segunda-feira, 17 de junho de 2013


17 de junho de 2013 | N° 17464
L. F. VERISSIMO

16 de junho

Ontem, 16 de junho, foi o “Bloomsday”, um dia na vida de Leopold Bloom em Dublin, narrado por James Joyce no seu Ulysses.

Estive uma vez em Dublin. De certa maneira, conhecer Dublin é trair James Joyce. Stephen Dedalus, o herói autobiográfico de Joyce, precisou trocar a familiaridade de Dublin pelo silêncio e a sabedoria do exílio – “silence, exile and cunning” – para começar a forjar, na usina da sua alma, a consciência ainda por criar da sua raça, como anunciou, com típica grandiloquência irlandesa, no final de Retrato do Artista quando Jovem. Dedalus/Joyce voltou a Dublin na memória e a transformou num lugar mítico, uma das cidades-chaves da literatura moderna, em Ulysses e Finnegans Wake.

Mas você não chega à Dublin transfigurada de Joyce, chega apenas a outra capital do McMundo. O Rio Lifey, mesmo com uma simbólica lua cheia em cima, é apenas um rio que divide a cidade, não é o rio recorrente da vida que passa pelo Éden e deságua em si mesmo, ou Anna Livia Plurabelle, a mulher-rio, de Finnegans Wake. Nem o homem sentado ao seu lado no “pub” é a condição humana incorporada na última versão do Leopold Bloom. Aliás, provavelmente é um turista alemão, nada mais longe da condição humana.

A cidade dá a devida atenção a Joyce. Há uma estátua dele numa rua central, um centro de estudos e um museu com seu nome e um Hotel Bloom (com um previsível Molly Bar, em homenagem à lânguida sra. Bloom, cujo “stream of consciousness” em Ulysses fez história literária e escândalo e levou o livro a ser proibido em vários países). Imagino que o dia 16 de junho em que se passa toda a ação de Ulysses seja comemorado de algum modo na cidade.

Mas é impossível evitar a sensação de que Joyce representa para Dublin o mesmo problema que Freud representa para Viena. São dois filhos complicados, com ideias e obras não facilmente reduzíveis para folhetos turísticos, e que têm pouco a ver com o espírito do lugar. Em Viena, o desconforto é maior. A Dublin mitificada de Joyce, afinal, não era um lugar lúgubre. Já Freud lembra tudo que a cidade da valsa e da torta de chocolate nem quer saber.


Mas a Dublin que a gente espera é a vista do exílio, o que quer dizer que chega-se lá para desconhecê-la. Depois de passar quatro dias em Dublin e gostar da sua jovialidade e alegre familiaridade, você se sente tentado a pedir desculpas a Joyce. Por confraternizar com o inimigo.

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