Em nome do pai
Iniciativa do podcast Calma Urgente, em parceria com ICL, Mídia Ninja e 342 Artes, o vídeo Grandes Igrejas, Master Negócios, apresentado por Fábio Porchat, obrigou milhões de brasileiros a darem um pause nas informações picadinhas e/ou descontextualizadas para assistir a uma reportagem de 30 minutos sobre as conexões entre o escândalo do Banco Master, a igreja Batista da Lagoinha e o bloco dos "irmãozões do Vorcaro": Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Alexandre de Moraes e André Mendonça, entre outros.
Tudo bem explicadinho e organizado cronologicamente, para facilitar a vida de quem já se perdeu em meio a tantos personagens e falcatruas diferentes. Publicado na última segunda-feira, o vídeo chegou perto de 10 milhões de visualizações antes do final da semana (somando o teaser no Instagram e o vídeo completo no YouTube).
Se você, como eu, ainda acredita que fatos movem montanhas (a mais doce das ilusões), talvez tenha ficado animado com a viralização do vídeo e com a quantidade acachapante de evidências contra Flávio Bolsonaro que se acumulam no noticiário - entre elas, a promessa de acatar todas as demandas de Donald Trump contra a soberania do Brasil.
Do meu nada isento ponto de vista, parece uma escolha óbvia, mesmo para quem odeia o PT. Claramente não é. No próximo domingo, a disputa vai ser apertada, atroz, lancinante. Estaremos sofrendo todos, de um lado e do outro, sem conseguir entender como chegamos a este ponto de dissonância tão radical.
Nos últimos dias, estive lendo um livro que não acalmou minhas aflições, mas me ajudou a entender um pouco melhor por que aquilo que parece uma desgraça para 40% dos brasileiros é visto como a salvação da pátria para outros 40%.
No já clássico Não Pense num Elefante (2004), lançado no Brasil este ano pela Editora Fósforo, o linguista George Lakoff nos lembra que todas as escolhas políticas são morais, mas nem todos compartilhamos da mesma moralidade. Se uma perspectiva dos fatos nos parece estapafúrdia é porque só conseguimos compreender aquilo que nosso cérebro permite. Lakoff sugere que progressistas e conservadores pensam segundo padrões distintos.
No modelo "pai rígido", associado aos conservadores, o mundo é visto como um lugar perigoso, com hierarquias rígidas, e cada um deve cuidar apenas de si e da própria família. No modelo "pai acolhedor", progressista, o mundo pode se tornar um lugar melhor, para todos, e nossa função é trabalhar por isso.
Muitas pessoas estão no meio, ou seja, são "pai rígido" em algumas questões e "pai acolhedor" em outras. São os chamados "biconceituais" - e são eles que, no próximo domingo, vão começar a decidir o futuro do Brasil.

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