tiaras coloridas, saias de paetê, perucas neon e máscaras venezianas costumam anunciar que a folia está logo ali e convidam os foliões a se destacar num dos feriados mais aguardados do ano. Mas, em 2026, o entra e sai nas lojas de fantasia da Capital não tem tido o mesmo ritmo de outros carnavais.
Na rua Senhor dos Passos, Centro Histórico, o proprietário da Glow, Andre Janicsek, que está há quase três décadas no ramo, resume o cenário: “É o pior ano que já tivemos. Em média, 20% a menos que no ano passado”. Ele aponta para a loja e para o movimento da rua. “É só descer e ver as outras lojas. A crise abrange todos os segmentos. Às vezes se fala que vai crescer, mas quem está com a barriga no balcão sente diferente”, lamenta.
Segundo ele, os dois últimos anos vinham estáveis, ainda sob reflexos da pandemia e, mais recentemente, da enchente no Estado. Agora, no entanto, a queda ficou mais evidente. “Antes o pessoal vinha empolgado, comprava mais. Hoje está mais contido. Acho que é um somatório: menos dinheiro, menos eventos, menos clubes. O carnaval também caiu no meio de fevereiro, o que encurta o tempo de vendas”.
O ticket médio na loja, explica, é naturalmente mais baixo do que em outras datas, como o Halloween. “O pessoal compra purpurina, tiarinha… fica entre R$ 20 e R$ 50.” Ainda assim, há opções variadas: colar havaiano a partir de R$ 8, purpurina desde R$ 4, tiaras que começam em R$ 2. Uma saia de paetê varia de R$ 59 a R$ 89, e fantasias mais elaboradas podem chegar a R$ 320. “Mas com R$ 20 a pessoa sai fantasiada”, conclui Janicsek.
No bairro Moinhos de Vento, em uma área mais nobre da Capital, o cenário não é muito diferente. A gerente Luana Dalenogare, da Glow da rua Doutor Florêncio Ygartua, estima queda entre 30% e 40% em relação ao ano passado. “A expectativa era bem maior. Está bem fraco mesmo.”
Ela destaca que, mesmo em um público com maior poder aquisitivo, a procura tem se concentrado em itens mais baratos. “O poder aquisitivo está mais baixo. Todo mundo procurando economizar.” Saem principalmente colares havaianos, tiarinhas e pequenos adereços que variam de R$ 6 a R$ 39. Fantasias de até R$ 300 existem, mas o ticket médio no local gira em torno de R$ 8,90 e R$ 19.
Em outro ponto tradicional da Capital, a Lojas Linna, na avenida Azenha, a gerente Carla Ansolin também contabiliza retração: cerca de 200 clientes a menos neste período em comparação com o ano passado. Ela aponta um fator específico neste calendário: as aulas ainda não voltaram e só começam depois do Carnaval. “As escolas movimentam bastante. O público infantil faz falta.”
Mesmo com a baixa, máscaras, tiaras, colares, serpentina e confete lideram as vendas, com preços que partem de R$ 2,70. “Está bem lento. A gente esperava que já tivesse melhorado, mas vamos ver nos próximos dias, principalmente com o pessoal que vai para a praia.”
Apesar do movimento tímido, há quem mantenha o ritual. A técnica em enfermagem Patrícia Souza, 36 anos, entrou na loja com o filho Miguel, de 7. “Ele decidiu que queria uma fantasia que todo mundo olhe”, conta, rindo. “A gente tenta equilibrar, porque é algo que usa pouco, mas não dá pra cortar a alegria deles”.
Na Glow do Centro, a publicitária Fernanda Alves, 29, escolhia um acessório leve para levar à praia. “Pensei em algo mais elaborado, mas desisti. Praia pede conforto. É glitter, óculos diferente e pronto.” Para ela, depois de um ano inteiro de trabalho, o Carnaval segue sendo um momento de respiro e curtição.
Capital tem variação de preços e alta na “inflação do Carnaval”
Levantamento do Sindilojas Porto Alegre mostra que pesquisar antes de comprar pode fazer diferença significativa no bolso. A entidade analisou dez itens típicos do período e encontrou variação de até 1.859% no preço de máscaras na Capital: de R$ 1,99, nos modelos simples de papel, até R$ 39 nas versões venezianas ou de látex mais elaboradas.
A chamada “cesta básica” do Carnaval - com uma unidade de cada item pesquisado - pode custar de R$ 103,56 a R$ 437,65, uma diferença de R$ 334. Em simulações de compra, o combo “Folião de Rua” (confete, serpentina, espuma e tiara) varia entre R$ 22,50 e R$ 54,88. Já uma “Produção Completa”, com fantasia e acessórios, pode ir de R$ 78,16 a R$ 360,87.
Outro dado que ajuda a entender a cautela do consumidor vem da CDL Porto Alegre. A chamada “Inflação do Carnaval” acumulou alta de 6,2% na Região Metropolitana de Porto Alegre nos últimos 12 meses, acima do índice geral de preços. Transporte por aplicativo subiu mais de 50% no período, além de aumentos em pacotes turísticos, alimentação fora de casa e hospedagem.
Com gastos mais elevados para quem viaja ou frequenta blocos e festas, sobra menos espaço no orçamento para fantasias completas. Assim, para muitos foliões, a saída tem sido recorrer ao que já está no armário e investir apenas em um toque de brilho - suficiente para não deixar o Carnaval passar em branco.

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