
04 DE JULHO DE 2022
OPINIÃO DA RBS
ALENTO E PREOCUPAÇÃO
A queda da taxa de desemprego para 9,8% no trimestre encerrado em maio representa um pequeno alento em um cenário extremamente preocupante para a economia brasileira, que conjuga inflação acelerada, benesses eleitoreiras, baixo crescimento e um contingente significativo de pessoas sem perspectivas de trabalho. É a primeira vez em mais de seis anos que o desemprego desce dos dois dígitos, mas o ambiente político e a crise global mantêm o desafio de gerar ocupação estável e estruturada para os trabalhadores, já que parte expressiva recorre à informalidade.
De acordo com o informe divulgado pelo IBGE na semana passada, o número de desempregados diminuiu 11,5% (menos 1,4 milhão de pessoas) na comparação com o trimestre anterior e 30,2% (menos 4,6 milhões de pessoas desocupadas) na comparação anual. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) e indicam, na visão da coordenadora de pesquisas do instituto, Adriana Beringuy, um processo de recuperação das perdas ocorridas em 2020 e a superação da relativa estabilidade verificada no início deste ano.
Em uma análise mais acurada do levantamento, porém, percebe-se que o crescimento da ocupação deve-se em muito ao emprego sem carteira assinada, que teve alta de 23,6%, enquanto o trabalho formal registrou aumento de apenas 12,1% no período. Mais preocupante do que a informalidade é a queda na renda média do trabalhador, que atinge todos os segmentos e está 7,2% menor do que no primeiro trimestre de 2021. A baixa renda das famílias assusta ainda mais por causa da inflação crescente.
A tênue melhora do mercado de trabalho fica prejudicada pela inflação acima da meta, pelos juros em trajetória de alta e pela consequente perspectiva de baixo crescimento da economia no país. E tende a ser completamente anulada em decorrência das manobras políticas do governo e do parlamento nesta antevéspera de eleições, com a edição de um pacote de benefícios sociais incompatível com a realidade. Tanto que, para aprová-lo, o Executivo teve que se valer de um recurso de duvidosa constitucionalidade, a PEC que permite burlar o teto de gastos sob o pretexto de decretação de estado de emergência. O futuro certamente cobrará esta conta.
Emergência mesmo deveria ser a criação de empregos estáveis e de incentivos à emancipação dos beneficiários de programas sociais. Não se questiona a necessidade e a urgência de tais auxílios no momento em que parcela expressiva da população passa fome e muitos trabalhadores veem suas atividades ameaçadas ou inviabilizadas pelos preços dos combustíveis, do transporte e da própria alimentação. Mas eles só fazem sentido se forem temporários e se apontarem para saídas que desonerem os contribuintes e assegurem dignidade para os usuários dos benefícios.
Neste momento de instabilidade interna e de cenário internacional convulsionado por guerras e crises, a política da emergência ainda pode ser tolerada. Mas o país só terá futuro se trocar a improvisação e o populismo eleitoreiro por políticas públicas focadas no crescimento sustentável da economia, baseado na educação, na formação adequada de trabalhadores e na oferta de oportunidades para todos.
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